VÁRZEA ALEGRE TERRA DOS CONTRASTES - Mundim do Vale
Localizada no centro sul do estado do Ceará ficou conhecida no Brasil inteiro depois do musical Contrastes de Várzea Alegre, interpretado por Luiz Gonzaga e composto por Zé Clementino.
Cidade que foi tema de um documentário da Rede Globo de Televisão, por ser uma cidade alegre, fazendo assim jus ao seu nome.
Cidade que por brincadeira de um grupo de agricultores do sítio Roçado de Dentro, deu partida no samba, para ser hoje, com duas escolas, MIS e ESURD, detentora do melhor carnaval do interior cearense, atraindo turista do estado e do país.
Cidade de um povo que transformas as adversidades em causos humorísticos.
Cidade que Jesus foi intimado, que o padre era casado, que o sobrado é no oitão, que Telha Quebrada é filho de Zé Goteira e um cego da Boa Vista morreu afogado na Lagoa Seca.
Cidade que aparece nos sonhos dos seus filhos que estão ausentes, mas não esquecem jamais.
Várzea Alegre dos grandes adjuntos da colheita do arroz, animados pelo grupo de Maneiro Pau e a Banda Cabaçal.
Várzea Alegre que quando os filhos que estão distantes se encontram dizem:
- Ou Várzea Alegre boa só é longe!
Várzea Alegre que Manoel Cachacinha criou o slogan “Várzea Alegre é natureza!
E para finalizar, Várzea alegre é a cidade que só nos deixa tristes quando estamos distantes.

Causos lá de nós

Nota: Todos os "Causos lá de nós" são de autoria de Raimundim Piau, respeitem os direitos autorais. Ao copiar diga a fonte e o nome do autor.




PORQUE OS "CAUSOS LÁ DE NÓS"?

A minha vivência no interior fez com que eu conseguisse subsídios para catalogar esta série de causos.
Tendo alguns deles sido presenciados por mim mesmo e outros contados por amigos e parentes. Não foi difícil fazer este trabalho tendo em vista que Várzea Alegre é uma fonte geradora de todos esses acontecimentos. 
A minha curiosidade por estes fatos fizeram com que eu me tornasse um pesquisador desta cultura. 
Matéria para o trabalho é o que não falta no interior. São: Superstições,  sentinelas, romarias, religiosidade, folclore,  ditos  populares, tradições e ainda a presença constante dos repentistas, raizeiros, profetas, rezadeiras, santeiros, e ciganos.
Aqui não há nenhuma pretensão de editar uma obra literária de  grande  valor. A intenção é somente mostrar um pouco da vida do sertanejo alegre e hospitaleiro. 
Me perdoem os atropelos da gramática e conheçam um pouco dos causos daquele povo que transforma em piadas as dificuldades advindas da seca, miséria e exclusão social.

Raimundinho  Piau

241 - APOIS  EU  SOU  É  BORIS - MUNDIM DO VALE


Dedicado a Marcone Proto e a Flor da Serra Verde, minha amiga Claud Bloc, herdeira da serra Boris.


No ano de 1.965, esse contador de causos e mais alguns jovens de Várzea Alegre, fundaram uma pequena  sociedade  esportiva que tinha o nome de  Charanga  Esporte  Clube. Tocando  samba  a  gente  animava a torcida do time e o carnaval de rua da cidade.


Certa  vez  o  Dr. José Iran Costa, convidou  alguns componentes da charanga  para  uma  festa  no  Sítio  Riacho  Fundo  de propriedade do seu pai André Costa.


Noberto Rolim, um  dos  integrantes, conseguiu  com o seu pai Jocel Batista  uma  camionete  para  nela  transportar  os  instrumentos  e  o pessoal. Quando nós estávamos de saída chegou Boris Gibão com  a  maleta do caipira pedindo uma carona. Noberto com muita gentileza concordou e ele foi  conosco. Chegamos no sítio por volta do meio dia e já estava rolando; Bebida, churasco, banho de açude  e  forró com Chico de Amadeu. Boris  instalou  uma  banca na varanda  e  começou  a  bancar  o  caipira. Em  menos de  duas horas alisou os moradores  dos  sítios  vizinhos. Ninguém  conseguia  ganhar,  quando  alguém jogava no três Boris amarrava o seis, quando jogavam  no  seis  ele amarrava o três e assim só ele ganhava.


Quando  Boris  notou  que ninguém tinha mais dinheiro, inventou que seu jumento tinha fugido e gritou:


- Ei negada!  Meu jumento Sabonete fugiu e agora eu num sei  cuma é qui vou vortar. Se  um de vocês achar eu dou cinqüenta cruzeiros.


 A  matutada  ganhou  os  matos atrás daquele jegue foi com vontade. Chegava  gente  com  jumento  preto,  cinzento,  branco,  jumenta  parida  e até burro. Teve um sujeito que trouxe até a cabra de Maria da Vazante.


Quando  o  anfitrião  viu  que  a brincadeira estava tomando um rumo perigoso resolveu intervir:


- Pessoal!  Boris  não  perdeu jumento coisa nenhuma. Ele veio foi na camionete de Jocel junto com aquela cambada de meninos zoadentos.


No  meio  dos  não convidados tinha um da serra Boris. Fazenda bonita e produtiva, que era da propriedade da família Boris, detentores durante muitos anos do consulado francês no Brasil. Mas o local também era conhecido  como um lugar violento. O não convidado não gostou  da  brincadeira  e  ficou  o  tempo todo encarando Boris com expressão ameaçadora.


Quando foi lá pelas duas horas da madrugada, Boris e o elemento  já bastante  embriagados   começaram  a  discutir  na   varanda. Já  estavam  nas ofensas quando o sujeito  colocou  a  mão  por  baixo da camisa simulando que estaria armado.


João Siebra e Joãozinho Costa  que estavam próximo imobilizaram o elemento,  enquanto  Dr.  Iran aconselhava  Boris  para  que  não fizesse a sua festa se transformar numa tragédia.


No momento  em  que  tudo  parecia tranqüilo o sujeito da serra Boris deu um pulo, olhou para Boris e falou:

- Você tá pensando o que?  Eu sou é da Serra Boris.
Boris levantou os braços e gritou:
- Grande coisa! Apois eu sou é Boris.

Naquele dia faltou pouca coisa para que Boris fosse enterrado do Rubão.  



240 - TRIPA  DE  PORCO - MUNDIM DO VALE

Dedicado a Dirceu Costa e Dr. Flávio Costa Cavalcante.

Meu conterrâneo e amigo, Francisco das Chagas Costa (Chico Nenem). Um certo domingo chegou em um boteco de São Bernardo do  Campo e pediu uma cachaça ao proprietário, que também era varzealegrense. O proprietário com pouca boa vontade serviu e Chico perguntou:

- O que é que tem pra beliscar?
- Pra biliscar só tinha Rosa Banguela, mas ela foi simbora onte.
- Não cara, eu digo é pra comer?
- Pra comer num tem nada não, que aqui num é pensão.
- Mas cara, eu tou falando é em tira-gosto.
- Pra tira-gosto só tem tripa de poico qui sobrou da sumana passada.
- E não é reimoso não?
- É não qui Zé Cumprido e Ontõe de Beliza cumêro e eu num uví falar no interro deles.
- Pois traga essa chibata.
Pouco tempo depois chegou um filho adotivo de chico e pediu uma coca-cola, ( Naquele tempo era sem rato dentro). O garoto tomou a coca e falou:
- Pai. Mãe dise que mandasse um tira-gosto pra ela.
- Só tem tripa de porco.
- Pois eu também quero.
- Pois vamos fazer o seguinte; Você leva e deixa a sua mãe comer primeiro. Se não acontecer nada, você pode comer.

239 - PRESENTE  SEBOSO - MUNDIM DO VALE


A garotada da minha geração em Várzea Alegre – Ce, foi toda beneficiada com o sabor do alfinim lá de nós. Para outros é pucha-pucha.
As puchadeiras mais qualicadas que eu conhecí  foi as minhas amigas, Antônia, Celina e Socorro Bilé, filhas de João Bilé o dono do engenho do Coité. O mel era tirado da gamela  em uma cana e depois de esfriar elas começavam o trabalho de puchar, até a hora que o alfinim morria, quando era feito em foma de flor. Na minha simpatia por  flores aquelas eram as que mais eu apreciava.
Na cidade o pucha-pucha era por conta de Santana do alfinim, que vendia nas ruas e nos colégios. Diziam algumas pessoas que quando o alfinim estava muito liguento, ela passava sailva nas mãos para fazer melhor o seu trabalho. Outras pessoas diziam, que como ela só tinha duas mãos, as mãos que puchava o alfinim eram as mesma que pegavam no dinheiro. Porém o sabor daquele doce superava qualquer impureza.

Mas o pucha-pucha aparece aqui apensa para ilustrar o causo que segue abaixo.

Nop ano de 1969, eu estava no cartório do segundo ofício com João Francisco, Antoniêta de Castro e Caseca, quando chegou um rapaz do sítio Cristo Rei que pediu licença e entrou com um pacote enrolado com jornal e amarrado com cordão de rede. O moço foi entregando o pacote e dizendo:
- Taqui João Francisco! Um alfinim que Antônio Rodrigues mandou de presente.
Enquanto o portador estava na sala, João ficou se pisando de inquieto, que estava.
Quando o moço saiu João falou:
- Ou cabra sem noção de higiene! Onde já se viu enrolar alimentos  com jornal? Eu vou é jogar fora.
Eu levantei a mão e falei:
- Calma João! Desembale primeiro.
- Desembale uma ova! Eu vou é repassar o presente para as formigas.
Dizendo aquilo ele aremessou o presente que foi cair dentro de um capinzal que tinha atrás do cartório. Em seguida ela saiu com Caseca ficando apenas eu e Antoniêta que estava muito ocupada.
Eu fui até o capinzal e lá chegando peguei a encomenda. Diz aí que quando eu desatei o cordão e tirei o jornal, encontrei uma sacola de plástico com o alfinim do tamanho de um chapéu.
A minha descorberta gerou um dilema; Fiquei na dúvida se devolvia o presente ou se ficava com ele
Depois de pensar um pouco  eu escolhi a segunda opção.


238 - QUEM  SABE,  SABE - MUNDIM DO VALE


O concurso, é o caminho mais estável  e legal, para o  emprego público.
Certa vez o Banco do Brasil abriu inscrições para  um  concurso.
Em Várzea Alegre a correria foi grande, pois naquela  época  um bancário no interior, tinha o status de desembargador na  capital.
Um pretendente se dirigiu ao saudoso deputado  Otacílio Correia, fazendo o seguinte pedido:
- Seu   Otacílio.  Eu  vim  falar   com   o   Senhor,   porque   estou pretendendo   concorrer   ao   concurso  do  Banco   do   Brasil  e queria uma ajuda do Senhor.
- Que tipo de ajuda seria?
- Eu queria que o Senhor Mexesse nos  pauzinhos  para  facilitar a minha entrada no banco.
O  espirituoso  deputado,  mesmo  tendo  sido  surpreendido   de impacto, respondeu curto e grosso como tambor de gás:
- Meu filho. Esse caminho que você procura   é  impossível. Mas eu posso lhe dar uma dica.
- E qual é?
- Procure  a   listagem  dos candidatos  e  se  tiver  alguém   com o sobrenome de Vieira, desista de participar  para  não  perder  o seu tempo.

237 - A  REDE  VÉA - MUNDIM DO VALE


O musical  REDE VÉA, de autoria do Coronel Ludugero, fez muito sucesso no sertão e talvez tenha servido de consolo para José de Lula Goteira ( Zé de Lula. )
Zé casou-se com Luíza num tempo em que as coisas em Várzea Alegre-Ce estavam um tanto difícil. Arranjaram para o casal uma casinha no sítio Sanharol, pouco maior do que uma casa de botão, não tinha conforto, mas o casal não pagava aluguel.
Um dia seus amigos Luís Bitu e Demontier Freitas resolveram fazer uma visita ao casal. Para tanto eles passaram no mercadinho de Luís Cavalcante e pediram para que Luís preparasse uma cesta básica no capricho. Subiram para o Sanharol com a cesta, quando chegaram no terreiro, já viram o retrato da pobreza. As portas e  as janelas mais pareciam com gaiolas, quem estivesse fora podia visualizar toda a movimentação da casa.
Os visitantes entraram com a cesta e já viram que na sala não tinha nenhum móvel, passaram por um corredor estreito até chegarem na cozinha. Lá eles encontraram um pote com uma tabua na boca e na tabua uma lata de erviha seca, que servia como copo, uma mesa de camaru com três tamboretes, um fogão de lenha apagado e do lado do fogão um giral de varas, com panelas e pratos de barro. De uma porta que dava acesso a um quarto, eles viram uma rede armada que só deu pra saber que era uma rede, porque tinha os punhos, o resto era uma lona listrada mais surrada do que bermuda de sapateiro. O piso de barro batido caracterizava o estado de pobreza. Aquele casal estava distante de atingir a classe baixa, porque ainda sobreviviam na classe da miséria.
Começaram a conversar e Luíza foi desembalando a cesta, sem achar local para botar tantas coisas. Quando pegou no café e no açúcar disse que ia fazer um café para as visitas.
Zé de Lula recomendou:
- Luíza. Tenha coidado, bote pouco açúcar e pouco pó, pruque esse povo rico gosta de tumar café é fraco e amaigoso.
Depois do café pronto Luíza pegou um saco de pão bola e um pote de margarina, mas foi interrompida pelo marido que disse:
- Carece não, muié, esses caba num gosta de pão não, pruque tem massa e ingorda, eles acha bom é fruita.
Nessa hora do café Luís Bitu perguntou:
- Zé. Porque você não arranja uma espingarda com Pinga Bitu  e vai atrás dumas caças para a mistura?
- É pruque eu num tem a munição. Ou será qui vocês butaram chumbo e póiva nessa cexta?
- Não, porque é proibido vender munição.
- Se é proibido vender, tombém é proibido matar. É mais mió eu aimar fojo no pé da serra prumode pegar preá, qui pelomeno ninguém vai iscutar tiro.
Depois que tomaram o café Luíza saiu no terreiro para lavar umas coisas e Demontier aproveitou pra falar também:
- Zé, Eu não ví cama aqui na sua casa. Porque você não manda Zé Mouco fazer uma?
- Pruque eu num pussui dinheiro.
- E como é que tu presta conta com Luíza?
- Ora mais tá ! É na rede véa qui nem Ludugero.
- Mais homem, na rede não presta não, além de desconfortável ela pode rasgar.
- Sela sirasgar nóis termina no chão.
Terminada a visita os visitantes foram saindo quando Zé gritou:
- Ei ! Isbarraí. Quando vocês quiser vim de novo, me avise qui é prumode eu pegar uns preá, mais traga a cesta de novo e num sisqueça de trazer uma bermuta pra eu e um corte de chita pra muié.



236 - TÁ  ÀS  ORDENS - MUNDIM DO VALE


Trío Maravilha, foi o apelido certo que Punduru encontrou para colocar nos nossos conterrâneos Fúlvio Rolim, Régis Teixeira e Elano Sátiro. Oe três só andavam juntos. Era um por todos e todos por um.
Dos três o que tinha melhor situação finaceira era Fúlvio. Ele possuia uma bicicleta Monark e um carneiro impestado de carrapichos. Um certo dia Fúlvio vendeu a bicicleta e o carneiro e com o dinheiro apurado comprou um Fiat uno de cor vermelha.
Hudson Batista assim que viu o carro batizou logo de Trovão Vermelho.

CONDIÇÕS  TÉCNICA  DO  VEÍCULO:
. O freio era precário e não tinha buzina quando trafegavam numa rua de muito movimento de pedestres, Régis gritava:
- Arreeeeda. Mói de chifre!
Elano sátiro para auxiliar na buzina dava umas pancadas na lateral do carro.
. O tanque de combustível, da metade pra cima era só ferrujem porque a gasolina nunca chegou até lá. Teve uma vez que Fúlvio arrancou dois pés de feijão que nasceu lá.
. Só trafegavam de dia porque os faróis e as lanternas não acendiam. Segundo Hudson Batista a única lâmpada que vivia acesa era aquela de alerta do combustível, porque nos cinco anos que Fúlvio passou com o Trovão Vermelho, a lâmpada nunca apagou-se.

DOCUMENTAÇÃO  DO  VEÍCULO:
. O único documento que o carro possuia era um recibo de venda feito em papel de caderno e assinado por Gustavo Correia.

DOCUMENTAÇÃO  DO  CONDUTOR:
. O documento que Fulvio tinha era uma xerox do registro civil tirado no cartório de Zé Guedes no São. Caetano.

Uma vez o trío resolveu passear e foi feito uma vaquinha para abastecer o carro que rendeu três cruzados novos. Seguiram para o posto mas quando faltava 500 metros a gasolina acabou. Fúlvio mandou Elano chamar um dos frentistas para ajudar a empurrar o carro até o posto. Na chegada da bomba o condutor botou a mão no bolso e falou para o frentista que já tinha empurrado o carro:
- Bote três cruzados novos.
O frentista patinava na geléia, mas também era gozador, meteu a mão no bolso e falou:
- Eu vou botar dois cruzados do meu para completar cinco, que eu não tou apariado a empurrar mais carro de liso não.
Terminado o abastecimento o frentista entregou a chave e perguntou com ironia:
- Vão viajar?
Régis respondeu o insulto.
- Porque você não vai tomar no caneco?
A bichinha botou as mãos nos quartos, deu duas volta no corpo sem tirar os pés do chão e respo0ndeu:
- Há, meu filho. Dá eu não dou não, porque não quero ficar sem ele. Mas se quiser emprestado, TÁ ÀS ORDENS.

235 - CHIQUEIRO DE SÃO RAIMUNDO - MUNDIM DO VALE

Ouvindo a matéria do Jornalista Nonato Alves, na Rádio Cultura de Várzea Alegre Ceará. Eu me lembrei de um atentado ao meio ambiente, que aconteceu na nossa cidade, no ano de1963.
O Sr. Raimundo Alagoano cercou uma parte da lagoa de São Raimundo, para criar porcos.No local as porcas pariam e a maioria dos filhotes morriam e ali mesmo ficavam. Os porcos eram abatidos e as partes que não iam para a venda, também lá ficavam.
Foi o maior crime ambiental da época, um verdadeiro atentado a saúde e a lagoa de São Raimundo que era o pulmão de Várzea Alegre. Aquele crime impune revoltou alguns dos nossos conterrâneos, que indignados trocaram o nome de; Lagoa de São Raimundo, para; Chiqueiro de São Raimundo.
Eu não sei a quem Raimundo Alagoano pagava o aluguel, mas posso jurar que não era ao padroeiro.
Naquela época faltou na nossa cidade, as autoridades policiais e sanitárias de hoje, para punir os infratores e coibir aquela prática, soltando os porcos e prendendo os donos dos porcos.
Hoje a lei é atuante. Quem quiser comer uma feijoada, ou compra os kits da sadia, ou tem que criar os porcos cumprindo as determinções da Defesa Sanitária.Porque dos porcos da Serrinha ninguém vai comer nem o rabo.

Parabéns as autoridades defensoras da saúde e do meio ambiente lá de nós.

234 - MELADOS  NO ROÇADO.

Dedicado aos primos do Roçado.

Sempre que eu vou a Várzea Alegre, O primo Nonato Souza, inventa umas pescarias e colheitas de mel no Roçado de Dentro. Em abril de 2011, eu passava uns dias por lá e foi marcado uma colheita de mel na propriedade do primo Geraldo Vieira.
Ao apicultores eram; Eu, Vieira Neto, Wilson, Nonato Souza, Felipe Souza, Pedro Souza Neto e Geraldo Meneses.
Descemos para as mangueiras com o material de trabalho; Roçadeiras, Caixas de ovos para a fumaça, Baldes para colocar as capas e cachaça para os apicultores, que foi o primeiro mel.
Vieira e Wuilson subiram para fazer a fumaça, Pedro Neto ficou no tronco com os baldes, Nonato e Geraldo só apareceram depois das abelhas entoxicadas e o mel colhido. Felipe Souza ficou  a vinte metros do lado sul e eu fiquei também a vinte metros do lado norte.
Uma hora lá Felipe gritou:
- Ei. Raimundinho, venha pra cá que as abelhas são conhecidas, elas não ferroam não.
Eu fui na direção do Felipe gritando também:
- Eu vou mas você tem que me apresentar a elas.
Nós não sabíamos que as abelhas ficam mais violentas com barulho e com fogo. Pois além do barulho que a gente fazia, Felipe inventou de atender o celular,mas foi só que deu, as abelhas atacaram que ninguém via mais nem a luz do celular.
Felipe fez carreira na direção da casa de Antônio do Sapo e de lá pegou a estrada no rumo da Formiga. Se botasse aquele garoto na corrida do Dr. Favinho, bastava dizer que tinha abelhas, que ninguém tomava o primeiro lugar dele.
Quando Felipe correu eu entendi que todas as abelhas tinham saído no cortejo dele. Eu comecei a rir contando a comédia para os que não viram e para completar inventei de acender um cigarro. Mas praque eu fui fazer aquilo, as abelhas formaram uma nuvem sobre a minha cabeça e elas eram bem organizadas, tinham até comando. Mas eu não esperei para apreciar aquela organização não. Arranquei na mesma rota do Felipe. Na minha carreira passei o Riacho da Formiga sem notar,  fui alcançar o Felipe já na torre da Rádio Cultura. Antes dele dizer alguma coisa eu fui quem disse:
- Felipe. Você fez uma desfeita com as suas conhecidas, não despediu-se e elas estão vindo aí para tomarem satisfação.

Quando acabei de falar nós já ouvimos o barulho delas. Felipe correu pela direita e eu pela esquerda e fomos bater na capela do Varjota. Lá foi que eu notei que algumas delas tinham retornado ao Roçado. Mas mesmo assim, ainda tinha uma dúzia delas no bolso da minha camisa e mais de vinte no pescoço e nas orelhas do Felipe.


233 - PISTOLEIRO  DE  CAPRINOS.

A Estância Iraci, localizada no distrito de Pecém, foi local de encontros de varzealegrenses.
Férias, canavais, semanas santas e finais de semanas, sempre aconteciam os encontros. Foram muitos os causos acontecidos por lá.
Numa dessas ocasiões estavam; Célio César, Chico Francisco, Mundim de Chico Luiz e todo o cardume de Piaus.
Num momento lá Célio César saiu com um revólver dizendo que tinha que gastar as balas para botar uma nova carga. Ele disse ainda que cada um ia dar um tiro. Eu regetei porque sempre tive receio de armas de fogo. Mas eles insistiram dizendo que o primeiro tira tinha que ser o meu.
Nós sáimos de perto das casas e descemos para um terreno de uma plantação de capim, onde tinha uma cabra do caseiro amarrada em uma estaca por uma corda bem longa, para comer o capim sem estragar.
Tudo preparado, eles me chamaram.Eu atendi mas fui logo fazendo umas certas imposições.
- Eu disse: - Tá bom. Eu dou o tiro pra cima, mas eu vou precisar de dois de vocês para me ajudarem.
Mundim falou: - Ôxente! E que pistoleiro é esse que para atirar pra cima precisa de dois ajudantes?
- -E porque precisa de um para tapar meus olhos e o outro para me segurar na hora do estampido, para  eu não cair. Eles concordaram com as minhas exiências e eu parti para o desafío. Coloquei o pé direito na frente e o esquerdo atrás e peguei a arma com as duas mãos,levantando o mais alto possível. Joaquim Piau tapou meus olhos e Sérgio Piau me segurou pela cintura, quando Célio falou:
- Ái vai. Nanum parece que vai é dançar um bolero.
Eu gritei:
Uma, duas, três, três e meia e já!
E o tiro ecoou no meio do mundo.
Quando eu abri os olhos vi a cabra correndo assustada, quando chegou no final da corda caiu por cima da cabeça, ficando com as patas pra cima.
Quando eu vi todo mundo rindo, falei aborrecido:
- Eu não disse que isso não tinha futuro? Tão veno aí, eu matei a cabra do Sr. Luiz.
A cabra escapou, ela caiu só com o susto. Mas a gozação continuou. Mundim foi contar a Chico Francisco falando assim:
Ei tio Chico. Quem atira melhor aqui é Nanum. Ele deu um tiro pra cima com os olhos feichados e baleou uma cabra.
Chico respodeu rindo:
- Pois eu tenho mais medo dele estando com a mão cagada do estando com um revólver.

Dedicado a Mundim Sobreira.

232 - PRISÃO  DUPLICADA.

O saudoso Chagas Taveira, foi uma pessoa sempre divertida, onde estivesse estaria sempre alegrando as pessoas que estivessem por perto.
Bebia e brincava, mas nunca cometeu um delito por mais pequeno que fosse. Se fez algum mal foi a si próprio.
Certa vez Chagas estava com um grupo de amigos contando piadas, quando chegou o cabo Feitosa lhe dando voz de prisão:
- Teja preso caba safado!
- Ôxente! E qui foi qui eu fiz pra ir pra cadeia?
- Você tá muito gaiatinho pro meu gosto.
Os amigos que estavam presentes, não fizeram nenhuma intervenção, com receio de reprasália por parte do arbitrário policial.
Chagas foi conduzido para a cadeia pública e colocado numa cela junto com alguns reclusos.
Revoltado com a prisão ilegal, Chagas vingou-se quebrando um lâmpada.
A esposa de um soldado que viu foi correndo dizer ao cabo, que chegou imediatamente mais zangado do que porco sendo castrado.
Dirigiu-se a Chavas e falou:
- Quer dizer que o engraçadinho aí também é agitador não é? Pois não vai ser liberado tão cedo.
Chagas taveira do alto do seu senso humorístico respondeu:

- Apois faça ôta cadeinha dento dessa e me prenda.


231 - NATAL DE POBRE.

Era mês de dezembro e Antônio de Rosa Pagé ainda criança, brincava com outros, que diziam que no natal Papai Noel vinha botar presentes embaixo das suas redes.
Foi o bastante para Antônio sair dizendo em toda parte que também ia ganhar. No dia 24 ele foi dormir mais cedo para que chegasse logo o outro dia. Seus pais num total descuido, esqueceram de colocar pelo menos uma lembrança simbólica, para que o garoto não sofresse aquela frustação. Na hora que Antônio acordou passou a maõ por baixo da rede e o chão tava mais limpo do que o terreiro de madrinha Lêlê.
Enquanto estava em casa ficou até calmo, mas quando saiu na rua que viu a criançada toda com brinquedos, dizendo que tinham ganhado de de Papai Noel, ficou triste e disparou num choro de fazer pena. Chegando em casa seu primo Luizão Pagé perguntou:
- Que qui tu tem minino?
- É pruque Papai Noé num trouve presente pra eu.
- Deixa de ser besta Antônio! Qui papai Noé num inziste não.
- Inziste sim! Qui ele deu brinquedo os fí de Luís Proto os de Chico Francisco e os de Dr. Lemo. Agora quem num Inziste é nóis, qui samo fí de pobe.


230 - DEU  FOI  AVESTRUZ.

Meu conterrâneo,  de Várzea Alegre- Ceará,  João Alves de Lima.   ( João Francisco. ) Teve  na nossa cidade várias arividades a saber; Foi fabricante de bebidas, tabelião, prefeito e bicheiro.
João foi proprietário de uma casa de jogos, onde também bancava o jogo do bicho. Todo dia pela manhã ele enforcava o bicho do dia, para quando fosse às 20:00 Horas anunciar para os cambistas e jogadores, o nome do bicho.
O carpinteiro Oliveira Dantas era mais viciado no jogo do que Maria Caitano, jogava todo santo dia e de noite ia saber o resultado. Certa noite oliveira teve um sonho e no dia seguinte foi atrás do cambista  Alexandre Cabeleira, para que ele decifrasse o sonho e fizesse o jogo.
Oliveira já com o dinheiro na mão para jogar, falou:
- Lixande. Essa noite eu tive um sõe cum um bicho grande qui tinha uma tromba saindo de dento da boca.
- Apois nego véi. Você pode jogar no alefante qui é tiro e queda. No jogo do bicho é só o alefante qui tem tromba..
Oliveiira jogou uma boa quantia, ficando apenas com alguns trocados para a cachaça, que ele também apreciava.
Quando foi por volta das 17:00 Horas, Oliveira jantou e foi para a casa de jogos para assistir o anúncio do bicho. Ficou tomando umas por ali, quando foi às 20,00 Horas João Francisco chegou para o anúncio. João pegou o tubo que tinha o bicho e passou pelo balcão para dizer o nome do bicho. Mas como notou que tinha muita gente resolveu fazer suspense:
- Pessoal. Faça silêncio, que eu vou dizer a primeira letra do bicho de hoje.
Silêncio total. E Oliveira num pé e no outro.
- Pessoal a primeira letra do bicho é……………
- Pessoal a primeira letra é “ A “
Oliveira ouvindo aquela vogal, correu para a bodega de Zé Marcelo e comprou um litro de cachaça com o resto do dinheiro.
Quando saiu boa parte do pessoal, ele voltou para a casa de jogos e foi logo abordando o proprietário:
- Seu João, cadê o meu dinheiro? Taqui a pule.
João verificando o jogo falou:
- Mas você jogou foi no elefante.
- E apois, eu ganhei, qui eu iscutei quando o Sinhor dixe qui a premêra letra era “ A “
- Mas deu foi avestruz.
- Mais isséquercer. Eu contei o sõe a Lixande e ele dixe qui eu pudia jogar no alefante alefante, quando acabar deu foi a condenada da avestruz.
João Francisco notando a igenuidade do jogador falou:
- Pois é Oliveira, Quando você sonhar com a avestruz, é só jogar no elefante, que você ganha.


229 - VAI  PERDER  UM  CHORADOR

Meu parente Antônio Inácio, ainda  menino morava com os seus pais no sítio Serrote. Certo dia morreu um parente lá no  mesmo  sítio e quando foi por volta das 15 horas passou um portador avisando do velório para a família. O casal se preparava para ir quando o garoto Falou:
- Mãe deixa ei ir tombém pra sentinela. (Naquele tempo era assim que chamavam velório)
- Não meu filho sentinela não é coisa pra criança.
- Mais eu quero mãe. Deixa mãe, deixa!
- Pois tá certo você vai.  mas  primeiro vá jantar que o decomer já tá pronto.
- Não mãe deixe pra volta, pruque  nas sentinela sempre tem um quebra jejum.
Seguiram os três quando chegaram  na  casa  do  falecido o casal ficou dando os pêsames aos familiares e  Antônio  entrou  logo  na  sala,  onde o  corpo  estava  sendo velado numa rede. O menino  agarrou-se  nas  varandas e se danou a chorar. Chorava muito mais do que Madalena, quando Zé Vicente viajou pra trabalhar numa frente de serviço do DNOCS.
Por  volta  das  21  horas  passaram  uma  mulheres  servindo  chá e café com cuscuz. Antônio aumentava  o  volume  do choro  toda as vezes que as mulheres passavam por perto dele, mas nada de ser servido. Naquele velório criança não tinha vez.
Quando o garoto notou que  não seria  servido, largou as varandas da rede, saiu soluçando em procura da mãe e falou:
- Mãe! Esse  defunto  vai  perder  um  chorador!  Eu  vou  pra  casa  pruque num tou apariado a passar a noite chorando  sem comer  nada não.  Se eu  ficar  aqui é capaz de botarem eu junto cum o falicido.
- Pois vá meu filho. Eu deixei um prato de arroz dentro da gaveta do armário da cozinha.
Antônio  chegou  em  casa  mais abatido do que Judas de favela. Acendeu uma lamparina, que pouco  iluminou,  porque  o  gás   estava  acabando. Quando  abril  a  gavetas  viu  uns  pontos dourados sobre o prato e aí pensou com ele mesmo:
- Mãe tava era  cum  brincadeira  cum  eu. Ela  dixe  qui  era só arroz branco, mais butou toicim torrado tombem. Se eu  subesse disso num tinha ido chorar tanto.

Quando  Antônio  bateu com a colher  no  prato  os  toucinhos  saíram  todos correndo dentro da gaveta. Ele aproximou a luz mais um pouco, aí foi quando notou que eram baratas.


228 - PROFESSORAS  DEDICADAS.

Certa vez Jocildo Correia, transferiu três professoras de Fortaleza, para Várzea Alegre. A chegada das educadoras em nossa cidade, foi um verdadeiro contraste. O  comportamento, as vestimentas e o palavreado das garotas, foi de encontro aos nossos costumes. As mini-saias das meninas  eram tão curtas que até o vigário criticava no sermão. Os decotes eram tão generosos, que elas nunca estavam só, sempre tinha homens por perto..
Certo dia um filho de Vicente Cesário, chegou dizendo pra ele:
- Pai. Eu não quero mais estudar naquela escola não, porque deram notas boas aos meus colegas e me deram um zero. A professora é muito ruim.
Vicente botou a mão na cabeça do filho e falou:
- Filho. Professoras boas são aquelas que Jocildo Correia trouxe de Fortaleza. Para que você tenha uma ideia, elas vão para a classe de mini-saias e tomam as lições sentadas no colo dos alunos.
O filho perguntou:
- E elas dão notas boas. Pai?
- Dão notas boas e outras coisas boas também.
- Pois me matricule lá também, pai.

- Tem vagas não filho. Ontem mesmo eu fui tentar me matricular e não tinha mais vagas. O que tinha era uma fila de espera com quarenta pessoas.


227 - TU  ESCAPOU  FEDENDO.

Dedé de Julio Xavier e Chico Tida, certa vez inventaram uma pegadinha, que além de não ser higiênica, era um tanto constrangedora. Eles pegaram um cabo de vassoura e sujaram de lama de chiqueiro de porco até o meio. Depois procuraram uma das ruas mais escuras de Várzea Alegre, para fazerem a brincadeira.
Chico pegou na parte limpa do pau e simulou um briga dizendo:
- Corra dento seu fila da puta!
Dedé respondeu:
- Você só tá dizendo isso porque tá cum o pau na mão, mas solte o pau se for ome!
Nesse momento passava Zé Machado, quebrando a tigela de uma roupa nova, calça azul e camisa branca com o pano passado. Quando ouviu a zoada aproximou-se no momento em que Dedé dizia:
- Solte o pau se for macho!
Chico Tida deu um pulo e gritou;
- Prumode eu brigar cum um fresco qui nem tu eu num priciso de pau não. Em seguida se dirigiu a Zé Machado dizendo:
- Zé. Segure esse pau aí, qui é pra eu matar esse viado de peia.
Zé segurou no meio do pau, fechou a mão e Chico puxou. Mas praque ele fez aquilo? Pense numa raiva grande! Quando Zé viu a mão e a roupa suja, queimou ruim e partiu para Chico falando:
Chico, nego véi num leve a mal não, mais vá tomando aí no peduvido.
Em seguida virou-se pra Dedé e disse:
- Dedé, discurpe o mal jeito, mais segure esse bufete aí no bucho. E eu só num vou dá mais pruque tou avexado.
Quando Zé já ia saindo apareceu Geraldo Gago com um taboa de pirulitos e inventou de ir olhar o que estava acontecendo.
Zé Machado ainda irritado disse:
- Já qui eu inda tou cum a mão na merda, vou aproveitar pra tacar a mão no zói desse curioso.
Geraldo correu chorando em direção de casa que o rabo foi um reio. Quando passava na rua do Juazeiro, Neném de Canuta perguntou:
- Peraí Geraldo! Tu tava desgotando fossa?
- Eu tava desgotando era a fossa da veinha.
Chegando em casa Geraldo encontrou seu pai Raimundo de Freitas na calçada e começou a chorar contando o acontecido:
- Pai eu ia vendendo meus pirulitos queto, quando acabar, Zé Machado quage qui me mata de peia.
O pai vendo aquela sujeira e sentindo a catinga, tapou o nariz e falou:
- Apois tu escapou foi fedendo.

* Quebrar tigela – Usar uma roupa, um calçado ou um chapéu pela primeira vez.


226 - DISCURSO  IMPROVISADO.

Era vereador de Várzea Alegre – Ceará, o Senhor Joaquim Alexandrino. (Joaquim Vermelho) Excelente mestre de obras, vereador atuante mas como outros da cidade, não sabia ler.
Várzea Alegre se preparava para um grande comício onde estavam confirmadas as presenças do deputado Antônio Diniz, O secretário Moacir Aguiar e o Sr. Carlos Jereisati. Os chefes políticos da cidade botaram na cabeça do vereador Joaquim Vermelho, que ele teria que fazer um discurso. Foi escalado Francisco Gomes Neto     ( Chico Gomes ) Para preparar o vereador para o discurso. Chico fez o texto e passou 15 dias lendo para Joaquim decorar. O esquema era assim; Joaquim subia no palanque tirava o papel do bolço e simulava a leitura.
Mas quando Deus dar com a mão, o diabo chuta com os pés. Zé Gatinha vei a saber do esquema e preparou uma pegadinha para o vereador.
As autoridade já estavam no palanque e Joaquim esperando ser chamado. Zé Gatinha foi até ele, deu um abraço e tirou o papel do bolço do paletó. O vereador até que já tinha decorado o texto, mas se sentia mais seguro estando com o papel na mão.
O cerimonialista anunciou e Joaquim subiu, quando procurou o papel que não encontrou, falou baixinho com Joaquim Diniz:
- Joaquim. Eu tou lascado, robaro o papé do meu improviso e agora?
- Faça de improviso mesmo, você não dise que já tinha decorado?
- É mais eu num malembro mais.
Tinha dado um vermelho, porque branco só podia ser se ele fosse claro.
- Mas se o papel tivesse com você, não ia servir de nada, você não sabe ler mesmo.
- É mais cum o papé era mior.
O Cerimonialista levou o microfone até o vereador e ele fez o seu pequeno discurso nesses termos:
- Bem pessoá, Eu num sei ler não, mais se nóis ganhar essa inleiçao vai ser bom dimais.

Fonte: Francisco Gomes Neto (Chico Gomes)



225 - BOIADA  DE  CURURU.

Chico Danga quando tirava para beber, passava semanas num porre só. Numa dessas vezes ele passava embriagado próximo da lagoa de Luís Diniz, quando escutou o barulho de crianças na margem da lagoa e foi por curiosidade saber o que estava acontecendo.
As crianças eram dois filhos do pedreiro Belim e mais dois amigos que faziam uma brincadeira no mínimo extravagante. eles arranjaram umas sextas velhas e fizeram um mini-curral nas proximidades da lagoa.
A brincadeira consistia em conduzir os sapos da lagoa para o curral como se fossem gado. Um dos meninos aboiava e tratava o gado pelos nomes. O touro era; Lindomar Castilho, as vacas eram; Wanderléia, Rosimayre e Núbia Lafayete. As novias eram; Silvinha e Lilian e os garrotes eram; Nilton, Airton e Kléber.
Chico Danga aproximou-se e chamou à atenção do filho de Belim:
- Meu fí. Acabe cum essa brincadeira qui isso aí num tem futuro não.
- Eu sei que não tem. Se tivesse futuro, quem tava aqui com esse gado era Seu Toim Costa e Seu André Meneses.
- Apois é milhor você parar qui cururu é bicho nojento.
- Nojento é tu, Chico. Depois que tu chegou com essa conversa besta, os garrotes escaparam por baixo da cerca.
- Apois eu vou precurar Belim e dizer a ele.
- Não precisa você procurar não. Eu vou dizer onde é que ele tá trabalhando. Ele tá fazendo um serviço lá na casa de Seu Pedro Lourenço. A casa dele é de lado da igreja. Mas arribe logo daqui antes que nós esfregue o resto do gado na sua cara.
Chico saiu bufando de raiva e foi falar com o pai dos garotos. Na chegada ele avistou Belim trabalhando no telhado e foi logo gritando:
- Ei. Belim ! Deça daí de riba qui eu priciso falar cum você.
- Mas Chico, eu tou muito ocupado, não posso descer agora não.
- Mais a istora qui eu quero falar com você é sera.
- Pois diga daí que eu escuto daqui.
- E pruque eu passei ali na bêra da lagoa de Luís Diniz e ví teus minino brincando cum cururu.
- E o que é que tem Chico?
É pruque cururu é venenoso.
- Que conversa mais besta é essa Chico. Eu nunca ví falar que sapo envenenasse ninguém.
- Apois isturdia eu tava bebo lá na Betânia, aí apareceu um cururu, aí eu peguei no mei do bicho e dei uma murdida na boca dele, aí meus dente caiu tudim. Foi priciso mãe vender as galinha dela pra pudê pagar a Seu Diassis Militão, prumode ele fazer uma chapa pra eu.


224 - CHEQUE  FIADO.

Quando alguém coloca o nome de BOA VISTA, no seu estabelecimento comercial. Ele tem duas pretensões a saber; Fazer BOAS vendas e vender sempre à VISTA.
Mas a nossa Várzea Alegre, por ser a terra dos contrastes, vez por outra os seus filhos atropelam a normalidade.
Certa vez o primo Dakson Aquino chegou na Farmácia BOA VISTA, dirigiu-se a vendedora que no caso era a sua irmã Sheyla e foi logo perguntando:
- Troca um cheque fiado?
A vendedora confusa com a pergunta, respondeu:
- Eu já ouvi falar em cheques trocados e vendas fiado, mas cheque fiado é a primeira vez.
- Eu sei. Mas é porque eu estou precisando trocar um cheque urgente mas esqueci o talonário lá no Sanharol. Depois eu trago o cheque
A troca foi feita sem a presença do cheque. Mas se fosse João Sem Braço no lugar de Dakson, aquela operação nunca teria sido feita.

Fonte: Ricardo Piau. 


223 - UMA BANDA PRA CADA.

Meu Primo, Jocel Nunes Bezerra, levava seu filho Jocel ( Hoje Jocel da Mídia ) para fazer um  curativo na farmácia. Quando passavam em frente ao Recreio Social,Tinha um casal de namorados num beijo daqueles de desentupir pias. E quatro mãos danadas procurando não sei o que.
Jocel filho puxou na da camisa do pai perguntando:
- Pai que diabo de arrumação é aquela?
- Meu filho. Aquela arrumação, é porque eles estão dividindo uma pastilha na boca, pra ficar uma banda pra cada um



222 - DOSE  DUPLA

Meus   irmãos  Marcos  e  Ricardo, o  primeiro  com  sete  anos  e o segundo  com  seis, além da  grande semelhança, tinham a mesma
altura.  Uma  vez  eles  contraíram aquelas doenças de crianças e a minha  mãe  consultou  o  Dr. José Iran  Costa  que  prescreveu  um medicamento injetável para os dois.
Para  aplicar  veio  Seu Nelinho que conhecia os dois, mas já estava com  a  visão  desgastada. Os  meninos já  foram ficando um pouco desconfiados,  Marcos  que  era  mais  esperto  tratou  logo  de fugir enquanto o enfermeiro  desinfetava  a  seringa. Quando  terminou o seu trabalho, Seu  Nelinho foi até Ricardo e começou a fazer aquele ritual  de  tortura  expulsando aquelas duas gotinhas da siringa.( Que pra mim maltrata mais do que a picada ) Em  seguida  aplicou  a injeção e Ricardo foi chorar em outro cômodo da casa.
Seu  Nelinho  preparou  o  material  para a segunda injeção e saiu a procura  de  Marcos  que  já  devia  tá do Sanharol pra lá, como não encontrou o menino foi voltando quando viu Ricardo chorando falou:
- Deixe  de  ser  mole,  cabra   frouxo!  O outro já tomou a dele e nem chorou,  já   ganhou  foi  o  mundo.  
Fez  o mesmo ritual e aplicou a injeção em Ricardo no mesmo braço.
Depois  dessa,  toda  vez  que  Ricardo via  Seu  Nelinho apontar na esquina, com aquela maletinha de metal, corria gritando:
- NÃO. DE NOVO, NÃO!


221 - TOMARA  QUE  SEJA  SANGUE.

Gurí morava no sítio Lagoa Seca, trabalhando na agricultura, todos os sábados ele vinha para Várzea Alegre, para fazer a sua feira da semana. Como não possuía animal ele vinha a pé subindo e descendo a serra. O sábado era todo ocupado por aquela atividade.
A rotina era assim; Ele saia pela madrugada subia a serra, depois descia, passava no Riacho do Meio, Rosário, Buenos Aires, Riachinho e Várzea Alegre.
Fazia as compras, conversava com amigos e tomavas umas cachaças. Na bodega de Raimundo de Fama, que ficava na saída, ele tomava a saideira e comprava uma meiota em garrafa de vidro, para tomar nas pescarias e em queimadas de brocas no domingo.
Uma vez ele bebeu demais e alterou o esquema. Fez as compras, tomou a saideira, mas esqueceu da meiota.Quando chegou em cima da serra, já avistando as casas da lagoa Seca, lembrou-se da bendita meiota e pensou com ele mesmo:
- Mais isso é o diacho. Num mealembrei da meiota. Eu vou vortar.
Voltou pra cidade mas quando chegou na bodega de Raimundo de Fama, pensou novamente com ele mesmo:
- Ainda bem qui dar prumode eu vortar daqui.
Comprou a meiota, botou no bolso da bunda, tomou mais umas e seguiu.
Quando passava no Riacho do Meio, Leó ofereceu uma bicada e ele tomou.
Seguiu viagem e quando acabou de subir a serra já estava ficando escuro. Na passagem de um passadiço o pau rolou, ele caiu todo à granel e saiu rolando por cima das pedras. Só foi parar de rolar quando bateu no tronco de um jatobá. Virava para um lado doía, virava para o outro doía também, Ele sentiu que o mocotó tava molhado e com muito esforço e no escuro, levou a mão até lá, quando sentiu que tinha algo de errado pensou quase falando:
- Ou meu Deus. Tumara qui seja sangue.


220 - BEZERRO  DESMAMADO

No  ano  de  1.967,  eu  voltava   das  farras  com  meu  amigo  Taveirinha  e  já passando  da   meia  noite  a   fome  apertou.  Como  não   tinha  mais  nenhum
restaurante  aberto aquela hora eu perguntei pra Taveira:
- E agora o é que nós vamos fazer para lanchar?
- Vamos tirar uns cocos lá no jardim da casa de Dr. Osvaldo.
Quando  nós  chegamos  no  jardim,  respeite  o susto. Tinha um pastor alemão
amarrado  no tronco do coqueiro. Passado o susto  nós fomos  para a praça da igreja. Taveira olhou na direção do curral do Sr. Dirceu e falou:
- Já sei, vamos quebrar o jejum com leite da vaca do véi Diceu.
 Descemos para o  curral  já  levando uma lata de ervilhas vazia. A vaca apesar de muito mansa não  quis  soltar o leite. Foi quando me lembrei e falei  para o meu amigo, que a vaca só solta o  leite se estiver com o seu bezerro arreado. Como o bezerro era apartado em outro local foi mais uma frustração.
Meu amigo pensou  um pouco e disse:
- Apois pode me  arrear que ela solta o leite.
Eu peguei uma corda que tinha na cerca e  arreei  Taveira  do  pescoço para  a perna  da  vaca,  já  com  a  latinha  na mão. Meu amigo deu duas amojadas no ubre da vaca e para minha surpresa, ela  começou  a  soltar o leite. Enquanto a vaca  passava o rabo sujo na cara de  Taveira  eu tomava o leite que era quase só espuma.
Foi quando Taveira gritou assustando a vaca:
- Ei Raimundim! O bizerrim aqui vai ficar dirmamado mermo?
Com o grito a  vaca desconfiou que  estava   sendo  enganada,  virou o focinho, lambeu a cara do meu amigo para confirmar o estelionato, depois jogou os dois pés derrubando meu amigo e a lata de leite que eu estava reservando para ele.
Depois dessa, o jeito  foi esperar o dia amanhecer para tomar leite com tapioca
No café de  Mariinha  de  Pedro  Preto.  Onde tinha o melhor lanche da terra do arroz.



219 - PEIA  REPARTIDA.

Zé de Priscila, nós já citamos ele por aqui no causo do furto do isqueiro. Ele agora aparece novamente nesse outro causo.
Zé era afilhado de fogueira do Sr. José Augusto Leite, pai de Alberto. O padrinho considerava Zé como se fosse afilhado de batismo, mas o afilhado além de não ser chegado ao trabalho, era muito malino, gostava de mexer no alheio. Não podia ver isqueiro, chapéu e guarda-chuva distante do dono que surrupiava. Dividia a semana com quatro dias preso e três furtando.
Quando aparecia na mercearia do padrinho gritava da porta:
- A bença. Padim Zé Ogusto !
O padrinho abençoava:
- Deus lhe dê juízo. Mas vá pra casa, que mais tarde eu mando Alberto levar um presente.
Mas teve um dia que Zé querendo ampliar o seu ramo de atividade, resolveu furtar a bicicleta de Antônio Diô que estava dentro do mercado. Antônio estava fora do mercado conversando com um soldado e um sargento reformado, que era o delegado de Várzea Alegre.
Quando Zé saiu no portão com a bicicleta na direção norte deu de cara com o dono e a polícia. Antônio Diô gritou e Zé partiu na direção sul. Na agonia da fuga ele não viu que vinha outro soldado na calçada e a bicicleta inventou de atropelar o militar. Quando Zé tentou correr já estava agarrado pelos quatro. Logo que o sargento deu a voz de prisão, Zé Augusto  saiu da mercearia e pediu para que não batessem nele.
A polícia saiu conduzindo o preso pela Av. Getúlio Vargas até o Beco da Liberdade, quando o soldado que foi atropelado notou que a farda estava rasgada, deu um tabefe tão grande no pé do ouvido de Zé que ele já tombou pra cima do outro soldado, o colega não querendo receber  o preso  devolveu com outro tabefe ainda maior.
A sorte de Zé foi o Sargento que falou:
- Já chega. Vocês não viram o cidadão pedir para não bater nele.
Chegando na cadeia o delegado mandou o pessoal sair e deu um bacurejo no preso. E como não encontrou dinheiro falou:
- Ou ladrão sem futuro !
O Senhor José Augusto cortou um pedaço de queijo, pegou uma banda de rapadura e entregou ao seu filho Deda dizendo:
- Vá deixar essa merenda a José e aproveite para dar uns concelhos a ele.
Deda chegou na prisão foi até a cela de Zé e entregou o lanche dizendo:
- Taqui que meu pai mandou pra você, mas ele pediu para eu lhe dar uns concelhos.
- Já sei, os caba já foro dizer a padim Zé Ogusto, mais nem deu certo eu afanar a bicicreta de Ontõe Diô, qui a puliça tava perto.
- Pois é Zé. Meu pai tá preocupado com você, foi não foi você tá preso e isso não é coisa pra homem.
- Num tem pobrema não. Eu já tou acustumado.
- Mas a questão não é só a cadeia, é porque esse sargento trata ladrão é na peia. Você só não apanhou porque meu pai pediu e o sargento atendeu.
- E quem foi qui dixe qui eu num apanhei? Quando nóis vinha ali no Beco da Liberdade, dero dois tabefe no meu peduvido qui meu zuvido inda tá assubiando.
- Pois foi por issso que o meu pai mandou eu lhe aconselhar.
- Apois diga a meu padim Zé Ogusto , que ele arrume oto sargento prumode prender esse daqui, pruque ele é mais ladrão do qui eu.
- Que conversa é essa zé?
- É divera. Onte de noite ele chegou cum um bebo das banda do Riacho do Mei e eu ví quando ele meteu a mão no boço do bebo, tirou o dinheiro e butou no boço dele.
- Mas deve ter sido pra guardar.
- Foi não, pruque hoje de menhã o bebo foi pidi o dinheiro prumode mandar comprar o armoço e ele disse que não pegou  no dinheiro dele não. Aí o bebo disse assim:
- O Sinhor tirou o dinheiro do meu boço.
Aí o sargento disse:
- Você é besta cabra ! Respeite a polícia.
- Mas o Sinhor tirou.
- Você acabe com essa conversa, se não eu mando o meninos lhe açoitar até você aprender a não acusar autoridade.
- E cadê meu dinheiro.
- Se você tinha dinheiro, ou perdeu, ou aquelas raparigas do frejo que tavam sentada no seu colo furtaram.
- Aí quando mãe trouve meu dicumê, foi priciso eu repartir com ele.
Quando Zé acabou de contar a história, o preso do Riacho do Meio que estava na cela vizinha gritou:
- Foi divera Seu Deda.
Deda voltou a alertar Zé:
- Pois é Zé. Eu acho melhor você não ficar comentando o assunto. Porque assim como você repartiu o seu almoço com o colega, pode ser que o sargento queira repartir a peia que ele vai mandar dar ele,  com você também.

218 - SOLTANDO  O  CARRETEL

Para a Exibição dos filmes no Cine Odeon, Edmilson Martins sempre precisava da ajuda de um auxiliar para girar o carretel do filme.Como o auxiliar não pagava ingresso, o operador alternava os ajudantes, que eram; Waldefrance Correia, Joemilton Martins, Francivaldo Martins, eu e Assis Félix.
No dia da exibição de um filme censurado para menores, o escalado era Waldefrance que já era maior de idade.
No dia da exibição de uma comédia italiana de nome “ Pobres porém formosas “ Waldefrance foi o escalado. O trabalho era um tanto complicado porque se o carretel saísse do lugar, demandava um certo tempo para o operador recompor. E durante aquele tempo, o  público ficava assoviando e dizendo palavrões.
Pois naquela noite foi só o que deu.
Waldefrance muito empolgado com o filme e tremendo bastante, SOLTOU  O  CARRETEL.
Como o cine estava lotado a bagunça lá embaixo foi geral. Enquanto Edmilson tentava corrigir o problema, o ajudante desceu com uma lanterna na mão e um cadeado na outra. Quando chegou mais-ou-menos no meio, tinha um grupo assoviando o sapinho. Ele focou a lanterna na direção e foi mesmo na cara de Diassis Aquino. Com a surpresa dos dois ao mesmo tempo, Waldefrance foi logo falando aborrecido:
- Mas Diassis. Você um rapaz tão educado. E não ter educação !
Depois de ter tomado uma vaia do público, Waldefrance foi subindo mais zangado do que rato dentro de garrafa. Naquele momento, Luís de Cícero Inácio jogou um picolé nas costas dele. Se Waldefrance soubesse hoje que foi Luís que jogou aquele picolé, era capaz dele enfartar.
Mas sem saber, o auxiliar voltou para o lugar que estava antes e perguntou:
- Quem foi o engraçadinho que fez isso?
Lá de baixo uma voz bem tímida respondeu:
- Foi eu.
- Eu quem?
- Eu ! Porra !
- Pois venha até aqui.
- É o que vai !
Edmilson tentando evitar um problema maior, ascendeu as luzes do salão e mandou seu ajudante subir.
Vejam a ironia do destino nesse causo. Alguns meses depois, Diassis, Zé Clementino e Murilo Teixeira, arrendaram o cinema  a Luís Proto e Diassis passou a ser patrão de Waldefrance.


217 - VAI  VIRAR  UM  CINE  ODEON.

Manoel de Pedro do Sapo, tinha uma propriedade na Lagoa do Arroz, onde além de cocos, atas e caju, tinha ainda seis pés de cajaranas. Manoel muito generoso deixava que o pessoal tirassem as cajaranas, desde que não fossem derrubadas com varas e nem pedras, para não atingir as verdes.
Um dia e outro não, eu ia com Taveirinha e colhia uma cesta de cajaranas, Taveirinha subia e eu ficava embaixo com a cesta. Ele amarrava a penca num cordão e descia, eu desamarrava e eu devolvia o cordão pra ele. Nós já estávamos tão simpatizados pelo proprietário, que ele ainda dava um coco pra cada um.
Um dia nós estávamos tirando as cajaranas, quando chegou uma senhora da rua do São Vicente, acompanhada de uma garota que aparentava ter quinze anos.
Eu avisei das exigências do proprietário e elas concordaram. A tia olhou para sobrinha e ordenou:
- Lurdinha. Tu qui é mais nova sobe, qui eu fico ajuntando.
A mocinha, que usava vestido, Escalou a árvore pulando de galha em galha, que mais parecia um macaco. Chegou numas galhas onde tinha mais cajaranas, botou um pé numa galha e o outro noutra e ficou tentando pegar umas pencas.
Admirado com a agilidade da garota, eu resolvi dar uma olhada despretensiosa, na hora que eu olhei pra cima, a tia da garota aproximou-se de mim e gritou:
- Lurdinha !
- Quié tia?
- Desça já daí.
- Mais tia, agora é qui eu começar a tirar.
- Desça logo. Você num tá vendo qui o minino tá danado oiando pra riba não?
- E o que qui tem? Eu num tou sem calça.
A Zoada da tia atraiu outros meninos que estavam em outros pés de cajaranas. Chegando lá eles também olharam pra cima, para ver o que era que estava acontecendo.
E a tia insistia:
- Muié. Desça logo daí, qui já ta chei de minino oiando pra tu.
- E eu cum isso?
- Mais miá fia, nessa pusição qui tu tá, dá pra ver inté o coração. Tu quer qui o pé de cajarana de Mané do Sapo vire um Cine Odeon.


216 - A  TRAGÉDIA  DE ZÉ  DE  DUDAL.

O sr. Dudal, tabelião de Várzea Alegre – Ceará, não teve filhos. Para que o casal não ficasse só, ele resolveu adotar um filho e uma Filha, Darca que era prendada e muito educada. E José, ao contrário da irmã adotiva, era muito danado, brigava da rua e ainda tinha a agravante de malinar nas coisa alheias.
Uma vez ele juntou-se com Vicente Cassundé e foram furtar cocos na Varjota.
Zé subiu no coqueiro e Vicente ficou embaixo catando os cocos. Lá uma hora Zé foi tirar um coco e deu com um boca-torta no cacho, no aperreio ele desequilibrou-se e caiu. Na queda fraturou as duas pernas e o braço direito.
Vicente Cassundé sem ter muito o que fazer Disse:
- Zé. Fique aí qui eu vou chamar gente pra ajudar. Não saia daí não Viu? Ora como era que saía?
Vicente foi chegando no local onde tinha o antigo cacimbão no meio da rua e encontrou; Fábio Pimpim, Mundim Tibúrcio, Zé Ildefonso e Zé Augusto. Pela expressão de Vicente, aqueles senhores já notaram que havia algum problema. Zé Augusto foi logo perguntando:
- O que foi que aconteceu Vicente? Porque você treme tanto?
- Foi pruque Zé de Seu Dudal distabacou-se de riba dum coqueiro e tá lá istatalado no chão.
- E onde é que ele está?
- Ele tá ali na Vajota. Mais ele num tá pudendo nem se mexer.
- Pois nós vamos lá.
Quando chegaram no local que constataram a gravidade de Zé, foram logo tratando de arranjar tabocas para encanar. Cada taboca que era amarrada Zé dava um grito e dizia:
- Num vão dizer a pai não !
Zé Ildefonso perguntou:
Foi naquele momento que eles lembraram que Dudal precisava ser avisado.
- Quem vai avisar a Dudal?
Vicente Cassundé gritou:
- Eu vou !
Mundim Tibúrcio o mais sensato de todos falou:
- Não Vicente, é melhor que eu vá porque Dudal já tá idoso e pode sentir um choque, deixe que eu preparo ele primeiro e depois dou a notícia.
Quando Mundim chegou na casa de Dudal, ele estava bem acomodado numa espreguiçadeira e foi logo perguntando:
- Que novidade é essa Mundim? Você não tem costume de andar por aqui uma hora dessa.
- Pois é Dudal. Eu estou aqui para lhe dar um notícia, mas não sei por onde começar.
- Pode dizer, Mundim. Se for problema com José, não é mais novidade para mim. Não tem problema maior na minha vida, do que o próprio José.
- Pois é isso mesmo. Houve um acidente com ele.
- E o que foi?
- Ele caiu de cima de um coqueiro.
- E ele morreu?
- Morreu não. Ele quebrou as pernas mas já estão encanando.
- Então Mundim, se José escapou, não foi um acidente, foi uma tragédia.


215 - SE  FOSSE  MAIS  OTAVIANO  NUM  TINHA  AVIRISSIDO  ISSO.

No tempo em que não havia água encanada em Várzea Alegre, a água era transportada em jegues, o pessoal colocava a cangalha, duas caçambas e quatro latas de querosene vazias. Os condutores que transportavam a água da lavanderia até as casas, eram na maioria das vezes os filhos mais novos, quando não estavam em seus horários escolares.
Um dia o Senhor Pedro Tonheiro chamou um dos seus netos e falou:
- Vá porcurar Otaviano pegue o jumento e vão buscar buscar água na lavanderia.
- Mas vô. Fáis tempo qui eu precuro ele e não acho. Seu Belizaro disse qui incontrou ele indo pras Panela.
- Então chame seu irmão mais novo e vá com ele.
- Dá certo não vô. Ele é muito piqueno e só faz é atrapaiá.
- Mas o jeito que tem é ser ele. Os potes já estão todos secos e não tem água nem pra lavar um lenço.
Os dois netos foram, encheram as latas, botaram nas caçambas e o mais novo ficou na cangalha.
O problema maior pra eles foi que o jumento deles era capado e sendo capado os outros jumentos são danados para perseguir.
Pois foi só o que deu. Quando saíram da lavanderia, vinha um jumento com uma carga de lenha e partiu atrás. Antes de chegar na casa do ferreiro Manu, a carga caiu com menino e tudo. As latas que eram quadradas estavam redondas de tanto rolarem na areia.
O neto mais velho não fez nada e nem podia fazer.
O jegue capado foi encontrado um mês depois no sítio Timbaúba.
Quando Pedro Tonheiro foi reclamar dos netos, dizendo que eles foram displicentes, o mais velho justificou:
- Vô. Num tem minino no mundo qui sigure um jegue capado, quando tem um jegue inteiro detráis dele. Se fosse mais Otaviano num tinha avirissido isso.


214 - MARIDO  TOLERANTE.

João Pirão era um moço que residia na Praça Santo Antônio, em Várzea Alegre- Ceará. Era um cidadão que não contava com boa aparência, em virtude de ter um olho olhando para o Iguatu e o outro para o Crato. Afora isso era muito trabalhador. Trabalhava no ofício de abater animais. O Marchante casou-se com uma moça do sítio e viva muito bem, até que um dia Luís Bastos o contratou para abater e tratar um porco na sua residência no sítio Varas. João pegou a sua bicicleta e falou para a esposa:
-  Muié. Eu vou lá nas Vara matar um poico de Seu Luís Bastos.
Quando João chegou no Buenos Aires, notou que tinha esquecido a sua ferramenta. Voltou imediatamente e chegando em casa viu a sua fiel esposa agarrada com um funcionário  do Batalhão de Engenharia e Construção do terceiro BEC, que estava sediado em V. Alegre para construir a rodovia 0,60.
Surpresa para os três; O moço do batalhão fugiu pela janela, a mulher ficou vestindo a roupa e João ficou sem fala.
Quando a voz retornou, João falou:
- Mais muié. Cuma é qui você foi fazer uma coisa dessa cum eu? Eu vivo trabaiando prumode butar as coisa dento de casa, quando acabar você bota chife im neu.
A mulher como não tinha nenhum contra-argumento falou aborrecida:
- Apois eu acho é pouco. Pruque tu além de ser fei, num dá de conta do recado. Inté pra ser corno tu num serve.
João saiu triste caminhando de cabeça baixa, quando avistou Acelino Lenadro sentado na calçada de casa e foi até lá pare pedir um conselho:
- Seu Acilino, eu vim aqui prumode pidir um conselho o sinhor mais eu num sei cuma cumeçar.
- Pode dizer, João.
-O siguinte é esse: Eu fui matar um poico de Luís Basto lá nas Vara, mais quando cheguei no Bonizaro eu ví qui num tava cum meus ferro. Aí eu vortei pra tráis, quando eu entrei dento de casa, minha muié tava cum um caba do bataião. O condendado pulo a ginela e ela ficou butando o vistido na frente aí eu dixe: Máis muié isso é lá sirviço qui  você faça cum um omi qui nem eu, qui tudo qui arruma é pra butar dento de casa. Quando eu dixe isso,  a infiliz fez foi me discompor, me chamou inté de corno. Minha vontade na hora foi de matar a condenada.
O conselheiro Acelino interrompeu dizendo:
- Não faça isso João. Até que pela sua profissão, você você não ia ter dificuldade nenhuma. Mas não faça isso, porque você acaba com a vida dela e a sua.
- O qui é qui eu faço cum ela?
- Bote pra fora de casa.
- E sela vortar?
- Não aceite.
- Máis sela bater o pé e ficar?
- Aí meu amigo, quem tem que sair é você e pra muito distante.
- Máis Seu Acilino, eu num quiria ir simbora da minha casinha não.
- Nesse caso você vai ter que aprender a conviver com o chifre


213 - O  ENTERRO  DE  VICENTE  ARAME.

Eu aqui não consigo precisar o ano, mas posso afirmar, que foi num ano de um bom inverno e uma grande safra de arroz, em Várzea Alegre – ceará.
O Sr. Prefeito chamou o seu secretário e falou:
- Esse ano nós vamos fazer a resta do arroz, eu quero que você cuide do projeto, tomando todas as providências.
O secretário arrumou um animal e mandou Vicente Arame ao sítio Unha de Gato, para avisar a Chico de Zé Joaquim, que viesse a Várzea Alegre, para conversar com ele.
Era ainda no mês de maio mas Chico veio atender o chamado. Quando encontrou o secretário foi logo falando:
- Pronto. Seu secretaro !
- Chico, eu mandei lhe chamar aqui, porque o Sr. Prefeito vai fazer a festa do arroz no mês de junho e eu queria contar com você.
- No qui eu puder, pode contar.
- Eu queria que no dia 26 de junho, você viesse com o seu pessoal.Traga a banda de pífano, o grupo de maneiro pau e os Cortadores de tesouras. Mas chegue cedinho, que é pra dar tempo deles vestirem as fardas que o Mestre Vicente Salviano vai fazer.
- Pode deixar qui eu cuido de tudo.
Quando foi no dia 24 de junho, faleceu uma tia do prefeito. E o prefeito ordenou que fosse suspensa a festa.
Na manhã do dia 25 o secretário arranjou um cavalo e mandou Vicente Arame para a Unha de Gato, para avisar a Chico que não trouxesse mais o pessoal.
Quando amanheceu o dia da grande festa, o secretário tomava o café da manhã, quando chegou Chico de Zé Joaquim e Zé Sobrinho. O secretário assustou-se mas foi logo dizendo:
- Chico eu pedi para você organizar o pessoal mas….. Chico foi logo interrompendo:
- Já tá tudo alí na rua de São Vicente. Eu truve os caba do pife, truve os caba do manêro pau e truve tombém os cortador de tisoura.
- Pois era o que eu estava tentando lhe dizer. Morreu uma tia do prefeito e não vai mais ser possível a realização da festa.
- Ôxente omi ! e num vai mais ter a festa não?
- Infelizmente não. Eu até arranjei um cavalo e mandei Vicente Arame  ontem cedinho avisar a vocês. Ele não foi Não?
-  Foi não. E quando nóis vinha decendo, qui passamo na Boa Vista, nóis vimo o cavalo amarrado na ceica e Vicente bebendo cachaça mais Valera na budega de Chico Inaço. E agora o qui é qui eu vou dizer os caba?
- Diga a verdade. Diga que a tia do prefeito faleceu e não vai mais haver a festa. Diga também que vocês deram a viagem perdida, porque o irresponsável do Vicente Arame, não foi dar o recado.
- Apois eu acho qui é mais mió eu num dizer qui foi pru causa de Vicente. Pruque quando nóis for subir, os caba vão vê ele lá im Chico Inaço e aí o tempo vai sifechar. E eu num tou apariado a vim amenhã  subindo e decendo serra, da Unha de Gato pra Rajalegue não.
- E voçê vem para vÁrze Alegre fazer o que?
- Ora mais tá ! Eu vem pru interro de vicente Arame.


212 - MEDINDO  A  PRESSÃO.

Sexta feira passada dia 16, eu estava no aniversário da minha tia Bibia e sem ter tomado nenhuma bebida alcoólica, de repente senti umas náuseas e uma quentura no peito. Quando algumas pessoas notaram a minha palidez e o corpo gelado me tiraram quase nos braços e me levaram para emergência de um hospital. Algumas pessoas que estavam na festa até confundiram com embriaguês.
Chegando no hospital mediram a minha pressão e o resultado 8,00 x 5,00. Me aplicaram duas garrafas de soro com alguns medicamentos e em seguida mediram novamente, quando o resultado já foi de 10 x 6,00, Não estava ainda normal como está hoje, mas me deram alta, depois de algumas recomendações.
Mas esse comentário foi apenas para ilustrar um causo parecido que aconteceu em Várzea Alegre – Ceará nos anos 60, que eu passo a contar agora.
Ferrim de Bastiana andava nervoso e com uns sintomas parecidos com esses que eu falei acima, quando Seu Dudu falou pra ele:
- Ferrim. Vá lá no consultório do Doutor Colares e peça para ele medir sua pressão, que você não tá bem não.
Ferrim ficou preocupado e saiu quase correndo para o consultório. Chegou lá muito cansado e falou para o médico:
- Dotô ! eu vim aqui prumode o dotô tira o meu tesão.
O bom médico achando se tratar de uma brincadeira falou:
- Ferrim, Você vá lá no Ingém Véi e peça para Chica Perna Grossa tirar, porque eu aqui só faço é medir a pressão.

211 - A  MORTE  DO  GALO.

Essa quem me contou foi o primo Luís Lisboa.

Meu primo Zé André de saudosa memória, sempre gostou de promover brincadeiras; Futebol, debulha de feijão, Adjunto de apanha de arroz e outras atividades lá de nós. Ele bancava as despesas, fazia a organização e prestava a segurança dos eventos.
Numa sexta feira da paixão ele desenvolveu umas brincadeiras no Sanharol e para tanto, convidou seus amigos e parentes. Mas o assunto vazou e ele não teve como evitar, a presença de algumas pessoas inconvenientes.
As brincadeiras eram em quatro modalidades; Corrida de saco, corrida com o ovo no pires, a matança do galo e o linchamento do Judas no sábado seguinte.
A corrida de sacos ia muito bem até quando Herculano Sabino furou dois buracos no saco para passar os pés. Herculano foi desclassificado e quem venceu foi Bonifácio.
A corrida do pires no ovo também ia muito bem até que Paulo de Santiago, foi também desclassificado porque tinha posto mel de engenho no pires para colar o ovo, na prova o vencedor foi Picoroto.
A prova da matança do galo, foi a que deu mais trabalho ao promotor. Enterravam o galo no terreiro deixando só a crista fora, amarravam um rodilha  na cara do candidato e entregavam um cacete de bater arroz. Depois davam umas rodadas para que o candidato ficasse desnorteado. Dos três primeiros, nenhum deles conseguiu bater o cacete a pelos menos dez metros de onde estava o galo.
O quarto candidato foi Zé de Lula. Só que Luís de Cotinha tinha combinado com Zé, que quando ele tivesse no rumo, Luís dava um sinal gritando por duas vezes:
- Mata o galo ! Mata o Galo !
Botaram a venda na cara de Zé, entregaram o pau e deram umas rodadas. Zé saiu pelo lado contrário, quando estava com uns dez metros  de distãncia do galo Luís gritou:
- Mata o galo !
Zé levantou o pau e Luis já junto com umas quarenta pessoas deram o segundo grito:
- Mata o galo !
Zé baixou o cacete num monte de terra, que foi bater terra lá na casa de João do Sapo.
Naquele momento tinha um moreno do sítio Gibão, que além de não ter sido convidado, tava embriagado. Quando ele ouviu aquela conversa de matar o galo partiu pra cima de Zé do galo e tome pancada. Quando conseguiram imobilizar o moreno Zé do Galo já estava com a cabeça cheia de galos.
Zé André foi lá e falou:
- Meu amigo. O galo que é pra matar é aquele que tá lá no terreiro.
- Mas aquele já tá enterrado. Tem que matar é esse.
Enquanto acontecia aquela confusão, Zé de Lula aproveitou e tirou a rodilha da cara, levantou a cacete e deu uma pancada tão condenada no galo, que a ponta do pau ficou enterrado no chão. Depois botou a rodilha novamente e saiu fazendo palhaçada, com os braços abertos e dizendo:
- Cadê o Pau? Cadê? Cadê?
Luís Lisboa foi lá arrancou o pau e colocou a ponta bem perto do fundo de Zé.
Quando Zé disse:
Cadê o pau? Cadê? Cadê?
Luía empurrou o pau e disse:
- Taqui ! Taqui !
Foi preciso novamente a intervenção do promotor, porque Zé também tinha tomado umas cachaças e tava querendo brigar.
Enquanto havia essa outra confusão, Nicolau e Antão Sabino aproveitaram e roubaram o Judas das crianças, que era para ser linchado no dia seguinte.
Zé André desgostoso com tanta confusão pediu silêncio e fez seu discurso:
- Pessoal. Tá terminado as brincadeiras, vocês não sabem brincar, então eu dou por encerrado. Quem quiser pode vir amanhã pra missa de corpo presente do galo. Em seguida o promotor foi até onde estava seu primo Zé do galo e falou:
- José vá pra casa e reze um terço com a sua mãe, porque essa missa de amanhã, faltou pouca coisa, pra ser em sua intenção.

Dedicado ao primo Antônio Morais.

210 - PRIMO  DE  DEPUTADO

Iêdo Mendes, quando estudava em Fortaleza - Ceará, arranjou uma namorada no Bairro Montese, próximo a casa da sua tia Tica Leandro, onde ele morava. A princípio a mãe da garota por ser viúva, não confiava nem um pouco. O namoro era assim; A moça ficava em uma janela pelo lado de dentro, Iêdo ficava pelo lado de fora e a futura sogra, ficava na sala para monitorar o namoro.
Na época tinha  uma moda de calças apertadas e o namorador estava com uma delas que não cabia nem seus documentos. Incomodado com aquela situação, ele tirou a carteira de cigarros, a caixa de fósforo, a carteira de documentos e colocou na janela. A suposta sogra desconfiada e curiosa, pegou a R.G. E ficou olhando um bom tempo e depois falou:
- Iêdo, eu tava olhando aqui, você é de Várzea Alegre, não é?
- Sou sim.
- Várzea Alegre é a terra do meu deputado Figueredo Correia.
- É. Ele é meu primo legítimo.
Depois daquela descoberta as coisas melhoraram para o suposto genro. O namoro dos dois passou a ser dentro de casa e a sogra saia  para as vizinhas deixando os dois à vontade. O namorado já assistia a novela “ Meu pé de laranja lima “ Com a namorada no colo e corria uma mão de mão tão grande, que não se sabe de onde vinha tantas mãos.
O casal passou a ser o dono da casa. A sogra passava a tarde fazendo compras no centro e Iêdo lanchava, jantava e banhava a namorada. Era tão grande a confiança, que o namorado chegava a abotoar o sutian da sogra.
A alegria de Iêdo acabou-se no dia que a namorada conheceu umas garotas de Várzea Alegre, que lhe disseram que ele tinha outra namorada. A menina além de romper o namoro,ainda disse umas coisas desagradável com o ex.
O namorado ficou tão encabulado, que andava seis quarteirões a mais, para chegar na casa da sua tia, evitando assim, passar na frente da casa da sua ex.
Depois do namoro rompido, Iêdo foi passar as férias com a sua família em Várzea Alegre e conversando com a sua mãe, contou a história do parentesco com o deputado.
Dona Zefinha depois de ouvir toda a história, falou:
- Pois eu vou dizer como é o seu parentesco com o deputado. O teu bisavô foi vaqueiro do bisavô de Figueredo.
- Pois eu não sabia que era primo carnal dele não. Se mãe tivesse dito a um ano atrás, hoje mãe tinha um netinho.
- E você vai casar com ela?
- Vou não porque a mãe dela inventou de ir conversar com Amélia de Doca de Dodô e Amélia disse  a ela que eu não era primo do deputado, Aí a velha fez a filha romper o namoro.

Fonte: Ilvan Mendes. Irmã do primo de deputado.


209 - E  TU  ACHA  POUCO  ZÉ?

Preconceito  de cor é um mal  que atinge o mundo todo. Mesmo com as campanhas educativas ainda não foi possível a erradicação total. Imaginem vocês numa cidade como V. Alegre no ano de 1953.
Pois foi justamente  assim:  Estava  acontecendo  uma  queima de caieira na Varjota, onde estavam:  Pedão de Clara,  Vicente Arame,  Zé Júlio e  João Augusto. Eles estavam bebendo e contando piadas, quando de repente apareceu Zé de Chicão puxando fogo. Pedão  olhou  para  Zé com  uma cara  antipática e falou:
-  Você pode arribar daqui! qui  quem gosta de nêgo  é sabão da terra.  
Zé de Chicão do alto da  sua embriaguês respondeu:
-  Eu num saio não!  A caieira num é sua, é do véi  Zé Augusto.
 – Se você num  pegar o beco dentro de dois minuto eu asso você na boca dessa caieira.  
Vicente Arame  sabendo que  Pedão  era  violento e estava de fogo, aconselhou  Zé para  sair, porque  podia haver uma confusão  maior. De nada  adiantou os conselhos,  Zé ficou perturbando muita mais do que criança com apito na boca.
Pedão deu de garra de um tição  de fogo aceso e  acunhou no lombo de  Zé e ainda saiu sapecando o coitado até o  Roçado de  Dentro.  Quando  chegaram na  frente  da casa de  Antônio do  Sapo os cachorros latiram e Pedão  resolveu recuar, com medo dos cachorros e em respeito ao dono da casa.  Com  o  barulho  dos  cachorros, Antônio  do  Sapo saiu na calçada na companhia de Dona Naninha e  dos  seus  filhos   Chiquinho  e   Raimundinho,  para verem  o  que  estava acontecendo. Quando  botaram  os  pés  na  calçada depararam com os dois cachorros abocanhados   nas  pernas  de Zé,  assim como  que  querendo  repartir  uma pra cada. Tiraram os cachorros e levaram Zé para a sala da casa sem saberem do acontecimento anterior.
Vendo o estado de Zé, Antônio  falou para os  filhos:
 - Amanhã eu não quero mais esses cachorros aqui não. Cachorro que ataca gente não me serve.
Entre um gemido e um ái  Zé falou:
 - Deixe os cachorro seu Otõe. Num  tem cachorro no mundo qui seja  mais cachorro do qui Pedão de Qilara.
Enquanto Raimundinho lavava o lombo de  Zé com  água  de  sal  ele contava  o que  tinha  acontecido e ainda rogava praga dizendo:      
- Mais eu tem fé  im  meu  São Binidito  qui um pé de aroeira  ainda ai de cair pru  riba de Pedão de  Quilara.
Raimundinho  perguntou:
- Zé e porque foi que Pedão  fez  essa bagaceira com você?
- Por nada. Foi só rindade mermo. Ele só fez isso cum eu, pruque  eu sou preto e pobe.
 - E  TU  ACHA  POUCO  ZÉ?


208 - PARA  APRENDER  A  MENTIR.

José Haroldo e Vitorino Fiúza, viajaram um tempo para o Rio de Janeiro afim de estudarem e trabalharem. Depois de algum tempo vieram em passeio para Várzea Alegre. No primeiro domingo, Fatico Fiúza reuniu alguns amigos na calçada da casa do Buenos Aires, para uma prosa com os seus filhos. Na reunião estavam; Fatico e a esposa, os dois filhos recém chegados do Río, Antônio de Sérgio, Chiquito Bilé, Divino Morais, Raimundo de Souzão, Vieira Brito e Pé Véi.
Depois de algumas conversas, Fatico pediu:
- Vitorino conte alguma coisa do Rio para os nossos amigos.
- Vitorino deu início:
- Pois é gente. O Rio é muito diferente do Ceará. O progresso chega primeiro por lá. Para que vocês tenham uma noção, a gente sobe para o décimo segundo andar de um edifício, acionando apenas um botão de um aparelho chamado de elevador.
Veira Brito tomou parte na conversa dizendo:
- Grande merda ! Apois eu subo e desço num pé de coco, sem pricisar de aparei.
Depois do comentário de Vieira, Zé Haroldo deu sequência falando do progresso do Rio:
- Isso aí não é nada. Lá no Rio  quando você chega na porta de uma agência bancária, a porta abre sozinha. É um sistema que funciona provocado pelo calor humano.
Naquele momento quem rebateu a história foi Pé Véi:
- Isso daí num é nuvidade não. Lá im casa o povo entra e sai na hora qui quer, pruque lá num tem nem porta.
Depois de muitas risadas, Vitorino e Zé Haroldo saíram para a cidade e os outros ficaram.
Raimundo de Souzão, que até então tinha permanecido calado, resolveu participar também daquela conversa:
- Ou Fatico ! Esses teus meninos estavam no Río, era estudando pra aprender a mentir.

207 - ALÉM  DE  QUEDA  COICE.

Caboré era o apelido de um cidadão que morava em Várzea Alegre. Ele era tão conhecido pelo apelido que eu nem sei como era o nome dele.
A atividade de Caboré era serviços gerais; Castrava porcos, sacudia legumes e fazia trabalhos de roça. Qualquer coisa que mandassem ele fazer, ele fazia com disposição e bom humor. Usava um dito popular que junto ao apelido ficou a cara dele. Quando alguém pedia um serviço ele dizia:
- COMIGO É PREGO BATIDO E PONTA VIRADA !
Uma vez ele foi contratado para cortar umas galhas de moquém para alimentação de gado, mas fez a coisa errada. Subiu na árvore, sentou na ponta da galha e meteu a foice. Vicente Justino ia passando por baixo, quando viu aquela arrumação gritou:
- Ei, caboré ! Você tá sentado no lugar errado, tem que ser do outro lado, dese jeito você vai cair.
Caboré respondeu:
- Savexe não Vicente. Eu já tou acustumado a cortar muquém. Cumigo  É PREGO BATIDO E PONTA VIRADA !
Vicente não insistiu, mas quando caminhou 15 metros escutou a estraladeira. A galha tinha partido só a metade mas com o peso de Caboré, ela desceu de encontro ao tronco. Vicente correu mas já encontrou o cortador abraçado com o tronco. Caboré soltou o tronco e já caiu curvado em forma de meia lua. Vicente tentava baixar as pernas, Caboré subia a cabeça, se Vicente baixava a cabeça, ele subia as pernas.
Para levar o acidentado para a cidade foi preciso arranjar uma carroça. Por conta daquele acidente caboré ficou uns dias sem levantar. Quando  conseguiu foi andando curvado com a cabeça distorcendo com os joelhos.
Quando Caboré passava de frente a Uzina Diniz, Tóia gritava:
- Tá cassando dinheiro , caboré !
Caboré respondia:
- Tou cassando é o rabo da veinha !
Mas voltando ao dia do acidente vejam o que aconteceu; 
Vicente Justino foi dar a notícia com detalhes ao seu amigo Raimundo Lucas Bidinho. Na mesma hora o bom poeta Bidim improvisou essa décima;

O caboré não voou
Com o apelo de Vicente,
Ficou na galha da frente
E a galha despencou.
O estado que ficou
Faz uma pena danada,
Não serve mais para nada
Só porque foi maluvido.
NEM O PREGO FOI BATIDO
NEM A PONTA FOI VIRADA.


206 - Barulho Intermitente

No tempo em que foi lançado o Corcel II, o nosso conterrâneo Otacílio Correia, comprou logo dois, um pra ele e outro para ficar com um motorista à disposição de Dona Rosinha.
O dele rodava bastante, enquanto que o da Dona Rosinha quase não saia da garagem.
Um dia ele notou que o seu carro estava com uma pancada intermitente do lado esquerdo, a pancada  era igual o sinal da Oi no Ceará. Aparecia e desaparecia de repente. Incomodado com aquela situação o empresário levou o carro até uma loja autorizada. Na loja ele foi recebido pelo gerente, que o tratou muito bem:
- Bom dia, Otacílio. Em que posso servir-lo?
- Eu trouxe o carro para ser examinado. Ele tá com uma pancada no lado esquerdo.
- Pois não. O Sr. Pode deixar o carro, que eu vou mandar examinar.
Três dias depois o gerente ligou para Otacílio ir pegar o carro.
O gerente o recebeu novamente e foi logo dizendo:
- Pronto, Otacílio. O seu carro foi examinado pelo chefe da oficina, que deu umas voltas na cidade e não encontrou nenhum problema. Otacílio levou o carro e no dia seguinte notou o bendito barulho.
Voltou a autorizada e falou novamente com o gerente:
- Meu amigo. O problema continua. Eu gostaria que você mandasse examinar o carro novamente.
- Pode deixar Otacílio, eu vou tratar o seu caso com muita atenção.
Três dias depois o gerente ligou para Otacílio pegar o carro. O empresário foi achando que estava tudo ok, quando o gerente disse:
- Dessa vez eu montei uma equipe técnica e de fato existe o problema. Nós até ligamos para a montadora e eles disseram que esse tipo de problema, nesse carro é normal.
- Tudo bem se é normal eu vou levar.
Uma semana depois Otacílio pegou o carro de Dona Rosinha e levou até a autorizada. O gerente achando que era o mesmo carro falou:
O que foi dessa vez? O carro tá com outro tipo de problema?
- Não. Esse carro aqui não é o meu, é o da minha esposa.
- E o que é que ele tem?
- Você disse que aquela pancada é normal no Corcel II, não é isso?
- É.
- Pois eu trouxe o da minha esposa para vocês botarem a pancada, porque o dela não tem não.


205 - Cadê a chave Doutor? - Mundim do Vale

O empresário Otacílio Correia,certa vez levou um carro até uma loja autorizada, para que fosse feito uma revisão. Conversou um pouco, tomou café e em seguida saiu deixando o carro para o serviço.
Quatro dias depois recebeu uma ligação dizendo que o carro já estava pronto. Chegando lá o gerente já estava com a nota fiscal do serviço nas mãos e tratou logo de explicar:
- Bem, Sr. Otacílio. No serviço do seu carro foi colocado umas velas, um filtro de óleo e uns terminais elétricos.
- Vocês deram umas voltas depois para testar.
- O mecânico deu umas voltas pela cidade.
- Ok. Vou fazer o cheque.
Depois do pagamento Otacílio agradeceu e pediu a chave.
O gerente perguntou a uma funcionária:
- Célia. Cadê a chave do doutor?
- Tá aí no painel.
- Não, aqui não tá não.
- Então deve está com o Nogueira.
- Nogueira ! Cadê a chave do doutor?
- Deve tá com o Batista.
Otacílio que lia o jornal enquanto os funcionários procuravam a chave, teve uma lembrança e falou:
- Agora eu me lembrei de uma coisa; No dia que eu trouxe o carro, deixei ele trancado e esqueci de deixar a chave.


204 - PRIMO  BIOLÓGICO - Por Mundim do Vale.

1970 em Várzea Alegre. Era um dia de sábado onde tinha a feira semanal.  Eu estava bebendo com o meu amigo Taveirinha, quando avistamos dentro do mercado velho, um senhor com um macaco fazendo graça para ganhar dinheiro.
Quando eu passava perto com o meu amigo, eu apontei para o macaco e falei:
- Olhe Taveirinha. Esse ai é o nosso primo biológico.
- E é? Vixe Cuma tem gente da famia qui eu num cunheço.
Terminado o show, o cidadão saiu para dar umas voltas e deixou o macaco amarrado numa coluna por uma corrente.
Nós estávamos bebendo no bar de Alberto, quando Taveirinha levantou-se dizendo:
- Eu vou reparar o qui é qui meu primo tá fazendo.
Taveira começou a demorar e eu fui até lá pra ver o que estava acontecendo. Quando eu cheguei lá me deparei com Taveirinha agarrado nas orelhas do macaco, enquanto  ele gritava de desespero.
Eu apartei a briga dos dois e perguntei:
- Porque isso taveirinha?
- É pruque esse meu primo tava alevantando os vistido das moça e eu num quero gente da minha famia fazendo escandelo não.

203 - MEIA  QUARTA.

Nesse domingo de carnaval, a cadeia pública de Juazeiro do Norte, amanheceu lotada. Um gozador e ao mesmo tempo, comunicador de uma emissora de rádio, foi fazer uma entrevistas com os presos, para saber a situação de cada um.
Assim aconteceu: Ele pediu ao agente prisional para colocar os presos em fila indiana e começou.
Chamou o primeiro da fila e perguntou:
- Teu nome macho véi?
- Ourico Custodo.
- Apelido?
- Chupa Cabra.
- Tu é de onde?
- De Orora.
- Foi preso porque?
- Só pruque eu tava dançando frevo na porta da igreja.
- Vai sair quarta feira.
O segundo:
- Teu nome?
- Ontõe Ogeno.
- Apelido?
- Pica-Fumo.
- Tu é de onde?
- De Barbáia.
- Foi preso porque?
- Pruque uma rapariga açoitou eu.
- E ela foi presa também?
- Não ela tá no hospital, pruque eu dei uma murdida na ureia dela e arranquei um pedaço.
- Olha aí, macho ! O cara pega a mulher e vai comer é a orelha. Não é a orelha que a gente come não, macho.
- Vai ficar pra responder.
O terceiro:
- Teu nome?
- Zé Viniço.
- Tu é de onde?
- Da Rajalegue.
- Mas olha, negrada. O cara deixou  o melhor carnaval da região, pra ficar preso junto com um magote de macho.
- Foi preso porque?
- Só pruque eu quebrei uma garrafa.
- Você tá preso só porque quebrou um,a garrafa?
- É pruque foi na cabeça dum pade franciscano.
- Vai ficar pra responder.

Tema enviado de Juazeiro por imail.

202 - DONA  VIRGÍNIA  E  SEUS  DOIS  MARIDOS - Mundim do Vale

A Rede Globo produziu Dona Flor e seus dois maridos, inspirada num causo do nosso conterrâneo José Felipe de Souza. (Zé Felipe Afamado) Zé Felipe, em uma das suas viagens para Campina Grande Paraíba, uma vez levou a sua esposa Virgínia, para conhecer a cidade. No caminho um conhecido seu da cidade de Lavras da Mangabeira Ceará, pediu uma carona e ele levou.
Chegando em Campina, a cidade estava em festas e tudo quanto era hotel e pensão estavam lotados. Como ele sempre dava preferência a uma pensão de um amigo, o proprietário fez um esforço e conseguiu um quarto para o casal. Zé Felipe muito generoso deixou que o conhecido dormisse no mesmo quarto, Zé era o tipo que não deixava um conhecido dormir na rua.
Na manhã seguinte, Zé acordou primeiro e deu uma saída para uma varanda, quando notou a curiosidade de um empregado da pensão sempre olhando na direção do quarto. A curiosidade do empregado chegou ao ponto de abordar o hóspede:
- Zé. De quem aquela mulher?
- É casada com aquele meu amigo.
- Vixe !
A esposa de Zé, lá de onde estava escutou a conversa e não gostou. Chamou o marido em particular e falou:
- Mas Zé. Como foi que você foi fazer isso?
- Fazer o que?
- Dizer que eu sou a mulher daquele homem se eu nem conheço ele.
- Virgínia. É porque eu sou muito conhecido aqui em Campina Grande. E esse camarada tá vindo pela primeira vez. Tú não acha que é melhor chamarem ele de corno, do que me chamarem?

Fonte: José de Souza Sobrinho. Sobrinho de Zé Felipe Afamado.


201 - ESSE CARRO TÁ COM FEBRE?

Dr. José Iran Costa, médico e político da terra do arroz, que nos deixou muitas saudades, era extremamente zeloso e ciumento, com os seus veículos. Quando comprava um carro novo chegava a rodar muito tempo sem tirar os plásticos dos bancos.
Uma vez viajou com a família para Recife e nessa viajem adquiriu uma camioneta nova. Quando foi para voltarem a V. Alegre, a sua esposa Dona Lais Lolanda, pediu o carro para transportar umas malas. Ele deu uma resposta curta e grossa:
- Não senhora. Pegue um táxi porque para levar. Na camionete, vai ser preciso desafivelar a coberta da carroceria.
Em outra ocasião eles estavam passando um feriado no sítio Baixio do Exu e com eles o convidado Nicolau Sabino. Uma hora lá Dona Lolanda precisou mandar umas coisas para a casa da cidade e perguntou a Nicolau se ele podia levar na camionete nova.
Nicolau doido pra dirigir no carro novo, respondeu mais alegre do que Maria Caetano quando pegava no bicho:
- Vou com todo prazer!
Mas quando foram pedir a chave, o Dr. Iran disse que não dava certo, porque estava bonito pra chover e podia molhar o carro.
Nicolau do alto da sua contrariedade disse:
- Ái vai! E esse teu carro tá com febre?

Fonte: Dr. Raimundo Irapuan Costa.


200 - TRANSPORTE ELEITOREIRO.

Na campanha eleitoral de Várzea Alegre em que foram candidatos; Dr. Hamilton Correia e Lourival Frutuoso, o Sr. José Carvalho, disponibilizou duas Brasílias novas para trabalharem na campanha em favor do Sr. Hamilton Correia
Os veículos foram entregues aos cuidados do Senhor João Pimpim.
Nosso conterrâneo Chico Barros era o condutor de uma das Brasílias. No quente da campanha chegou um eleitor que morava no distrito de Ibicatu, pedindo uma das Brasílias para levar somente ele até sua casa.
A distância e as estradas ruins eram um forte argumento para convencer aquele eleitor que o seu pedido era completamente impossível, depois de várias respostas negativas, o eleitor recorreu a Chico Barros. Chico querendo ser atencioso, foi até João pimpim e com muita conversa, conseguiu a liberação.
Partiram os dois no começo da tarde, quando chegava à noite eles chegavam ao distrito. Quando faltava em torno de 500 metros para a casa do eleitor Chico Barros falou:
- Meu amigo. Eu acho que é bom eu voltar daqui, já tá ficando tarde, a estrada é muito ruim e esse carro é novo.
- Qui cunveça é essa? O ome mandou me deixar foi im casa? Ou foi no mei da istrada?
Mas você há de entender que é uma extravagância muito grande para o carro.
Mas carro foi feito foi pra rodar mermo.
- Tá bom eu vou devagarinho, pra ver se dar certo.
Quando chegavam em frente a casa do eleitor ele gritou:
- Isabarre o carro ! Tá alí a minha casa.
No pé da calçada tina uma vala e Chico com cuidado parou a seis metros na frente. O passageiro não gostou e foi logo dizendo:
- Ei ! Você vai me deixar im casa ou vai me levar pru Santo Ontõe do Quixará?
- É porque tem uma vala no pé da calçada e pode quebrar o carro.
- Mais eu quero qui pare o carro é no pé da minha porta. Ontonse eu vou votar im Lourival.
Chico Barros com muito cuidado engatou uma ré e encostou em frente a porta. Naquele momento Chico foi se despedindo dizendo:
- Até outro dia !
O passageiro gritou:
- Não Sinhor isbarre aí.
O elemento tirou de uma sacola plástica, uma quarta de toucinho, pendurado por uma palha de carnaúba e subiu a calçada dizendo:
- Pera aí.
Bateu na porta que já estava fechada e saiu a sua esposa com cara de zangada. 
Ele ignorando a raiva da mulher, entregou toucinho e falou:
- Taí muié ! Esse toicim eu truve pra mistura do almoço de amanhã.
Desceu a calçada, entrou no carro e falou:
- Ramo, Chico. Eu vou tornar pra rua.
Chico voltou revoltado com aquela situação e fez a viajem de volta todo tempo pensando:
- Mas menino, Deus tem muito morador sem futuro. Eu fiz dessa viajem dsse tamanho, numa estrada ruim dessa, só para vir deixar uma quarta de toucinho.

Fontes: Antônio Morais e Bom Bibí.


199 - MEUS ANJOS GUARDIÕES.

Eu tenho dois anjos da guarda a saber:

Um é a simpática Flor da Serra Verde, que uma vez viu uma foto minha sobre uma lage e comentou preocupada com a minha segurança.

O outro é a minha neta Maria Eduarda ( Duda do Vale ) Uma vez a avó foi mostrar uma foto, onde eu estava no alto da caixa dágua do presídio em Jatí.

Duda deu uma olhada pôs se a chorar e empurrou a foto com um certo desprezo.

A avó reclamou:

- O que é isso Duda? Tu não quer ver a foto do teu avô não?

- Quero não!

- Porque?

- Porque eu tenho medo do vô Nanum cair.



198 - Um Causo Do Dr. Flavio Vieira.

Dr. Flavio.
O poeta e apresentador de TV Geraldo Amâncio é filho da cidade de Cedro. Sempre houve uma concorrência muito grande entre as duas cidades Cedro e Várzea-Alegre. 
De passagem por Várzea-Alegre Geraldo perdeu o transporte para o Cedro e teve que pernoitar. A noite apanhou a viola foi para praça dos motoristas e começou a fazer versos desfeiteando Várzea-Alegre. No pior de todos terminou dizendo que Várzea-Alegre era o cu do mundo: 
Bidim passava por perto e vendo aquele movimento apanhou uma cadeira fez um baticum e soltou esse versinho para Geraldo:

Várzea-Alegre é o cu do mundo,
Lavras é merda só.
Icó é o cu de Lavras, 
E Cedro o cu do Icó.

Bidim foi carregado nos braços o resto da noite sob os aplausos de é campeão e tiroteio de foguetões.

Raimundinho - 14 de dezembro de 2009 08:14
Na minha terra tem macho!
É só reparar em baixo,
Que vai encontrar um cacho,
Com o produto em questão.
Se chegar um forasteiro,
Dizendo que é violeiro,
Vai pegar Sávio Pinheiro,
Nos oito pés de quadrão.

Parabéns. Dr. Flávio por esse causo poético.

Sávio Pinheiro - 14 de dezembro de 2009 10:21
Zé Flávio, essa história se enquadra bem no escândalo dos políticos corruptos, ou seja, dos políticos. Dá no mesmo! O povo brasileiro precisava mostrar que é homem, que tem personalidade 
- Homens e mulheres. Esquecer o partidarismo e pensar mais no Brasil. 

No ano que vai nascer
Não devemos esquecer,
Que precisa de viver
O povo dessa nação.
Com Morais e Raimundinho
Vamos preparar o ninho
Para encontrar um caminho
Nos oito pés de quadrão.

Sávio Pinheiro - 14 de dezembro de 2009 10:53
Leitores,

O Morais pede que eu faça a defesa da cidade como se eu estivesse presente no bar do Dr. Zé Flávio desafiando o Cansanção. Como eu já havia feito a minha postagem vou ter que repeti-la. Seguirei no bom costume da terrinha.

Eu sou fruto de uma terra
Que o punhal não enterra
Pois em três anos de guerra
Não morreu um só cristão.
Mas digo, a você, valente!
Se bato a língua no dente
No fuxico eu mato gente
Nos oito pés de quadrão.


Raimundinho - 14 de dezembro de 2009 11:40
Se o Dr. Sávio Pinheiro,
Não botar o forasteiro,
No rumo do juazeiro,
Eu tenho outra solução.
Para que ele não fale,
E eu também não me cale,
Vai ver o Mundim do Vale,
Nos oito pés de quadrão.

jflavio - 14 de dezembro de 2009 13:48
O velho Mané vieira contava um casos desses e eu ajeitei um pouco, botei tempero e escrevi. Acho que Cansanção não encontrou desafiante à altura poque quando passou por lá não topou com o Mundim , Sávio e o grande Kelé. 
Abraço,
Zé Flávio


Prof. Dantas-sobrinho - 15 de novembro de 2012 20:33
Parabéns, Dr. Flávio. Dá gosto se lê um conto bem contado. Além disso, teu conto mostra que, quem tem medo de errar acerta muito menos. Abraços, Antonio Dantas



197 - O FINADO ERA MAIS POBRE.

Chagas Rosendo, no dia que estava mais ajuizado escrevia com leite de castanhas, os nomes das moças em seu braço. Vivia em Várzea Alegre pra cima e pra baixo dizendo:
No dia qui eu arrancar uma butija de ouro, eu vou ficar mais rico do que Zé Dimar. Aí eu vou comprar o cavalo preto de Seu Erotide, o motor de Secundo e vou pagar os caba de Raimundo Ogusto, prumode dá uma surra im Ferrim de Bastiana, pruque ele veve dizendo qui eu sou doido.
Zé Mandinga e Valdomiro de Zé de Toim, cada qual mais brincalhão,resolveram fazer uma pegadinha com Chagas. Arranjaram uma quartinha de barro, fizeram dela pinico, lacraram a boca com couro e cera e enterraram. Quando foi meia noite, Valdomiro botou dois carretéis de linha na boca para disfarçar a voz e foi até a janela da sala da casa onde Chagas dormia.
Chegando próximo a janela Valdomiro falou bem compassado:
- Chagas Roseeendo!
- O quié?
- Eu sou a alma do de Seu Dudaaal.
- E o quié qui tu quer?
- Eu quero lhe dizer onde foi que eu enterrei minha botija de ouro, que é pra você arrancar pra enricaaaar.
- E adonde foi?
- Tenha calma que eu vou dizer, mas primeiro preste atenção e faça tudo do jeito que eu mandaaaar.
- Ta certo.
- Amanhã depois que o relógio da igreja bater as doze badaladas, você pega um saco e vai sozinho para arrancar. Você vai até o curral de Pedro Beca, que de frente a porteira, tem um pé de peão roxo, cave na raiz dele que você encontra a botija. Depois você bota ela no saco e vem para casa sem deixar que ninguém lhe veja e nem você fala com ninguém que é pra não quebrar o encanto. Chegando em casa acenda uma vela pelo lado de dentro da janela, vá até o centro da sala e diga as seguintes palavras:
“ OBRIGADO MEU IRMÃO
POR ME DÁ ESSE TESOURO,
EU QUERO VÊ ESSE CHÃO
TODO AMARELO DE OURO. “
- Em seguida feche os olhos e jogue a botija pra cima, quando ela cair abra os olhos que você vai vê a sua fortuna.
Chagas fez tudo conforme o combinado, só que quando ele voltava pela Vazante, Chico Carrim estava sentado na calçada de Zé Raimundo e Chagas não pode evitar de ser visto. Chico Carrim quando viu Chagas naquela pressa com aquele saco no ombro falou:
- Ei Chagas! Tá se escondendo de que? Tu tá atrás de galinha pra robar é?
- Só se for uma galinha preta chamada Maria Carro. 
Quando Chagas chegou em casa fez todo o ritual e o resultado foi exatamente o que vocês estão pensando.
No dia seguinte Chagas chegou no bar de Vicente Cassundé onde Valdomiro e Zé Mandinga tomavam umas cachaças. Zé Mandinga se fazendo que de nada sabia perguntou:
- E aí Chagas. Quando é que tu vai arrancar a botija de ouro pra enricar?
- Ontem mermo eu arranquei uma. Mais Chico Carrim apareceu aí num deu certo. O finado era mais pobe e fez foi cagar na quartinha.

196 - ENCANTO QUEBRADO. 

Assis de Zé do Carmo, moço trabalhador era o que podia se chamar de pau pra toda obra. Vivia em Várzea Alegre fazendo todo tipo de trabalho. Capava porco, batia tijolos, Catava oiticica, esgotava cacimbão e ainda era o melhor condutor de caixão de defunto. Mas como ninguém é perfeito, Assis tinha uma falta, quando bebia falava fino e se requebrava.
Assis começou um namoro com Terta de Chico Félix e já falava em casamento. Quando a família de Terta soube foi contra, por conta disto ele roubou a moça e deixou na casa de Zé Raimundo da Vazante a quem ele chamava de padim Zé.
Terta ficou lá ajudando nas prendas da casa enquanto Assis foi trabalhar, para no prazo de três meses se casarem.
Não passou nem um mês um guarda da febre amarela carregou Terta pras bandas do Inhamuns. Não houve mais quem tivesse notícias dos dois.
Quando Assis soube da fuga da noiva, endoidou. Deixou o serviço da olaria e saiu na rua bebendo, chorando e se requebrando..
Zé Raimundo mandou um recado para que Assis fosse até a Vazante para falar com ele.Assis atendeu mas quando passava no oitão da casa viu um tamanco que Terta na pressa da fuga deixou cair no pé da janela. Ele pegou esse tamanco cheirou o couro, beijou o pau e caiu novamente numa crise de choro e de requebrado. Foi para a frente da casa, sentou na beirada da calçada e ficou lamentando quando Zé Raimundo falou:
- Assis, seja homem. Foi melhor assim, Terta não servia para você.
Assis respondeu:
- É mais quando eu me alembro dela, me dá um disgosto tão grande. Ainda mais agora qui eu achei o tamanquim qui mandei Abidom fazer no dia do anivessaro dela.
- Mas esse negócio já está virando palhaçada, só você foi que não notou ainda
- O sinhô num sabe o qui eu tou sintindo. Pimenta no meu fundo no do sinhô é ponche.
- Deixe de conversa besta, esqueça Terta e vá trabalhar.
- Padim Zé só tá dizendo isso é pruque num foi madinha Ana qui fez cum o sinhô
- Deixe de comparação besta e vá cuidar da vida que é melhor. E se quiser saber mais, Terta nem era mais moça.
- E o que qui tem? Eu tombém num sou mais rapaz

O BICHO COMEU.

Depois de sete anos desse acontecido Terta chegou em Várzea Alegre sem o fiscal e arrastando cinco meninos desnutridos.
A primeira pessoa que ela procurou foi Assis. Conversaram um pouco e depois da conversa Assis foi procurar o seu padrinho e consultor Zé Raimundo da Vazante:
- Padim Zé. Eu vim aqui cunversá cum o Sinhô pruque Terta chegou im Rajalegue, Padim salembra dela, num salembra?
- Me lembro Assis. Foi ela que fez você sofrer quando estava pra casar com você e fugiu com aquele fiscal da febre amarela.
- Apois é. Mais ela me dixe qui tá arripindida, pruque o fiscal fez cinco minino nela e quando acabar fugiu cum a muié do batedor de rIpique, lá pras banda de Orora. Ela vei me preguntá se eu quiria sajuntá cum ela, prumode ajudar a criar os bichim.
- Tem futuro não Assis. Ela já fez uma vez e não custa nada fazer novamente.
- Apois eu vou sajuntá cum ela! Padim Zé num sabe qui o qui é do ome o bicho num come?
Sei Zé. Só que no caso específico O BICHO COMEU.


195 - ESTELIONATO CONTRA SANTO

Jerônimo Bilé nos seus vinte e cinco anos,vivia em Várzea Alegre como todos os jovens da sua idade. De repente contraiu uma doença que alterou o sangue e ele quase parte dessa para uma melhor. Apesar de uma boa assistência médica o problema foi se agravando a um ponto que Jerônimo recorreu a São Francisco. Fez uma promessa que se ficasse bom viajaria de Várzea Alegre ao Canindé de joelhos.
Eu não posso dizer aqui que foi a promessa ou o avanço da medicina mas o fato é que o doente ficou curado.
Recuperado, Jerônimo voltou a fazer tudo o que fazia antes:
Beber, fumar, dançar e raparigar. Certo dia na festa do padroeiro Jerônimo estava na barraca de Fafá com a mesa cheia de cervejas, quando chegou seu amigo Raimundo de Souzão e falou:
- Eita Jerônimo ficou bonzim hem? Só falta mesmo tu ir de joelhos para Canindé, ou será que tu vai querer enrolar o santo?
Jerônimo falou:
- Logo, logo eu vou. Só tou esperando tio Pedro tirar um tempinho para ir comigo. 
- Ai vai! E o que é que o Dr. Pedro tem haver com a tua promessa?
- É porque nós vamos no opala dele. Ele vai dirigindo e eu vou de joelhos no banco traseiro.


194 - PERDENDO O NEGÓCIO.

Raimundo, filho de Zé André e Tonha do Sanharol com seus oito anos, reparador e prestador de atenção, saiu com esta coisa de criança.
Tonha fez uns sequilhos e quando tirou a primeira fornada levou um pouco para Zé André, Zé depois que provou disse:
- Estão ótimos, mas quem fazia sequilhos bem, era Minha Madrinha do Sanharol.
Noutra ocasião Tonha fez um tijolo de leite bem caprichado e o primeiro taco levou para Zé. Ele provou e falou:
- Está muito bom. Mas quem fazia tijolo de leite bem, era Menina do Garrote.
Em outra ocasião ela fez um * Chapéu de couro e levou o primeiro para Zé. Ele espalhou aquele disco na mão e saiu roendo pelas margens, até que ficou do tamanho de uma moeda de cinco centavos. Lambeu os beiços e disse:
- Eita, que tá bom que tá danado! Mas os melhores chapéu de couro, quem fazia era Mãe Doá.
Tonha colocou as mãos na cintura e encarou Zé dizendo:
- José, de hoje em diante, você só vai comer sequilhos, tijolo de leite e chapéu de couro aqui em casa se for buscar Madrinha do Sanharol, menina do Garrote e Mãe Doa para fazer.
Outro dia Zé André procurava um ferramenta e não encontrando, ficou danado de raiva e falou grosseiro com Tonha. Raimundo que observava tudo advertiu Zé:
- Pai, larga de abuso, pai já perdeu os sequilhos, o tijolo de leite e o chapéu de couro, Cuidado! Pai vai terminar perdendo o “ Negocinho “
- Vira essa boca pra lá Raimundo. Tu sabes que eu tua mãe somos muito bem casados. Se eu perder o negocinho, Tonha também perde.

* Bolo de massa de milho, feito no caco,

Fonte: Livro de Antônio Morais


193 - GRAN CIRCO VAZANTE

Toda vez que vinha um circo a Várzea Alegre a meninada da Vazante assistia os espetáculos e quando o circo saía pra outra cidade, deixava aquela tristeza na garotada.
Assim aconteceu no ano de 1.957 , quando o circo Estrela Brasil passou uma temporada em V. Alegre. Na despedida do circo nós ficamos com aquela saudade, mas meu primo Nilo Piau falou que a Vazante ia criar seu próprio circo com os artista locais.
Na primeira reunião para criação do circo, onde foi aprovado o nome, Nilo desenvolveu a ficha artística, que ficou assim:
Nilo Piau- Diretor e ator dramático.
Severino Vieira- Palhaço Futrica.
Antônio de Maria Carlos- Macaco Chico.
Paulo Piau- Trapezista Italiano com o nome artístico de Paul Berninazi.
Joaquim De Vicente Piau- Trapezista Japonês com o nome artístico de Kas Ku Dô.
Terminada a reunião ficou marcada a estréia para o sábado pela manhã e o local ficou definido no Riacho do Feijão, que estava seco e tinha bastante areia para amortecer a eventual queda de algum dos artistas. O palhaço Futrica já saiu com um funil na boca anunciando o espetáculo na Vazante e na Lagoa do Arroz.
No dia da estréia o diretor saudou o público que não era mais do que os próprios artistas e anunciou o número do trapézio pelo voador japonês Kas Ku Dô.
O trapézio pendurado numa galha de pau darco. As duas barreiras do riacho serviriam como plataformas para os trapezistas.
O palhaço Futrica pegou no trapézio que estava Kas Ku Dô e gritou:
- Uma, duas, três, três, três meia já! Tá Vogando negrada!
O trapézio passou direto da plataforma e o trapezista foi cair logo por cima de uns pés de rebenta boi, depois tentou o equilíbrio e bateu com a cabeça numa galha de jurema onde tinha um boca torta. . As abelhas se arrancharam todas na cara do trapezista que de louro que era, ficou preto.
Nilo pegou umas galhas de mofumbo, bateu tanto na cara do voador japonês, que quando as abelhas saíram, o artista estava tão intoxicado que os olhos não abriam.
Joaquim começou a gritar dizendo que estava cego o que fez com que tio Vicente que morava perto, viesse até o circo para ver o que estava acontecendo.
Chegando ao local, perguntou ao diretor o que tinha acontecido. Nilo respondeu:
- Foi Kas Ku Dô que passou da plataforma e foi bater logo num boca torta.
- Apois foi bem impregado. Se ele tivesse ido queimar as coivaras do lombo da cajazeira, que nem eu tinha mandado, não tinha abelha no mundo que se arranchasse na cara dele.


192 - SERENATA BARULHENTA.

Certa vez eu e Leandro de Valdeliz fomos fazer uma serenata. A dele era para uma filha adotiva de Chico Máximo e a minha era para Ana Fiúza com quem eu namorava na época. Fomos primeiro para a casa de Chico Máximo na rua Dr. Leandro. Eu todo tempo exigindo silêncio, estava até descalço para não fazer barulho. A radiola era uma Philips daquelas de plástico seco, que emitia o som
nas duas tampas. Uma hora lá Leandro descuidou-se e derrubou as tampas no calçamento. Naquele silêncio da madrugada o barulho foi como se fosse um 
trovão de estalo.
Naquele momento eu vi as lâmpadas da casa de Luís Fiúza acenderam e em seguida ele saiu sem camisa na nossa direção. Como estava escuro eu acendi
um cigarro para que com o claro do fósforo Luís pudesse identificar a minha pessoa. Luís chegou pra mim e perguntou:
- O que é que tá havendo aqui?
- Foi Leandro que derrubou as tampas da radiola.
- Eu devia era dar um tiro nessa radiola
- Não Luís deixa para fazer isso daqui a pouco, que daqui eu vou direto pra casa do seu pai, para fazer uma serenata para Ana sua irmã.
- Eu só não vou fazer isso mesmo porque estou sem balas.
- Pois eu lhe empresto duas. Tome.
- Precisa não eu tou é brincando. Vá logo pra casa de pai, que eu tou doido é pra dormir. E tem mais se quiser carregar Ana minha irmã, pode carregar que pai vai achar é bom.

Dedicado aos meus amigos da família Fiuza.



191 - O  FINAL  DA SEGUNDA  GUERRA  MUNDIAL.

No final do ano de 1944, acontecia os horrores da segunda guerra mundial, comandada pelo ditador Adolf Hitler.
As notícias chagavam em Várzea Alegre atrasadas e destorcidas. Atrasadas porque o sinal da Rádio Globo chegava a passar vários dias sem alcançar a nossa cidade.
Destorcidas porque os nossos conterrâneos que tinha o acesso eram os senhores Fábio Pimpim e Hamilton Correia, dois torcedores ferrênios do regime nazista.
Quando as notícias dos Holocaustos chegavam ao sítio serrote, Luís Inácio ( Boca de Fogo ), Dizia:
- Eu acho é pouco. Pruque num levaro ome pra lá? No dia qui o tenete chegou aqui cum o caminhão, pra levar o povo, eu quís ir, mais ele num quis me levar, levou foi o Bêbo Ontõe Goberto.
Em abril de 1945 o ditador já bastante debilitado da saúde, teve o seu Bunker em Berlim bombardeado pelos países aliados. Esse fato contribuiu para o seu suposto suicídio no dia 07 de maio de 1945. Com aquela grande baixa, a Alemanha afrouxou e com a sua rendição a guerra chegou ao seu final.
Voltando para Várzea Alegre vejamos as repercussões.
Antônio Bitu foi a cidade fazer umas compras e soube da notícia que a guerra havia acabado. Naquele momento ele viu a alegria do povo e teve a informação que os dois nazista de província estavam escondidos. Chegando de volta no Sítio serrote, encontrou Boca de Fogo afiando uma foice.
Bitu na sua empolgação gritou:
- Ei Luís. A guerra acabou-se !
Luís respondeu em cima da bucha:
- Ou trabái Pirdido !
- Qual?
- Esse meu aqui. Apois eu tava amolando essa foice era pra cortar o pescoço de HITLER.

190 - SACO SECO 

Manoel Vicente da Silva ( Totô ). Fez um roçado certa vez no sítio Baixio do Exu, em Várzea Alegre. Contratou alguns trabalhadores entre eles Chico de Elói. Chico era pálido, franzino e desnutrido.
Chegando no roçado os outros roceiros começaram logo a trabalhar e Chico não saiu do canto.
Quando seu Totô notou falou logo:
- Vamos Chico que moleza é essa? Os outros já estão no meio do eito e você nem começou. O que é que está havendo?
- Chico olhou com uma certa tristeza para o patrão e foi logo dizendo:
- Sabe o que é Seu Totô? É pruquê saco seco num fica im pé.
O patrão entendeu e mandou um recado para a esposa fazer para Chico um prato diferenciado no almoço. Dona Vicência caprichou e mandou numa bacia.
Chico comeu tudo que tinha na bacia e ainda tomou uma cabaça de água, depois ficou deitado na sombra de uma moita enquanto os outros já estavam no trabalho.
O patrão chegou perto e falou com ele:
- Chico eu não estou entendendo. De manhã você estava com moleza porque tinha fome. Agora que já comeu bastante continua do mesmo jeito o que é que está acontecendo?
- Sabe o que é Seu Totô? É pruquê saco chei num droba.


189 - COISA DO DIVINO

Valeriano que não batia bem da bola, vivia em Várzea Alegre, todo tempo assustado. Ele se dizia perseguido pelo bando de Lampião e foi não foi, tava ele pulando, se entrincheirando, rolando pelo chão, apontado o dedo indicador e fazendo um pá,pá,pá com a boca para se defender do bando. Tirando dessas vinte e quatro horas de loucura por dia, era um excelente trabalhador da roça.
Teve um ano que Valeriano pediu a Bizim uma tarefa de terra no Buenos Aires para plantar de meia. Roçou, fez cerca, e plantou: Milho, feijão, jerimum, melancia e algodão. Fez tudo que faz um bom roceiro.
Como foi um ano bom de inverno a roça prosperou, só que os jerimuns e as melancias os cabras da Caiana furtaram. O milho e o feijão ele colheu no tempo certo e dividiu com Bizim. Ficou na roça apenas o algodão já todo com bilotos. 
No final de julho o algodão abril que a roça mais parecia um prato de coalhada. Mas Deus dá com as mãos e o diabo tira com os pés. Numa noite lá, que já não era mais nem tempo de inverno, deu umas trovoadas , com raios e relâmpagos e um raio escolheu entre mais de trezenas tarefas de algodão, logo o de Valeriano. Quando amanheceu o dia aquela roça que antes parecia um véu de noiva, tava parecendo mais um fundo de um taxo.
Chegaram os curiosos começaram a comentar com tristeza e um deles mandou chamar Valeriano na rua do Capim. Quando Valeriano chegou que viu a roça toda queimada, sentou-se num tronco de aroeira que tinha sido poupado pelo raio baixou a cabeça sobre os joelhos e começou a falar indignado:
- Mais Cuma é qui pode? Eu prantei essa roça cum todo coidado, tive tanto trabái, quando acabar acuntece uma disgraça dessa. Premêro foi os cão da Caiana qui robaro os girmum e as melancia. E agora vei essse condenado e atiou fogo no meu algodão, qui eu já ia cumeçar a catar amenhã. Mais tombém tem uma coisa, se eu pegar esse infiliz eu faço ele ingulir essa terra misturada cum a cinza. Basta eu saber quem foi o safado qui fez isso.
Fático Fiusa que estava presente, notando que Valeriano não tinha a menor condição de entender os fenômenos da natureza, tentou explicar:
- Tenha calma Valeriano! Isso só pode ter sido coisa do Divino.
Valeriano levantou a cabeça, abril os olhos e interrompeu Fático dizendo:
- Apois onton-se, vá dizer a Divino de Quilicero qui eu vou me vingar dele viu? Eu vou amarrar um ispeto na ponta duma taboca bem cumprida e ficar de tucáia ali no corredor das Melosa. Aí quando ele for passando eu dou uma futucada e adispois eu corro pra sisconder na casa de Leó lá no Riacho do Mei. 

Dedicado a Tiquinha Morais.

188 - ELE VAI DEIXAR NA PORTA.

João Sem Braço um certo dia brincava com outros garotos no sítio Sanharol e de repente chegou um cidadão e abordou João:
- Ei garoto. Para onde essa estrada vai?
- Meu Sinhô. Eu moro por aqui derna de minino e ela nunca saiu daqui pra canto nenhum. Mais se o Sinhô pegá ela e saí no rumo da venta, vai chegá lá no Chico.
Tá certo. Como é que você se chama?
- Meu Sinhô. Eu num me chamo, o povo é qui me chama de João Sem Braço.
- Pois me diga, o que você fez com esse braço que está lhe faltando?
- Ele tá escondido dento da cueca. O Sinhô qué vê?
- Não. Quero não. Você é um garoto muito inteligente. Mas me diga como é que eu faço pra chegar no rabo da mãe?
- O Sinhô sacenta no colo de pai, qui ele vai deixá na porta.


187 - FILHO DE CORONEL;

No ano de 1966 ( Pra mim foi ontem ) Eu e Antão de Souzão fomos tirar as carteiras de identidade no Instituto de identificação da antiga Ordem Social. Chegamos lá e já encontramos umas quarenta pessoas na sala.
Antão reuniu o pessoal e falou:
- Negrada vamos organizar essa fila, porque os funcionários que trabalham aqui são todos policiais reformados da polícia militar e eles são mais afobados do que mineira na T.P.M.
A fila ficou tão alinhada que parecia mais uma corda bem esticada. Logo depois chegou um sujeito vestindo calça marrom e paletó cinza dizendo:
- Vocês trate de organizar essa fila que eu sou o chefe.
Dizendo aquilo ele bateu com a mão aberta no peito e já subiu uma poeira escura e a catinga de barata surgiu no ar. Para surpresa nossa ele falou novamente:
- Eu sou o diretor e não atendo ninguém enquanto não organizarem a fila. O pessoal assustado ficou sem saber o que fazer, até que a fila ficou parecendo um taboleiro de xadrez.
O diretor olhou e falou:
- Agora sim. Eu vou começar a atender.
Antão querendo fazer uma pergunta deu uma passada e falou:
- Colega!...
O chefe interrompeu gritando:
- Colega o que cabra! Você por acaso é da polícia?
- Não Senhor. deus me defenda!
- Pois eu sou sargento da polícia.
- Há coitado! Mas não fique triste não. O importante é a sua saúde.
O sargente expressando um ódio explícito, pegou um par de algemas dizendo:
- Você tá muito gaiato para o meu gosto. Eu vou lhe botar no xadrez.
- Pode botar que o papai vem me soltar.
- E quem é o corno do seu pai?
- É o coronel Souzão.
- O sargento soltou as algemas, trocou aquela fisionomia de ditador por uma de simpatia, pôs as mãos no ombro de Antão e falou:
- Garoto brincalhão. É mesmo que tá vendo o pai. Cabo Uchoa! Prepare logo a carteira aqui do nosso amigo. Meu filho quando você chegar em casa, diga ao coronel Brito que o sargento Lopes mandou um abraço para ele.

- E pra mamãe? Não vai mandar nada não?

186 - PEDIATRIA.

A pedido de uma amiga do memória.

Edimilson Martins passava no mercado de Várzea Alegre onde estavam Pedro e João Mandu conversando. Quando passou uns dez metros teve a impressão de ter escutado Pedro pronunciar a palavra “ pediatria. “ Estranhou aquela palavra pronunciada por uma pessoa de pouca instrução escolar e resolveu voltar para conferir.
Aproximou-se de Pedro e falou:
Pedro eu passava por aqui quando escutei você contando uma história. Você podia repetir para eu escutar?
- Pois é! É cuma eu tava contando aqui pra João meu irmão. Eu tava cassando viado ali na serra da Caiana, quando iscutei uma quebradeira pru riba da serra, aí eu vi o rasto do viado no tronco da aroeira. Ajeitei minha ispingarda saí no camim dos rasto, mais quando cheguei na grota do pé da serra "PERDIATRIA".

Por Mundim do Vale

185 - GAROTO METIDO.

Era festa de Aparecida. E estavam três ônibus da frota de Chagas Bezerra, estacionados na Av. Getúlio Vargas, Chagas Bezerra
conversava com Bizim e Mundim Tibúrcio, na esquina do motor da luz e eu ainda menino dei uma olhada os ônibus, quando ví um deles com o nome varzealegrense faltando o R.
Fui lá onde estavam os três e falei: 
- Tem um um ônibus daqueles que tá faltando um R no nome varzealegrense
Chagas Bezerra reagiu dizendo:
- Não pode. Esse letrista trabalha comigo a seis anos e nunca error esse nome.
Bizim botou a mão na minha cabeça e falou:
- Chagas se o garoto tá dizendo que falta, é porque falta, esse menino é filho de Pedro Piau.
- Pois vamos até lá para conferir.
Quando Chagas viu que de fato faltava o R, concordou comigo e com Bizim.
O Sr. Mudim Tibúrcio num tom de brincadeira disse:
- Mas é fácil de resolver Chagas. Você dispensa o pintor e contrata esse menino.

184 - UM FUXICO LÁ DO CHICO.

Joaquim Fiúza tinha um morador, muito trabalhador mas tinha o defeito de falar da vida alheia. Falava de todo mundo menos dos patrões.
A vizinhança começou a fazer reclamações e Joaquim ficava sempre calado.
Um dia ele almoçava com a sua esposa Izabel, quando chegou Cumpadre mais vexado do que doido com caganeira. Mesmo com o espanto do casal Cumpadre falou:
- Joaquim. Você tem que tomar uma providência com aquele seu morador. Ele anda falando de Deus e o mundo. Se ele inventar de falar mal das minhas galegas, vai voltar pras panelas debaixo de peia.
Joaquim continuou passivo e logo que o reclamante saiu, sua esposa Izabel falou:
- Ou Joaquim! Porque tu não bota logo esse morador pra fora?
- Porque ele é muito trabalhador.
- Mas não vale a pena. Daqui a pouco o povo do Chico tá todo Intrigado da gente.
- Pois você quer saber? Eu vou dizer. Aquele sujeito é muito falador mesmo. É por isso que eu tenho medo de botar ele pra fora. Você se lembra daquele domingo que nós estávamos debaixo da mangueira?
Dona Izabel um tanto encabulada disse:
- Me lembro, Mas o que é que aquele assunto tem a ver com esse outro assunto?
É porque naquele dia, teve uma hora lá que eu olhei pra cima da mangueira e vi o desgraçado sentado numa galha, danado olhando pra nós.
- Pois sendo assim, é melhor você deixar ele quieto mesmo.

Dedicado ao meu amigo Expedito Fiuza e a Flor do Chico.



183 - CONVERSA DE CRIANÇAS - Penteada por Mundim do Vale.

Nos dias de hoje, nós podemos notar mudanças na educação infantil e na comunicação. É mais do que normal o resumo de palavras em mensagens da net. Muito normal também é a gíria popular onde as palavras tomam um sentido diferente.
Hoje quando alguém adquire um problema diz:
- Eu peguei um bucho.
Quando um trabalho é mais complicado dizem:
- Isso é um bucho.
A educação infantil vem se modernizando tanto, que se alguém falar em cegonha para uma criança de seis anos, core o risco de ser chamado de retrógrado.
Há alguns anos atrás, era um bucho muito grande para os pais explicarem, o processo de gravidez e parto para os filhos.
Lá no meu simpático Sanharol aconteceu uma vez a seguinte história.
Antônio Gonçalo do Sanharol, era um cidadão amigo, trabalhador e muito honesto. Homem alto forte que pesava 180 kilos e como todo gordo tinha o buchão. Morava vizinho a casa de Zé André e Tonha.
André, o terceiro filho do casal, tinha seis anos de e já era um tanto esperto para aquela idade.
Certa vez estavam Pedro e Antônio Morais conversando baixinho num quarto e o assunto era barriga de mulher. André subiu na janela e surpreendeu os irmãos dizendo:
- Ei Antônio. Quem cochicha, o rabo espicha.
Antônio respondeu:
- E quem escuta, o rabo encurta.
Logo depois André perguntou a sua mãe:
- Mãe! Eu só queria saber porque titia tava com o bucho grande, aí botaram um menino pela brecha da porta e o bucho ficou pequeno. Cotinha de Raimundo Bitu, tava com o bucho grande, botaram um menino pela brecha da porta, aí o bucho ficou pequeno. Tereza Oiti, tava com o bucho grande, aí foi lá pras banda do Junco e botaram Zé Mariano por debaixo da porta e o bucho dela murchou.
Porque não botam um menino pela brecha da porta da casa de Antônio de Gonçalo, pra ver se o bucho dele fica pequeno também

182 - A DERROTA DA VITÓRIA

Meu amigo acadêmico do cordel Sávio Pinheiro, dizia numa postagem, mais do que procedente, que os bichos que tem mais medo de fogos são; Prefeitos derrotados e cachorros, esqueceu o bom poeta, que tem mais gente.
No meu bom Sanharol, estavam os primos Dr. Pedrinho, Neto Aquino, Dakson e outros mais, comemorando a suposta vitória do P.T., durante a apuração.
Faltando apenas dez minutos par a conclusão. A Dilma já estava com uma margem de votos, tão significativa, que não havia mais a menor possibilidade, para que o adversário conseguisse virar a situação.
Dr. Pedrinho e Augusto Cezar já contando com aquela vitória, resolveram soltar uma bomba, só que meu amigo Giovani já baleado da cachaça, dormia numa cadeira o sono da embriaguês.
Na hora do papoco, Giovani assustou-se e a cadeira partiu, quebrou o som, o computador e a cadela de Fernando Souza correu para o forno de assar pão-de-ló.
Ganhou a Dilma e perdeu Giovani, que de tão perturbado, 
Ficou sem condições de fazer a nova prova do ENEM.

Mundim Do Vale.

181 - Coisas Nossa - Por Mundim do Vale

O meu pai Pedro Alves de Morais ( Pedro Piau ) Era escrivão do cartório do segundo ofício.E João Alves de Lima ( João Francisco ) Do primeiro ofício. Os dois cartórios ficavam na rua Major Joaquim Alves, em Várzea Alegre a menos de 50 metros de um para o outro.
Rita Valdeliz Correia, casada com Jesus Clemente, acumulava as funções de distribuidora e contadora da comarca, mas tinha dificuldade para fazer o seu trabalho. Sempre recorria ao meu pai ou a João Francisco.
Um certo dia meu pai estava lavrando uma escritura com uma certa urgência, quando chegou Valdeliz com quatro processos na mão. Colocou no balcão e falou:
- Pedro Piau. Distribuía esses processos para mim, que já tá com cinco dias que o juiz despachou e eu ainda não tive tempo.
Meu pai sem nem levantar a cabeça disse:
- Valdeliz. Eu sinto muito. Mas você teve cinco dias para distribuir e não distribuiu, agora vem no último dia, quando eu estou muito ocupado. Não vai dar não.
Valdeliz catou os processos e saiu para o outro cartório. Chegando lá encontrou João Francisco um tanto nervoso, mas resolveu arriscar:
- João. Distribuía esses processos, que eu só tenho prazo até amanhã.
O escrivão sério ou brincando disse;
- E porque você não distribuiu? Não é você a distribuidora?
Valdeliz com expressão de decepção ainda quis salvar o seu problema dizendo:
- João Francisco parece que não gosta de mim.
- O escrivão respondeu curto e grosso, como baga de charuto:
- E NEM DE JESUS!

180 - QUI  NEM  PANELA  DE  BARRO.

O casal, Bastião e Benvina, residentes no sítio Aba-da-serra no município de Várzea Alegre – Ceará, depois de muitas brigas por conta de ciumes, resolveram fazer a separação amigável, sem que para aquilo tivessem que recorrer as autoridades jurídicas. E o mais interessante desse causo, foi que 30 minutos depois do litígio, eles fizeram a conciliação.
Assim foi o diálogo para os dois feitos:
Bastião disse:
- Benvinda num vai mais dar certo esse nosso amancêbo não!
- Pruque omi?
- Pruque eu sei qui tu tá pondo no mato.
- Basta! Só por isso? E tu tombém num tá omi de Deus?
- Eu mermo num tou não. Mais tu tá pensando qui eu num ví tu lá na queima da caieira cum Seu Ogeno?
- Ôxente Bastião, eu fui só levar umas tripa de poico qui ele pidiu pra tirar o gosto.
- E pricisava de vocês dois tá nu?
- Mais omi, é pruque tava muito quente as braza da boca da caieira.
- E tinha pricisão dele tá bejando tu?
- Não, homi. Aquilo era ele assoprando prumode isfriar a minha quintura.
- Eu morro e num acridito.
- Mais tu tombém fica aí querendo ser dereito e pensa qui eu num vi tu mais Vitalina Pernêta lá na cacimba de Seu Duarte.
- Mais muié. Eu fui lá só prumode ajudar a incher o cabaço dela.
- E pra incher o cabaço tinha qui ser os dois nu?
- Eu já vi qui tu é abirobada mermo. E era de nós moiar as roupa?
- É. Mais eu vi tombém tu abufeda cum ela, qui parecia um cadiado dento dôto.
- Alí foi quando ela tombou do lado da perna fina, aí eu se agarrei cum ela, prumode  num quebrar o cabaço.
- Pois é, Bastião. Eu acho mais mior é nós separar os pano de bunda mermo.
- Benvinda se tu quiser nós pode deixar do jeito qui tá, pruque bala trocada num dói né?
- É.
- E tem mais uma Benvinda. Esse negoço aí, é igual a panela de barro, lavando fica do mermo jeito.
- Apois tá certo!

Naquele momento ficou celebrado a conciliação.


179 - PRAGAS  TROCADAS.

Eram meus vizinhos no sítio Vazante; Zé de Mundim ( Pai da Ribeira ) e E sua prima Mundinha.
Dia 23 de agosto e a festa do padroeiro acontecendo; Salvas, novenas, barracas  parque Lima Instalado na Av. Getúlio Vargas com; Canoas, ondas e carrossel de cavalinhos.
Mundinha chegou com muita simpatia e pediu:
- Zé ramo mais eu pra rua, pruque pai dixe qui só dêxa eu ir se for mais tu.
- Vou não! Num vou de jeito maneira. É muito ingraçado mermo, eu vou mais tu quando acabar chega os caba querendo namorar cum tu, te leva pra rodar no carrossel dos cavalim, adispois te leva pru mode tumar sopa no café de Dona Domicila e eu fico só abigorando, pruque num tem dinheiro. Vá caçar ôto besta.
- Apois tá bom. Quem manda tu ser liso? Tu é igual a peito de omi, num serve pra nada.
- Ái, é? Apois eu ainda vou ver tu do mermo jeito das galêga do Monte Alegue. Aí, eu quero ver se tem algum caba qui quêra namorar cum tu.
- Vôte. E o qui é qui tem  as galêga do Monte Alegue?
- Elas faz é num ter.
- Num ter o que?
- Cabelo!  Elas são igual aquelas manequim de prástico qui tem nas loja. Num tem cabelo im canto nenhum,
- Ái, é praga é? Apois eu tem fé im São Raimundo, qui ainda vejo tua boca igual a uma gaveta.
- Como?
- Sem língua e sem dente, qui é pra tu num jogar mas praga neu

178 - É O RETRATO DO PAI.

No dia da inauguração do campo de pouso de Várzea Alegre, foi feita uma grande festa. Joaquim Diniz disponibilizou dois caminhões da usina, para o
transporte do pessoal. Tinha ainda os automóveis, animais, bicicletas e muita gente de pé. A meninada era a mais eufórica.
Demontiê Batista foi até a mercearia do seu pai e pediu:
- Pai. Deixe eu ir olhar o avião baixar.
- Não!
- Mas pai.
- Não! E se você teimar, vai levar uma piza sem precisar nem de sorteio.
O garoto saiu contrariado mas quando viu os outros meninos subindo no caminhão, não resistiu e foi também. Logo depois André encontrou-se com
Noberto Rolim e perguntou:
- Noberto tu viu Demontiê por aí?
- Eu vi. Ele tava amorcegado no bigu do do caminhão da usina.
- Pois quando ele chegar vai apanhar.
Dizendo isso foi para a mercearia já com o cinto na mão.
Enquanto isto Demontiê tava no campo de pouso na maior alegria. Mas já pensando em desenvolver um plano, para se livrar da piza de André. Vendo aquela multidão ele teve a excelente idéia de vender goiabas. Foi na casa de Paraíba tomou emprestado um balaio e desceu para o sítio dos seus tios. Colheu as frutas e vendeu todas, apurando um bom dinheiro.
Quando chegou na cidade, que desceu do caminhão, a primeira pessoa que viu, foi Noberto, que foi logo dizendo:
- Tié tu se cuida que teu pai tá te esperando com um cinto na mão. E ele disse que a cuíca vai roncar.
- Deixe comigo que eu já sei o que fazer pra desdobrar ele.
Pegou o pacote do dinheiro tirou 50% botou no bolso da bunda e levou o restante na mão. Quando chegou na mercearia, André estava na porta com uma mão na ponta e outra na fivela do cinto. Demontiê apresou o passo com
Muita firmeza e falou:
- Taqui. Oh pai! Esse dinheiro foi eu que apurei vendendo goiaba lá no campo de aviação. Eu trouxe para o Senhor.
André mudou a expressão, enrolou o cinto e pegou o dinheiro dizendo:
- Eita menino esperto! É O RETRATO DO PAI.

177 - OURO BRANCO. 

OURO BRANCO, era como chamavam o algodão nas décadas de 50 e 60.
Eu fui testemunha dos benefícios trazidos por aquela cultura. Principalmente para nós nordestinos. Ganhava o governo com as divisas geradas pelos impostos de importação, ganhava os usineiros com o beneficiamento do algodão e seus derivados, como o resíduo, o óleo, o sabão e outros mais. Ganhavam os agricultores, que com poucas arroubas vendida, cercavam a propriedade, faziam cacimbões e compravam algumas cabeças de gado. Ganhavam os colhedores que trabalhavam ganhando por quilo colhido.
Na nossa pequena Várzea Alegre, o comércio estendia o crédito de janeiro a agosto aos agricultores, para receber depois da colheita. E é bom que se diga que não tinha nenhuma alteração no valor, em virtude de não haver inflação.
Era o ouro branco que garantia aos nossos conterrâneos dos sítios:
Uma roupa nova, um calçado, a esmola de São Raimundo, a cerveja gelada na barraca de Bié e a sopa no café de Domicília.
O jornal Correio do Ceará estampou uma vez na sua primeira página a seguinte matéria. “ Em Iguatu o agricultor Chagas Neves, colheu na sua primeira apanha 16 mil arroubas de algodão.”
Respeitando as devidas proporções, foi naqueles anos que a paróquia de várzea Alegre, recolheu mais esmolas para o padroeiro.
Mesmo com as poucas e distantes faculdades da época, foi graças ao ouro branco, que alguns dos nossos conterrâneos formaram se nos mais diversos cursos.
A colheita de algodão era uma festa, as crianças participavam sem nenhum compromisso de trabalho, eles catavam o algodão mais baixo, para assim pouparem as colunas dos mais idosos.
Se aquela cultura tivesse continuado como foi um tempo, a história do nordeste hoje seria contada diferente.
Há quem diga que os benefícios advindos do governo como: Bolsa família, aposentadoria por idade e outros mais, vieram para compensar a falta do ouro branco. Perdoem-me os que assim raciocinam, Mas eu não concordo pelos motivos a saber:

. O ouro branco beneficiava ocupando.
. O governo beneficia desocupando.

176 - MUDANÇAS.

Eu digito este texto com saudades das coisas que me acompanharam, no longo de todos esses anos. Se algum colega quiser questionar, eu estou aberto para o debate, na área de comentários.
Vejamos:

. A boneca bárbie atropelou as bonecas feitas de sabugos ou de flor de mandacaru.
. O axé baiano atingiu as machinas carnavalescas e ficou mandando no carnaval.
. Os vídeos games tiraram os meninos do artesanato de barro e as meninas das cantigas de rodas.
. O autêntico forró de pé de serra perdeu seu espaço para as bandas de forró de litoral.
. As máquinas colhedoras de arroz, liquidaram com os adjuntos das apanhas.
. Os bispos estão pouco-a-pouco acabando com os leilões e quermesses.
. A divisão da religião, acaba a cada dia com os penitentes.
. A sentinela mudou o nome para velório, já já o finado vai para o cemitério sozinho.
. Os profetas de chuvas, foram absolvidos pela FUNCEME. . A primeira comunhão já estão chamando de primeira eucaristia, só falta mesmo todo mundo morrer.


175 - COM QUE ROUPA EU VOU?

Houve um tempo em Várzea Alegre, que a principal atração para as crianças e adolescentes, eram as corridas de cavalos no prado.
Uma vez Chico Tida tava ajudando a sua mãe Darca, na lavagem da casa e de impacto puxou esse assunto:
Ô mãe. Eu tava cum tanta vontade de ir oiá a currida de cavalo lá no prado dos Grossos. Hoje o cavalo Fiapo de Migué Ogusto, vai corrê contra o o cavalo preto de Seu Erotide.
- E porque num vai?
Cum qui rôpa eu vou?
- Vá com aquela que você vestiu no natal.
- Pera. Mãe! Aquela rôpa do natal, faz tempo qui eu butei ela na báia.
- Pois peça uma de seu padrinho Zé Leonardo.
- Mãe tá ficando broca? Num tá vendo qui a rôpa de meu padim Zelunardo, fica frouxa neu.
- Pois arrume uma, com Seu Dudu.
- Tombem num dá não mãe. Pra dá certo neu, tinha qui ser uma de Zé de Ermina, ou onton-se, de Dedé de Frazo.


174 - DIA DO JUÍZO FINAL.

No ano de 1932 além da grande seca, surgiu um boato em Várzea Alegre, de que São Raimundo tinha aparecido a uma beata dizendo que o mundo ia se acabar ás 05 horas da tarde do dia 13 de agosto. Dizia ainda, que o sinal seria
Três estrondos semelhantes a trovão. O primeiro ás 15 horas, o segundo ás 16 horas e o terceiro e último ás 17 horas.
A pequena população ficou em polvorosa. No dia marcado algumas famílias resolveram reunir-se na usina de Vicente Primo, para rezarem e morrerem juntas. Entre as famílias estava a do escultor de São Raimundo Nonato, Zé de Toim, a sua família era composta do casal e sete filhos. Um desses filhos era
Valdomiro ainda garoto.
Na usina as famílias reunidas começaram as rezas:
- Ave Maria – Salve Rainha – Pai nosso
Nesse momento a mãe notou a ausência de Valdomiro e muito preocupada falou: 
- Oh meu Deus, cadê Valdomiro? Onde se socou esse menino? Porque não está aqui para morrer junto com a gente? Ou Zé! Vá cassar o bichim vá!
Enquanto isso Valdomiro já estava na Betânia acompanhado de outras crianças. Chegaram na casa de Vicente Cassundé, encontraram vazia porque os moradores também estavam rezando na usina. Daí começaram a malinar em tudo que encontravam. Tinha na dispensa um tubo de guardar legumes que estava vazio e no canto da parede um pau de bater arroz.
Quando Valdomiro viu o pau falou:
- Eu vou já fazer o primeiro sinal. 
Deu uma pancada tão violenta naquele tubo, que com o silêncio que havia naquele momento, toda a cidade escutou.
Lá na usina começou o chororou:
- Valei-me São Raimundo.
- Valei-me meu Padim Ciço! Foi o primeiro sinal!
Uma hora depois Valdomiro disse: 
- Tá na hora do segundo sinal.
Deu uma pancada mais forte do que a primeira , de tão forte que foi, fez calos nas mãos.
Lá em baixo na usina nessa hora do segundo aviso já caiu uns quatro ou cinco idosos com ataques.
Depois da arrumação Valdomiro desceu para a usina, onde a mãe chorava pensando não ver mais o filho. Nessa hora já tinha mais de dez com a vela na mão, foi quando o Mestre Horácio perguntou:
- E o último sinal que hora é que vai ser?
Zé de Toim olhou no relógio de algibeira e falou:
- Já passa 15 minutos eu acho que não vai ter mais sinal não.
Valdomiro falou: 
- Vai não pai! Eu não vou mais bater naquele tubo não, porque eu já tou com as mãos toda imbatocada. 
– Pois tu vai ficar também com o espinhaço imbatocado depois das lapadas que eu vou lhe dar.
Aquele não foi o dia do juízo final, mas Jorge Siebra foi chamado para atender Valdomiro e mais de quarenta idosos.

Dedico este causo ao meu grande amigo Zé Haroldo, neto do escultor de São Raimundo, Zé de Toim.
Mundim do Vale.

173 - JUMENTO SEM TETO.

Antônio de Gustavo e Zaqueu Guedes, viviam em questão por causa de um jumento de Zaqueu, que comia solto num corredor e de vez em quando, arrombava um cerca e passava para a roça de Antônio, para comer o legume. 
Depois de várias confusões lá no sítio, o Sr. Acelino Leandro que é primo de Antônio e amigo de Zaqueu, mandou chamar os dois lá na Casa das Máquinas para tentar uma conciliação. Era um sábado dia 
de feira, quando primeiro chegou Antônio e logo depois chegou Zaqueu. Acelino mandou que os dois subissem para o seu escritório e perguntou o que estava havendo, Antônio estava bastante nervoso ao contrário de Zaqueu que estava muito tranqüilo. Acelino se portando como mediador, começou a falar:
- Bem pessoal! Eu mandei chamar vocês dois aqui para ver se podemos resolver esse problema sem maiores conseqüências. Vocês são pessoas de bem e não faz sentido uma questão por causa de um jumento.
Antônio mais apressado falou:
- Pois é. Acilino eu num posso deixar qui o jegue desse outro jegue aí, acabe cum meu ligume.
Zaqueu muito mais calmo falou:
- Mais Acilino é pruque eu num tem pasto. O jeito qui tem é o jegue cumer no corredor.
Antônio cada vez mais irritado disse:
- Mais o jegue é seu, leve ele pra cumer no inferno.
- É mió você ajeitar sua cerca, pruque o corredor é do gunverno.
- Apois você vai tirar o jegue nem qui seja dibaixo de bala.
- Mais ontõe pur amor de Deus, adonde é qui eu vou butar meu jumentim prumode ele cumer?
- Guarde ele na sua bunda e Deixe ele cumer lá.
Acelino mandou Zaqueu se retirar e ficou acalmando seu primo enquanto Zaqueu descia para o salão.
Quando passava no salão, Vicente Cesário que se balançava numa cadeira falou:
- Zaqueu! Eu escutei a proposta de Antônio de Gustavo, mas não é melhor tu arranjar outro lugar pra botar o teu jumentim não?

172 - MAMÃE EU  QUERO.

No ano de 1964, foi formado um bloco de índios, que era composto: Por Homero Proto, Antônio Almeida, João Morais, Antônio Ulisses e esse contador de causos. Chico Pão era o cacique e o segurança do bloco.
O carnaval de rua era fraco e o baile noturno funcionava no bar de Nêgo De Aninha.
No domingo o nosso bloco deu uma volta pela antiga rua Major Joaquim Alves, ( Que ainda devia ser ) E à noite foi para o baile.
Ednólia Correia Diniz, tinha trazido uma fantasia indígena de Fortaleza e passou um tempinho junto ao bloco, fazendo com que o grupo ganhasse mais beleza e prestígio.
Chica do Rato ficou na porta e não tirava os olhos da gente.
Na manhã seguinte Xixica chegou para sua mãe Samaria e falou:
- Mãe! Vigia aí esse saco de pena, qui é prumode eu apregar na minha sáia, pra fazer uma fantasia de índia, pra eu ir vadiar no carnaval no bar de Nego de Aninha.
Samaria tinha pouco juízo também, mas as vezes dava uma dentro.
Notando que a pretensão da filha não tinha futuro advirtiu;
- Francisca. Larga mão de ser besta, qui tu é pobe e carnaval é coisa de gente rico.
- E Cuma foi qui eu vi Ednólia vistida de índia lá?
- Mais muié. Ednólia é neta de Quinco Honoro e de Jusué Diniz.
- Basta! E Chico pão? Ele tombém é neto De seu Quinco e de seu Zizué? Apois ele tombém tava lá, qui eu vi.
- Francisca. Tu vai cuidar dos teu pioi, qui é muito mais mió.
- Apois eu vou fazer minha fantasia e vou sair de índia aqui na rua dos piru.
E assim aconteceu. Na segunda feira ela desfilou do motor do coronel Dirceu, até o Ingém Véi acompanhada de mais de 60 meninos, cantando “ Mamãe eu quero. “
Aquele dia Várzea Alegre teve o seu melhor carnaval de rua.

Dedicado a Ednólia Correia e Odalice Leandro. As inimigas da informática.

171 - PRENDA  TROCADA.

Na cidade de Várzea Alegre houve um tempo em que a grande atração era o leilão de São Vicente. Os fiéis munidos de devoção, compariciam em peso para arrematar as prendas e tomar umas cervejas.
Em um desses leilões, alguns fiéis formaram uns grupos isolados para disputar as prendas.
No lado norte estavam; Lasdilau Camilo, Dudal,Mundim e Lourival Frutuoso.
No lado sul; Luís Proto, Zé Gregório, Luís Diniz e Natércio Andrade.
No lado leste, era o grupo da matança; Luís de Cícero Inácio, Quinzim, Luizão Pagé e Raimundo de Freitas.
O leiloeiro José Sobrinho subiu uma galinha cheia e depois de alguns lances Lasdilau Camilo Arrematou. Feito o pagamento Lasdilau falou para o leiloeiro:
- Leve para o meu amigo Luís.
O pregoeiro embaraçado, seguiu para outro ponto cardeal e entregou a prenda a Luís de Cícero Inácio. Os amigos de Luís atacaram a galinha, que só sobrou mesmo a farofa para Luís e a bandeja para zé Sobrinho. A prenda sumiu mais rápido do que bolinha de termômetro em piso de cerâmica.
Lasdilau constrangido com a troca abordou o leiloeiro:
- Zé Sobrinho. Eu ofertei a galinha foi para meu amigo Luís Proto e você entregou foi a Luís de Cícero Inácio.
Zé Sobrinho ainda embaraçado respondeu:
- Mais omi, é pruque eu tou sozim prumode fazer tudo. Mais ramo fazer disso; Eu vou assubi aquele girmum de leite, ai você remata e oferta a Luís Proto.
O Leiloeiro subiu o jerimum que mais parecia um pilão. Gritou, gritou e nada de ninguém fazer um lance.
João Doca querendo contribuir com São Vicente, arrematou a prenda pelo preço do lance do pregoeiro e mandou que fosse entregue ao poeta Bidim.
Bidim recebeu a prenda e no dia seguinte chegou no café de Domicília recitando essa décima.

Comi de um girmum caboco
Já da rama derradeira,
Era mole com cêra
Tinha água igual a côco.
Vingou em cima de um toco
Três palmos acima da terra,
Encarnado como guerra
Com o gosto de cupim.
Foi esse o girmum mais ruim
Que deu na Aba-da-Serra.

170 - CABRITOS SEM CRITÉRIO

No ano de 1.971, Antônio Ulisses Costa, de saudosa memória, marcou uma viagem à fortaleza quando levaria seu avô Dirceu Pimpim para fazer uns exames médicos. Para ter uma companhia com gente da sua idade, convidou esse contador de causos e Alberto Siebra. Nós logo aceitamos, porque de graça a gente pegava até ônibus errado.
A partida foi num sábado de madrugada, quando eu e Alberto entramos na parte traseira do jeep, o coronel Dirceu perguntou ao seu neto:
- Pra onde é que esse menino de Piau vai?
- Esse menino vai mais nós pra ensinar a estrada porque eu não conheço.
- E Oberto irmão de Armicinda vai pra onde?
- Alberto vai para me ajudar a trocar pneu quando furar.
Viajamos pela estrada do algodão,quando passamos do Poço do Mato, Alberto soltou um canarinho que azedou o jeep. O coronel tapou o nariz, olhou para o neto e falou baixinho:
- Cabritos sem critério.
Paramos para o almoço numa pequena pensão na cidade de Quixeramobim, que pertencia a um amigo de José carvalho. Uma senhora muito distinta nos atendeu e Antônio Ulisses encomendou uma comida sem sal para o avô e uma galinha pé-duro acompanhada de pirão e farofa para nós. Alberto mais Antônio Ulisses comeram tanto que eu já estava com pena da mulher. Já tinha vindo o pegado, os miúdos, farinha e até um cuscuz do dia anterior. Teve uma hora que a mulher na tentativa de acalmar a fome voraz dos dois teve a idéia de oferecer um suco. 
Olhou para Alberto e falou:
- O Senhor quer um ponche de abacaxi?
- Quero sim senhora.
A mulher trouxe num copo mas Alberto não gostou, olhou para ela e disse:
- Minha Senhora traga um litro.
A mulher assustada falou:
- Vixe Maria!
- Mas é um litro pra cada.
Depois do descanso do almoço seguimos nossa viajem e chegamos em Fortaleza já anoitecendo. Tiramos direto para a Av. dos expedicionários onde morava Maria Amélia. Lá ficaram Alberto e Antônio e eu fui para o Jardim América deixando logo combinado um passeio na praia no dia seguinte.
No domingo cedinho fomos os três para a praia do Náutico onde tomamos bastante caipirinha. Já com as nossas cabeças quente pegamos um táxi para casa. Mas diz aí quem era o motorista? Eu digo, Pois não era um sargento do exército reformado.Vale lembrar que nós estávamos vivendo no miolo da ditadura militar.
Quando nós chegamos no canal da rua Luciano carneiro, apareceu uma catinga desgraçada de esgoto. Antônio Ulisses que ia no banco da frente de lado do motorista, colocou os dedos no nariz e falou:
- Tu tá peidando raimundim?
- Não Senhor! Foi Alberto que abriu a boca pra cantar o hino nacional.
Mas pra que eu fui dizer aquilo. O motorista deu uma brecada que esquentou o banco do carro. Em seguida foi descendo e começou a gritar:
- Desce todo mundo! E vocês dois aí estão presos por desrespeito ao hino nacional. Vamos descendo logo cambada de subversivos!
Alberto olhou para mim com uma cara triste e disse:
- Tamo lascado Raimundim.
Antônio Ulisses que tinha servido no início da ditadura, tentou negociar usando termos militares e promovendo o sargento a capitão:
- Meu capitão! O senhor tem toda razão, é dever de todo brasileiro respeitar os símbolos nacionais, eu já fui militar e sei que é assim. Mas o senhor dispense os meninos porque esse baixinho tá leproso, veio aqui para fortaleza para se internar. E aquele gordinho também tá doente – Fazendo um sinal girando o dedo em torno da orelha – Para o Senhor ter uma ideia, quando ele fica mais aperreado caga nas mãos, bota nos bolsos e fica jogando merda em todo mundo.
Num ato de total sincronismo. Alberto simulou que estaria desabotoando as calças. Quando o motorista viu a arrumação ficou colocando Antonio Ulisses na sua frente como se fosse trincheira e foi logo gritando:
- Bem pessoal! Em atenção aqui ao colega de caserna eu vou dispensar vocês. Estão todos liberados. Vão com Deus. 

Mundim do vale.

169 - A ESCOLINHA  DO  PROFESSOR  RAIMUNDO


A escolinha do Professor Raimundo da rede globo, com certeza foi inspirada na escolinha do meu tio Raimundo Piau.
O meu tio preocupado com a educação dos seus filhos, uma vez implantou uma escolinha noturna na sala de sua casa, para ensinar aos seus filhos: Antônia, Geraldo, José, Nilo, Socorro e alguns vizinhos que não pagavam nada. Paulo ainda criança inventou de estudar também.
A escolinha ia muito bem até que um dia que deram um livro a Paulo, para que ele se sentisse um estudante e deixasse os outros aprenderem.
Uma hora lá um dos vizinhos disse: 
- Eita que Paulo com esse livrão tá parecendo um Nafabeto! Os alunos começaram a rir e alguém não sei se intencional, deu um sopro e apagou a lamparina.
No escuro a bagunça foi geral, quando acenderam a lamparina, não tinha mais nada no lugar.
O educador aborrecido Falou: 
- Esse foi o último dia da escolinha. O meu salário é muito pequeno Para tolerar essa bagunça.
O professor era o pai da educadora Socorro Martins Morais.



168 - CUECA  ESTRIBADA

Essa munganga de esconder dinheiro em cueca, não foi invenção desse assessor não. Algumas pessoas já usavam essa prática há muito tempo, Ou faziam para esconder dinheiro dos garapeiros, ou para não pagar as contas.

Luís Macedo ( Lila ) Tinha um costume De: Comer, beber, pegar transportes e na hora de pagar dizia que não tinha dinheiro e por isso mesmo ficava.

Certa vez Lila chegou no bar e restaurante de Nêgo de Aninha , sentou-se numa mesa e se danou a pedir cerveja, tira-gostos e ainda ficou oferecendo para quem chegasse por lá. Já estava com
umas  vinte cerveja na mesa e pedindo mais. 

Mandou servir refrigerantes e chocolates para a meninada, e dizia que era tudo por sua conta. Chico Barros, que já tinha comido e bebido por conta dele, saiu na calçada e comentou com Nicolau Barbeiro:

- Niculau. Eu  tem na mente, que Lila tá sendo é Tiradentes cum o pescoço de Nêgo de Aninha. Pruque eu nunca vi  ele pagar uma conta a ninguém.

Ao redor da mesa já tinha mais menino do que fita em chapéu de cigano. Quando foi na hora de pagar a conta, Lila disse que não tinha nem uma banda.

Zé de Totô que estava presente disse a Nêgo:
- Ele tem dinheiro entocado, que hoje mesmo ele vendeu uma vaca a Antônio Pagé. 

Vamos fazer uma busca nos bolsos dele.
Os dois seguraram Lila, que ficou passivo sem esboçar nenhuma reação. Meteram as mãos nos bolsos da calça e da camisa, mas nada encontraram.

Zé  de Totô passou a mão na traseira *curou a bicheira antes de sentir um volume, depois falou:
- Nêgo! A cueca dele tá cheia. Se não for o que eu tou pensando,
ele  tá estribado. Derrubaram Lila no chão, tiraram a roupa e encontraram  o dinheiro da venda da vaca.

Nêgo tirou o dinheiro, cobrou a conta, incluiu uma saideira pra Zé e ainda cobrou uma conta velha, do dia da inauguração da luz de Paulo Afonso.

Mas não houve crise no governo, não caiu ministro e nem presidente de partido.

* Curar a bicheira. Lá pra nós era uma dedada no anel.

167 - A FIGURA DO DEMO

Teve um tempo em Várzea Alegre que eu só andava com Antônio Ulisses. Por conta da nossa grande amizade nós arranjamos uma paquera com duas garotas do sítio Varas, que eram irmãs. Uma dia lá Antônio Ulisses soube que havia falecido uma velha lá nas Varas e veio me convidar para ir com ele argumentando que as meninas poderiam aparecer no velório. A princípio eu não concordei achando sem futuro porque era de noite e não era tão perto, mas ele me convenceu dizendo que ia arranjar um jumento do pai dele. Depois de me convencer ele saiu e logo depois chegou com um jumento tão grande que parecia um burro.
Partimos por volta das sete horas da noite. Passando pela bodega de Raimundo de fama tomamos meia garrafa de cana e já saímos de cabeça quente. Quando chegamos no Buenos Aires eu tirei um realejo do bolso e fui tocando mais desafinado do que Manoel da Rebeca.
Quando passávamos no corredor das Melosas eu avistei uma luz de lamparina numa casinha que tinha dentro da roça, aí falei:
- Deve ser naquela casa. Vamos lá.
- Vamos.
Encontramos um rapaz demos boa noite, ele respondeu e depois falou:
- Vocês não me leve a mal não, mas parem de tocar que morreu uma velha naquela casa.
Ficou assim confirmado o local do velório.
Nós descemos, amarramos o jumento num juazeiro, entramos e demos os pêsames ao viúvo. As garotas não estavam, tinha apenas seis pessoas a saber: Eu, Antônio Ulisses, Neguinho das Gaiolas, o viúvo, a finada e Afonso cunhado de Manoel Cabeção, que já estava de luto fechado. Ele usava sapato preto, calça preta, chapéu preto e camisa preta de manga longa. Era a figura do Demo.
Deu onze horas da noite e nada de chegar as meninas nem mais ninguém. Quando foi onze e meia Afonso se despediu dizendo que tinha de bater uns tijolos no dia seguinte, mas depois eu descobri que a intenção dele era de assustar a gente na volta para a cidade.
Por volta da meia noite nós resolvemos voltar. Na saída que dava para o corredor das Melosas eu dei uma pancada na cancela que meu companheiro quase caia do jegue. Depois desse susto nós ficamos calados, mas de repente eu quebrei o silêncio:
- Antônio! Se a alma da velha aparecesse aqui o que era que tu fazia?
- Eu me agarrava com ela e dava uns cocorote pra tirar os pecados
Quando nós passávamos de lado de uma moita de mufumbo, Afonso pulou na frente do jegue abrindo os braços. Deu um grito tão pavoroso que os cachorros do sítio Fundão latiram. O jegue deu quatro saltos, mas três foi de graça, porque logo no primeiro nós caímos.
Eu caí para o lado esquerdo pulei a cerca e corri na direção da cidade, Antônio Ulisses caiu pela direita pulou também uma cerca e correu na direção do Rosário e o jegue assustado correu de ré na direção do sítio Coité.
Este causo terminou assim:
Eu amanheci o dia rezando na porta da igreja matriz de Várzea Alegre, Antônio Ulisses foi parar na casa de Leó no sítio Riacho do Meio e o jumento foi encontrado quatro dias depois relinchando debaixo de um pé de oiticica no sítio Caiana.
Antônio Ulisses sempre que falava no assunto dizia que tinha visto a figura do Capiroto, mas eu tenho convicção de que era Afonso.


166 - MUNDIM DA PORCA - Por Mundim Do Vale

Não existe pecado maior do que a inveja. mas quando parte de uma criança, Deus perdoa.
No ano de 1952, contando apenas com seis anos ( Coisa que não faz muito tempo ) Eu alimentava uma inveja criminosa, de Zezé Salviano, que passeava num carneiro com arreio e tudo. Quando ele passava montado naquele carneiro, era como se estivesse me surrando.
Em casa eu só falava em ganhar um carneiro também:
- Eu sei que um dia eu vou passear da Vazante até a rua, no meu carneiro.
Madrinha Mimosa dizia:
- Você vai chorar godê.
Eu respondia:
- Deixe de besteira que meu padrinho Áureo disse que vai me dar um.
- Basta! Só se for quando galinha criar dente.
Eu era tão ingênuo que todos os dias assim que me acordava, corria para o chiqueiro, pegava duas ou três galinas, e abria os bicos pra ver se já tinha nascido dentes.
Como o meu propósito estava ficando impossível, eu resolví mudar de idéia. tirei uma imbiras de salsas, lacei uma porca de Joaquim Beca e montei. Entrancei as pernas no vazío da porca e segurei nas orelhas, fazendo com que a porca ficasse assustada.
Era a porca roncando e eu chorando. Partimos da casa de meu tío Raimundo Piau em direção a casa de Caetano de Zezim de Matias e só fomos parar quando a porca escorregou numa lama pegajosa que tinha na ladeira.
A porca fugiu e eu fiquei sujo de lama, sendo amparado pela vizinhança.
A notícia que nós tivemos da minha montaria, foi dois dias depois, quando Antônio de Valdevina apareceu na Vazante, dizendo que tinha encontrado uma porca suja, correndo e roncando no corredor das Corujas.

165 - CARNAVAL DE VÁRZEA ALEGRE. 

Eu vou aqui tentar fazer um pequeno histórico do carnaval da terra do arroz, a partir do ano de 1953. No domingo de carnaval daquele ano, a folia de rua foi feita por Valdimiro de Zé de Toim e Oliveira Mandinga, o primeiro usava um vestido e o outro um par de chifres na cabeça. Saíram pelas ruas cantando a marcha “ Cordão dos puxas sacos “ , acompanhados por batidas em panelas e latas. A meninada acompanhou a folia um deles era esse contador de causos, com a cara encarvoada e uma colher batendo numa lata de sardinha.
Carnaval de clube não se falava, mas Zé Tavares que era muito animado, promoveu um baile de carnaval na casa de Zezim Costa no mesmo domingo de noite. Os participantes eram: Os filhos do organizador, os filhos de Zezim Costa, os de André Costa e os de Vicente Moreno. Naquela noite eu corri para pegar um tubo de cloretil vazio e fui atropelado por uma bicicleta.
Depois daquela data nós passamos uma década sem carnaval na cidade.
Em 1963, Edmilsom Martins, Diassis Aquino e Nilo Sérgio Viana, formaram dois blocos de elite; Espartanos e Orientais, Já naquele ano o carnaval de clube foi no Recreio Social.
Foi também naquele ano que saiu pela primeira vez, um bloco do Roçado de Dentro, conduzido pelo saudoso Pedro Souza, seu cunhado Josimar Vieira, Munda Mariano e outros. Naquele ano também, eu, João Piau, Antônio Almeida, Antônio Ulisses e Homero Proto, formamos o bloco dos Índios, as garotas da nossa idade, formaram o bloco das Margaridas, composto por Rita Maria Morais, Maria Onelma Viana, Socorro Lemos, Margarida Bile e outras.
A partir daí o bloco do Roçado de Dentro transformou-se em escola de samba.
Com aquele samba bem ritmado e bonito, surgiu a ideia no nosso grupo de criar uma escolinha sem nenhuma pretensão de disputa, apenas para animar o carnaval de rua, nos dias que a escola maior não desfilasse. Feito o projeto, nós começamos com poucos instrumento Luís Filho trouxe uma cuíca de Fortaleza, eu fiz uma para Marconi Proto, fiz um surdo de mão para Noberto Rolim e Célio Costa trouxe uns agogôs.
Criada a batucada, foi dada o nome de Charanga, além do carnaval nós tocávamos nas partidas de futebol de salão onde o nosso time: Charanga Futebol Clube disputava.
A nossa Charanga ganhou status de clube social e de serviço, quando o Doutor Marcos Aurélio Rodrigues , juiz de direito de V. Alegre, colocou a Charanga nos rol dos clubes da cidade, para o tribunal de justiça do estado, elevar a nossa comarca de primeira para segunda entrança.
A partir dali surgiu blocos e mais blocos: Beco da Narcisa, Bloco da Caganeira, Tem Piau no Carnaval, Bloco das Piabas, TED e outros mais. Entre eles “A Véa Debaixo da Cama “ Que deu origem a escola: Mocidade Independente do Sanharol, hoje nivelada com a do Roçado de Dentro.Coisa que não é surpresa,
Porque os músicos das duas escolas são parentes muito próximos.
Daqui pra frente eu sugiro que alguém do blog dê seqüência a este histórico, para que eu não aborreça os leitores, com um textos lentos e retrógrados.
Nós sabemos que na atualidade, o nosso carnaval é técnico ao ponto de chamar à atenção das emissoras de televisão.
Desejo um bom carnaval para os foliões e visitantes.

164 - OURO BRANCO 

OURO BRANCO, era como chamavam o algodão nas décadas de 50 e 60.
Eu fui testemunha dos benefícios trazidos por aquela cultura. Principalmente para nós nordestinos. Ganhava o governo com as divisas geradas pelos impostos de importação, ganhava os usineiros com o beneficiamento do algodão e seus derivados, como o resíduo, o óleo, o sabão e outros mais. Ganhavam os agricultores, que com poucas arroubas vendida, cercavam a propriedade, faziam cacimbões e compravam algumas cabeças de gado. Ganhavam os colhedores que trabalhavam ganhando por quilo colhido.
Na nossa pequena Várzea Alegre, o comércio estendia o crédito de janeiro a agosto aos agricultores, para receber depois da colheita. E é bom que se diga que não tinha nenhuma alteração no valor, em virtude de não haver inflação.
Era o ouro branco que garantia aos nossos conterrâneos dos sítios:
Uma roupa nova, um calçado, a esmola de São Raimundo, a cerveja gelada na barraca de Bié e a sopa no café de Domicília.
O jornal Correio do Ceará estampou uma vez na sua primeira página a seguinte matéria. “ Em Iguatu o agricultor Chagas Neves, colheu na sua primeira apanha 16 mil arroubas de algodão.”
Respeitando as devidas proporções, foi naqueles anos que a paróquia de várzea Alegre, recolheu mais esmolas para o padroeiro.
Mesmo com as poucas e distantes faculdades da época, foi graças ao ouro branco, que alguns dos nossos conterrâneos formaram se nos mais diversos cursos.
A colheita de algodão era uma festa, as crianças participavam sem nenhum compromisso de trabalho, eles catavam o algodão mais baixo, para assim pouparem as colunas dos mais idosos.
Se aquela cultura tivesse continuado como foi um tempo, a história do nordeste hoje seria contada diferente.
Há quem diga que os benefícios advindos do governo como: Bolsa família, aposentadoria por idade e outros mais, vieram para compensar a falta do ouro branco. Perdoem-me os que assim raciocinam, Mas eu não concordo pelos motivos a saber:

. O ouro branco beneficiava ocupando.
. O governo beneficia desocupando.

Nota do autor;
Para que não pareça que eu sou o dono da razão, disponibilizo o espaço abaixo para comentários e até debate se for o caso.
Abraços.
Mundim do Vale.


163 - MUNDIM NA ALA DOS POETAS.

A nossa ala foi nomeada de ala dos poetas. Melhor teria sido ala dos Souzas, porque tinha quarenta por cento de Sousas poetas; Nonato Souza, Cláudio Souza e Souza Sobrinho.
Eu fiquei ao lado da poetisa Claude Bloc, fazendo assim mais um contraste da nossa cidade. Eu até falei para a poetisa que aquela situação causava uma desarmonia para a nossa ala, mas ela muito brincalhona disse que estava alí para me oferecer segurança. Eu ainda questionei o desequilíbrio da altura e ela me disse que eu fosse pegar as pernas de paus do palhaço para equilibrar.
Para piorar a situação, uma prima minha invadiu a avenida gritando:
- Ei Mundim! Tí Pedo sabe qui tu tá pinotando carnaval no mei do povo grande?
Na parte da frente onde estavam os Souzas, eu verifiquei que Nonato avançava e Souza Sobrinho recuava, causando um distorção. Abordei Sousa dizendo:
- Sousa vocês estão acabando com a escola, você tá desfilando na divangoê e Nonato na divangoá.
Souza reagiu me perguntando:
- E o que é divangoê e divangoá?
- Vá perguntar a Claude Bloc ou a Fafá Bitu, que eu não sei não.
Na chegada da lagoa o poeta Sávio botou a viola no saco e foi embora. Em seguida Cláudio, Nonato e Souza fizeram a mesma coisa. Depois foi a vez da poetisa.
Só eu foi que não botei a viola no saco, fiquei com a escola até o dia seguinte, quando fomos levar os carros alegóricos da lagoa até o barracão dançando samba.
No próximo carnaval eu não quero desfilar mais não. Só assim eu vou poder ver a minha escola na sua total beleza
Parabéns para a diretoria e os integrantes da M.I.S


162 - QUI  NEM  PANELA  DE  BARRO.

O casal, Bastião e Benvina, residentes no sítio Aba-da-serra no município de Várzea Alegre – Ceará, depois de muitas brigas por conta de ciumes, resolveram fazer a separação amigável, sem que para aquilo tivessem que recorrer as autoridades jurídicas. E o mais interessante desse causo, foi que 30 minutos depois do litígio, eles fizeram a conciliação.
Assim foi o diálogo para os dois feitos:
Bastião disse:
- Benvinda num vai mais dar certo esse nosso amancêbo não!
- Pruque omi?
- Pruque eu sei qui tu tá pondo no mato.
- Basta! Só por isso? E tu tombém num tá omi de Deus?
- Eu mermo num tou não. Mais tu tá pensando qui eu num ví tu lá na queima da caieira cum Seu Ogeno?
- Ôxente Bastião, eu fui só levar umas tripa de poico qui ele pidiu pra tirar o gosto.
- E pricisava de vocês dois tá nu?
- Mais omi, é pruque tava muito quente as braza da boca da caieira.
- E tinha pricisão dele tá bejando tu?
- Não, homi. Aquilo era ele assoprando prumode isfriar a minha quintura.
- Eu morro e num acridito.
- Mais tu tombém fica aí querendo ser dereito e pensa qui eu num vi tu mais Vitalina Pernêta lá na cacimba de Seu Duarte.
- Mais muié. Eu fui lá só prumode ajudar a incher o cabaço dela.
- E pra incher o cabaço tinha qui ser os dois nu?
- Eu já vi qui tu é abirobada mermo. E era de nós moiar as roupa?
- É. Mais eu vi tombém tu abufeda cum ela, qui parecia um cadiado dento dôto.
- Alí foi quando ela tombou do lado da perna fina, aí eu se agarrei cum ela, prumode  num quebrar o cabaço.
- Pois é, Bastião. Eu acho mais mior é nós separar os pano de bunda mermo.
- Benvinda se tu quiser nós pode deixar do jeito qui tá, pruque bala trocada num dói né?
- É.
- E tem mais uma Benvinda. Esse negoço aí, é igual a panela de barro, lavando fica do mermo jeito.
- Apois tá certo!

Naquele momento ficou celebrado a conciliação.

161 - O  BICHO  TÁ  BOM  TODO! - Mundim do Vale

Raimundo Mouco,morador do sítio Chico, quando mais novo era chegado a negócios tipo; Compras, vendas e trocas.
Certa vez ele trocou uma vaca parida e uma biroba, num jeep ano 59. A troca não foi boa para Raimundo, em virtude do carro está muito extragado e ele não tinha nenhum conhecimento no ramo de veículos,sem contar com a agravante, de ter parado todos os seus negócios para tentar consertar o jeep.
Depois de muita luta sem conseguir um mecânico qualificado e nem encontrar as peças de reposições, abandonou o jeep no terreiro de casa, levando sol e chuva.
O carro tava igual a conselho de pai hoje em dia, não servia  mais pra nada. Nem pra meninos brincar de esconde, esconde dentro dele.
Raimundo foi na rua e comprou uma cartolina e um pincel atômico e ele mesmo fez o cartaz de venda, que ficou assim:
- “ Vendi-zi  ou troca-zi.
     Esse gipe de ano 59.
     Acupanha  O. X.
Pregou o cartaz numa táboa e colocou perto do veículo.
Um dia passava um paraibano lá pelo Chico viu o cartaz e foi procurar Raimundo.
- Bom dia Seu Raimundo!
- Oi?
Raimundo era surdo.
- Bom dia Seu Raimundo!
- É eu mermo. Raimundo Mouco à seu dispor.
O paraibano notando a deficiência auditiva de Raimundo começou a falar mais alto:
- Seu Raimuuuuunnnndo. Eu tou interessado em fazer negócio no seu carro, eu posso dar uma olhada?
- Pode. Meu patrão! O bicho tá bom todo!
O paraibano arrodeou o  Jeep, levantou as capotas, deitou-se em baixo e terminando a vistoria falou:
- Seu raimundo seu carro tá muito extragado, mas se der rolo eu fico com ele. Agora me responda uma curiosidade. Que ascessório é esse que tem as iniciais de O.X?
- Omi isso é o Xofé! Otõe Xofé. Pode levar ele junto.


160 - O DITO PELO NÃO DITO

No sítio Lagoa dos Órfãos, no município de Várzea Alegre Expedito Xavier ( Ditoso )
Tinha uma propriedade que extremava com um terreno do Sr. Nonato Rolim, que era administrado por Expedito Cupira, pessoa da extrema confiança do proprietário. Os dois Expeditos viviam em constantes conflitos, em virtude da invasão de animais de uma propriedade para outra.
Certa vez os dois quase se mataram, não tendo acontecido o pior, graças a rápida Intervenção do Sr. Jocel Batista. Depois daquele acontecido o promotor mandou chamar os dois no cartório para tentar uma conciliação. No dia marcado Expedito & Expedito, compareceram. O promotor mandou que os dois entrassem, eles entraram, tiraram os chapéus e deram bom dia tudo ao mesmo tempo, como se fosse uma peça de teatro bem ensaiada.
O promotor perguntou :
- Quem é o Sr. Expedito? 
Os dois responderam igual;
- É eu seu doutor! 
A autoridade ignorando a coincidência falou :
- Meus senhores nós não estamos aqui para brincadeiras. O assunto é sério. 
- Mais é divera doutor eu sou Expedito Xavier e essa coisa qui vei mais eu, é Expedito Cupira primo carnal do cão.
O conciliador fez sinal para que Ditoso se acalmasse e pediu que cada um falasse, sem que o outro interrompesse. Terminada a história de cada um, o promotor falou que só havia um meio de resolver a questão. Era fazer uma cerca na extrema dos terrenos e dividir as despesas para os dois. 
Os dois responderam ao mesmo tempo: 
- Mais nós num pode fazer a ceica doutor: 
- Então tem uma alternativa mas é meio complicada: 
- E qualo é? 
– Vocês pastoram os animais de dia e de noite. porém se houver a invasão e o animal for abatido ninguém será responsabilizado perante a lei tá certo assim? 
– Tá doutor. Responderam os dois.
Tudo ia muito bem até o dia que Expedito Cupira amarrou uma das suas cabritas num Tronco de angico e ficou escondido. Quando a cabrita começou a berrar, correu um bode do terreno de Ditoso e cobriu a cabrita. Cupira chegou com um cacete de jucá deu uma cacetada que o bode caiu sem nem berrar.
Ditoso soube da ocorrência contada pelo seu pastorador foi direto dizer ao promotor que Cupira tinha matado o bode da sua filha caçula. O promotor mandou chamar Cupira e foi logo perguntando:
- Seu Cupira porque o senhor atraiu o bode da filha do senhor Ditoso para a propriedade do seu patrão e o matou? 
– Foi assim seu Doutor. Eu cheguei lá no terreno do patrão e ele tava inriba da cabrita da minha afiada fazendo escandelo, eu mandei ele disapiar e ele num quis. Aí eu dei só um cocorote nele. Ele num salevantou mais aí eu tirei o couro e levei a carne pra casa. Qui era prumode num ajuntar arubu no terreno do patrão.
O promotor fez que acreditou e dispensou Cupira. Quando Ditoso soube de que nada tinha acontecido com Cupira, foi tratando de desenvolver uma vingança. Foi na bodega de Zé Augusto, comprou uma corda de vinte metros e levou pra casa.
No dia seguinte foi até a divisa do terreno fez um laço na ponta da corda e ficou na  espreita. De repente passava um novía de porca no terreno do patrão de Cupira, ele 
laçou, arrastou para o seu terreno e deu logo um golpe de machado na cabeça.

Cupira quando soube foi correndo dizer ao promotor:
- Doutor.O condenado do Ditoso qui divia de ser Tinhoso, matou a poica de mãe. – Talvez tenha sido para vingar o bode da filha dele: - É mais num pode ficar assim não. O Doutor ía achar bom se um cabra matasse a poica da sua mãe?
Para tentar evitar mais questão o conciliador mandou chamar Ditoso e perguntou:
- Seu Ditoso. Porque o senhor abateu a porca da mãe do Sr. Cupira?
-Foi assim doutor. Eu tava no aceiro do meu terreno trenando cum minha corda nova de laçar, de repente a porca passou e botou a cabeça no laço. Aí Cuma eu num quiria perder minha corda. Eu arrastei e ela vei dento. Ai eu dei um cascudo nela cum O machado. Mais ou bicha frouxa da gota serena só era aquela porca da mãe de Cupira. E tem mais uma. A bicha era tão miúda que quem comeu foi meus minino. Eu Só comi o rabo dela.
- ENTÃO FICA O DITO PELO NÃO DITO.



159 - MAMA MIA.

Meu primo Geraldo Piau, depois de ter feito rádio/novela, viajado por todo o Brasil e uma parte da Argentina, adoeceu de alcoolismo e resolveu voltar para
Várzea Alegre, onde ficou morando com a sua mãe Isaura e a irmã Antônia.
Um certo dia depois de tomar algumas cachaças na cidade, foi para o sítio
Vazante onde morava. Para cortar caminho, foi por dentro da lagoa de São Raimundo, que estava seca. No estado de embriaguez que estava, caiu, vomitou e rolou por cima do vômito, onde dormiu um pouco.
Quando acordou, já era noite e ele subiu para casa no escuro. Bateu na porta
tia Isaura saiu com uma lamparina na cabeça e perguntou:
- Quem é?
Geraldo respondeu em idiomas misturados.
- SÕ JÔ. MAMA MIA!
- Sujou mesmo meu filho. A casa tá podre!



158 - A QUINTA DO JUDAS.

Na quinta feira maior da semana santa do ano de 1969. Valdízio de Zé Odmar 
passava em frente a praça dos motoristas. Onde estavam sentados num banco. Chico de Antônio Chico, Antônio Taveira, Galego de Pedro Gualberto, Zé bezerra dos Correios. E Raimundo Nonato Bitu.

Quando Valdízio avistou a turma disse:
- Ei negrada! Vamos pra quinta do Judas lá no Serrote. Eu vou ser um careta, olha aqui os meus trajes – Mostrando uma calça de mescla, uma camisa de xadrez e um par de botas cano longo. – Eu espero vocês lá.
Logo que valdízio saiu os cinco amigos ficaram combinando para fazer uma bricadeira com ele. A bricadeira consistia em agarra-los já que eles conheciam os seus tarjes e em seguida esfregar no chão de forma humilhante.
Valdízio chegou no Serrote e foi direto para a concentração na casa de Mascote., na hora de vestir os trajes achou folgado, mas o problema ficou logo resolvido quando ele trocou a roupa com outro careta.
Na cidade os quatro convidados fretaram a rural de Livaldino e se dirigiram para o serrote passando primeiro no Sanharol, onde tomaram uma cachaças
Na bodega de Raimundo Sabino. Quando chegaram na quinta já etavam puxando fogo.
Ficaram um pouco por ali até que localizaram o careta com os trajes que eles tinham visto na cidade. Quando o careta afastou-se um pouco dos outros, eles flecharam em cima igual a deputado atrás de emenda parlamentar, Derrubaram o infeliz, pisaram por cima, deram cocorote, sabacu e ainda *curaram a bicheira.
Estavam naquela arrumação quando escutaram uma voz atrás deles, falando assim:
- Ei. Negrada! Vocês vão matar o cara mesmo?
Era Valdízio já descaracterizado. O careta que estava no chão, já bastante machucado falou:
- Vocês sabem com quem tão pegado?
Raimundo Nonato surpreso com a chegada de Valdízio perguntou:
- Pera aí Valdízio! Se tu tá aí. Quem é esse cara que tá no chão?
- Tire a máscara dele que você vai saber.
Raimundo suspendeu a máscara quando viu quem era o careta, falou mais assustado ainda:
Me valha meu Padim Ciço! É Chico de João Martins.
Depois da descoberta, os cinco correram tanto que chegaram em V. Alegre
Antes da rural que tinham fretado.


157 - BITUZADAS

Meu primo Renato Bitu certa vez passeava em Fortaleza e passou uns dias em nossa casa. Numa hora lá ele avistou um despertador em posição invertida e perguntou a minha irmã Rita Maria, porque aquela arrumação. Rita atendendo aquela curiosidade explicou:
- É porque esse despertador só trabalha de cabeça pra baixo.
- E é?
-É.
-Pois quando eu chegar em Várzea Alegre vou botar Raimundo meu irmão de cabeça pra baixo que é pra ver se ele trabalha.
Nesse mesmo dia ele contou que certa vez ouviu um barulho no seu guarda-roupa quando foi olhar, era as roupas caindo da moda.
Na véspera de retornar a Várzea Alegre ele falou:
- Quem tiver alguma encomenda pra mandar, pode preparar que amanhã eu vou pra rua.


156 - CAUDILHO. 

No México, Pancho Villa o Caudilho, no ano de 1912, juntou-se com outro revolucionário de nome Emiliano Zapata e derrubaram o ditador Porfírio Diaz.
Aqui em Várzea Alegre alguns anos depois, Pancho do Baixio, morador do Sr. Antônio Primo, não era um caudilho, não tinha o cavalo sete léguas e nem a parceria com Zapata. Mas era disposto, tinha o jegue Rouxinho e resolveu acabar com as fiotesas das almas do sítio Arapuá. Um certo dia ele tomou umas cachaças e disse que ia encarar a maldição do Arapuá. arrumou o jegue e preparou-se para a missão.
Chico de Zé Chico do Taquari escutou a conversa, partiu na frente e ficou escondido numa moita de mofumbo, para fazer um medo a Pancho. 
Quando Pancho chegou próximo ao açude gritou:
- Cadê tu alma vagabunda?
Chico disfarçando a voz falou:
- Tou aqui! E quem é você?
- Eu sou Pancho! E você quem é?
- Eu sou a alma de Zé de Freitas.
- Apois ontonse é mintirosa. Pruque o Véi Zé de Freitas, foi o cabra mais mintiroso que deu aqui nessa rebêra.
No meio daquela teima rouxinho assustou-se e desembestou.
Quando passava perto de Chico ele gritou:
- Segura Pancho fí duma égua!
Pancho naquele cai não cai, respondeu:
- Respeita as cara, alma mintirosa sem vergonha.
Depois desse acontecido, nunca mais ninguém viu falar em almas no Arapuá.

O Sr. José de Freitas era o avô do Dr. Raimundo Irapuan Costa. Era um cidadão brincalhão, que gostava de contar causos extravagantes.

Dedico a todos os netos de Zé de Freitas.


155 - MÁRIO FIGUERÔA. - 
ELE TOCA DE OUVIDO

Quando o peruano Mário Figuerôa passou fazendo shows em Várzea Alegre, chamou à atenção da cidade pela habilidade que ele tinha em exercer certas atividades difícil até para pessoas normais. Entre as suas limitações, lhe faltavam as mãos e os pés, mas mesmo assim ele colocava linha em agulha, tocava realejo, maracá e violão.
Antonito de Antônio Souza Assistiu o show no Recreio Social e ficou impressionado. No outro dia chegou no Roçado de Dentro e foi contar para seu irmão Pedro que era um excelente músico:
- Meu irmão você precisa ir olhar o aleijadinho peruano. Ele não tem mãos e toca violão melhor do que Chico Danga.
Pedro Souza botou o dedo no queixo com uma expressão de dúvida e falou:
- Pera Antonito! Se o homem não tem mãos como é que toca violão?
Antonito sem jeito respondeu:
- Pois é. Só se ele toca de ouvido. 

Dedicado aaos Souzas do Roçado.


154 - PALAVRAS & PALAVRÕES 

A palavra é formada pelo composto de vogais e consoantes.
A poetisa e educadora Flor das Bravas, adotou o nome PALAVRAS, para intitular o seu maravilhoso Blog.Palavras ditas ou escritas por Artemísia ficam:
VERDADEIRAS, PEDAGOGAS E OPORTUNAS.
Palavras ditas ou escritas por alguns políticos ficam:

DUVIDOSAS, TENDENCIOSAS E INOPORTUNAS.

Quando falo ou escrevo palavras, não me levem à sério,porque pode sair dalí um verso ou um causo.
Mas falando de PALAVRAS, eu vou contar uma discussão que se deu entre Chico de Munda e Assis de Pacim na terra do arroz.
Assis de Pacim dizia:
- Chico você num tem palavra.
- Pruque qui eu num tem?
- Pruque você deu a sua palavra qui ía levar o cachorro do meu pai prumode vacinar e quando acabar num levou.
- Ôxente ome! Eu inté qui fui. Mais o cachorro do seu pai deu uma mordida neu e eu num levei mais. Mais você tombém num tem palavra não.
- Pruquê
- Pruquê você ficou de pegar a póica da minha mãe e levar pra cruzar cum o barrão de Vicente Justino e num levou.
- Deixe de bestagem Chico. Eu sou ome de palavra, quando eu cheguei na sua casa, a póica da sua mãe tava cumo bucho chei de bacurim, aí num teve mais pricisão.
A discussão prosseguiu e as palavras passaram a serem palavrões, eu não posso dizer aquí quais foram, param não correr o risco das minhas palavras serem censuradas.

153 - QUEM DAR E TORNA A TUMAR. VIRA CACUNDA PRU MAR.

Raimundo Nonato de Morais ( Ou nome parecido com o meu ) Filho caçula de Zé André e Tonha, foi criado muito mimado, tudo que queria os pais faziam um esforço para conseguir. Só tomava leite da vaca preta e só comia ovo da galinha pedrez. Com apenas seis anos de idade, manifestou um certo interesse por galos de briga. Vivia com um galo debaixo dos braços e outro na testa de tantas quedas que sofria para pegar os galos. Seus galos viviam na peia, apanhavam até de pardal.
Um dia seus primos que eram filhos de Pedro de Manuel, prometeram um frango de raça. Logo que a ninhada de pinto nasceu, Raimundo foi correndo na casa dos primos e pegou o que ele achava mais parecido com galo de briga. Separou as cascas para um lado, botou o bruguelo no bolso e foi saindo.
Pedro vendo aquela arrumação perguntou:
- Pra donde tu vai cum esse buguelo Raimundo?
- Vou levar pra eu. Num me dero?
- Mais ele ainda não impenou. Deixe ele aí cum a galinha e dispois qui ele crescer você vem buscar.
- Tá certo. Mais cuidado! Quem dar e torna a tumar. Vira cacunda pru mar.
O pinto cresceu e quando ficou bom de briga, os primos começaram a dificultar a entrega, mas com a interferência do pai, resolveram cumprir a promessa.
Raimundo foi buscar o frango, botou debaixo do braço e partiu pra casa. Quando chegou no terreiro do oitão gritou:
- Mãe! Aqui é galo Mãe! Repetindo ainda por três vezes:
- Aqui é galo Mãe! Aqui é galo Mãe! Aqui é galo mãe! Num tem anel de galinha qui aguente.

152 - SÁI ORÓS!

Chico de Zé Pereira, era um rapaz normal, quando não bebia ajudava os pais no café, tocava violão e cantava em serestas. Mas quando bebia se danava pra falar fino e se requebrar.
Num certo domingo, Geraldo Leandro, Chico Bento e Oliveira Dantas bebiam na barbearia de Vicente Cesário, onde funcionava na parte de baixo um banheiro de aluguel. De repente chegou Chico, já embriagado conversando besteiras e patinando na geléia. Em seguida chegou Raimundo de Madalena e desceu para o banheiro. Chico desceu atrás deixando na mesa uma carteira de cigarros B.B. Passou pouco tempo, quando subia encontrou uma minhoca no batente e gritou desesperado:
-Valha meu Jesus é uma jibóia!
Chegou na mesa e disse assim:
- Mais minino! Ou fruta foimosa só é aquela de Raimundo, aquilo dá pra repartir pra Luís meu irmão, Dedé de Frazo e Sivirino da Betânia. Aquilo é um arraso, eu fiquei passada.
Chico bento falou:
- Tenha fundamento Chico. Cuma é qui tu num tem veigonha de ficar brexando os macho em?
- Eu vi foi sem querer, mais num é da sua conta, qui o zói é meu e o caneco tombém.
Geraldo Leandro perguntou:
- Ou Chico de qualé a cana qui tu bebe?
- É cariri. Mais pruque o bofe quer saber?
- É prumode eu num beber dela e ficar fresco qui nem tu.
- Apois beba Guanabara qui nem Oliveira, qui é a qui fais chorar.
Oliveira não gostou da piada e falou zangado:
- Faz chorar o que seu fresco! Pegue o beco já já se não eu sei o que fazer cum esse guarda-chuva.
_ E eu vou mermo qui essa baibiaria tá contraminada de ladrão. Eu deixei uma carteira de cigarro cum vinte e três cigarro dento e agora só achei vinte.
Oliveira deu um sabacu em Chico que ele saiu à granel em direção da rua. Quando desceu a calçada tinha uma poça dágua ele brecou, botou as mãos nos quartos, deu dois giros no corpo sem tirar os pés do chão e gritou:
- SÁI ORÓS!

151 - QUEM SABE, SABE.

O concurso, é o caminho mais estável e legal, para o emprego público.

Certa vez o Banco do Brasil abriu inscrições para um concurso. 

Em Várzea Alegre a correria foi grande, pois naquela época um bancário no interior, tinha o status de desembargador na capital.
Um pretendente se dirigiu ao saudoso deputado Otacílio Correia, fazendo o seguinte pedido:
- Seu Otacílio. Eu vim falar com o Senhor, porque estou pretendendo concorrer ao concurso do Banco do Brasil e queria uma ajuda do Senhor.
- Que tipo de ajuda seria?
- Eu queria que o Senhor Mexesse nos pauzinhos para facilitar a minha entrada no banco.
O espirituoso deputado, mesmo tendo sido surpreendido de impacto, respondeu curto e grosso como tambor de gás:
- Meu filho. Esse caminho que você procura é impossível. Mas eu posso lhe dar uma dica.
- E qual é?
- Procure a listagem dos candidatos e se tiver alguém com o sobrenome de Vieira, desista de participar para não perder o seu tempo

150 - O CORAL DE ZAQUIEL

O Sr. Ezequiel da Costa Siebra, agricultor do sítio Varas no município de Várzea Alegre, cultivava uma plantação de amendoins junto com seus oito filhos. No período da semeação recomendou aos filhos para que colocassem
seis grãos em cada cova. Mas quando o amendoim nascia era apenas com dois pés. A princípio ele pensou que fosse os pássaros ou a qualidade da semente. Descartadas essas hipóteses ele descobriu que os filhos estavam semeando dois na cova e quatro na barriga. Quando foi fazer um novo plantio reuniu os filhos e disse: 
- Olhem! O padre Otávio disse na missa que para o amendoim produzir muito, é preciso que os semeadores façam o trabalho cantando o hino de são Raimundo o mais alto que puderem. E assim eles fizeram.
Raimundo de Souzão passava pela estrada quando ouviu a cantarola, subiu na cancela para ver o que era. Nesse momento vinha passando Maurício Fiúza que perguntou A Raimundo:
- O que é aquilo? Já tão pedindo esmola para São Raimundo agora é direto na roça?
- É não Maurício. Aquilo é o coral de Zaquiel.
Depois disso a produção aumentou, mas quando foi na debulha Ezequiel notou
Que o amendoim não estava correspondendo a colheita da roça. Foi quando ele reuniu novamente os filhos e falou:
- Olhem. Prestem atenção! O frei Damião disse que para o amendoim render 
mais ainda, é preciso que na hora da debulha todos os debulhadores cantem
Hino de louvores para santo Antônio, o mais alto possível.
Depois de aplicadas essas medidas, Ezequiel ficou sendo o maior produtor de amendoins da região.
Miguel Mandu quando passava perto da casa de Ezequiel dizia:
Essa família de Zaquiel é muito católica. De dia canta o bendito de São Raimundo na roça. E de noite canta o de santo Antônio em casa.

Dedicado a Zé filho e Zizí.

149 - O FURTO DA ATA.

No ano de 1956, nós morávamos na Vazante e o meu pai trabalhava no cartório da cidade. Cada dia era escalado um dos filhos para levar seu almoço na rua. Um dia eu fui escalado e quando passava na casa de Raimundo Beca, onde tinhas uns pés de atas, eu avistei uma que de tão madura, já estava rachada. Os moradores todos estavam almoçando e eu naquela minha irresponsabilidade dos meus dez anos, resolvi furtar aquela fruta. Fiquei de ponta de pé, mas mesmo assim não consegui pegar a ata inteira. E como quem furta tem pressa eu me conformei apenas com a metade, deixando o resto no galho. Dali eu parti para a cidade, comendo a fruta e jogando os caroços de um lado e do outro da estrada.
Quando eu retornava. Da calçada da casa do Sr. José Raimundo eu já escutei a zoada do pessoal. Os palavrões proferidos, não cabem nessa postagem. Me aproximei do local do crime e lá estavam: Raimundo Beca, sua esposa Maria,
Benedito, João, Chico, Mundinha e o cachorro Tubarão.
Eu com uma carinha de anjo perguntei:
- O que foi que houve aqui?
Raimundo o mais revoltado disse:
- Foi um ladrão fí duma égua,que mexeu nas nossas pinha e saiu metendo no rabo pru lado da rua. Tá ali os caroço qui o fí do cão deixou.
Maria com a banda da ata na mão falou:
- Eu tumara qui aquele condenado sintupa.
João também muito revoltado disse:
- O infiliz levou só uma banda, foi pra incharcar, se ele tivesse levada toda nóis num ia nem dá fé.
Só Tubarão foi que desconfiou de mim, porque ele me olhava e dava uma rosnada de vez em quando.
Depois que cada um deles disse seus palavrões, Raimundo Beca me perguntou:
- Ô Raimundo do qui vem das banda da rua, Num incontrou algum minino comendo pinha não?
- Seu Raimundo. Eu só encontrei aqueles dois moreninhos dos Lobos, lá no balde da lagoa, mas eles não iam comendo pinha não.
- Mais só poidia era num tá cumendo mermo! Uma banda de pinha, na mão daqueles morta-fome dos Lobo, num açoita nem na casa de Zé Raimundo.
Depois daqueles desabafos, eu tentando colocar gelo na questão falei:
- Deixem pra lá meu povo, que Deus há de castigar o ladrão.
Maria ainda com a banda da ata na mão e sensibilizada com as minhas palavras, perguntou:
- Raimundo. Tu quer o resto da pinha pra tu?
- Eu aceito e agradeço, porque pela aparência esta ata tá muito boa.

Moral da história: O QUE É DO HOMEM, O BICHO NÃO COME.
O destino marcou para que aquela fruta me pertencesse na sua real totalidade.


148 - SACO SECO 

Manoel Vicente da Silva ( Totô ). Fez um roçado certa vez no sítio Baixio do Exu, em Várzea Alegre. Contratou alguns trabalhadores entre eles Chico de Elói. Chico era pálido, franzino e desnutrido.
Chegando no roçado os outros roceiros começaram logo a trabalhar e Chico não saiu do canto.
Quando seu Totô notou falou logo:
- Vamos Chico que moleza é essa? Os outros já estão no meio do eito e você nem começou. O que é que está havendo?
- Chico olhou com uma certa tristeza para o patrão e foi logo dizendo:
- Sabe o que é Seu Totô? É pruquê saco seco num fica im pé.
O patrão entendeu e mandou um recado para a esposa fazer para Chico um prato diferenciado no almoço. Dona Vicência caprichou e mandou numa bacia.
Chico comeu tudo que tinha na bacia e ainda tomou uma cabaça de água, depois ficou deitado na sombra de uma moita enquanto os outros já estavam no trabalho.
O patrão chegou perto e falou com ele:
- Chico eu não estou entendendo. De manhã você estava com moleza porque tinha fome. Agora que já comeu bastante continua do mesmo jeito o que é que está acontecendo?
- Sabe o que é Seu Totô? É pruquê saco chei num droba.


147 - EXIGÊNCIAS GASTRONÔMICAS

Meu irmão Ozanam Moraes, é tão metódico, que quando
a sua esposa Glória faz sopa de macarrão de letrinhas, ele
começa a comer pela letra “ A “.

Já a minha irmã Rita Maria, é tão antiamericana, que quando
vai fazer a sopa de letras, faz uma seleção antes para excluir as letras: W,Y e K. Assim como se catava arroz antigamente. As letras americanas ficam como escolha.

Meu irmão Paulo Morais, que é o menos exigente, toma a sopa, mas sem antes coar na boca, fazendo assim uma
drenagem, para tomar só o caldo.

146 - ISSO VAI DAR UM BODE

Uma vez eu contava causos a Joãozinho Costa. Quando passou um carro lotado de moças ( Nesse tempo ainda tinha ) Eu disse:
- Olha aí Joãozinho o carro vai cheio de moças, isso vai dar um bode! 
Joãozinho arregalou os olhos e falou:
- Não diga isso não Raimundinho, que no meio vai uma filha minha e é logo a motorista. 
Eu notando a besteira que havia dito, raciocinei rápido e falei: 
- Foi por isto que eu disse, não vai nem um homem, se baixar um pneu, vai dar um bode danado para trocar.

145 - MANÉ GINIPAPO.

Manoel Sapateiro e sua esposa Maria, chegaram em Várzea Alegre no ano de 1.966. Alugaram um prédio na rua Major Joaquim Alves e se estabeleceram no ramo de calçados. A princípio era só consertos, depois o negócio foi crescendo ele comprou máquinas, contratou empregados e transformou a oficina também em loja.
Montou um quadro de doze funcionários, um contínuo e ainda duas secretárias uma pra ele e outra pra Maria. Chegou a fazer promoções arrojadas. Quem comprasse um sapato Bamba levava grátis uma chinela japonesa, quem comprasse um cinto ganhava de brinde um fanabu. Chegou até a patrocinar filme no cine Odeon para os clientes. Na festa de São Raimundo alugou o carrossel de Zé Júlio por uma noite para rodar de graça com os filhos dos fregueses.
Certo dia um vendedor de pianos da Mesbla chegou com um mostruário ele sem nem olhar para os preços disse: - Eu vou ficar com dois um pra mim e outro pra Maria.
Mundim da Varjota dizia: - Eita qui Mané Sapateiro tá mais mió do qui papai Noé! Tombém, um jumento cum uma carga de açúcar, até o rabo é doce. Com essas tolices o negócio caiu mais do que prestígio de deputado cassado. Manoel caiu nas mãos de agiotas e foi aí que a firma desandou mais ainda.
O livro dos fiados era mais grosso do que Seu Lunga, mas ninguém pagava. O cartório já estava cheio de títulos protestados. Foi falência Total. Os credores acompanhados de oficiais de justiça recolheram o estoque, as máquinas e os móveis deixando apenas as prateleiras vazias.
Aluguel vencido, e cobradores na porta foi essa a situação que ficou Manoel e Maria. João Coco Seco dizia: - Vôte! isso é putaria. Num deixaro matériá nem pra Mané botar meia sola num sapato.
Quando foi um dia os dois anoiteceram e não amanheceram. Os funcionários além de desempregados ainda ficaram sem receber os direitos trabalhista. Estavam todos revoltados comentando o assunto numa sombra de uma marquise, quando Seu Tõe de Cota disse: - Mané Sapateiro foi bancar o rico e quem tomou no caneco foi nós. Chagas Taveira que escutava o conversa falou:
- Arre égua! Seu Mané Sapateiro fez qui nem ginipapo. Caiu e derrubou os ôto.


144- O CACIQUE PENA BRANCA

O Cine Odeon, passava filmes de faroeste em Várzea Alegre e a meninada arranjava no filme inspirações para sua brincadeiras. Uma vez formaram dois grupos; Um de índios e outro de bandidos.
O grupo de bandidos era composto por:
Antônio de Zequinha, Luizinho de Iza, Chico Neném, Rômulo Cassundé e Antônio Ulisses, que era o chefe do bando.
O grupo dos índios era formado por:
Zé de Manoel Velho, Antônio de Manu, Antônio de Rosa Pagé, Dedé de Biluca e Luís Cassundé ( Deral ) Que era, o cacique Pena Branca.
Pela manhã Antônio Ulisses reuniu o bando no esconderijo do motor do Coronel Dirceu e expôs a pauta do planejamento:
- É o seguinte. Amanhã a tarde vai sair umas barras de ouro da mina da Fortuna, para o Alabama, a diligencia vai passar por aqui, e nós vamos fazer um assalto para arranjar recursos e comprar armas para combater Pena Branca e seus índios.
No dia seguinte os bandidos se posicionaram na praça dos motoristas, quando o chefe escutou:
- Olha o pão doce! Olha o pão doce!
Era Dunga subindo a ladeira da rua do Juazeiro com uma forma cheia de pães doce.
Antônio Ulisses deu as ordens:
- Tomem todas as barras e botem o condutor pra correr.
Depois do assalto se reuniram novamente no esconderijo e o chefe deu novas ordens:
- Bom agora nós vamos prender Pena Branca, que é para o grupo ficar desorientado, para que a gente possa abater todos.
Assim fizeram. Amarraram Deral num poste da rua Coronel Pimpim
E ficaram de guarda. Os índios chegaram com flexas de bananeiras 
E os bandidos estavam armados com baladeiras e balas de mamonas. No meio do combate, eles viram João Cassundé apontando na esquina. Foi quando o chefe do bando gritou:
- Lá vem o xerife!
Correu tudo quanto foi de índios e bandidos. Ficou só Pena Branca, porque estava amarrado.
João Cassundé chegou já com um chicote na mão e foi dizendo:
- Luís faz duas horas que eu te procuro. Mas foi até melhor porque já te encontrei imobilizado.
- Cara pálida amarrou Pena Branca no tronco.
- Pois outro cara pálida vai soltar Pena Branca, Mas antes Pena Branca vai levar umas chicotadas.
Chico Basilo ia passando na hora e falou:
Eita que o que era de peia pára os bandidos e os índios Deral levou sozinho.


143 - MAXIXE QUENTE.

O meu parente Mundim de Benedito ( Pai da Ribeira ). Foi um por um tempo nosso vizinho no sítio Vazante.
Me contou o primo Cascudo, que um dia ele saiu para a roça e a sua esposa Tereza ficou cozinhando um feijão verde. Pense num feijão no jeito! Queijo, nata, jerimum caboclo, quiabo e maxixe.
Mundim chegou para o almoço e Tereza disse:
Mundim vá tomar banho que o almoço tá quase pronto.
Mundim falou:
- Mas antes eu vou olhar se o maxixe tá bom.
- Pois tenha cuidado que o maxixe tá quente.
- Tá nada, quem tá quente aqui é eu.
- Mundim, tu larga de besteira, que os meninos tão escutando.
Pai da Ribeira pegou a concha, tibungou no caldo, pescou um maxixe e jogou na boca. Enquanto o maxixe estava na prótese dentária não houve problema, mas quando desceu, Mundim correu em direção do pote, se abanando com o chapéu, que parecia mais com alguém enfartando. Depois de um caneco de água, Mundim mudou de aparência e Tereza falou:
- Eu num disse que o maxixe tava quente teimoso!
- Mas num tá mais quente do que eu.

142 - TANGENDO PORCOS

Uma vez estavam bebendo e conversando: Zé Haroldo, Célio Cezar, Luís Menezes, Sérgio Piau, João Piau e Mundim Sobreira, quando surgiu o assunto de : Veículos,
velocidades e distâncias:
- Daqui para Várzea Alegre eu faço em 05 horas. Dizia Zé
Haroldo.
- Daqui para Jaguaribe eu tiro em 03 horas. Dizia Célio Cezar.
Nesse momento Luís Menezes perguntou a Mundim:
- Quanto tempo se gasta daqui de Fortaleza para o sítio de João Piau lá no Pecém?
- Depende. Se você for nesse seu carrão vai tirar em 45 minutos, mas se você for a pé tangendo porcos vai gastar 15 dias.


141 - TORNEIRA COM DOR DE DENTES.

Em 1.973, Ildefonso Vieira, Excelente desenhista de V. Alegre, alugou uma casa grande na A. Getúlio Vargas, para fazer seus serviços de pinturas. Como a casa tinha muitos quartos, ele alugou um para Demontiê batista e Luís Bitu
( cai da rede ) 
No banheiro coletivo da casa, uma torneira da pia deu um vazamento e como era um domingo da festa de São Raimundo, Ildefonso não conseguiu um encanador para consertar. Para que não ficasse vazando, ele amarrou uma rodia da chave para o cano e arrochou bastante, para que no dia seguinte Zé de Freitas viesse consertar.
Valdemar Souza ( Balah ), Passava a festa na cidade e no mesmo dia encontrou-se com Luís e Demontiê na Cabana Castanhola onde tomaram uma cervejas. No começo da noite os três foram para o quarto alugado quando Balah resolveu tomar um banho. Chegando no banheiro, viu o pano amarrado na torneira interditada, aproveitou para pendurar os óculos, em seguida tomou banho, se vestiu e foi embora esquecendo os óculos.
Quando chegou em casa lembrou-se que havia esquecido os óculos no banheiro de Ildefonso. Imediatamente chamou seu irmão João Geraldo e falou:
- João vá la na casa de Defonso Pintor e diga a ele que mande meus óculos que eu deixei lá. Diga a ele que ficou pendurado naquela torneira que tá com dor de dentes.


140 - JÁ TOU INTÉ MIOZIM.

O professor Paulo Danúbio Costa, trabalhou um tempo com o seu tio José Carvalho numa empresa prestadora de serviços no antigo I.A.P.C. Além de Paulo tinha outros conterrâneos. Um deles era Boris Gibão. Boris mal alimentado e um tanto extravagante começou com uma tosse insistente e achou que tinha tuberculose. Um dia chegou para Paulo e falou:
- Paulim. Eu acho qui tou tísico.
Paulo sensato como é, rebateu:
- Tá não Boris, é impressão sua. Mas se você quiser eu marco uma consulta com um médico amigo meu.
- Apois maique,
Paulo como era possuidor de grandes amizades, conseguiu a consulta de urgência.
Boris subiu com a guia, quando desceu já foi com uma requisição de um raio X, que mostrou dizendo:
- Ói Paulim. O doutor mandou eu bater uma chapa.
- Pois vá lá no Luís seu primo e diga a ele que eu mandei pedir para ele lhe atender com urgência.
Quando Boris voltou com uma aparência de alegria, Paulo perguntou:
- E aí Boris, como foi lá?
- Foi bom, eu bati a chapa e já tou inté miozim.

139 - TAQUÍ O MEU, TAÍ O SEU - Mundim do Vale

Chagas de Rosendo, morava numa pequena rua que ficava entre a Praça de Santo Antônio e o sítio Vazante. Trabalhava com o seu pai no serviço de roças e como os outros agricultores, usava chapéus de palhas. Quem conversava com Chagas, escutava sempre aquela ladainha:
- Eu tem fé im Deus, qui ainda vou pissuir um chapéu de maça daqueles de Seu Edivá, qui é prumod eu ir pras festa qui nem Vicente Custodo.
Seu Totô que era padrinho de Chagas, sabendo das suas pretenções, comprou um chapéu de marça e lhe deu de presente.
No dia seguinte Chagas chegoou da roça, tomou banho, trocou de roupa, pôs o chapéu na cabeça e falou para Seu Rosendo:
- Pai. Eu vou nagurá meu chapéu novo.
- E tu vai pradonde?
- Eu vou pras currida de cavalo lá no prado. Pai quer ir tombém?
- Quero não. E era bom você tombém num ir. naquele prado só dá caba rim puxando fogo e brigando.
- Apois eu vou. Abença!
Chagas chegou no prado alizando o chapéu e não notou que atrás dele estava Zé Cachimbim, embriagado.
Zé tirou o chapéu da cabeça de Chagas e arremessou para o ar, que saiu girando feito um disco.
O chapéu desceu girando e foi cair justamente na cabeça de Raimundim de Zezim de Eugênio, que também estava embriagado.
Com a surpresa da chegada do chapéu Raimundim disse:
- Hem! Hem! Fazia tempo qui eu tinha vontade de pissuir um chapéu desses. E esse caiu do céu.
Quando Raimundim acabou de falar Chagas encostou dizendo:
- Êpa num venha por aí não! esse chapéu é meu. Foi padim Totô qui deu a eu.
Raimundim puxou uma peixeira, apontou para Chagas e perguntou:
- É de quem?
- É meu.
Raimundim encostou a ponta da faca na barriga de Chagas e perguntou novamente:
- De quem?
- Meu e seu.
Onton-se eu vou partir.
Passou a faca no meio do chapéu, dividiu em duas partes e falou:
- TAQUÍ O MEU E TAÍ O SEU.

Mundim do Vale.

138 - E LÁ MORA GENTE? - Mundim do Vale

Joaquim Vieira, Avô de Geraldo Menezes, Fernando Souza e Valdimiro Vieira, foi embora com a família de V. Alegre para Orós
e lá chegando ganhou o apelido de “Véi do Trem” 
Certa vez ele estava numa banca de caipira, quando chegou um pescador falando fino e rebolando mais do que a loira do Tcham. 
A bichinha aproximou-se de Joaquim Vieira e perguntou:
- Ei Véi do Trem. Tu é de Rajalegue?
- Sou. Pruque?
- É divera qui o juiz de lá é uma muié?
- É sim. E é braba feito a gota.
- E é divera qui o pade de lá é casado?
- É. E é macho qui só preá.
A figura pôs as mão nos quartos Deu uma rodada e falou:
- Váila! E lá mora gente?
- Mora sim. Mora muita gente. Só num mora mais ainda, pruque o prefeito mandou deixar um bucado de fresco aqui im Orós, prumode pescar no ri Jaguaribe.

Fonte: Josélia Menezes


137 - O SEU JÁ SAIU - Mundim do Vale

Esse aconteceu comigo mesmo, mas eu passei uma vergonha tão grande, que fiquei com aquela mesma cara, de quando participava de um coquetel da Blastemp no Hotel Ponta Mar e a minha calça descosturou de cós a cós. 
Eu viajei de Fortaleza para a cidade de Crato para de lá apanhar um ônibus da Viação Varzealegrense até a cidade de Várzea Alegre. Cheguei no Crato ás 09:35 , comprei a poltrona 06 de um ônibus que devia sair às 16:30. Fiquei na rodoviária até a hora do embarque fazendo palavras cruzadas.
Por volta das 16:15 eu vi parar um ônibus na plataforma com a inscrição nas
Laterais Viação Varzealegrense, entrei no ônibus e ocupei a cadeira 06, e relaxei. 
De repente chegou um cidadão com aparência de boiadeiro olhou para mim falou:
Essa cadeira é minha!
- Não senhor eu comprei a cadeira 06, tá aqui a passagem olhe!
Ele mostrou também a passagem 06 e disse:
-A minha também é 06, quer que eu esfregue na sua cara?
Começou a confusão veio o motorista, mas não resolveu nada, eu disse que queria falar com o agente que era a maior autoridade. Enquanto a confusão rolou passaram 30 minutos. Quando o agente subiu no ônibus já foi escutando eu dizendo que ia comunicar o fato ao senhor Raimundo Ferreira, que era o proprietário da empresa. O agente muito equilibrado pediu as duas passagens,
examinou uma e outra, depois se dirigiu ao cidadão e falou:
- O senhor tem toda razão, a sua cadeira de fato é a 06, pode ocupar o seu
Lugar
Eu fiquei surpreso com aquela situação, mas ele se dirigiu também a mim e disse: Você tem razão. A sua também é 06.
- E como é que vai ficar esse rolo?
- Calma a sua é a 06, mas é do ônibus de Várzea Alegre, esse aqui vai para
Assaré. O seu foi aquele que saiu a pouco.

136 - BOTARAM COLORAU - Mundim do Vale

Meu irmão João Morais, a minha cunhada Marta e a minha sobrinha Renata, ainda criança, foram passar uns dias em Várzea Alegre e tiraram um domingo para passar no Sanharol, na casa de Geralda Batista. No mesmo domingo estava também na casa de Geralda a sua sobrinha Mundinha que tinha a idade próxima a de Patrícia. As duas tinha o costume de lanchar; Queijos, biscoitos, pães, frutas e qualhada. Mas não conheciam ainda os iogurtes, que eram novidade na época e ainda não tinham chegado a V. Alegre.
Uma certa hora Marta foi servir um iogurte de morango para Renata e sem querer gerou uma curiosidade nas duas garotas. Uma olhava para a outra e cochichava:
- Mulher o que é aquilo?
- Sei não neguinha! Mas eu queria tanto provar.
Marta saiu com Renata em direção da calçada e levou a embalagem mas deixou a tampa sobre a mesa.
As duas correram para a mesa, mas Patrícia chegou primeiro. Pegou a tampa de alumínio e passou na língua, como quem passa um selo e em seguida fez uma expressão de espanto para Mundinha e falou:
- Basta! Isso é qualhada Mundinha!
Mundinha mais espantada ainda disse:
- Pera. Patrícia! Onde foi que já se viu qualhada dessa cor?
- Pois é qualhada sim.
- Pois então botaram colorau nela.


135 - SORTEIOS DE PIZAS - Mundim do Vale

Darlan me contou que o seu pai André, sempre foi rigoroso na educação dos filhos, principalmente dos filhos homens. Mas com todo esse rigor, ele e os seus irmãos; Dalmir, Demontier e Neném, aqui e acolá aprontavam algumas
Travessuras. Entre os quatro havia um pacto de não assumir o mal feito e nem delatar o responsável.
Certa vez um dos quatro colocou um caçote dentro do pote de água de beber.
Quando o pai foi tomar água, o caçote pulou bem na cara dele. André ficou mais nervoso do que sacristão engasgado com vinho e já foi logo perguntando:
- Quem fez isso? – Eu não foi! - Eu também não! – Eu muito pior! – Não foi eu
e nem eu sei quem foi!
André falou: 
- Pois muito bem, como ninguém sabe quem foi, eu vou sortear uma piza. Chamou Bezinha e mandou escrever o nome de cada um num papel depois enrolou tipo canudo, colocou numa lata de leite ninho e mandou que Erineide tirasse um. Abriram o papel deu Darlan, que apanhou mais do que
Jumento ruim acoado.
Em outra ocasião um deles enforcou a boneca de Zuleide na grade da janela.
Quando André chegou que viu a menina se esgoelando, perguntou logo:
- Quem foi? 
Ninguém respondeu e ele pediu logo os papéis a Bezinha.
Feito o sorteio deu Darlan novamente. E tome peia. Uma semana depois botaram o cachorro e o gato na dispensa e fecharam a porta. André vendo a arrumação perguntou; 
- Quem foi? 
Silêncio total:
- Pois vamos ao sorteio.
Darlan aproximou-se e disse: 
- Pai é melhor o Senhor me açoitar logo. Porque só sai meu nome nessa chibata.
- Não Senhor! Eu sou um pai democrático e além do mais, eu gosto desse jogo. – Pois vamos jogar castanha que é melhor. – Negativo, vamos fazer o sorteio.
Feito o sorteio advinha quem ganhou? Eu respondo. Darlan.
Passado quinze dias apareceu uma tigela de coalhada com creolina dentro. Quando André chegou os meninos estavam muito mais preocupados do que o gato de valdeliz quando me via colocando couro nas cuícas da charanga.
André mais zangado do que das vezes anteriores falou:
- Bezinha vamos ao sorteio. 
Bezinha botou os nomes, enrolou e colocou na lata, quando Darlan interrompeu:
- Pai. Eu queria conferir os papéis pra ver se não tem só o meu nome.
André muito irritado pediu para Bezinha abrir os bilhetes e lá estavam os nomes dos quatro. Darlan conferiu ficou calado e André falou:
- Tá vendo cabra! Você duvidou da minha honestidade com insinuações tendenciosas, agora engula seu desaforo.
Enrolaram os papéis novamente e para mostrar transparência, veio a caçula
Gláucia para sortear. Mas diz aí que deu Darlan.
André ainda nervoso falou:
- Darlan, hoje você ganhou duas pizas; Uma porque foi contemplado e a outra
Porque desconfiou de mim.
Graças a esse rigor na disciplina, os filhos de André todos são pessoas de bem. E a eles eu dedico esse causo.

Fonte; Darlan Batista.

134 - PIOR PODERIA TER SIDO

Respeitando as devidas proporções. O 06 de outubro, em Várzea Alegre, teve semelhança com o 11 de setembro, em Nova York.
Era festa de aniversário da emancipação política da cidade e o prefeito promoveu atividades culturais e esportivas para comemorar. Entre as atividades estava o ciclismo.
Para a corrida se inscreveram: Antônio Negrão, Baixinho da Cadeiras, Zaqueu Guedes e outros mais. Os torcedores ficavam nas esquinas, para jogar água nos atletas, Mas Zé Bobô fez diferente, passou a semana juntando lavagem numa lata de querosene para fazer a brincadeira..
Quando Zaqueu fazia a primeira volta os outros atletas já estavam na terceira, foi nessa hora que Zé Bobô jogou a lata de lavagem nele. Zaqueu parou a bicicleta e foi descendo enquanto tirava uma casca de banana da cabeça e alguns macarrões do ombro. Olhou Para Zé e falou:
- Jogue mais não meu bichim. Isso é um atentado contra a minha saúde. Eu tou com o corpo quente e posso estoporar. Em seguida montou na bicicleta e saiu pedalando para tentar recuperar o tempo perdido. Pedalou uns 100 metros e a corrente caiu. Enquanto ele colocava os outros atletas deram mais duas voltas. Quando ele terminou de colocar a corrente, olhou para as mão e a roupa suja de graxa e disse:
- Arre égua. Nessa corrida já aconteceu de tudo comigo. Só falta agora eu chegar pru derradêro.
O Baixinho das cadeiras com 03 voltas na frente de Zaqueu e 03 atrás dos outros, foi a fazer a curva na rua do juazeiro para entrar na Av. Figueredo Correia, deu uma sobrada e caiu com bicicleta e tudo no terraço de Petronila,
Quebrou o varal, um pé de peão roxo, 02 gaiolas, amassou um bule e ficou mais arranhado do que capador de gatos. A bicicleta ficou com a roda traseira
Encostada da dianteira e a garupa foi ficar colada nos guidões. De tão compactada que ficou a bicicleta, deu para ser colocada num saco de farinha.
Levaram a bicicleta para a oficina de Punduru pra ver se dava para aproveitar pelo menos os raios. E o Baixinho foi colocado numa padiola e levado para a farmácia de Nelinho para fazer os curativos. Nessa ocasião chegou Zé de Bogim e falou:
- Mas que tragédia em Baixinho!
O Baixinho entre um ai e um ui falou:
- Pior poderia ter sido.
- Como poderia ter sido pior? Se você perdeu a bicicleta, a corrida e quase perde a vida?
- Tinha sido pior se dona Petrolina tivesse catando arroz no terraço.
- E qual a diferença dela tá catando arroz, para tá estendendo roupas ou aguando plantas?
- É porque se ela tivesse catando arroz, tava entretida com a cabeça baixa, e não dava tempo dce correr.


133 - PERDÃO NEGADO

O meu primo Paulo Piau, uma vez vinha da cidade para a Vazante, quando passava na roça de Joaquim Beca, viu uma melancia daquelas rajadas convidando para ser consumida. Meu primo ficou numa dúvida pensando:
- Eu como. - Não como. - Eu como. - Não como. Eu como.
O time do Eu como, venceu de três a dois o time do Não como.
Paulo bateu com a melancia numa pedra, abriu em duas bandas e comeu até chegar no verde das cascas.
Por volta das cinco horas da tarde, ele viu Tõezim de jaoquim Beca e Antônio Almeida descendo na estrada, cada um com um boldoque.
O ladrão de tamboroca escondeu-se atrás da porta e escutou quando Tõezim disse para o primo Antônio:
- Mais Ontõe! Passou um senvergõe fí duma égua na roça de pai e cumeu a melancia qui pai tava guardando pra mandar pro pade Otavo. Mais se eu tivesse visto, o tanto de semente qui a melancia tivesse, era de bala de badoque qui eu dava na cabeça do infeliz.
Paulo depois de ouvir aquela conversa, teve uma crise de remorso misturada com pânico. Passou a noite acordado ensaiando um discurso para o pedido de perdão.
Quatro horas da madrugada Paulo foi até a porta da casa de Joaquim Beca com mais cautela do que condutor de vidros. 
Na cabeça um dilema se pedia ou não o perdão:
- Eu Peço. – Não peço. – Eu peço.
O Eu peço, ganhou de dois a um do Não peço.
Com a vitória do Eu peço, Paulo preparou-se para o pedido.
Joaquim Beca abriu a porta para ir tirar o leite, Paulo tomou a frente e começou a gaguejar:
- Seu Joá, Joaquim Be- Beca.
Como Joaquim ficou passivo ele curou-se da gagueira e continuou;
- Seu Joaquim Beca, eu vim aqui pedir perdão ao senhor, porque fui eu que furtei a melancia. Mas foi porque eu vinha com fome e não sabia que ela estava resevada para o Padre Otávio.
Joaquim Beca numa calma contrastante com Paulo falou:
- Meu filho, Você está perdoado. Agora se fosse Raimundo seu Primo, eu não perdoava era nunca. Raimundo Piau além de roubar minhas melancias, quando acaba de comer, joga as cascas na cacimba de Laura e planta as sementes nos canteiros de verduras de Toinha.

132 - PIAU NA REDE DE TUCUM.

No ano de 1972, o pintor Ildefonso Vieira Lima, alugou um casarão na Av. Getúlio Vargas ( Hoje Av, Luís Afonso Diniz ) Que ficava em frente ao Bar Bola Preta, de propriedade de Vitorino Fiuza.
Na casa ficava uma área para os trabalhos de pituras e a outra área onde ficavam os quartos era alugada paras os amigos do pintor.
Os inquilinos eram: Luís Bitu, Demomtiê Batista, Zé Mário de Zé Vitor, eu e taveirinha.
Os pintores eram: Zé Thales, Nilberto de Argentino, Mangueira e outros mais. Ildefonso tentava manter a disciplina, mas era impossível em virtude da idade dos seus auxiliares e inquilinos.
Eu batizei o local de “ TUCUM “ porque naquele tempo o serviço de pintura de paredes, ainda eram feitos com pincel de tucum.
Uma noite lá Zé Thales armou uma rede de pesca no corredor da entrada para fazer um pegadinha comigo, quando eu chegasse de madrugada, porque no corredor não tinha iluminação.
Mas Ildefonso precisou de alguma coisa e teve que sair antes da hora da minha chegada e aconteceu exatamente o que vocês estão pensando, ele ficou enrolado na rede até a hora que Luís Bitu saiu com uma lanterna.
Quando amanheceu o dia Ildefonso reuniu todo mundo e começou seu discurso:
- Magote de irresponsáveis! Vocês estão estudando é pra serem moleques? Se não aparecer o infeliz que fez isso, eu vou entregar a casa.
Zé Thales levantou o braço pediu a palavra e falou:
- Eu vou confessar. Fui eu, que eu botei para pegar um Piau, mas Defonso chegou primeiro do que Raimundinho, aí deu no que deu.


131 -  DENTES DESBOTADOS

Zé de Freitas e Geraldo Gago, filhos de Raimundo de Freitas, uma vez se combinaram para roubar cajaranas na casa de Caetano de Zezim Matias. Sérgio o irmão mais novo seguiu os dois até a Vazante. Os mais velhos subiram pela ponta de uma galha, mais Sérgio não conseguiu. Revoltado com a covardia dos irmãos, o caçula foi denunciar:
- Seu Caitano. Meus irmãos tão robando cajarana.
- Eu sei. Eu vi quando eles subiram. E você não está lá também, porque não alcançou a galha. Mas eu vou botar aquele caixão e você sobe também. Colocado o caixão, o garoto subiu e ficou junto com os outros malinos. Só se ouvia era a cantiga de Sérgio:
- Eita! Qui eu já chupei tanta cajarana qui já disbotei inté meus dente.
Depois de mais de duas horas de folia, Caetano escondeu o caixão.
Quando resolveram acabar a farra, os dois maiores pularam e deixaram o irmão lá em cima. Começou a ficar escuro,o garoto se aperreou e se danou a gritar:
- Seu caitano! Traga o caixão prumode eu siadescer.
- Dá certo não Sérgio. O caixão Luís meu irmão levou para o Mameluco e só vai trazer amanhã.
Os outros dois chegaram em casa e o pai perguntou pelo caçula, eles contaram a presepada e o pai foi buscar o filho já com um cinturão enrolado na mão.
Chegando lá ele falou:
- Desça, Sérgio!
- Num posso não, pai.
- Desça, que eu lhe seguro.
- Pois isbarre aí pai. Deixe eu tirar uma penca pra levar pra mãe.
- Desça logo cabra safado.
Sérgio foi descendo amparado pelo pai, mas quando botou os pés no chão, levou logo uma lapada. Em seguida levou mais umas quatro .
Caetano resolveu interferir falando:
- Tá bom Raimundo. O menino já foi castigado, com o medo que ele teve de passar a noite lá em cima. Porque o Senhor não castigou os outro dois que são maiores?
- Eu ainda vou castigar, eu deixei os dois amarrados naquele pé de mandacaru que tem no oitão lá de casa, enquanto vinha buscar esse. Mas eu garanto que os três nunca mais vão querer desbotar os dentes.


130 - EU NÃO TOU DENTRO DA FRUTA

No tempo da gripe asiática que atacou bastante gente em Várzea Alegre, os médicos recomendavam o uso do limão por ser uma fruta que contém bastante vitamina “ C “. O povo entendeu que era pelo fato da fruta ser azeda e começou estocar limão, laranja verde, tamarindo e até folha de cajarana.
O velho Filó vendia umas laranjas murchas na feira e ninguém aparecia para comprar. Só Chico Neném é que de vez em quando dizia por trás duma coluna:
-Filó taí ?
Ele respondia:
-Tá no rabo da mãe!
Depois de alguns “ bate e volta “ dos dois, chegou uma professora e perguntou:
- Seu Filó essas laranjas são doces?
- É doce qui só um favo de mé!
- Sendo assim não vai me servir, porque eu queria era azeda para me prevenir da gripe asiática.
Foi quando Filó sentindo a sua venda ameaçada falou:
- Quer dizer. Eu num tou dento da fruita né madama?


129 - DESACATO A AUTORIDADE

Numa certa tarde de domingo, Abidom,Valeriano, Afonso Doido e Pedro Tibúrcio, estavam bebendo na barraca de Zé Enrola Rede, quando passou Leví de Abel, que apagava cigarros na língua e falou:
- Desses quatro aí, o mais mió do juízo carrega água num pinico prumode incher o filtro.
No meio da proveitosa palestra Abidom disse:
- Eu sou o prefeito da Rajalegue. Vou mandar calçar a rua cum rapadura qui é prumode dar imprego a Chiquim de Pedo Belo.
Valeriano disse:
- E eu sou viriador. Mais eu vou barrar o projeto, qui é prus morta fome do alto da prefeitura num querer cumer o calçamento.
Afonso doido falou:
- Apois eu sou promotor. Vou quere saber dadonde é qui vem tanta rapadura e tombém o mel pra fazer o rejuntamento.
Pedro Tibúrcio disse:
- E eu sou o juiz de dereito dessa chibata. Num vou deixar ninguém fazer piquenique na sombra da prefeitura.
Zequinha Soares que jogava bola de sinuca pra cima e aparava na cabeça, ia passando de frente, quando viu as autoridades reunidas gritou:
- Eita! Qui o qui é de maluco, tá tudo junto na barraca de Zé Enrola Rede.
Abidom reagiu:
- Maluco o que? Seu dolido fila da puta. Venha dizer aqui, qui é pra nóis lhe mostrar cum quantos pau se faz um cangáia.
Foi aí que Zequinha resolveu encarar as autoridades. 
Quando entrou na barraca foi logo dando uma cadeirada no prefeito, que ele caiu à granel. O promotor quis correr, ele rebolou um tamborete, ele caiu também. No vereador ele deu uma pesada que o mel desceu no calcanhar. No juiz ele deu outra pesada nos possuídos que ele só disse um ái. 
Quando Zé Enrola Rede viu as autoridades todas gemendo no chão e o piso mais sujo do que banheiro de trem, olhou para a esposa e perguntou:
- E agora muié? O qui é qui eu faço? Zequina já açoitou juiz, prefeito, promotor,
E vereador. Quem é qui eu vou chamar prumode arresover essa arenga?
A mulher coçando a cabeça respondeu:
- Sei não Zé! Pruque tu num chama os Galego de Quilara?

128 - EU JÁ TOU APOSENTADO - Mundim do Vale

Francisco Ildefonso, conhecido em Várzea Alegre como Chico da Sapucaia, depois de aposentado pela idade, resolveu curtir a aposentadoria não aceitando fazer mais nenhum trabalho. Se alguém lhe chamasse para fazer algum bico ele se zangava e dizia:
- Eu já tou aposentado!
Certa vez ele passava uma semana santa no sítio Baixio do Exu de propriedade do seu cunhado duplo Azarias Martins e com eles estava também seu primo João de Vigovino que trabalha no ramo de construção civil como empreiteiro.
Na quinta feira tomaram uns vinhos, almoçaram e depois foram dormir na varanda. Quando acordaram João falou para Chico que tinha tido um sonho muito bom. Chico ficou curioso e pediu para ele contar, os sobrinhos primos e amigos cantaram em couro:
- Conta, conta, conta.
Pois bem, foi assim: 
- Eu tava sonhando que tinha ganho uma concorrência para construir uma grande obra, já estava com muitos operários trabalhando e tinha uma fila enorme pedindo emprego. Chegou um rapaz com uma carta de recomendação e me pediu a vaga de mestre de obras. 
Eu disse: 
- Meu rapaz eu lamento muito não poder atendê-lo porque a vaga de mestre de obra eu estou reservando para meu primo Chico da Sacupáia.
Chico interrompeu João dizendo:
- Barra aí! Você vá dormir de novo, torne a sonhar e arranje o emprego para o rapaz, que eu já tou aposentado.


127 - O SEQUESTRO DE GETÚLIO - Mundim do Vale

O Sr. Matias quando era delegado civil de Várzea Alegre, prendeu uma vez um sujeito que havia furtados uns porcos. Para ser liberado, o preso Pagou a carceragem com uma novia de porca que era fruto do próprio crime.
O delegado levou a novia para a sua propriedade no sítio Vazante e botou junta com um barrão para cruzamento. Quando a novia pariu foram três leitões preto e um vermelho. A mãe vendo a misturada matou os pretos e rejeitou o vermelho. Sem amamentação o leitão sobrevivente ficou desnutrido.
Zezim de Matias com pena do bacurim levou para dentro de casa para ser alimentado na mamadeira. O porquinho foi resistindo e se tornou o mascote do sítio, toda a vizinhança gostava dele, botaram até o apelido de Getúlio. Apenas O sr. Matias era que dizia:
- Getúlio não vai escapar.
Mas com aqueles cuidados Getúlio foi crescendo e engordando até se tornar um porco pronto para o abate.
No sítio mameluco morava um filho bastardo do Sr. Matias de nome Adalto que não era chegado ao trabalho, nunca deu um murro numa broa. Sabendo da história, Adalto fez um plano para furtar o porco. Saiu de madrugada, botou um bornal no focinho do porco, amarrou as patas, botou o porco no ombro e foi vender a Antônio Pagé. 
O desaparecimento de Getúlio gerou uma grande tristeza e surgiu os seguintes comentários:
- Getúlio foi robado.
- Isso foi bem os bichos qui comero.
- Bicho nuo foi não, qui não tem sangue nem cabelo no chiqueiro.
- Então foi gente cum raiva de padim Matia.
- Uma hora dessa Getúlio já virou foi lingüiça.
O Sr. Matias dizia:
- Eu não disse a vocês que Getúlio não escapava.
Passados alguns dias o Sr. Matias mandou um recado para que Adalto viesse na Vazante que ele tinha um assunto muito sério para falar com ele.
Quando Adalto recebeu o recado pensou com ele mesmo:
- Arre égua! Pai já tá bem sabendo qui foi eu qui afanei Getúlio.
Chegando na Vazante Adalto encontrou o Sr. Matias sentado numa espreguiçadeira na sombra do oitão que foi logo dizendo:
- Suba Adalto! Que eu quero ter uma conversa com você.
Adalto subiu a calçada, estirou a mão mais trêmula do que mão de salgador de toucinho e falou:
- A bença pai!
- Deus lhe abençoe.
- Pai. Eu vim aqui morrendo de veigonha, prumode pidir perdão a pai. 
- E o que foi que tu fez dessa vez Adalto? Não vá me dizer que andou malinando em alguma moça e embuchou ela?
- Num foi isso não pai.
- E o que foi? Diga logo.
Adalto ficou mais aperreado do que preá em fogo de broca:
- Bem.... Bem.... Bem....
- Diga logo Adalto! Nada nesse mundo pode ser pior do que a tua pessoa.
- Apois eu vou dizer logo. É pruque eu tava pricisando, o cão vei me atentar, aí eu carreguei Getúlio e fui vender a Ontõe Pagé.
- Pois você deixe de tolice que Getúlio era seu.
- Era meu Cuma pai?
- Quando eu vi que Getúlio corria o risco de não escapar, fiz uma promessa com São Raimundo para se ele vivesse, eu engordar e lhe dá de presente no dia do seu aniversário, que vai ser domingo. Era esse o Assunto que eu tinha pra lhe falar.

126 - RECEITA EM TABUA LASCADA - Mundim do Vale

Em 1960 Dr. Lemos foi chamado para atender um doente que estava muito mal no sítio Lagoa Seca. Chegando lá examinou o doente e quando foi passar a receita viu que andava sem a caneta. Pediu que alguém providenciasse uma caneta ou um lápis, mas nem na casa nem na vizinhança foi encontrado.
Dr. Lemos falou:
- Não tem problema tragam um carvão e uma tabua que eu escrevo e depois vocês copiam quando arranjarem lápis ou caneta. 
Trouxeram um carvão e uma janela e ele escreveu enquanto dizia:
- Olhem quando for amanhã vocês vão muito cedo a Várzea Alegre e procurem a farmácia de Nelinho e comprem esse remédio. Mas não deixem de ir porque o caso dele é muito sério.
No outro dia arranjaram a caneta mas como ninguém conseguiu 
Entender a letra do médico o jeito foi ficar mesmo na tabua da janela.
A candidata a viúva chamou dois candidatos a órfãos e disse:
- Vocês vão lá na farmácia de Seu Nelim para comprar esse remédio, vão por cima da serra que é mais perto.Mas vão num pé e voltem noutro.
Os dois saíram se revezando já quase correndo com a tabua na cabeça. Quando chegaram nas pedreiras do Riacho do Meio o que conduzia a receita intrupicou e ela partiu-se no meio. Ficou uma banda pra cada um.
Chegaram na farmácia montaram a receita por cima do balcão.
Seu Nelinho olhou com uma expressão de espanto e um dos irmãos perguntou:
-O qui foi Seu Nelim? Num vá me dizer qui o Senhor tombém num sabe ler a letra do doutor.
- Claro que a letra do médico eu entendo. Mas depois de vinte anos de farmácia é a primeira vez que eu vou aviar receita em tabua lascada.

125 - DEVER DE CASA - Mundim do Vale

Em Várzea Alegre meu primo Jocel Nunes, ensinava o dever de casa ao seu filho Jocel Filho, quando os gatos começaram a namorar no telhado. Jocel Filho olhou para o pai arregalou os olhos e falou:
- Paiêêê!
- Diga filho.
- Porque quando os gatos tão trepando ficam fazendo essa putaria toda?
- O que é isso meu filho? Que termos são esses? Trepando, putaria? Não é isso que eu estou lhe ensinando é?
- É não Senhor.
- Pois bem os gatos não são seres humanos, são seres irracionais, eles estão amando e é com esse comportamento que eles manifestam os seus sentimentos. Entendeu Jocel Filho? 
- Entendi perfeitamente papai. Mas que é uma bagunça é.
E lá se vão: Substantivos, verbos, adverbos, pronomes, abstratos e concretos, quando de repente;
- Paiêêê!
- O que foi Jocelzinho?
- Pai porque quando o Neguim de João Lopes roubou o bujão de gás da bodega de Luís Silvino, Açoitaram ele e ainda botaram na cadeia?
- Meu filho, preste atenção. O Neguim de João Lopes praticou um furto, assim sendo ele foi enquadrado no código penal para pagar pelo delito cometido.
- Mas paiêêê! E porque tá todo mundo dizendo por aí, que o prefeito roubou o dinheiro da nossa merenda escolar, e não botam ele também na cadeia, para pagar pelo delito cometido? Ou será porque o prefeito robou muito e o Neguim roubou pouco?
- Meu filho esse caso é diferente. O Senhor prefeito tem nível superior, além de que, depende também da:Câmara municipal, tribunal de contas dos municípios, tribunal de contas da união e ministério público. Você entendeu meu filho?
- Não Senhor pai. Não entendi patavinas.
- Eu também não filho. Vamos falar de trepadas de gatos, que é assunto que a gente entende

124 - FEIJÃO BRANCO - Mundim do Vale

Uma vez eu fui com Francimar de Doca Dutra e Zé Sátiro Bitu tomar umas cervejas no bar de Zé Batista Caldas. A despesa era por conta de Zé Bitu porque era ele, o mais estribado dos três. Depois de umas e outras, Francimar falou que só faltava um tira-gosto. 
Chamou Zé Batista e falou:
- Zé tem algum tira-gosto aí?
O proprietário com aquela delicadeza que tinha, respondeu curto e grosso assim como anão rico:
- Tem não! Aqui não é pensão. Aqui é um bar.
Eu dei um tempo para que a gente pudesse esquecer aquela grosseria e depois falei para Zé Bitu;
- Zé. Lá na bodega de Luís Silvino chegou umas latas de feijão branco que é muito bom para tira-gosto.
- Pois vá lá e compre duas.
Eu fui comprar as latas de feijão, quando cheguei entreguei para o proprietário
Esquentar e servir para nós. Quando o feijão chegou na mesa foi num prato do tamanho de um pires. Zé Bitu olhou para aqueles grãos gigantes aboiando no caldo, olhou pra mim com uma expressão de deboche e disse:
- Ou Raimundim! Se tu queria comer fava dágua no sal, era só nós ter ido pra casa de Padim lá no Sanharol. Pelo menos lá era de graça e não tinha Zé Batista Para ficar com a metade.

123 - COURO EXPICHADO - Mundim do Vale

Em julho de 1970, Valeriano entrou numa crise de loucura e arranjou um Revólver de plástico com Zé Bilé, dizendo que era para se defender de Lampião e seu bando, saiu na rua pulando muro, subindo em telhado, saltando cerca e atirando pela boca: 
- Pei. Pei. Pei.
Os conterrâneos já acostumados não ficavam assustados, mas o cabo Feitosa, muito autoritário resolveu tomar uma providência.
Juntou todo o policiamento e partiu para encarar o atirador.
Aproximou-se de valeriano e falou:
- Cabra safado. Porque esse tiroteio no meio da rua?
- É pruque no ano passado, lampião chegou aqui na Rajalegue cum os cangaceiros e eu tava disprivinido, e aí eles me pegaro quando acabar tiraro meu coro e ispixaro no oitão da casa do véi Zé Bitu.
- Deixe de conversa besta cabra! Eu só não vou lhe botar no xadrez
Porque você é doido, mas eu vou tomar seu revólver.
- Apois eu vou siscoder lá na Lardãnia, qui lampião num sabe adonde é.


122 - A QUEDA DO PADROEIRO - Mundim do Vale

Na década de 70, houve um inverno muito pesado no município de Várzea Alegre e por conta daquilo, a torre da igreja matriz desabou trazendo com ela a imagem do padroeiro São Raimundo Nonato.
Por coincidência ou milagre o santo nada sofreu, estava apenas desbotado pela ação do sol e da chuva.
O fato aconteceu a meia noite, mas quando amanheceu o dia a pracinha da igreja já estava lotada de fiéis. Com a presença dos curiosos surgiu os seguintes comentários:
Romana:
- Isso só pode ter sido um castigo. Quem mandou o Pade Mota pintar a igreja de verde?
João Mandu:
- Isso daqui foi um milagre grande! Cuma é qui pode um santo se distabacar duma altura de mais de trinta metro e num quebrar nem um dedo? Apois meu subrim caiu dum coqueiro qui é muito mais baxo, mais ele quebrou as duas perna.
Rosa Pagé:
- Vixe Cuma ele é fei! Eu reparava ele lá imriba e pensava qui era mais bunitim, mais ele é mermo qui tá vendo Chico de Munda.
Maria Bela:
- Vôte! São Raimundo cum esse amarelo impombado, tá direitim Dedé de Frazo.
O vigário aproveitou a tragédia e iniciou logo uma campanha para a reconstrução da torre. Enquanto desenvolvia os trabalhos, mandou o pintor Ildefonso Vieira Lima, renovar a pintura do santo.
Depois da torre concluída, o nosso conterrâneo Otacílio Correia, conseguiu com o governador, uma equipe do corpo de bombeiros com uma escada Magirus para colocar o padroeiro de volta no seu lugar.
A chegada dos bombeiros foi uma festa na cidade, o padre celebrou uma missa campal e benzeu a operação.
Depois do padroeiro no lugar, os bombeiros se despediram recebendo os aplausos da comunidade cristã. 
Gregório Gibão que estava no meio da multidão, tirou o chapéu, Colocou a mão na testa, olhou na direção da torre e gritou:
- Ei Raimundão! Quando tu quiser trocar a roupa de novo, é só dispencar daí de riba.

121 - VOLTA POR CIMA - Mundim do Vale

Uma vez eu resolvi vender atas no colégio São Raimundo Nonato, que funcionava provisoriamente no Grupo Escolar José Correia Lima. 
Pedi permissão ao Sr. diretor Dr. Dário Batista Moreno, que muito gentil permitiu o meu ingresso na hora do recreio. Entrei com a cesta de atas e fui até a quadra, onde estavam Diassis Aquino, Zé Mulato, Murilo Teixeira e outros rapazes com um grupo de moças. ( naquele tempo ainda tinha ) Fiz uma excelente venda, só sobraram quatro atas que já estavam amassadas.
Terminado o horário do recreio, eu voltava pelo corredor e passando em uma classe vazia, fui puxado pelo colarinho para o interior da classe. Eram três alunos que estavam de castigo; Alberto Siebra, Antônio Ulisses e Jucinete de Totô.Os três revoltados com o castigo resolveram praticar a vingança contra a minha pessoa. Os anjinhos comeram as atas, esfregaram as cascas na minha cara, me empurraram para o corredor e jogaram a cesta em mim. Refeito do susto, eu voltei na quadra e recolhi todas as cascas e caroços das frutas que tinha vendido aos outros alunos. Voltei pelo corredor bem caladinho e coloquei toda aquela sujeira por baixo da porta, sem que os rebeldes notassem, depois disto eu fiz uma cara de choro e fui até o direto me queixar:
- Doutor Dário. O Senhor me ajudou, mais os alunos que estão de castigo me deram prejuízo.
- E o que foi, que houve?
-Eles comeram o resto das atas, esfregaram as cascas na minha cara e ainda me deram uns contra vapor.
- Quantas atas tinha?
- Tinha doze.
- Você estava vendendo de quanto?
- Dois cruzeiros.
- Pois vamos lá que eu vou resolver.
O justo diretor foi comigo até a classe e eu mostrei as cascas e os caroços dizendo:
- Tá vendo aí Doutor? O tamanho do meu prejuízo?
Ele olhou para os três e falou:
- Muito bonito o que vocês fizeram em! Pois eu vou pagar o prejuízo do garoto que é trinta cruzeiros e vou cobrar dez de Totô, dez de Zé Augusto e dez de Antônio Costa. E vocês vão ficar mais duas horas de castigo.
Eu recebi o dinheiro e passei uma semana evitando um encontro com os três..


120 - TU NÃO TEM PAI NÃO? Mundim do Vale

No tempo em que haviam as festas de Nossa Senhora Aparecida, um jogador de baralho conhecido por Zé do Crato, acompanhou a caravana de Chagas Bezerra e depois que terminou a festa ele resolveu ficar na cidade.
Afora do jogo de baralho a coisa que ele fazia era escalar muros, na intenção de olhar uma mulher descuidada tomando banho ou trocando a roupa.
Certa vez Zé estava bebendo numa barraca da lavanderia, quando chegou Joaquim de Maria pereira, que devia ter uns quinze anos. 
Joaquim quando viu Zé foi logo puxando prosa: 
- Zé do Crato!
- Quier?
- Tu já laigou aquela mania de se atrepar nos muro prumode oiá as muié tumando bãe?
- É besta seu cabrito! Tu ainda nem quebrou o cabresto dereito e já tá tumando os ome a pagode. Vá simbora daqui se não eu lhe dou um sabacu.
Joaquim pra se vingar resolveu aplicar um ditado que tinha na época:
- Tu num tem pai não? Bicho do bicão!
- Tem não qui a veia tua mãe carregou.
- Êpa! Num diga isso cum mãe não, se não eu vou dizer a meu ti Pedão.
- Vá você e seu ti Pedão tumar adonde as pata toma.
Joaquim saiu a procura do tio e foi encontrá-lo tomando umas cachaças no bar de Zé de Lima. Falou com Pedão já chorando:
- Ti Pêdo! Zé do Crato tava isculambando cum mãe e o resto da famia.
Pedão tomou uma terça, passou a mão no beiço, quebrou o copo de um murro e perguntou:
- Cuma é essa istora Joaquim?
- É do jeito qui eu dixe. Zé do Crato isculambou mãe e a famia todinha.
- E adonde é qui tá Zé do Crato?
- Tá lá na lavanderia bebendo cana cum tripa de poico.
- Apois inquanto eu vou lá, você vá lá na casa de mestre Oraço e mande ele fazer o caixão do finado Zé do Crato. 
Pedão desceu na rua do Jauazeiro mais zangado do que Zé Chato quando caía do jegue. Quando passou na barraca de Bié, tomou meia garrafa de madeira de lei e quebrou o casco na forquilha.
Zé do Crato estava boatando na latada da lavanderia, quando pedão entrou desafivelando um cinto, onde tinha na fivela as letras PP em alto relevo, que seria as iniciais do nome ´ Pedro Pereira “ Zé quis correr mas não deu mais tempo, Pedão já tinha preenchido a passagem. Com a ponta do cinto enrolada na mão Pedão falou:
- Então Zé. Você tava isculambando a minha famía?
- Aquele fresco já foi inredar num foi? Mais fique sabendo qui um ome é pra ôto.
- Onton-se lá vai um, adispois o ôto vem.
Dizendo aquilo Pedão deu uma lapada tão condenada no lombo de Zé, que ficaram gravada as letras PP no ombro esquerdo. Nesse momento o Sr. José Sobrinho que era o administrador da lavanderia, pediu a Pedão para sair e ele em atenção ao administrador retirou-se.
Assim que Pedão saiu, chegou Antônio Ulisses que era menino na época. Olhando para o estado de Zé, Antônio Ulisses perguntou:
- Oxente, Zé do Crato! Quem foi que te marcou com o ferro de gado de Pedro de Pinho.


119 - O MUNDIM FAZ NO ESCURO - Mundim do Vale

Eu fazia o programa FORROZÃO DO MUNDIM, na rádio F.M. Pecém, no distrito do porto e para ilustrar o programa, eu convidei o poeta repentista Ary Teixeira. O poeta de pronto atendeu o meu convite e foi ao Pecém onde fez duas horas de programa comigo. O nosso trabalho foi muito bem recebido pela comunidade e a audiência já estava bastante significativa quando um gaiato desses que gosta de ouvir a “Égua Pocotó” ligou pedindo para falar comigo na linha externa.
Eu atendi pensando se tratar de um dos inúmeros ouvintes, mas foi um tremendo engano. Era um trote. O sujeito disse que violeiro era coisa de matuto, que ninguém gostava daquilo e que se eu não tirasse o repentista do ar,ele mandaria cortar a energia daemissora. 
Eu tentei argumentar dizendo que o programa era de cultura popular, mas o intelectual de proveta sempre irredutível não aceitava os meus argumentos. A solução foi responder a altura daquela provocação. 
Ainda na linha eu falei: 
- Sim Senhor, seu ministro das minas e energia. Mas é uma pena Sua Excelência mandar cortar a nossa energia, porque a senhora sua mãe adora um “Galope a beira mar”. Depois desse papo eu desliguei o telefone e em seguida nós recebemos várias ligações
de solidariedade dos nossos ouvintes. 
Eu me despedí do público e anunciei o poeta Ary para encerrar o programa. 
Fora do ar eu pedí ao poeta para improvisar uma resposta ao aprendiz de dublê de gozador. 
O poeta improvisou uma décima nesses termos:

O Forrozão do Mundim
É feito só de cultura,
Começa na abertura
E prossegue até o fim
Se alguém tá achando ruim
Jogue o rádio no monturo,
Que pra trote sem futuro
A resposta é poesia
Se cortar a energia
O Mundim faz no escuro.

Mundim do Vale.

118 - FOI POR ISSO QUE VOLTEI CORRENDO - Mundim do Vale


No ano de 2009, eu passava a festa do padroeiro em Várzea Alegre e num daqueles dias, eu estava batendo um papo na loja do primo Nonato Souza, quando chegou o Dr . Vicente Moreno Filho (Douglas). O bom advogado conversou um pouco com a gente e saiu esquecendo seus óculos no balcão. Logo depois chegou João Sem Braço, que conversou um pouco e saiu. Depois da saída de João, Dr. Douglas chegou mais cansado do que tirador de cocos no inverno. E foi logo me perguntando:
- Eu deixei meus óculos por Aqui?
Eu logo respondi:
- Deixou taí no balcão. Mas faltou pouco para você perder seus óculos, porque João Sem Braço andou entrançando por aqui.
- Eu sei, Eu vi lá da casa de Balbina. Foi por isso que eu voltei correndo.


117 - NA BAIXA DO VÉI CIRILO - Mundim do Vale

Certa vez chegou em Várzea Alegre, um funcionário da antiga ANCAR - CE, para oferecer assistência técnicas aos agricultores e criadores do município.
A princípio houve uma certa dificuldade em virtude da incompatibilidade de  linguagem. Os agricultores e o técnico não chegavam a um entendimento.
O moço marcou uma reunião no grupo escolar do sítio Sanharol, para tentar sincronizar o diálogo entre as duas partes. Depois do cerimonial o próprio técnico fez a abertura dizendo:
- Bem meu povo. Eu propus essa reunião para que nós possamos através dela desenvolver uma comunicação melhor. O nosso primeiro tema será sobre as  profissões. Nós vamos poder comparar o meu entendimento com o de vocês.
Vamos aos exemplos:
- GEÓLOGO - É o que vocês chamam de cavador de cacimbão.
- APICULTOR - É o tirador de mel de Capuchu.
- PROFETA - É o adivinhador de chuvas.
- DEPILADOR - É o pelador de porcos.
- PARAMÉDICO/VETERINÁRIO - É o curador de bicheiras.
- GRÁFICO/VETERINÁRIO - É o ferrador de gado. 
- CIRUGIÃO/VETERINÁRIO - È o capador de animais.
- CANALIZADOR DE IMPUREZAS - È o desentupidor de fossas.
Para certificar-se de que a primeira palestra tinha causado um resultado positivo, o funcionário resolveu argüir José Lucas que era um cidadão de idade e que estava sentado em uma das cadeiras da frente:
Sr. José! A minha profissão é TÉCNICO AGRÍCOLA. Como é que vocês chamam por aqui?
- Eu num sei não sinhor! Eu só sei é qui quando o sinhor naceu, fazia tempo qui eu criava bode e prantava arroz ali na baxa do véi Cirilo.


116 - NA RUA DO DELEGADO - Mundim do Vale

O Senhor Pedro Tonheiro, delegado civil de Várzea Alegre, residia na rua dos Perus e vivia se queixando que a rua estava precisando de um calçamento e a prefeitura não fazia. Chegou até a pedir a interferência de amigos, chefes políticos e vereadores mas nunca chegou a falar com o Senhor prefeito. Depois de um ano reivindicando, Seu Pedro que era muito opinioso resolveu desistir.
Um certo dia o coronel Dirceu de Carvalho Pimpim cedeu um quartinho que tinha atrás do motor de pilar arroz, para o ferreiro Chico Basilo Morar. Como Chico passou a morar na mesma rua dos Perus, ficou boatando no meio da rua:
- Essa nossa rua pricisa de calçamento, Mais eu vou tumar uma providença. Amanhã mermo eu vou falar cum o prefeito doutor Daro.
Dois dias depois chegou três caminhões de pedras e em seguida chegou Chiquinho de Pedro Belo com a sua equipe e já começaram a calçar.
Pedro Tonheiro, quando viu o calçamento já bastante adiantado, foi falar com Chiquinho:
- Chiquinho! Quem foi que conseguiu esse calçamento para essa rua?
- Sei não Seu Pêdo! Eu só sei é qui Doutor Daro mandou eu fazer cum ugença. Mais aqui só pra nóis, eu vi Chico Basilo dizendo qui foi ele qui arrumou.
- Mas era só o que faltava! Chico Basilo não tem prestígio nem pra mandar calçar o pé dele numa apragata currulepe.
Nesse dito momento Chico Basilo chegou e se dirigiu a Chiquinho:
- Chiquim. Nego véi. Num se isqueça de caprichar ali na frente da casa de Seu Pêdo. Viu? 
Chiquinho concordou com um balanço de cabeça, e seu Pedro simulou que estaria acreditando fazendo a seguinte pergunta a Chico Basilo ; 
- Chico! Como foi que você conseguiu esse calçamento?
- Foi faço. Eu disse a Doutor Daro qui quiria o calçamento da minha rua, aí ele preguntou: 
- Onde é que você mora? 
– Aí eu dixe: É na rua do delegado Pêdo Tonheiro.

115 - QUANTO PAGOU NA DÚZIA? Mundim do Vale

Certa vez Chagas Taveira combinou com Dorrim de Doca Dutra
para furtarem umas laranjas na laranjeira da casa de Raimundo Beca. O plano foi feito assim: Chagas entrava e Dorrim ficava no pé da cerca, para que Maria beca não notasse. De cima da laranjeira Chagas jogava as frutas e Dorrim juntava num saco de estopa.
E assim tentaram fazer. Chagas chegou para Maria e falou:
- Dona Maria, dêxe eu me assubí no pé de Laranja, prumode tirar umas fôia pra mãe fazer um chá, qui ela tá cum dor de barriga e caganêra.
Maria disse:
- Tá certo mais num tem pricisão de subi não. Do chão mermo dá pra tirar.
- Mais Dona Maria, pra fazer chá, é mais mió daquelas qui tão no ôi.
- Apois tá bom, mais num bula nas laranja não, viu?
Chagas entrou, foi logo subindo na laranjeira e tome laranja caindo e tome Dorrim aparando. Da janela onde Maria ficou catando o arroz, não dava pra ver nenhum dos dois.
Os dois na ânsia de furtar as frutas, não notaram que Raimundo Beca vinha chegando da feira. Quando Raimundo viu aquela festa,
foi chegando por trás e põs a mão aberta no ombro de Dorrim e perguntou:
- Quanto pagou na dúzia?
Chagas pulou e fez carreira por dentro das terra de Zé Raimundo, que o rabo foi um reio. 
Raimundo Beca inventou de olhar pra ver se conhecia o ladrão que correu, mas descuidou-se e o que estava imobilizado escapou.
Daí pra frente houve uma seção de palavrões e as mães dos garotos, ganharam um bocado de adjetivos sem serem qualificativos.
No dia seguinte logo pela manhã, Raimundo já mais calmo, saiu passeando com Maria e passando debaixo da laranjeira, encontrou uma sacola de plástico cheia de folhas de laranjas. Era o truque de Chagas para sair pela porta da frente. Com aquele achado a raiva de Raimundo voltou mais forte e ele falou para Maria:
- Ou Maria!
- OI.
- Adonde era qui tu tava qui num viu aquela arrumação de onte?
- Eu tava catando arroz cum a cabeça baxa.
- E tu sabe pelo meno quem é o pai daqueles cão?

- Sei, o qui tava inriba da laranjeira era Chaga de Jorge Taveira e o qui tava dibacho catando era Dorrim de Doca Dutra.
- E Cuma é qui tu sabe. Se tu tava cum a cabeça baxa?
Foi porque Raimundo Piau passou aqui onte de noite e eu paguei cinco laranja pra ele me dizer.
- Apois eu num cunfí não. Raimundo Piau é um cão também. Eu acho que ele tava era de parêa cum os oto, pra dispois parti o rôbo.
Pegue essas fôia e faça logo um chá, pruque se eu pegar um desses caba, ele é quem vai ficar cum caganêra.

114 - PRAGA DE CIGANO - Mundim do Vale

No ano de 1953, meu tio José Piau plantou ma rocinha de arroz num terreno de sua propriedade no sítio Lagoa do Arroz. Inverno bom, terra descansada, muito trato e pouca lagarta, o arroz prosperou tanto, que ficou a chegar da altura de um homem. Soltou uns cachos tão graúdos que quem estivesse na cabeça da ladeira do Sr. Cirilo, chegava a confundir com palhas de coqueiro.
Um dia lá meu tio estava contemplando aquela maravilha, quando de repente chegou um cigano e pediu:
- Seu Zé, me dê uns cachos desse arroz pra eu torrar e fazer um baião de dois.
- Não Senhor, o arroz ainda não tá bem maduro e vai virar papa.
- Você num dá não, né Jurom? Pois você vai perder esse arroz todim, qui é pra deixar de ser miserave. Quando o cigano saiu, além da praga ainda furtou uma perua do chiqueiro.
Depois disso chegou Joaquim de Pedro André, deu uma olhada na roça e falou:
- Eita Zé Piau! Você já tem arroz seguro pra mais de vinte quartas.
- É mais passou agorinha um condenado dum cigano aqui e rogou uma praga, dizendo que eu vou perder meu arroz. O desgraçado achou pouco e ainda furtou a perua da Maria de Lourdes, que nós tava engordando pra comer na apanha do arroz.
- Pois você tenha cuidado, porque praga de cigano é que nem trombose, quando não mata aleija.
No dia seguinte chegou um funcionário da prefeitura deu a mão ao meu tio e fez a seguinte proposta: - Seu Zé, vai chegar uma máquina de colher arroz e eu gostaria de usar primeiro aqui na sua roça. Seu arroz é o melhor do município para fazer a demonstração. Meu tio acostumado com a colheita convencional e mais cismado do que mineiro em saída de banco falou:
- É melhor o Sr. procurar outro, porque eu acho bom é cortar na faca, fazer a moqueca e depois fazer o pote dentro da roça.
- Mas Seu Zé. O Sr. vai passar uma semana ou mais, para colher esse arroz, enquanto que na máquina é apenas uma hora e não vai lhe custar nada.
Com todos esses argumentos, meu tio ficou sem resposta e concordou.
Uma semana depois chegou a máquina e junto dela o prefeito, a primeira dama, os vereadores, o padre, o delegado, umas duzentas pessoas adultas e mais de trezentos meninos onde um deles era eu. Fizeram as solenidades e em seguida derrubaram um pedaço da cerca para a máquina entrar. Quando aquela máquina entrou,que o operador botou pra funcionar, parece que esqueceu de acionar algum botão, a máquina descontrolou-se, ficou fazendo um barulho esquisito, saiu rodando desgovernada, transformou todo o arrozal em poeira, depois derrubou o resto da cerca e partiu acabando com tudo na direção do Ronca.
Quinco de Pedro beca que estava presente, assustou-se e correu em direção ao Sanharol que o rabo era um reio. Chegou na casa de Raimundo Bitu mais aperreado do que bode em canoa e foi logo dizendo:
- Dona Cotinha! Aconteceu uma desgraça ali na roça do meu ti Zé Piau. Truvero uma máquina prumode catar o arroz, mais quando o chofé se apiou nela, parece qui a bicha tava pissuida, saiu rodando a moda carrosé, fazendo uma zoada da gota e uma poeira junta cum uma ventania tão medonha, qui carregou inté os chapéu do povo e ainda alevantou o vistido da muié do prefeito. Adispois qui correu todo mundo, a condenada disimbestou pras banda do Ronca, acabando mei mundo de roça. Agora eu vou vortar pra lá, prumode oiá se já acentou a poeira, qui é pra eu ir ajudar a cassar Chiquim de Ontõe Bento, qui correu pru lado da serra do Gravié e tá todo mundo cassando ele.
Depois do prejuízo do meu tío José. O bom poeta Bidinho, que também era ligado a agricultura, improvisou essa décima.

Eu não sou de acreditar
Em conversa de feitiço,
Quando escuto falar nisso
Começo a me arrepiar.
Mas talvez por um azar
Ou um ato desumano,
Uma praga de cigano
Destruiu um arrozal.
E o pobre do Zé Piau
Foi quem entrou pelo cano.

Por Mundim do Vale.


113 - PANCHO LÁ E PANCHO CÁ - Mundim do Vale

No México, Pancho Villa o Caudilho, no ano de 1912, juntou-se com outro revolucionário de nome Emiliano Zapata e derrubaram o ditador Porfírio Diaz.
Aqui em Várzea Alegre alguns anos depois, Pancho do Baixio, morador do Sr. Antônio Primo, não era um caudilho, não tinha o cavalo sete léguas e nem a parceria com Zapata. Mas era disposto, tinha o jegue Rouxinho e resolveu acabar com as fiotesas das almas do sítio Arapuá. Um certo dia ele tomou umas cachaças e disse que ia encarar a maldição do Arapuá. arrumou o jegue e preparou-se para a missão.
Chico de Zé Chico do Taquari escutou a conversa, partiu na frente e ficou escondido numa moita de mofumbo, para fazer um medo a Pancho. Quando Pancho chegou próximo ao açude gritou:
- Cadê tu alma vagabunda?
Chico disfarçando a voz falou:
- Tou aqui! E quem é você?
- Eu sou Pancho! E você quem é?
- Eu sou a alma de Zé de Freitas.
- Apois ontonse é mintirosa. Pruque o Véi Zé de Freitas, foi o cabra mais mintiroso que deu aqui nessa rebêra.
No meio daquela teima rouxinho assustou-se e desembestou.
Quando passava perto de Chico ele gritou:
- Segura Pancho fí duma égua!
Pancho naquele cai não cai respondeu:
- Respeita as cara, alma mintirosa sem vergonha.
Depois desse acontecido, nunca mais ninguém viu falar em almas no Arapuá.

O Sr. José de Freitas era o avô do Dr. Raimundo Irapuan Costa. Era um cidadão brincalhão, que gostava de contar causos extravagantes.

Dedico a todos os netos de Zé de Freitas.

112 - QUEM FOI QUE MANDOU? Mundim do Vale

Teve uma época em Várzea Alegre que a cidade vivia cheia de ambulantes vendendo frutas e outros produtos de porta em porta. Quando os moradores não interessavam os produtos, perguntavam ao vendedor para descartá-lo: 
- Quem foi que mandou?
Uma vez o meu pai que era escrivão, estava numa audiência com o juiz e o promotor, no cartório do segundo ofício, na rua Major Joaquim Alves, quando chegou Araújo com uma cesta de mangas jasmim. O vendedor entrou de uma vez no cartório sem nem pedir licença as autoridades e jogou duas mangas no balcão, enquanto falava quase gritando:
- Ói aqui Pedo Piau! Manga Jasmim da Cachoeira dos Vito. É doce qui só um favo de mé.
O escrivão na intenção de se ver livre do inconveniente perguntou:
- Quem foi que mandou?
Araújo falou mais alto ainda:
- Quem mandou foi Deus. Mais ele dixe qui era prumode o Sinhor pagar o portador.

111 - FALSIDADE IDEOLÓGICA - Mundim do Vale

Meu parente Britinho, era o melhor fabricante de malas de V. Alegre. Fora deste ofício, ele era ainda o melhor tirador de mel e catador de cocos catolé
da cidade.
José Carvalho Pimpim, era político e comerciante do ramo de medicamentos o que fazia com que fosse bastante conhecido na região. Conhecido de nome porque nos anos cinqüenta não tinha estradas boas, e esse motivo fazia com que o tráfego e a comunicação, entre as cidades vizinhas fosse difícil.
Certa vez Britinho arranjou um cavalo emprestado e foi para uma festa na cidade de Cariús, lá chegando começou a beber e disse se chamar Zé Carvalho. Por conta do nome famoso, arranjou namoradas, comeu e bebeu de graça e sempre era dispensados das cotas dos sambas. Convite para almoços e jantares não faltavam, em cada casa era um capão e uma rede limpa. Britim luxou mais do que gato criado por moça velha. De tanto conforto que teve,ele resolveu convidar duas garotas para passarem um fim de semana em Várzea Alegre. Pensava ele, que pelas dificuldades não seria possível a viajem das garotas.
Passaram três meses quando foi um dia de sexta feira, chegou na frente da casa do coronel Dirceu, dois cavalos com duas senhoritas vestidas com calça de homem e montadas de banda. As visitas bateram palmas e chamaram até
que apareceu Mãezinha e falou:
- Diga!
- É aqui a casa de Zé Carvalho?
É aqui mermo.
- Pois diga a ele que é Socorro e Alacoque, as duas amigas de Cariús, que ele convidou para passar um fim de semana aqui.
- Mais José num tá im casa não.
- Então mande chamar ele.
- Apois disapei dos animal, qui eu vou mandar chamar ele lá na farmaça.
As visitantes desceram sentaram na calçada e Mãezinha mandou Zé de Dudau
Avisar a Zé Carvalho.
Quando Zé Carvalho chegou ficaram os três assustados.
Zé falou:
- Eu não me lembro das senhoritas não
Alacoque confirmou:
- Eu também não lhe conheço não! Você não é Zé Cravalho.
Nesse exato momento, sem de nada saber, Britinho ía passando de frente a igreja com duas malas na cabeça. Uma das garotas o reconheceu e gritou:
- Lá vai ele! Aquele é que é Zé Carvalho.
As duas saíram correndo atrás e gritando:
- Ei Zé Carvalho! Ei Zé Carvalho! É nós Socorro e Alacoque lá de Cariús.
Britinho desapareceu mais rápido do que suspiro em boca de menino. O jeito que teve foi Zé Carvalho hospedar as garotas. E o comércio de malas da cidade, passou noventa dias sem atender a demanda.

110 - DR. JOÃO PASSARINHO - Mundim do Vale

Na campanha municipal do ano de 2.000, candidatou-se em Várzea Alegre, o advogado João Siebra, tendo como adversário o também advogado João Eufrásio, concorrendo a reeleição.
Francimar de Doca Dutra trabalhava como cabo eleitoral para o Dr. João Siebra no distrito de Canindezinho. Num domingo Francimar bebia com outros melitantes numa mercearia do sítio Aba da Serra, no exato local onde os municípios de Várzea Alegre e Cedro faziam divisas.
Eles conversavam:
Dr. João praqui, Dr. João praculá, uma cachaça no copo, outra no bucho. Quando apareceu um sujeito com aparência de embriagado e falou:
- Ei Francimar, Pague uma lapada pra eu, qui eu tombém vou votar no Dr. João.
Francimar perguntou:
- Qual Dr. João?
- Dr. João adevogado.
- Mas os dois são advogados.
- Mas eu voto é no qui tem nome de Passarim.
Francimar ficou confuso sem saber qual dos dois candidatos tinha nome ou apelido de pássaro.
Nesse momento chegou meu primo Zé Brito, menor do que o bolsa família e conhecendo o sujeito falou:
- Num ingane o rapaz não! Tu nem votar na Rajalegue num vota. Tu vota é inté no Cedro.
Foi nesse momento que a ficha de Francimar caiu, e ele descobriu que o rapaz era eleitor do Dr. João Viana. Que também era advogado e candidato a prefeito do vizinho município de Cedro.


109 - PACIENTE COMPLICADO - Mundim do Vale

Joscilé Taveira ( Taveirinha ) Foi em vida uma pessoa carismática; Contador de causos, de piadas e participante das nossas brincadeiras em Várzea Alegre e Fortaleza. Isolando a cachaça que só fez mal a ele mesmo era um bom companheiro.
Uma vez Taveirinha adquiriu uma lesão no fígado, que já evoluia para uma cirrose, seus amigos falaram com o Dr. Sávio Pinheiro, para que o consultasse como se tivesse batendo um papo com o paciente, para que não houvesse rejeição.
Tremendo mais do que vibrador de viúva, o paciente chegou no consultório do Dr. Sávio e o bom médico o recebeu muito bem, já iniciando a consulta informal:
- Muito bem Taveirinha, vamos puxar um lero.
- Ramo.
- Olhe como amigo e médico, eu vou fazer umas perguntas, tá bom?
- Tá.
- Pois bem. me diga uma coisa, o que é que você sente?
- Eu sinto uma vontade da gôta de tomá uma fubúia.
- Não é isso não. Cara! Eu quero saber é o que é que tá lhe encomodando.
- É uma dor aquí na pá e umas frieiras nos pé.
- Pois bem. Nós vamos cuidar disso. Para a coluna eu vou passar um antibiótico e para os pés, uma pomada. Vou lhe dá os remédios de amostra grátis e não vou cobrar nada pela consulta, mas você tem que me prometer que vai seguir rigorosamente as minhas recomendações. Você vai ter que deixar de beber.
- Mais isso é muito faço, pruque ninguém quer vendê pinga fiado mais a eu.
- Não vai poder comer carne de porco.
- É faço tombém, qui eu num tem cum que comprá.
- Não pode calçar sapatos.
- Ora mais tá! Eu num posso comprá sapato não, eu tou calçando é chinela japonesa, qui inté queborousse o cabrexto e eu butei foi um clipe prumode segurá.
- Não pode mais dormir de rede, tem que dormir numa prancha de madeira.
- Isso é nada ome! derna qui a minha tifanga rasgousse, qui eu tou drumindo é no chão da cunzinha.
- Se você não atender as minhas recomendações você pode morrer.
- Se eu morrê o dotô tá perdoado.
- Mas Taveirinha. Eu estudei foi pra salvar e não para matar.
- Mais dotô, é pruque essa minha vida num séive pra nada não. Isturdia eu tava de ressaca, aí chegô Leoní Proto amuntado numa galinha das penas do ôro áí dixe a eu:
- Tavêra. Laigue de sê teimôso e samunte aqui na garupa qui já chegô seu dia. Ramo logo qui eu tô avexado.
Aí eu dixe:
- Ramo logo pradonde.
- Pra caxa prego.
- Aí eu quage qui ía dotô.

108 - MUAMBA OFICIAL - Mundim do Vale

Eu e Caseca éramos oficias de justiça em Várzea Alegre, com um salário pequeno e recebendo sempre em atraso.
O meu colega para melhorar a renda sempre procurava uma atividade paralela. Numa das vezes ele resolveu vender relógios do Paraguai ( Muamba oficial ).
Chegou com a mercadoria no café de Laura, onde estava Daniel Fotógrafo conversando com Tico Valentim e foi logo fazendo a propaganda do produto:
- Aqui negrada, relógio importado só a massa, vai ficar com um Daniel?
Daniel mais esperto do que senador baiano disse:
- Vai se lascar Caseca! Eu apanhei uma desgraça dessas tuas o ano passado e a porra se encheu de água.
Caseca cheio de direito igual ao juiz Percy Barbosa falou:
- E porque você não mandou esgotar aquela porra? Ciço de Quilara esgota um cacimbão, porque não esgota um relógio?
- Daniel fechou a mão eu pensei até que fosse para agredir Caseca, mas foi para fazer uma proposta:
- Quer o que eu tenho na mão?
Caseca respondeu aborrecido:
- Arre égua! Eu não tou nem jogando porrinha!

107 - REDE NEM DE GRAÇA! - Mundim do Vale

Esse causo verdadeiro, Demontier me contou no dia da posse do Bom Bibí.
Demontier Batista, bom filho que é, toda semana tira um dia para visitar seus pais André e Bezinha, que ocupam um apartamento da sua propriedade no bairro de Fátima.
Numa dessas visitas depois de pedir a bênção aos pais e fazer a entrega de alguns mantimentos, Demontier iniciou uma conversa com André:
- Pai. Como é que estão as vendas das redes?
- Estão muito mal. Eu tava ainda a pouco dizendo pra Bezinha. O povo de hoje em dia, só quer dormir em cama box.
- Mas o povo do interior ainda gosta de uma boa tipóia.
- É mais um dia eu fui oferecer uma rede a um parente nosso, ele perguntou o preço, eu disse, ele respondeu que estava muito cara e ainda fez gozação dizendo que por aquele preço ele compraria a rede Globo.
Quando Demontier se despedia, André pegou quatro redes e falou:
- Tiê, leve essas quatro redes para sua casa de práia.
- Precisa não pai. Lá já tem muitas camas.
- Mas leve homem, rede nunca é demais. Você me ajuda muito e não custa nada eu lhe dar essas redes.
- Não precisa pai. Eu não já disse.
André olhou para Bezinha e disse:
- Tá vendo aí Bezinha? Nem de graça o povo quer mais rede.

106 - MEMÓRIA FRACA - Mundim do Vale

Herculano Honório, tio do Guerreiro Luís Carlos Correia, era um homem muito esquecido, mais esquecido até do que Manoel Leandro.
Uma vez estava neblinando e ele saiu pra roça conduzindo um guarda-chuva.
Quando já estava perto da sua roça, sentiu uma forte dor de barriga e desceu uma grota pra fazer o serviço. Pendurou o guarda-chuva numa galha de jurema, que era pra não esquecer. Quando terminou o serviço, que foi vestir a calça, bateu com a cabeça no bico do guarda-chuva. Surpreso ele falou:
- Eita! Esqueceram um guarda-chuva aqui. Vou levar pra mim.
No movimento que fez para pegar o guarda-chuva, pisou naquele objeto que lhe causara a dor de barriga. Vendo aquela sujeira ele falou zangado:
- Arre égua! Os caba já cagaram aqui.


105 - BAIÃO DE DOIS - Mundim do Vale

Certa vez Chico Danga chegou embriagado na casa de Mundim da Varjota, dizendo que tava morrendo de fome. Olhou pra Mundim e perguntou:
- Seu Mundim! O Sinhor num tem aí um restim de cumida pra eu não?
Mundim respondeu:
- Chico, tu come baião de dois?
- Eu como de dois, de três e inté de quato.
- Ou ome! Se tu tivesse chegado mais cedo tinha cumido um prato cheim. Mais Fadaiá de Munda chegou premêro e começou a aperrear, aí Cicia deu e ele cumeu todim e ainda achou pouco.

104 - JÁ TÁ NA HORA - Mundim do Vale

José Odmar Correia, funcionário da coletoria estadual de Várzea Alegre, não trocava um pirão de corredor de boi por nada desse mundo. Toda sexta feira ele mandava Zé Belo comprar sem dizer que era pra ele, porque o corredor era vendido para as pessoas de poder aquisitivo menor.
Dona Balbina cozinhava o corredor mas na hora de bater o osso para extrair o tutano, quando não se cortava quebrava o prato. Era assim toda sexta feira. Já bastante incomodada com aquela situação, resolveu falar para o esposo:
- Ou Zé Odmar. Tá bom de tu acabar com esse negócio de pirão, porque se não daqui a pouco eu estou sem dedos e a casa sem pratos.
- Pois vamos fazer o seguinte: Como eu gosto muito do pirão. Você cozinha e quando for pra bater o osso, você manda um dos meninos lá na coletoria que eu venho. Mas diga a ele que seja discreto, que eu não quero que ninguém fique sabendo que eu como pirão de corredor. Mande ele fazer um sinal, que eu já fico sabendo.
Na sexta feira quando o corredor cozinhou a esposa mandou seu filho Aldenízio:
- Vá meu filho. Chegue lá faça um sinal que seu pai vem bater o osso.
Aldenízio saiu pela rua Major Joaquim Alves quando chegou no bar de André, viu o seu pai na porta da coletoria conversando com: Luís Proto, Raimundo Silvino e Bernardo Mariano. Antes que Zé Odmar notasse a presença do filho Ele gritou:
- Pai. Pai. Ou Pai!
Com aquele barulho do menino, Todos olharam em sua direção.
Aldenízio bateu com a mão direita aberta, sobre a esquerda fechada por três vezes dizendo:
- Mamãe disse que fosse. Que já tá na hora.

Fonte: O saudoso Zé Odmar.

Esse não foi preciso eu pentear, ele está autentico conforme o original.
O meu trabalho foi somente guardar na memória.


103 - SANTO FURTADO E AÇOITADO - Mundim do Vale

Essa quem me contou foi o músico Pedro Souza de saudosa memória.
Em janeiro de 1958, Laura da Formiga plantou um roçado de duas tarefas de arroz no baixio de Antônio do Sapo. Com algumas chuvas o legume nasceu e cresceu até a altura de um palmo, a folha de um verde escuro era a coisa mais linda para os olhos de um agricultor.
Laura dizia:
- Isso aqui, com fé em meu São José é arroz pra mais de quinze quartas.
A chuva foi diminuindo até que parou total. Laura esperou até o dia de São José padroeiro do Ceará e nada. A palha murchou,secou e o vento carregou deixando só o tronco esperando pelo milagre das chuvas para se recuperar.
Laura tava se lamentando quando chegou Vicente Totô dizendo que se ela roubasse um santo a chuva retornava.
Foi aí que Laura perguntou:
- E é? Apois eu vou robar logo é São José, que eu sei onde é que tem um.
Quando foi à noite Laura foi na casa da sua prima Bárbara começou a conversar quando sua prima foi coar um café ela foi no santuário e afanou São José que estava ao lado de são Pedro. Pegou o santo enrolou numa rodia disfarçou por ali, depois levou para casa, mas passou uma semana e nada de chuvas.
Quando ela perdeu as esperanças pegou o santo e saiu para o roçado. No caminho cortou logo um cipó de marmeleiro e levou junto. Chegando na roça pegou o santo pelo pescoço começou a esfregar a cara dele nos troncos do arroz dizendo assim:
- Tá vendo o sirviço qui você fez? Eu plantei essa rocinha junto cum João meu irmão nós limpamos cum todo gosto,quando acabar você deixa acontecer uma desgraça dessa. Eu vou lhe dar umas cipuada qui é prumode você aprender. Ta escutando?
Enquanto Laura açoitava o santo, João da Formiga foi chegando no aceiro da roça dizendo:
- Mas Laura, quem manda chuva pra nós num é São José não. É São Pedro.
- E é?
- É.
- Pruquê você num dixe logo? Apois eu vou deixar esse sem futuro lá no santuário de Barbinha e trazer aquele outro sem futuro amigo dele, qui é prumode eu fazer o mermo sirviço. E tem mais uma coisa. Eu só vou ficar cum pena é das cipuadas qui eu errar e pegar no chão.
Eu não sei dizer aqui se houve retaliação dos santos porque eu acredito que eles não são vingativos. Mas o ano de 1958 foi um dos mais secos da terra do arroz.

Mestre Pedro, além do bom músco que foi, era também um excelente contador de causos. Contava suas histórias imitando a voz de todos os personagens.

102 - DOUTOR ELE SÓ COME ISSO! - Por Mundim do Vale

Meu tio Mauro Bezerra de Brito, desde o seu nascimento tinha problemas mentais, era pequeno, magro e calado. Quando chegou aos 54 anos veio a Fortaleza e as minhas primas: Josélia e Maria do Socorro, procuraram o I.N.S.S para tentar uma aposentadoria por deficiência mental. Foi marcada uma consulta com o médico do órgão para uma avaliação e o meu irmão Luís Sérgio foi com o carro para conduzir os três. Tio Mauro fez toda a viagem de cócoras no banco traseiro. Chegaram no posto Sérgio ficou no carro e os três subiram para a sala de espera. Quando foram chamados, sentaram de frente para o médico, que começou logo fazendo perguntas ao meu tio.
Mauro Véi como era chamado surpreendeu todo mundo. Disse seu nome completo e de todos os seus irmãos a data de nascimento de todos e o local onde nasceu cada um. E ainda disse que a segunda guerra mundial tinha acabado em 1.944. 
O médico depois daquela palestra, disse que o paciente aparentava boa saúde mental e não tinha como atestar deficiência.
Josélia tentou reverter a situação, dizendo que ele sempre foi doente e a coisa que fazia, era tomar café e fumar.
O médico assustado com aquela afirmação perguntou:
- E esse homem não se alimenta não?
Maria Socorro levantou-se, juntou o dedo polegar com o cata piolho formando aquele conhecido círculo, apontou para o médico e disse:
- Doutor. Ele só come isso:
O médico ficou embaraçado sem saber se mandava pra cadeia ou aposentava os três.


101 - DOMICÍLIA - Por Mundim do Vale

Um certo dia Anchieta tocava violão no café de Domicilia, quando chegou Noberto Rolim e perguntou:
-Anchieta o que é música?
Anchieta apontou para Domicilia e falou:
Música é isso aí:
- DO-MI-CI-LÁ

100 - IDIOMA SEM NAÇÃO - Por Mundim do Vale

Quando os nossos conterrâneos que estavam em São Bernardo, vinham de férias a V. Alegre, era aquela festa, chegavam ricos e falando num idioma sem nação, como dizia o saudoso Zé Clementino.
Uma vez chegou Pedro de Raimundo Leandro vestindo calça boca de sino, calçando um sapato cavalo de aço, um gravador a tiracolo e um relógio oriente.
No sábado pela manhã foi dar uma volta na cidade, acompanhado de algumas garotas. Passou pela feira onde Renato de Zé Sobrinho vendia frutas e aproximou-se da banca. Abriu a mão e bateu forte numa melancia dizendo:
- Oh meu. Quanto que é o cocômero?
Renato respondeu:
- Inteira é 5,00 e uma banda é 3,00.
Com a mão sobre a melancia Pedro disse:
- Corta essa. Bicho!
Renato passou a faca na melancia e dividiu em duas bandas, pegou uma das bandas e foi entregando a Pedro.
Pedro rejeitou dizendo:
- Qualé malandro? Eu não quero isso não.
Renato com a banda da melancia numa mão e a faca na outra falou:
- Você tem que levar. Tá pensando o que? Chegou aqui falando ingrês, me chamando de bicho e fez eu cortar a tamboroca agora vai levar.
Pedro vendo a raiva explícita do vendedor e a faca pingando aquele suco vermelho, deu uma nota de 5,00 e saiu sem nem olhar pra traz.
Taveirinha que tinha acompanhado tudo gritou:
- Ei Pedro! Tu num vai levar a cocom não.

099 - NAMORADA ADVERSÁRIA - Mundim do Vale

Meu primo João André, é o que pode se chamar de ganhão. Com esse modernismo dos jovens de hoje, o " FICO " com ele é abarcar mesmo.
Esse comportamento moderno do garoto vai de encontro a sua mãe Tonha, por ser ela muito conservadora dos costumes anteriores. mas os filhos mais novos e os netos vivem a dizer:
- Vó é carêta demais.
- Vó é do tempo do bumba.
- Mãe é muito cafona.
Aqueles mais respeitadores dizem:
- Eita. Vovó, como a senhora é retrógada.
Mesmo com o conflito de geração generalizado, aquela boa senhora não deixava de chamar à atenção de João, que é o que mora mais perto dela:
- João. Você tenha cuidado com essas quengas!
- Mas mãe. Elas é que precisam ter cuidados.
- Ou povo sem juízo. Pois quando amélia de Cirilo noivou com Doca de Dodô, o namoro era de dois em dois meses e era numa janela, ela pelo lado de dentro e ele pelo lado de fora. Agora esse povim de hoje, vive tudo pregado e ainda dorme junto sem se casar. Sei não meu Deus, esse mundo velho tá perdido.
Mas com todo esses cuidados, os assédios sobre João eram constantes.
Um certo dia João viajou para o Crato e as garotas passaram o dia ligando atrás dele, Dona Tonha atendia aborrecida dizendo que ele não estava e não retornava tão cedo.
João chegou por volta das 11 horas da noite, tomou um banho e foi dormir. O telefone tocou uma vez ele não atendeu, tocou outra vez ele não atendeu, tocou pela terceira vez ele levantou-se e dirigiu-se ao telefone. A cuidadosa mãe notando que ele ía atender, levantou-se e falou:
- Ou meu filho. Não atenda não! Essa daí é uma das quengas. Essa bicha é ruim, é do Riacho Verde e vota em Zé Hélder.


098 - O JUMENTO NOSSO IRMÃO - Mundim do Vale

Quando foi lançado o livro “ O jumento é nosso irmão “ de
autoria do meu conterrâneo Padre Vieira. Aconteceu uma verdadeira
confusão em Várzea Alegre.
Algumas pessoas diziam que o padre estava debochando
a humanidade e outras diziam que era uma falta de respeito com o
povo.
Amélia Danga conversava com Maria Curta e dizia:
- Tu acha muié? essa arrumação qui o pade Vieira anda
inventando, qui coisa mais sem fundamento. Ora! Chico Danga meu
irmão qui é gente, já veve me dando o maió trabai. quidirá se eu
tivesse um irmão jegue.
Maria Curta Disse:
- Vôte neguinha! Apois eu acho qui o pade ta ficando é
abirobado, donde já se viu uma erisia dessa? gente é gente e animá é animá.
Eu cheguei no café de domicilia estavam João Doca e
Joaquim Fiusa comentando o assunto. Aproveitei a deixa e fiz essa
décima que guardei em segredo até hoje, com receio de que fosse
ofender o grande escritor. 

Valei-me Frei Damião
Me salve dessa aventura
O Padre Vieira jura
Que o jumento é nosso irmão.
O jegue não é cristão
É somente um animal,
Que quando fica imoral
Acaba até uma feira.
Acho que o Padre Vieira
Precisa é de hospital.

097 - O DICUMER DOS IMLEITOR - Mundim do Vale

Na campanha de 1.962, onde eram candidatos a prefeito pelo P.S.D. o 
Sr. Acelino Leandro e pela U. D. N. o Sr. Josué Diniz. O empresário Otacílio Correia cunhado de Acelino Leandro veio a Várzea Alegre para ajudar na campanha. Ocupou a difícil função de tisoureiro, para controlar os gastos e as explorações. 
Faltando três dias para a eleição Otacílio estava sentado no comitê, quando chegou um candidato a vereador pelo distrito de Fortuna ( Hoje Ibicatu. ) 
O candidato mais mala do que Marcos Valério disse que precisava falar com Otacílio. Fatico Fiusa mandou que ele entrasse e o candidato foi logo falando:
- Seu Otacílio! Eu vim aqui pidir um dinheiro o Sinhor, prumode eu comprar seis boi pra dá dicumer os nosso inleitor da Furtuna e do Guarani.
Otacílio apanhado de surpresa pensou um pouco e falou:
- Mas candidato! Seis bois abatidos daria para alimentar os eleitores de todo o município.
- Mais sabe cuma é, né Seu Otacílio? Os inleitor quando vem é trazendo os fi tudim.
- Mas não dá certo não meu amigo, tá surgindo a febre aftosa no gado e se os eleitores morrerem, vai eu, você e Acelino pra cadeia.
- Apois ontonse o Sinhor me dá o dinheiro qui eu compro vinte poico e faço o armoço pra eles.
- Porco também não! Os porcos de Várzea Alegre estão Com caroços e se os eleitores endoidecerem, nós também vamos presos.
- Apois ramo fazer disso. Decar o dinheiro qui eu compro cem bode e encho o bucho deles.
- Pior ainda. Na carne de criação tem um componente que deixa as pessoas com a memória fraca durante uma semana. E se isto acontecer eles podem votar nos adversários e não se elege nem você e nem Acelino.
- Apois ramo fazer assim. O Sinhor arruma o dinheiro qui eu compro duzentas galinha a Suarim e dou o dicumer dos inleitor.
- Você tá ficando maluco candidato? Se você matar essas galinhas, quando for depois das eleições o nosso eleitorado morre de fome sem ter nem o ovo do indez pra comer.
- Ontonse o qui é qui eu faço prus inleitor cumer no dia da inleição?
- Faça o seguinte: Você diz a eles que se alimentem da mesma coisa que ele comem nos outros dias, que depois da vitória, nós vamos fazer uma grande festa lá no distrito e eles vão comer à vontade.
Depois desta o candidato foi embora sem levar nem uma avoante, Acelino tirou exatos sessenta e cinco votos no distrito o que correspondia a metade do eleitorado. Perdeu a eleição com uma margem tão pequena, que os votos que o candidato aliado prometia talvez fizesse a difrença.
Depois do resultado, nos comentários pós-eleição Otacílio falou:
- Acelino! todo o teu eleitorado da Fortuna poderia ser alimentado, 
Apenas com preá e o prestígio aquele nosso candidato de lá, hoje deve está mais baixo do que confissão de quenga. .


096 - GOLA DE VIOLÃO - Mundim do Vale

Uma vez Antônio de Romão, Edilmo Correia e Ferrim, estavam de madrugada na calçada da capela de Santo Antônio preparando uma serenata. De lado dos três um violão, um litro de cachaça Cariri e uma tigela de tripa de porco assada para tira-gosto.
Zé Vitorino ia passando para tirar o leite, viu os três deu bom dia e perguntou:
- Vão fazer uma serenata?
- Antônio de Romão respondeu:
- Vamos Seu Zé. O Senhor quer tomar uma bicada para despertar
- Não Senhor obrigado.
Quando Zé Vitorino afastou-se um pouco, começou uma arenga de Edilmo e Ferrim, na confusão Edilmo bateu com o violão na cabeça de Ferrim que desceu até o pescoço.
Com o barulho Zé Vitorino voltou para ver o que estava acontecendo. Quando subiu a calçada viu Edilmo com o braço do violão na mão e o bojo feito um colarinho no pescoço de Ferrim. As cordas chegavam a confundir-se com os cabelos pichaim.
Vendo aquela arrumação ele perguntou:
- Desistiram da serenata?
Antônio de Romão disse:
- Não Senhor. É só Edilmo terminar de afinar o violão na cabeça de Ferrim, que nós vamos começar. Quer tomar uma para passar o susto?

095 - DIA DO JUÍZO FINAL - Mundim do Vale

No ano de 1932 além da grande seca, surgiu um boato em Várzea Alegre, de que São Raimundo tinha aparecido a uma beata dizendo que o mundo ia se acabar ás 05 horas da tarde do dia 13 de agosto. Dizia ainda, que o sinal seria
Três estrondos semelhantes a trovão. O primeiro ás 15 horas, o segundo ás 16 horas e o terceiro e último ás 17 horas.
A pequena população ficou em polvorosa. No dia marcado algumas famílias resolveram reunir-se na usina de Vicente Primo, para rezarem e morrerem juntas. Entre as famílias estava a do escultor de São Raimundo Nonato, Zé de Toim, a sua família era composta do casal e sete filhos. Um desses filhos era
Valdomiro ainda garoto.
Na usina as famílias reunidas começaram as rezas:
- Ave Maria – Salve Rainha – Pai nosso
Nesse momento a mãe notou a ausência de Valdomiro e muito preocupada falou: 
- Oh meu Deus, cadê Valdomiro? Onde se socou esse menino? Porque não está aqui para morrer junto com a gente? Ou Zé! Vá cassar o bichim vá!
Enquanto isso Valdomiro já estava na Betânia acompanhado de outras crianças. Chegaram na casa de Vicente Cassundé, encontraram vazia porque os moradores também estavam rezando na usina. Daí começaram a malinar em tudo que encontravam. Tinha na dispensa um tubo de guardar legumes que estava vazio e no canto da parede um pau de bater arroz.
Quando Valdomiro viu o pau falou:
- Eu vou já fazer o primeiro sinal. 
Deu uma pancada tão violenta naquele tubo, que com o silêncio que havia naquele momento, toda a cidade escutou.
Lá na usina começou o chororou;
- Valei-me São Raimundo.
- Valei-me meu Padim Ciço! Foi o primeiro sinal!
Uma hora depois Valdomiro disse: 
- Tá na hora do segundo sinal.
Deu uma pancada mais forte do que a primeira , de tão forte que foi, fez calos nas mãos.
Lá em baixo na usina nessa hora do segundo aviso já caiu uns quatro ou cinco idosos com ataques.
Depois da arrumação Valdomiro desceu para a usina, onde a mãe chorava pensando não ver mais o filho. Nessa hora já tinha mais de dez com a vela na mão, foi quando o Mestre Horácio perguntou:
- E o último sinal que hora é que vai ser?
Zé de Toim olhou no relógio de algibeira e falou:
- Já passa 15 minutos eu acho que não vai ter mais sinal não.
Valdomiro falou: 
- Vai não pai! Eu não vou mais bater naquele tubo não, porque
Eu já tou com as mãos toda imbatocada. 
– Pois tu vai ficar também com o espinhaço imbatocado depois das lapadas que eu vou lhe dar.
Aquele não foi o dia do juízo final, mas Jorge Siebra foi chamado para atender Valdomiro e mais de quarenta idosos.


094 - DENTIQUEIRO - Mundim do Vale

Uma vez Zé Vieira do Chico, programou um adjunto para a apanha do seu arroz e para tanto convidou uns amigos da Varzinha, das Panelas, do Sanharol e da Boa Vista. No dia marcado os convidados chegaram às sete horas e já começaram a colheita. Por volta das nove e meia, chegou Roldão que não tinha sido convidado. Pegou uma faquinha daquelas feita de serra e passou meia hora amolando. Os outros já estavam com seis potes de arroz, quando Roldão começou a catar lento e gradual como se estivesse contando os grãos. As dez e meia ele já começou a reclamar que o almoço estava atrasando. Quando o almoço chegou, ele comeu mais do que os outros e ainda reclamou que a comida não estava boa. Os trabalhadores voltaram e ele ficou debaixo das moitas durante meia hora.
Por volta das duas e meia, ele deu um “ Inté Oto dia, se o dicumer tiver mió “ E foi embora.
No final do dia os convidados comentavam sobre a preguiça de Roldão. 
Um dizia:
- Mais minino, Roldão incheu o rabo de baião de dois, e adispois foi dizer qui o cumer num prestava.
Outro dizia:
- Ome o arroz qui Roldão catou num dá nem pra dá o dicumer duma patativa cum fastio.
Depois de alguns comentários foi a vez de Joaquim Fiúsa:
- Minha gente. Roldão é igual a dentiqueiro. É o último chega, é o que mais perturba e o primeiro que arriba.

093 - COISA DO DIVINO - Por Mundim do Vale

Valeriano que não batia bem da bola, vivia em Várzea Alegre, todo tempo assustado. Ele se dizia perseguido pelo bando de Lampião e foi não foi, tava ele pulando, se entrincheirando, rolando pelo chão, apontado o dedo indicador e fazendo um pá,pá,pá com a boca para se defender do bando. Tirando dessas vinte e quatro horas de loucura por dia, era um excelente trabalhador da roça.
Teve um ano que Valeriano pediu a Bizim uma tarefa de terra no Buenos Aires para plantar de meia. Roçou, fez cerca, e plantou: Milho, feijão, jerimum, melancia e algodão. Fez tudo que faz um bom roceiro.
Como foi um ano bom de inverno a roça prosperou, só que os jerimuns e as melancias os cabras da Caiana furtaram. O milho e o feijão ele colheu no tempo certo e dividiu com Bizim. Ficou na roça apenas o algodão já todo com bilotos. 
No final de julho o algodão abril que a roça mais parecia um prato de coalhada. Mas Deus dá com as mãos e o diabo tira com os pés. Numa noite lá, que já não era mais nem tempo de inverno, deu umas trovoadas , com raios e relâmpagos e um raio escolheu entre mais de trezenas tarefas de algodão, logo o de Valeriano. Quando amanheceu o dia aquela roça que antes parecia um véu de noiva, tava parecendo mais um fundo de um taxo.
Chegaram os curiosos começaram a comentar com tristeza e um deles mandou chamar Valeriano na rua do Capim. Quando Valeriano chegou que viu a roça toda queimada, sentou-se num tronco de aroeira que tinha sido poupado pelo raio baixou a cabeça sobre os joelhos e começou a falar indignado:
- Mais Cuma é qui pode? Eu prantei essa roça cum todo coidado, tive tanto trabái, quando acabar acuntece uma disgraça dessa. Premêro foi os cão da Caiana qui robaro os girmum e as melancia. E agora vei essse condenado e atiou fogo no meu algodão, qui eu já ia cumeçar a catar amenhã. Mais tombém tem uma coisa, se eu pegar esse infiliz eu faço ele ingulir essa terra misturada cum a cinza. Basta eu saber quem foi o safado qui fez isso.
Fático Fiusa que estava presente, notando que Valeriano não tinha a menor condição de entender os fenômenos da natureza, tentou explicar:
- Tenha calma Valeriano! Isso só pode ter sido coisa do Divino.
Valeriano levantou a cabeça, abril os olhos e interrompeu Fático dizendo:
- Apois onton-se, vá dizer a Divino de Quilicero qui eu vou me vingar dele viu? Eu vou amarrar um ispeto na ponta duma taboca bem cumprida e ficar de tucáia ali no corredor das Melosa. Aí quando ele for passando eu dou uma futucada e adispois eu corro pra sisconder na casa de Leó lá no Riacho do Mei.


092 - CASA COM GOTEIRAS - Por Mundim do Vale

Em 1966 vieram de Fortaleza duas netas do dr. Valadares para passarem as férias de julho em Várzea Alegre. Garotas pra frente como elas diziam. Contrariaram os costumes da cidade, com moda e comportamentos, muito avançados para a época.
Eu estava com Xandoca na sombra do bejamim de Edvard Moreno que ficava em frente da casa que elas estavam. As duas com uns shorts muito curtos começaram a desfilar na calçada de um jeito sex, insinuante e provocador
Num certo momento uma delas entrou em casa e só por brincadeira fechou a porta para impedir a entrada da outra. A que ficou na calçada tentou entrar subindo uma janela ficando alguns minutos com o bumbum direcionado para nós, talvez até de propósito.
Foi quando Xandoca que era gago disse:
- Eu só hiria pé há uma harota dessa numa noite de inverno dentro duma hasa mal assombrada e cheia de hoteira.
Eu perguntei:
- Mas porque tanto desconforto para passar uma noite com uma garota tão bem feita?
- É por hê numa hasa mal assombrada e cheia de hoteira ninguém honsegue dormir.

091 - A TRENA EU EMPRESTO - Por Mundim do Vale

No ano de 1.984, eu adquiri um apartamento no condomínio Morada da Lagoa, que fica na Maraponga e é onde eu moro até hoje.
Logo que cheguei com a mudança, fui falar com o síndico, o porteiro e o vigia, para conhecer as normas do condomínio. 
Na vez do vigia ele me disse:
- Seu Raimundo. Esse local aqui é cheio de malandro e eu trabalho desarmado. Mas se o Senhor me emprestar um revólver eu encaro qualquer vagabundo com oito metros de distância.
Como a proposta foi de impacto, eu respondi também de súbito:
- Pois vamos fazer o seguinte: Você arranja o revólver com outro condômino. Que a trena, eu empresto.

Mundim do Vale

090 - A BICHA SÓ TEM UM ÔI - Mundim do Vale

O ano de 1.955, foi muito bom para a agricultura de Várzea Alegre. Um exemplo disto foi a produção de feijão no roçado do Sr. Rosendo, que era um pernambucano parente do rei do baião, que morava na Praça Santo Antônio, na companhia de uma filha e um filho de nome Chagas.
No mês de junho o Sr. Rosendo comprou bebidas, mandou matar algumas galinhas e promoveu uma debulha de feijão em sua casa. Para o evento ele convidou: Caetano de Zezinho de Matias, Antônio de Valdevina, Zé de Raimundo Piau e Severino de Chico Vieira, que passava uns dias na casa de seu primo Zé Piau. Quando foi por volta das dez horas da noite, Caetano saiu sem dizer nada a ninguém e foi se esconder dentro das moitas do balde da lagoa, para assustar seus amigos quando fossem para casa.
Por volta das onze horas Severino perguntou:
- Tu vai agora Zé Piau?
- Não eu só vou mais tarde. Agora é que a debulha tá ficando boa.
- Pois eu já vou. Boa noite para todos.
Com menos de dez minutos, Severino voltou mais descorado do que isca de carne, em poço que não tem peixe. Gaguejando muito assustado ele falou: - Seu Rosendo! Eu vi um fogo acendendo e apagando ali no balde da lagoa.
- Deve ser a alma de Zé de Adélia atrás de reza, pruque ele morreu infoicado bem ali no beiço da lagoa.
Chagas rosendo notando o pavor de Severino falou:
- Savexe não Sivirino, qui eu vou deixar você im casa, se tem uma coisa qui eu num acridito é nessa istora de fogo de visage.
Em seguida colocou uma faca na cintura, pegou uma roçadeira que tinha num buraco de andaime e se dirigiu ao anfitrião que picava fumo deitado numa espreguiçadeira:
- Pai vai tombem? Se for levante o rabo dessa priguisoça e ramo brigar cum as alma.
- Não meu fí. Eu num vou não. Mais você tenha coidado prumode a visage num lhe capar.
Chagas saiu assoviando a música “ mulher rendeira “ e jogando a roçadeira para um lado e outro como se tivesse roçando mato. Logo atrás ia Severino, mais desconfiado do que portador de notícia ruim.
Quando Chagas chegou exatamente na curva do balde, Caetano jogou o foco de uma lanterna mesmo na cara dele. Chagas deu um grito e correu na direção da sangria com o foco da lanterna acompanhando,quando chegou no corredor do Gravié, tropeçou num toco, derrubou a roçadeira, rasgou o sorongo, perdeu a medalha benta de São Francisco e ainda quebrou o rabicho das alpercatas. Quando levantou-se notou aquele clarão vindo na sua direção, deu um salto e subiu a serra do Gravié por dentro da jurema.
No dia seguinte como Chagas não tinha aparecido, formaram um adjunto para procurar. A busca foi muito maior do que a que fizeram para caçar Meninim Bitu.
Os rastreadores saíram pelo pé da serra seguindo as pegadas e os pedaços de tecidos deixados nas galhas de jurema. Por volta do meio dia, encontraram Chagas dentro de um curral sem roupa e com o corpo todo arranhado, assim como quem tinha capado gato.
Pediram para ele contar o que tinha acontecido e ele fez assim o seu relato:
- Ome! Eu dizia qui num acriditava im visage, mais a coisa inziste. A bicha tem só um oi e fica sortando fogo inriba da gente. Quando ela pulou inriba deu, eu acunhei ela na roçadeira, mais ele tumou deu. Aí eu arrochei ela cum meu quicé, mais ela tombém tumou. Aí o jeito qui teve foi eu infrentar ela no tabefe, mais ela só saquetou quando eu deixei ela dento do ingém de Zé Cardoso.
Desse dia em diante Chagas ficou com medo até de vaga-lume.

089 - DE RIBA A BAIXO - Por Mundim do Vale

O motorista Oliveira Mandinga, tinha um hábito de andar em Várzea Alegre, com a camisa desabotoada. Era um costume tão rotineiro, que ele entrava naquelas condições até na igreja.
Um dia o juiz da comarca, Dr. Santiago Vasques Filho, estava no cartório do segundo ofício, quando Oliveira entrou com a camisa aberta. Dr. Vasques achou que aquilo fosse uma ofensa para a sua autoridade e chamou à atenção de Oliveira:
- Olhe sujeito! Isso aqui é uma repartição pública, eu sou uma autoridade e você faltou com o devido respeito. Eu posso dispensar por esta vez, mas no dia que eu encontrar você com a camisa desabotoada, mando lhe dar dois meses de cadeia. Você pode até andar sem camisa, mas com ela desabotoada eu não admito. Estamos entendido?
- Tamo.
Oliveira saiu mais preocupado do que barata que cai em galinheiro.
No dia seguinte quando foi se vestir, abotoou todos os botões da camisa, mas esqueceu de vestir a calça e a cueca. Quando abriu a porta da frente, as calçadas estavam cheias de senhoras e crianças.
Sá Nem quando viu aquela arrumação falou:
- Valha me São Raimundo! O cabra tá quage nu.
Maria de zé Grande disse:
- Vixe qui coisa graúda.
O Sr. Missena foi fazer queixa ao Dr. Vasques, que de imediato mandou Caseca, intimar Oliveira para comparecer ao cartório. Caseca entrou deixando Oliveira na calçada e falou para o juiz:
- Dr. Oliveira, tá lá fora.
- Pois mande entrar, mas primeiro verifique se ele abotoou a camisa.
Oliveira entrou o juiz foi logo falando:
- Senhor Oliveira, eu agora não posso mais dispensar não. O Senhor dessa vez foi muito longe. Cometeu um crime de atentado ao pudor público. Portando vai tomar seis meses de detenção.
Oliveira mais branco do que os lençóis de Valdevina falou:
- Mais Doutor, a camisa tava abutuada de riba a baxo.

Moral da História:
Quem nasceu pra ser minhoca, nunca chega a cascavel.



088 - FALÊNCIA COLETIVA - Por Mundim do Vale

No tempo da corrida do ouro da Fortuna. Em Várzea Alegre, foram criadas algumas micro-empresas por conta do entusiasmo dos empreendedores.
Pedro Severino alugou uma casa na Betânia e comprou todos os chifres da matança para fabricação de tabaqueiros. Colocou o nome da empresa de: Chama Viva.
Alexandre Cabeleira alugou um prédio no mercado velho e contratou dois funcionários para o trabalho de moer sal que na época só existia em pedra. Colocou o nome de: Salpilado do Alex.
Manoel Balbino alugou uma casa na rua do puxado para a fabricação de aluá de cascas de abacaxi, estocou quarenta potes do produto e pôs o nome da empresa de: Aluá do Balbino.
Vicente David se estabeleceu na rua do juazeiro. Picava fumo de rolo enrolava em papelim ou palha de milho e vendia já fechados. Pôs o nome da empresa de: Cheiro de Tabaco.
Inácio do Doce comprou toda a produção de coco catolé da Serra dos Cavalos e montou no alto da prefeitura uma fábrica de rosários de cocos. Colocou o nome da firma de: Rosário Bento. E dizia ainda que a fábrica tinha sido benta por Frei Damião.
Com a frustração do ouro da Fortuna e a chegada de alguns produtos novos na cidade, as micro-empresas sofreram uma crise financeira, por falta de mercado para seus produtos.
De início chegaram os revolucionários isqueiros sete lapadas e a empresa Chama Viva ficou com o estoque de tabaqueiros todos encalhados, o que causou falência total.
Ao mesmo tempo chegou na cidade o sal pilado em pacotes de mei kilo, o que fez com que a empresa Salpilado do Alex entrasse em falência.
Em seguida chegaram os refrigerantes Crush e Grapete, que invadiram o mercado fazendo com que todo o estoque de aluá ficasse estragado, causando assim a falência também da: Aluá do Balbino.
Depois foi a vez da chegada dos cigarros BB e Globo para invadir o mercado do Cheiro de Tabaco.
Só quem resistiu a crise foi a Rosário Bento, que trocou a atividade de rosário de coco para quebra queixo. 

* Tabaqueiro, na linguagem popular é a mesma coisa de artifício. Que funciona como isqueiro.

087 - A AGENDA DE BRANDÃO - Por Mundim do Vale

Era dia 02 de janeiro quando Raimundo Brandão fazia um retelhamento na casa de Bizim e deixou um saco de estopa na área. Eu Alberto e Antônio Ulisses, resolvemos olhar o conteúdo do saco e encontramos:
Uma carteira De cigarros BB, uma dúzia de castanhas, uma medalha de são Bento, um espelhinho redondo, um anzol, uma rolha de cortiça, um pente flamengo, um cordel de João Grilo, um cordão de rede, uma chinela japonesa com o cabresto quebrado, um cordão de rede, um pião e um caderno pautado, onde estavam anotados todos os compromissos sociais para o ano de 1.971
No caderno nós encontramos as seguintes anotações:
- No dia 06 de janeiro eu vou tirar reis mais Punduru e Araújo lá no São Cormo.
-Domingo de carnaval eu vou sair no bloco de Oberto. Mais eu num vou mais cum o vistido de Domicila não, pruque o ano passado os minino do alto laigaro foi vaia im neu.
- No dia Premêro de abril eu vou contar uma mintira bem grande a Evando de Zé ginu, qui é prumode eu me vingar dele, qui no ano passado ele fez eu subir a ladeira de Doca de Souza na Carrêra dizendo que a guerra ia pegar eu.
- Sexta fêra da paixão eu vou robar o Juda de Raimundo Venanço, pruque ele robou o meu o ano passado.
- No fim de máio eu vou pru adijunto de Chico Piau, qui é pra incher o bucho de arroz doce.
- No São João desse ano eu num vou mais dançar no Riacho Verde não, pruque pode os caba do Monte Alegue queirer açoitar eu de novo.
- No dia 31 de agosto eu vou acumpanhar a procissão de São Raimundo é discalço e cum uma peda na cabeça, prumode pagar a premessa qui eu fiz pra ficar bom do cobreiro.
- No dia 06 de oitubro eu vou pra currida de jumento da prefeitura. Mas esse ano eu vou correr é no jegue Roxim de Zé Inaço.
- No dia 02 de novembro eu vou visitar pai no sumitero.
- No mês de dezembro eu vou butar sintido na lapinha de dona Zefa do Sanharó qui é pra Pitõe de Raimundo Gibão num malinar mais.

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086 - APOIS VÁ DIZER O PADE - Por Mundim do Vale

A história do Dr. Flávio, sobre a rádio de Matorzinho, me fez lembrar de um causo verídico de V. Alegre, só que lá ainda não tinha emissora de rádio e o ditado foi diferente.
Amélia Danga lavava e passava as roupas do hotel de Emília e de Etevaldo, um moço que quando esteve em V. Alegre, elevou de forma significante o nosso futebol. 
Uma vez Etevaldo marcou com Amélia um encontro amoroso, no beco de Gobira, que fica de lado do hotel. Era meia noite e os dois estavam agarrados no bem bom, quando de repente Emília abriu uma janela. Os dois ficaram assustados e Emília encabulada fechou a janela e foi dormir.
No dia seguinte Amélia chegou no hotel para pegar a roupa e Emília perguntou:
- Amélia que arrumação medonha era aquela dessa noite?
- E tu tava ispiando muié?
- Não eu vi sem querer. Mas tu tava com o vestido na cabeça e Etevaldo com as calças no joelho.
- E o que qui tem? O obijeto é meu e eu dou a quem eu quiser.
- Mas negrinha, desse jeito tu vai ficar falada na rua.
- Apois muié. Vá dizer o pade Otavo. Vá!

085 - A MULHER MAIS FALADA - Por Mundim do Vale

Quando a Dra. Auri Moura Costa, primeira juíza do Brasil, foi nomeada para a comarca de Várzea Alegre, o povo da cidade achou esquisito uma mulher juiz. O comentário foi geral, chegou até a constar 
nos Contrastes de Várzea Alegre.
Tinha na cidade um cidadão de nome José Sobrinho, que exercia a função de leiloeiro oficial da paróquia e era ainda diretor do grupo de maneiro pau. Grupo esse que chegou a se apresentar à bordo de um navio na cidade de Fortaleza, onde os jornais: O Povo e Correio do Ceará, divulgaram a matéria.
Zé Sobrinho tinha um garoto de dois anos que já chamavam de Aurino, mas que ainda era pagão.
Um dia ele chegou para a esposa e falou:
- Muié, eu vou batizar Aurino, O padim vai ser Zé Joaquim e pra madinha eu vou chamar a juíza.
A mulher descordando deu uma rabissaca e disse:
- Ou Zé! Larga mão de ser besta, tu num tá vendo qui aquela muié num vai querer. Pruquê tu num chama Raimunda Preta, qui pelo meno é da famía.
Zé descordou:
- Não Sinhora, eu vou falar cum ela é agora.
Foi na mala pegou o mesmo cenário que tinha usado em Fortaleza. Próprio para ocasiões especiais:
Uma calça de mescla daquelas que depois de enxuta fica em pé sem ninguém dentro, uma camisa de riscado abotoada até o gogó, um chapéu de massa grande do tipo apara castigos, um par de alpercatas currulepe feitas por José Faustino, e um rosário comprido com uma medalha de São Francisco na ponta.
Chegou na casa da juíza, bateu palmas ela mandou que ele entrasse. Ele entrou tirou o chapéu e foi logo falando:
- Bom dia Dona Juíza. Eu vim aqui prumode chamar a sinhora pra ser madinha de Aurino meu. Eu tou chamando pruquê a sinhora é a muié mais falada da Rajalegue.
A juíza perdoou a ingenuidade e ignorância daquele homem rude. Mas a madrinha de Aurino Foi outra. 
Naquela época a mulher mais falada da cidade era uma prostituta.


084 - A PARTILHA DO REINADO - Por Mundim do Vale

O Sr. Abel. Era um vendedor de lenhas lá de Várzea Alegre. Certo dia ele chegou na barbearia de Vicente Cesário e começou a conversar:
- Onte de tarde eu tava tirando lenha na serra do Gravié e achei um reinado encantado. Quando eu desencantei o reinado era tanto do ouro, tanto do luxo e a princesa a coisa mais linda do mundo me deu logo um beijo. Depois me chamou para tomar banho na fonte, me Amostrou logo o castelo, as armas, os súditos e me apresentou o rei e rainha. Ela disse ainda que toda aquela riqueza era minha.
Abidom que estava sentado na ponta do banco levantou-se e foi logo gritando:
- Êpa! Num venha por aí não. Aquele reinado eu achei premêro. Derna a sumana passada eu desencantei ele, quando eu tava tirando pau prumode fazer tamanco,.num venha querer tomar meu reinado não, qui se não, num vai dar certo.
Vicente Cesário vendo o clima tenso, resolveu mediar a situação:
- Calma pessoal, calma. O Sr. rei mandou dizer que o reinado é dos dois. Abel fica com o castelo real, a metade do ouro e a metade das armas. Abidom fica com o castelo do bosque e a outra metade do ouro e das armas. Ele mandou dizer ainda que como não pode dividir a princesa, vai mandá-la para a Europa para estudar e ser freira. Vocês estão de acordo?
Os dois responderam ao mesmo tempo:
- Nós tamo.
Nesse exato momento chegou Valeriano que foi falando já bastante zangado:
- E eu? Vou ficar deserdado? No ano passado quando eu tava pescando corró no riacho da Charneca, eu achei tombém um castelo lá.
Vicente Cesário notando que a situação poderia piorar fez outra intervenção:
Calma Valeriano. Você também é herdeiro, como você mesmo disse o castelo fica na Charneca e não pertence ao reinado do Gravié, aquele castelo era somente para hospedar a família real e os amigos do rei quando iam cassar avoantes e pescar corró. O Sr . rei mandou dizer que você pode tomar posse dele.
Ficando assim acordado os três saíram para a bodega de Afonso Carlos onde tomaram uns goles comentando a herança real.
Nisso chegou Anchieta que também era desprovido de juízo e falou em tom de revolta:
- Mais é muito engraçado mesmo! Eu que passei seis anos sendo o bobo da corte daquele reinado, fiquei sem nada. Eu esperava que o Sr. rei me desse pelo menos a camareira real, pra eu ir brincar de toca com ela lá no Ronca.

083 - ME AJUDE DOUTOR! - Por Mundim do Vale

Certo dia me encontrei com doutor Feitosa Filho meu conterrâneo de Várzea Alegre e fiz um apelo:
- Me ajude doutor!
Ele perguntou o que eu estava sentindo.
Eu disse:
- Eu tenho dez doenças, tressó e sete couros. Além dessas dez,tem mais duas que são as que mais me maltratam.
É a síndrome da liseira adquirida e a falência múltipla de bens. 
Ainda tem cura doutor?
Ele olhou pra mim com um sorriso e disse:
- Bem as dez primeiras com um tratamento você fica curado. Mas as duas últimas são mais complicadas.
Eu perguntei preocupado:
- E o que o doutor recomenda?
Ele falou ainda rindo:
- Eu recomendo você eleger-se deputado e em seguida conseguir um acesso ao programa da merenda escolar.

082 - A EXPULSÃO DO JEGUE - Por Mundim do Vale

Hoje eu me lembrei de uma partida de futebol entre a seleção de Várzea Alegre e a do Sanharol, no então campo da Vazante, hoje estádio Juremal. As seleções estavam prontas, mas faltava o juiz. Um torcedor gritou da margem do campo:
- Bota Pedro Piau pra rifirir o jogo!
Leri de Vicento Totô que ia jogar pela seleção de Várzea Alegre gritou:
- Pêdo Piau eu num aceito não, qui ele vai punir pelo Sanharol, qui ele é de lá.
Colocaram Deda de Zé Augusto e ele nomeou Antônio Pagé e Mundim da Varjota para bandeirinhas.
Enquanto começava o jogo, vinha chegando Soarim puxando um cabresto de um jumento com dois caçuás de laranjas para vender aos torcedores. Amarrou a cabresto no pau da barraca de Manoel Balbino e foi para lateral do campo torcer pelo time do Sanharol.
Na seleção de V. Alegre tinha um moreno apelidado de Tinteiro que de vez em quando fazia um gol impedido. O juiz e seus auxiliares sem conhecer bem as regras do futebol deixavam passar.
Lá numa hora de um ataque, Tinteiro já estava quase dentro do gol, quando Soarim entrou no campo com os braços levantados e gritou:
- Ei seu Refe! O Sinhor num tá vendo isso não? Esse neguim tá de ofiçaide. Ele já passou dos dois beque e já tá quage agarrado cum o quipa.
Naquele mesmo momento Zé Moreira soltou uma bomba rasga lata, debaixo do jegue de Soarim. Com o barulho o jegue assustou-se e saiu arrastando a barraca pelo meio do campo, seguido de alguns torcedores que tentavam segurá-lo.
Foi naquele momento que o juiz muito autoritário, paralisou o jogo e expulsou Tinteiro, Soarim, o jegue e os dois bandeirinhas.
O artilheiro do jogo foi Tinteiro com 14 gols.

081 - APOIS EU SOU É BORIS - Por Mundim do vale

No ano de 1.965, esse contador de causos e mais alguns jovens de Várzea Alegre, fundaram uma pequena sociedade esportiva que tinha o nome de Charanga Esporte Clube. Tocando samba a gente animava a torcida do time e o carnaval de rua da cidade.
Certa vez o Dr. José Iran Costa, convidou alguns componentes da charanga para uma festa no Sítio Riacho Fundo de propriedade do seu pai André Costa.
Noberto Rolim, um dos integrantes, conseguiu com o seu pai Jocel Batista uma camionete para nela transportar os instrumentos e o pessoal. Quando nós estávamos de saída chegou Boris Gibão com a maleta do caipira pedindo uma carona.Noberto com muita gentileza concordou e ele foi conosco. Chegamos no sítio por volta do meio dia e já estava rolando: Bebida, churasco, banho de açude e forró com Chico de Amadeu. Boris instalou uma banca na varanda e começou a bancar o caipira. Em menos de duas horas alisou os moradores dos sítios vizinhos. Ninguém conseguia ganhar, quando alguém jogava no três Boris amarrava o seis, quando jogavam no seis ele amarrava o três e assim só ele ganhava.
Quando Boris notou que ninguém tinha mais dinheiro, inventou que seu jumento tinha fugido e gritou:
- Ei negada! Meu jumento Sabonete fugiu e agora eu num sei cuma é qui vou vortar. Se um de vocês achar eu dou cinqüenta cruzeiros.
A matutada ganhou os matos atrás daquele jegue foi com vontade. Chegava gente com jumento preto, cinzento, branco, jumenta parida e até burro. Teve um sujeito que trouxe até a cabra de Maria da Vazante.
Quando o anfitrião viu que a brincadeira estava tomando um rumo perigoso resolveu intervir:
- Pessoal! Boris não perdeu jumento coisa nenhuma. Ele veio foi na camionete de Jocel junto com aquela cambada de meninos zoadentos.
No meio dos não convidados tinha um da serra Boris, lugar que era conhecido pela fama de só morar gente valente e violenta. Aquele moço não gostou da brincadeira e ficou o tempo todo encarando Boris com expressão ameaçadora. 
Quando foi lá pelas duas horas da madrugada, Boris e o elemento já bastante embriagados começaram a discutir na varanda. Já estavam nas ofensas quando o sujeito colocou a mão por baixo da camisa simulando que estaria armado.
João Siebra e Joãozinho Costa que estavam próximo imobilizaram o elemento, enquanto Dr. Iran aconselhava Boris para que não fizesse a sua festa se transformar numa tragédia.
No momento em que tudo parecia tranqüilo o sujeito da serra Boris deu um pulo, olhou para Boris e falou:
- Você tá pensando o que? Eu sou é da Serra Boris.
Boris levantou os braços e gritou:
- Grande merda! Apois eu sou é Boris.

Naquele dia faltou pouca coisa para que Boris fosse enterrado do Rubão.


080 - MACACHEIRA FINA - Por Mundim do Vale

Luís de Munduca, nascido no sítio Iputi, município de Várzea Alegre, foi o parente mais próximo do pai e da mãe que eu já conheci. Era filho e sobrinho do pai e filho e sobrinho da mãe. Seus pais eram irmãos de sangue.
Luís nasceu de cinco meses pesando apenas quatrocentos gramas. Como na época não existia incubadoras nem na capital, o jeito que teve foi o pai botar o bebê debaixo de uma cuia e dar umas pancadas. A criança sobreviveu mas foi crescendo lento e gradual, assim como mandacaru que nasce em telhado.
Quando completou um ano já pesava um quilo e uma quarta, mas sempre desnutrido. No aniversário do dois anos adoeceu de desidratação e ficou vazando por cima e por baixo. Já estava com os dois olhos fechado, quando mandaram chamar Rita rezadeira no sítio Volta, que já chegou com um rama de cabaça. Rita deu dois passes mas Luís só abriu um olho. Depois o pai colocou a criança num bornal e levou para o Guarani para ser consultado por Jorge Siebra. Jorge examinou a criança e disse que tinha de aplicar uma injeção, mas não achava um local, Olhou para mãe e perguntou:
- Me diga uma coisa? Ele ainda está mamando?
- Basta! Ele só veve pindurado nos meus peito.
- Então eu vou aplicar a vacina na senhora, que vai servir, porque ele não tem lugar para que seja aplicada.
Quando completou dezoito anos, Luís já sabia cantar a valsa do vaqueiro e assoviar asa branca.
Certo dia resolveram levar Luís para as novenas de São Raimundo, e quando passavam na casa de Chico Inácio, entraram com ele para a madrinha abençoar. Depois de abençoar, a madrinha serviu um bife, quando ele terminou ela perguntou:
- Que tal Luís. Gostou?
- Gostei madrinha mais eu acho mais mió é quaiada.
Chegaram na cidade levaram Luís para as novenas, pagaram as promessas, botaram para rodar no carrossel Lima e em seguida foram com ele para tomar uma sopa de macarrão, no café de Domicilia, que era uma das atrações da festa de agosto. Domicilia serviu a sopa e foi atender outros fregueses, mas cada vez que passava perto de Luís ele puxava o vestido dela. A proprietária
Do café já encabulada com aquela sitiuação falou:
- O que é que tu quer Luís? Tu não tá vendo que eu tou ocupada!
Luís pegou a colher com macarrão e falou:
- Mais dona Domicila eu só quiria era saber adonde foi qui a sinhora achou macacheira tão fina.

079 - ELE TEM AQUILO ROXO - Por Mundim do Vale

Zé Negão, um preto muito disposto, chegou a jogar de goleiro na seleção de Várzea Alegre. Além de ser um excelente profissional no ofício
De confecções de telhas, tinha ainda a fama de ser o melhor armador de fojos para capturar preás. Mas como não há bom sem defeito, ele apreciava a água do demônio, como dizia O Coronel Dirceu de carvalho Pimpim.
Teve um período em que ele trabalhava com Bizim fazendo telhas, mas quando recebia o pagamento passava várias semanas sem trabalhar, só bebendo cachaça.
Certo dia na hora de fazer o pagamento. Bizim chamou ele de lado e começou a dá uns conselhos:
- Zé. Arrume sua vida, deixe essas cachaças, você passa vários dias trabalhando e quando recebe o dinheiro fica estragando com bebidas. Isso não é vida para um homem não. Faça uma poupança no BEC. Pense no seu futuro.
Zé Negão aproveitando os conselhos do patrão resolveu mudar de vida. Abriu uma poupança no banco e começou a depositar dinheiro, ficando apenas com alguns trocados para pequenas despesas.
Quando alguém chamava para tomar uma ele dizia:
- Não Sinhor! Eu laiguei a cachaça. Eu agora tou é ajuntando dinheiro no banco.Eu já tem mais dinheiro lá, do que Ontônia Canela.
Foi nessa mesma época que Collor de Melo assumiu a presidência da república e confiscou as poupanças deixando muita gente revoltada. A notícia foi a gota dágua para Zé Negão voltar a beber. Teve um dia que ele chegou na bodega de Alberto mais indignado do que Filó, quando alguém passava uma nota de duas cabeças.
Revoltado e embriagado ele falou:
- Mais Cuma é qui pode Oberto? Eu passei esse tempo todim trabaiando na olaria de Seu Bizim prumode ajuntar essa mincharia, quando acabar vem esse tal de Cola de Melo lá da caixa prego e mete meu dinheiro no rabo. Se eu pegasse aquele infiliz lá na minha olaria, eu infiava ele dento do barreiro pra ele ver o qui é bom pra tosse.
Alberto tentando acalmá-lo falou:
- Mas Zé Negão o homem é o presidente da república.
- E o que qui tem? Eu num me meto nos negoço dele. Ele divia tombém num se meter nos meu.
- Mas Zé! Ele tem aquilo roxo.
- Grande merda! Eu tombém tem aquilo roxo mais só tem sirvintia prumode arriar a massa nas moita.


078 - HERÓI DE GUERRA - Por Mundim do Vale

No tempo da segunda guerra mundial, aparecia nos municípios, viaturas do exército para recrutar voluntários. Nossos conterrâneos com receio de servir a pátria e não mais voltarem, procuraram escapar subindo as serras.
Quando falaram para Luís Inácio ( Boca de Fogo ) Ele disse que não ia fugir porque tinha como desdobrar a patrulha. Dois dias depois chegou na cidade um caminhão com um oficial, um sargento, um cabo e uma dúzia de soldados.
O tenente comandante chegou com uma prancheta na mão e perguntou:
- Cadê Antônio de Souza Filho? 
- Morreu na sumana passada cagando e vumitando.
- Cadê Vicente Alexandre? 
- Tá doente de lepra lá na Caiana, que ir buscar ele.
- E cadê José Soares? 
- Tá preso num quarto lá no Alto da Prefeitura, ele foi mordido de cachorro doido e agora fica mordendo todo mundo.
O tenente desistiu e quando ia passando na calçada de uma bodega, Boca de Fogo perguntou:
- Pra donde vai com a tropa tenente?
- Eu estou recrutando gente para a guerra, como é o seu nome? 
- Meu nome é Hitler, se meu tenente quiser pode assentar meu nome aí que eu quero matar um magote de judeu. Me empreste logo um fuzil desses, que eu quero matar Lasdilau Camilo da Vacaria e Pedro Inácio do Saco que é pra eu já ir trenando.
O oficial olhou para o sargento e ordenou:
- Sargento dispense logo esse voluntário, porque se não, nós vamos levar um inimigo no lugar de um aliado.
Toim do Guarani que gostava muito de aguardente, estava bebendo numa banca quando a tropa ia passando para retornar a Fortaleza. Já puxando fogo
Toim Falou:
- Ei tenente num vai levando ninguém? Apois eu quero ir pra guerra, quero conhecer as Oropa e quero tombem matar alemão.
O oficial se aproximou e perguntou: 
- Como é o seu nome?
- Meu nome todo é Ontôe Goberto, mas o povo chama eu é de “ Come Onça “ Esse apilido é pruque eu tem custume de tirar couro de onça pintada, ante mermo da bicha morrer. 
- Pois nós vamos lhe alistar e vamos partir agora mesmo para fortalezae da lá pegar o navio para Montese na Itália.
O tenente chamou o sargento e ordenou:
-Sargento! Pegue esse voluntário leve para o caminhão, vá dando as instruções, sem esquecer de manter o cantil sempre cheio de cachaça, porque se não, nós vamos chegar no quartel sem nenhum voluntário.
Chegando em Fortaleza embarcaram imediatamente. Quando o navio já estava em alto mar, começou a passar o efeito da embriaguez e chegava os sintomas da ressaca. Foi quando Toim chegou para o sargento e perguntou:
- Adonde é qui eu tou? Pra donde nóis ramo? Pra qui é tanta ispingarda socadeira? 
- Nós vamos para a guerra o Senhor se apresentou como voluntário e agora vai lutar. 
- Não Sinhor. Pode mandar o chofé desse negoço dá uma ré pra tráis qui eu num vou não. 
- Mas Seu Antônio esse navio não pode voltar porque ele está em operação de guerra.
- Apois onton-se eu vou pular e vortar a nado. Eu tou acustumado a atrevessar o riacho da Furtuna, pruquê qui num posso vortar nadando nessa lagoa. 
Depois dessa ameaça o sargento mandou amarrar Toim no mastro e foi chamar o tenente.
O tenente chegou logo perguntando:
- O que foi que houve Seu Come Onça? O Senhor disse que queria matar alemão, que tirava couro de onça viva e agora quer afrouxar?
- Não ome! Essa histora de onça é invenção do povo, eu só mato uns gatim de casa prumode butar o couro im pandeiro. E esse negoço de guerra num dá certo pra eu não. Na hora qui eu vejo uma ispingarda dessas Eu me cago todim..
Uma hora depois chegou uma mensagem em código Morse, comunicando que a guerra havia acabado.
Come Onça retornou a Várzea Alegre com medalha e condecoração de herói de guerra, sem ter pisado em terras italiana.


077 - VÁRZEA ALEGRE - Por Mundim do vale

Não foi à toa que nossa cidade ganhou este nome. Ela faz jus com muita categoria. Quando os conterrâneos se encontram não faltam histórias engraçadas envolvendo a cidade e seus moradores. Esforçando a minha memória e ouvindo algumas pessoas eu passei para o papel alguns causos irreverentes do nosso lugar. Só os nomes como as pessoas são tratadas e os contos fantasiosos de alguns já justificam esse catálogo.
Alguns nomes:
- Antônio de Manoel de Pedro do Sapo
- Chico de Antônio Chico do Chico
- Nonato de Pedro de Antônio de Souza do Roçado de Dentro.
- Chico de Zé Joaquim da Unha de Gato
Algumas histórias:
- Foi Manoel Cachacinha que numa das suas embriaguês habitual, criou o slogan “ Várzea Alegre é natureza. “
- Chagas de Rosendo dizia que tinha arrancado uma botija no oitão da casa de José Raimundo, mas quando tava contando o dinheiro o bando de lampião tomou e ainda ferrou a bunda dele. Mas ninguém nunca viu a marca.
- Valeriano contava que foi seqüestrado por extra-terrestres e passou uma semana a bordo de um disco voador, só foi liberado depois que confessou que na Varjota tinha nascido um menino com duas cabeças.
Gregório Gibão dizia que tinha morrido engasgado com jatobá, mas quando chegou no céu, Deus mandou ele voltar e ainda disse que só era para ele morrer depois que Raimundo de Jessé se casasse.
- Assis de Pacim dizia que uma vez estava soltando uma arraia , veio um vento forte e puxou a arraia com ele até as nuvens. De lá ele teve a melhor visão aérea da cidade.
- Chagas Taveira criou o personagem “ Xô Meruanha “ um gigante extremamente desproporcional, que ficou para a cidade como Iracema ficou para Fortaleza.
- João Sem Braço, quando o assunto é sobre a terra do arroz ele fala:
- Eita Vazalegre boa! Só é longe.
É por essas e por outras, que eu invento de escrever sobre essa nossa VÁRZEA sempre ALEGRE.
Raimundinho Piau

076 - OS DELÍRIOS DA RESSACA - Por Mundim do Vale

Certa vez eu conversava com o mestre Vicente Salviano, quando chegou Chico Danga com uma ressaca tão grande, que as mãos pareciam que estavam povilhando canela em cangica. 
Chico sentou num banquinho e foi logo dizendo:
- Mar minino! Hoje eu tou pesado. A corda da minha rede quebrou-se e eu caí numa ruma de lenha, fui iscová os dente no iscuro e tinha uma barata na iscova, aí a bicha siarranchou na minha guela, aí eu fui tirá um caneco dágua do pote e uma rã pinotou na minha cara qui eu quage murrí do coração, saí de casa no iscuro, dei uma topada num cambito e caí pruriba das peda. 
Eu acho qui eu tem é caboge qui sarigonga butou.
Mestre Vicente notando a situação de Chico resolveu aconselhar: 
- Chico, porque você não vai na igreja e faz umas orações?
- Ora mais tá. E eu num já fui ome! Eu me ajueei no altá de São Raimundo, aí desceu um mocêgo do forro qui era do tamãe dum avião, o bicho siabufelou no meu gangote, quando acabá chupou meu sangue todim.
Mestre Vicente convencido que Chico estava nos delírios da resaca falou novamente: 
- Chico. pois vá lá no terreiro de mãe Glória.
- Vou não Mestre Vicente. Eu num vou não, qui Amélia minha irmã foi uma vez lá no terreiro de mãe Gulora prumode tirá um isprito, aí o pai de santo fez foi butá ôto, pruque quando foi cum treis meis ela tava imbuchada.

075 - NA PRAÇA SÒ TEM CACHACEIRO! - Por Mundim do Vale

Certa vez passou um gaiato muito cedo na Praça Santo Antônio e deixou uma mensagem agressiva, escrita com urina na frente da capela. 
A mensagem dizia assim:
- A PRAÇA TÁ CHEIA DE PINGUÇO.
A revolta foi geral, juntou-se Zé Dias, João Doca, Zé Odmar, Edilmo Correia e João V8 para tentar descobrir o autor daquela desfeita. 
Edilmo perguntou a Zé Dias: 
- Zé você viu quem passou aqui há pouco tempo? 
- Quem eu vi passando aqui foi: Cravina, Júlio Xavier e Zé de Dudau. 
- Aldegides disse: 
- É capaz de ter sido Cravina. 
- João Doca, discordou: 
- Cravina não foi não! Vocês vejam que as letras tem uma tendência de caída para a direita e Cravina é canhoto. 
- Então foi Júlio Xavier: 
Zé Odmar interferiu: 
- Júlio também não foi. Ele treme muito e as letras estão perfeitas. Pode ter sido Zé de Dudau.
- Dessa vez a interferência foi de João V8 que era cunhado de Zé de Dudau:
- Zé de Dudau eu garanto que num foi! 
- Edilmo perguntou: 
- E porque você tem tanta segurança? 
- É pruque essa caligrafia tá muito boa e “Zé meu cunhado num sabe nem acentá o nome dele dereito quando vai votá”. 
- Depois de descartadas as três possibilidades Zé Dias falou: 
- Pelo que estou vendo vocês vão arranjar para ter sido obra e graça do Espírito Santo. 
João Doca finalizou a teima: 
- Não Zé Dias, isso aí foi mijo e safadeza dum espírito de porco.

074 - CANDIDATO A COBRADOR - Por Mundim do Vale

O coronel Dirceu de Carvalho Pimpim, emprestava dinheiro a juros
E comprava algodão na folha. Certa vez ele estava com o seu neto e secretário
Antônio Ulisses, quando verificou no livro dos fiados que algumas pessoas não estavam honrando o prazo. Mostrou para o neto e falou:
- Antônio eu vou precisar tomar uma providência com esses fiados. Tenho que arranjar um cobrador para tentar resgatar essas contas.
O neto muito atencioso falou:
- Papai Dirceu quer que eu arrume um?
- Não por enquanto eu quero manter segredo, porque tenho que arranjar uma pessoa educada para não constranger meus fregueses.
Antônio Ulisses concordou, mas no mesmo dia descuidou-se e comentou o assunto na rua.
No dia seguinte quando o coronel chegou no escritório, Antônio de Irineu já estava a sua espera. Sem nem dá bom dia Antônio foi logo falando:
- Coroné! Eu vim aqui falar cum o Sinhor, pruque sei qui o Sinhor vai pricisar dum cobrador.
- E quem foi que lhe disse que eu vou precisar?
Antônio Ulisses piscou o olho para o candidato para que ele não falasse de onde ouviu a conversa. 
Antônio de Irineu mais confuso do que caligrafia de médico gaguejou:
- Num foi ninguém qui dixe não. É pruque eu sei qui o Sinhor impresta dinheiro e cuma a Rajalegue tem muito veaco, eu achei qui o Sinhor pudia pricisar.
- E porque você acha que tem qualificação para ocupar o ofício de cobrador?
- É pruque eu cunheço a discuipa de quem deve. Eu sou o vivente qui já foi mais cobrado dento de Rajalegue.
- E todas as vezes que foi cobrado, você pagou suas contas?
- Não Sinhor mais num dêxa de ter sido uma boa isperiença né?
- Antônio. Preste atenção. Se experiência tivesse algum valor, o marchante Antônio Pagé era pra ser cirurgião.

073 - PEIXES ÓRFÃOS - Por Mundim do Vale

Certa vez juntou-se Chagas Taveira, Taveirinha, Micrey e Neguim de João Lope, para programar uma pescaria.
Os açudes que eles falavam eram todos excluídos porque os proprietários não permitiam a pescaria.
Foi aí que Chagas Taveira falou:
- Já sei. Ramo pescar lá na Santa Rosa, no açude de Ontõe Ulice.
Taveirinha perguntou:
- E ele deixa?
- Deixa.
- Ontonse ramo. Mais é priciso pidí a ele.
- Nóis pede, ora mais tá.
- Apois ramo;
Formaram a comissão e foram até a Santa Rosa, onde encontraram Antônio Ulisses na calçada alta se balançando numa cadeira. Chagas na qualidade de presidente da comisão subiu e falou:
- Ontõe Ulice nóis vinhemo aqui im comissão prumode pidí autorização pra pescar no seu açude.
Antônio Ulisses respondeu curto e grosso como coxia de charuto:
- Dá certo não Chagas!
- E num dá pruque?
- Porque os peixes estão pequenos.
- Vôte, omi! E os teus peixe num tem pai não?


072 - O SANGINÁRIO CORISCO - Por Mundim do Vale

Meu primo e amigo Geraldo Piau,era o que poderia ser chamamado de versátil. Fazia rádio/novela, Falavas idiomas estrangeiros e tocava instrumentos musicais. Quando mais novo desenvolveu uma peça de teatro na Vazante e deu o título de “ O SANGUNÁRIO CORISCO “ Convidou Luís e Severino, Vieira, Caetano de Zezim, de Matias, Joaquim de Pedro André, João Moreira, Zé Beca e outros mais para compor a peça. Geraldo representava o coronel Furtado um inimigo ferrenho de Lampião e seu bando. Caetano interpretava o cangaceiro Corisco e o restante dos atores representavam o bando. Nos ensaios o diretor caprichou mais nos detalhes finais.Quando Corisco assassinaria o coronel Furtado, com uma punhalada no peito. A apresentação foi marcada e anunciada para o domingo seguinte. No domingo pela manhã, Caetano procurou o diretor e disse: 
- Seu diretor. Eu tenho que fazer um trabalho lá no Mameluco e não vou poder participar da peça. Mas eu falei com Zé Moreira meu cunhado e ele disse que vem. 
- Pois mande o chamar para ensaiar, que o papel dele é o mais complicado. Quando Zé Moreira chegou, o diretor fez o ensaio sempre alertando: 
- Zé. Você vai ser o cangaceiro Corisco. Preste muita atenção: 
- Eu vou botar uma bexiga com sangue de boi, debaixo do paletó por cima do peito esquerdo. Quando eu pisar no chão pela segunda vez, pegado no cabo da pistola, eu vou dizer “ Bando de filhos da égua.” Você sobe rampa correndo e crava o punhal. Mas tenha muito cuidado, você tem que acertar na bexiga viu? 
- Tá certo. 
- Mas é na bexiga, não esqueça! 
- Deixe comigo. 
O cenário era a casa do meu avô Joaquim Piau, onde tinha uma rampa para dar acesso ao alpendre. Aquela casa depois de receber uma reforma ficou pertencendo a família da minha simpática Flor das Bravas. No dia da apresentação o público ficou no terreiro e os atores começaram o trabalho. No momento principal, que era o final da peça, o coronel saiu na varanda, onde ficava o topo da rampa e o cangaceiro Corisco junto com o resto do bando se confundia com o público. Quando o coronel Furtado bateu o pé pela segunda vez gritou: 
- Bando de filhos da égua. 
Naquele momento o botão do paletó arrancou-se, a bexiga caiu e saiu rolando na rampa. Corisco correu com o punhal na mão, ficou de cócorase deu várias investidas sem conseguir acertar a bexiga, só teve êxito depois que a bexiga deixou de rolar. 
O público caiu na risada e a peça que seria trágica transformou-se em cômica.

071 - INÊS & PINTA - Por Mundim do Vale

Raimunda Pinto, era uma Senhora que além de idosa era deficiente visual. O pessoal em V. Alegre chamava na intimidade de Pinta. Ela tinha como guia e companhia a sua neta Inês que ainda criança assumiu a responsabilidade de andar com a sua avó. Inês aprendeu a conduzir a Pinta para os lugares que ela mais gostava. E assim foi gerando uma afeição maior entre avó e neta.
O tempo foi passando e Inês foi crescendo sem deixar a companhia da Pinta. Quando completou quinze anos chamava a atenção dos homens pela beleza que tinha: Pernas grossas, cintura 
Fina, pele limpa e rosto bonito. Para toda parte que ia sempre levava Pinta,não largava a Pinta.E a Pinta por sua vez, só levantava quando Inês segurava.
Certo dia Antônio André encontrou-se com as duas e falou para a avó:
- Pinta. Você tenha coidado cum Inês! Ela tá ficando muito bem feitinha de corpo e é isso qui os macho quer. Ela já tá sendo prisiguida e você sabe qui fogo perto de algodão o Diabo vem e assopra.
Pinta levantou a cabeça e falou:
- Savexe não Seu Ontõe. Qui eu vou abrir o ôi cum Inês. Eu num inxergo cum o zói, mais inxergo cum a vivença.
Quando Inês começou a namorar a coisa desdandou. Ela continuou levando Pinta mas diminuiu os cuidados: Deixava a Pinta se sujar, deixava a cabeça da Pinta bater na janela, deixava a Pinta se molhar na chuva e não tinha o constrangimento de dizer que não podia viver sem Pinta.
Depois de um tempo a Pinta amoleceu, ficou adoentada e não saía mais. Inês sempre fiel não largou a Pinta, ficaram as duas morando juntas numa casa. Pinta dormia no corredor e Inês na sala.
Numa certa noite Inês tava agarrada com um namorado quando a Pinta gritou:
- Ou Inês! Tem argum ome dento de casa?
- Tem não vó. É eu que tou dando a comida do meu gato.
- Apois você tenha coidado cum gato de duas pernas!
Uma vez as duas almoçaram um peba e logo depois do almoço, Pinta pediu a Inês para catar piolhos na cabeça dela.Logo que Inês começou sentiu uma gastura e começou a vomitar. Pinta notou o aperreio da neta e perguntou:
- Inês o quier qui tu tem muié? Será qui tu tá imbuchada?
- Vira essa boca pra lá vó! Isso aqui foi o peba qui fez mal.

Pelos meus cálculos se aquele peba sobreviveu, ele deve está hoje com trinta e nove anos.

070 - DE SORONGO E CHINELO KARIRI - Por Mundim do Vale

Terça feira dia primeiro de setembro de 2.009, eu fui a posse da conterrânea e parente Linda Bitu Lemos na ALMECE – Academia de letras dos municípios do estado do Ceará. Eu usava calça, camisa e sapato social, fiquei no auditório assistindo o cerimonial, quando a acadêmica chegou e disse: - Raimundinho vá arranjar um palito que você vai para a mesa representar seu pai Pedro Piau!
- Arranjar um palitó com quem? 
– Com qualquer pessoa, mas você tem que ir.
- Mas Linda não tem ninguém do meu tamanho aqui. 
– Pois pegue o de Samoel meu filho e vá. 
- Não dá Linda. O palitó de Samoel dá pra mim e o meu irmão Paulo e ainda sobra pano.
Depois dos meus argumentos ela simulou que estava convencida e saiu.
Daí a pouco chegaram seus netos, os filhos de Nilinho. Dois garotos elegantes
vestidos de paletó e usando gravatas, o mais velho aparentando oito anos e o mais novo uns quatro anos.
Quando Linda recebeu os netos, chegou onde eu estava e disse: 
- Pronto Raimundinho agora não tem mais desculpas, você veste o paletó de um dos meus netos. 
Daí eu pensei comigo: 
- Agora quebrou dentro! A minha saída foi fazer uma munganga para os dois ao mesmo tempo, as crianças ficaram assustadas e nem um nem outro abriu mão do palitó. Nem a interferência da avó Mirtes convenceu as crianças. Só assim Linda desistiu.
O poeta Israel Batista que estava comigo falou:
- É Mundim do Vale isso daqui não é coisa pra você não. É melhor você ir contar causos no bar de Buzuga lá no Sanharol, porque lá você pode ir de SORONGO E CHINELA KARIRI,

069 - FLAGRADO COM O SOBRECU - Por Mundim do Vale

Certa vez uma prostituta do frejo de Várzea Alegre, sentiu a falta de uma franga de galinha pedrez. Inconformada ela se dirigiu a delegacia registrou a queixa de furto e pediu empenho da autoridade policial para que o criminoso fosse preso e punido pelo furto. Antes de sair o delegado perguntou se a denunciante suspeitava de alguém, ela disse que não tinha certeza, mas desconfiava de Zé de Chicão. Zé era um preto que de vez em quando era visto nas cumieiras das casas.
Assim que a queixosa saiu da delegacia, chegou Santana do Alfinim dizendo:
- Seu delegado, eu vi lá no oitão da casa de Zé de Chicão um bocado de penas de galinha pedrez. Se quiser pode perguntar a Zé Félix,que ele também viu.
O delegado chamou um cabo e um soldado e ordenou:
- Vocês vão apreender Zé de Chicão e as penas da galinha, mas tragam o denunciado com jeito, porque por enquanto ele é apenas suspeito.
Os policiais se dirigiram para a casa de Zé, quando chegaram no oitão colocaram as penas num saco plástico e como não tinha portas na casa, foram direto para a cozinha, onde encontraram Zé com o sobrecu da galinha na mão. Quando Zé viu os dois do lado dele, falou:
- É sirvido Seu cabo?
- Servido uma ova! Têje preso!
- Preso pruque? Já é crime comer galinha?
- Sendo furtada é. E vamos logo que o delegado quer lhe ver.
- Cadê o mandado?
- Taqui Hó!
Dizendo isso o cabo desceu o cassetete na cabeça de Zé de Chicão. Zé quis correr mas os dois flexaram em cima dele, aí o pau cantou. Com uns quinze minutos estava Zé amarrado e sem o couro da testa, o cabo com a farda rasgada e o soldado sem os dentes da frente. Os policiais pegaram o suspeito, as penas e o sobrecu e levaram para apresentar ao delegado.
Chegando na delegacia disseram:
- Pronto seu delegado, taqui o suspeito e as provas do crime.
O delegado lavrou o flagrante, abriu o inquérito e ouviu o denunciado. Depois remeteu os autos e as provas, para o poder judiciário.
- O promotor ofereceu a denuncia, o juiz ouviu o denunciado, arrolou as testemunhas, nomeou um defensor público e marcou a audiência de instrução para a semana seguinte. No dia da audiência compareceu Zé Félix e Santana do Alfinim. O juiz mandou que Zé Félix entrasse, fez a qualificação e perguntou:
- O Senhor conhece Zé de Chicâo?
- Conheço sim Senhor.
- Ele é casado?
- É sim Senhor.
- Com quem?
- Com uma mulher.
- O Senhor parece que é besta? Já viu alguém casado com homem?
- Já sim Senhor, a minha irmã Damiana é casada com um.
O juiz irritado dispensou a testemunha e mandou Santana do Alfinim entrar. Feita a qualificação perguntou:
- A Senhora conhece Zé de Chicão?
- Conheço sim Senhor.
- Sabe dizer se ele costuma furtar coisas alheias?
- Bem. Tirando da pata de Sá Nem e do galo de Mestre Helói que ele afanou, eu só vi falar do bode de Raimundo Belo.
O juiz dispensou as testemunhas, o processo ficou tramitando quando foi com nove dias, foi proferida a sentença Condenando Zé a seis meses de reclusão em regime fechado.
Depois do cumpra-se Zé foi recolhido a cadeia pública.
No dia seguinte o defensor foi visitar o constituinte tentando justificar a condenação:
- Eu lamento muito Zé. Mas eu fiz tudo que deu para fazer, quem cagou o pau foi o juiz e as testemunhas. Mas não fique triste não, que hoje mesmo eu vou recorrer da sentença.
Zé aparentando tranqüilidade disse:
- Precisa não doutor. Deixe do jeito que tá mesmo. O juiz me deu seis meses de cadeia só porque eu comi uma franga de galinha. Se aquele infeliz souber que eu tombém comi a dona da franguinha, vai querer me dar vinte anos.


068 - ROEDEIRA - Por Mundim do Vale

Zé Mariano tinha uma paixão por Rita Dondom e Rita por sua vez, não descartava a possibilidade do namoro.
Era dia 26 de agosto de 1968. Festa do padroeiro, parque de diversões e uma vaquejada no final da rua do Juazeiro, no terreno de propriedade de Mundoca Jucá.
Zé vestiu uma calça de tropical, uma camisa volta ao mundo e calçou um sapato bamba, passou na mercearia de José Felipe Neto, comprou dez cruzeiros de brilhantina glostora e saiu em direção da vaquejada já se achando. Aquele sol de agosto derreteu toda a brilhantina, que ficou escorrendo sobre o seu rosto e camisa onde misturou-se com a poeira e mais algumas impurezas formando uma secreção com a cor de colorau.
Próximo a faixa de chegada estava Rita conversando com uma colega, quando Mariano chegou logo abordando a sua apaixonada:
- Rita eu vim aqui prumode te chamar pra nóis ir hoje de noite rodar na roda gigante, qui é pra nóis fazer inveja as moça do Chico.
A colega de Rita tratou logo de tapar o nariz com os dedos.
Rita falou para a colega:
- Deus me defenda! Tu acha neguinha? Qui eu vou andar mais Zé desse jeito, tá parecendo é cum um poico.
Zé reagiu dizendo:
- É. Mais quando é pra eu pagar doce de leite no café de Zé Pereira, tu diz qui gosta deu.
- Basta! Apóis se for por isso eu vou mandar pai trazer cinco rapadura do ingém de Zé Carro e te dou.
- É. Né? E o prefume qui eu te dei quando tu compretou ano?
- Mais era só o qui faltava. Um vidro de prefume do tamãe dum vidro de pinicilina. Apóis eu vou incumendar um litro de óleo de coco pra dá a tu.
- Apóis eu vou é atrás de Rita de Briante qui faz tempo qui ela anda roendo atráis deu.

067 - AS ALMAS DA RUA DO CAPIM - Por Mundim do Vale

Um certo tempo em Várzea Alegre correu um boato de que na rua do capim nas margens da lagoa de São Raimundo, estavam aparecendo visagens. Os moradores diziam que escutavam gemidos, Gritos, assovios,
E risadas. Os mais afoitos que se aproximavam da beira da lagoa diziam que o capinzal abria e fechava sem ter gente nem animal, por perto. O fenômeno acontecia sempre na sexta feira depois da meia noite.
Emília de Silvestre conversando com Maria Valéria Dizia:
- Eu num sei não muié, mais eu acho qui isso é coisa do ôto mundo. Bem qui meu Padim Ciço dizia: - Na era de sessenta muita coisa vai aparecer. Tombém os ome cum aqueles cabelo na cintura e as muié cum aquelas tá de minisáia cum o rabo aparecendo, é nisso qui dá.
Maria Valéria com expressão de medo dizia:
- Vôte Discunjuro! Tão dizendo qui pras banda do Coité já tá aparecendo inté lubisome.
Mandaram chamar o padre para exorcizar o local mas ele só fez benzer as velas e ficou na calçada com medo.
Na sexta feira seguinte alguns marchantes bebiam comentando o assunto, quando Luís de Cícero Inácio já com a cabeça quente, disse que tinha coragem de encarar as almas.
Quando foi meia noite a calçada já cheia de curiosos Luís chegou. Botou uma lambedeira na cintura fez o sinal da cruz e entrou no capinzal.
Luís começou a demorar e o pessoal já foi ficando aflito, quando o ferreiro Manu disse:
- Deus se lembre da alma do finado Luís.
Zé Goteira pediu a Laura Cassundé para tirar um terço para a alma de Luís. Quando começaram o terço o capinzal abriu e Luís saiu cantando a música:
“ Nunca vi rastro de alma
Nem couro de lubisomem “
Zé Faustino perguntou:
- E aí Luís viu as visagens?
Luís respondeu debochando:
As almas que eu vi lá, foi Chico Carrim abufelado com Raimunda Gaga no tronco da carnaubeira.


066 - PAI VAI DESCER TAMBÉM? - Por Mundim do Vale

Lendo as postagens e os comentários de João Bastos Bitu, me lembrei de uma do seu primo, Raimundo Nonato Bitu.
Raimundo ainda adolescente, tinha muito medo de doidos. Se sonhasse com Zé Carro Boi, era um mês sem andar na cidade.
Uma vez chegou um ciclista em Várzea Alegre, patrocinado pela Monark, para passar um dia e uma noite pedalando sem parar. A notícia espalhou-se no Sanharol, mais rápido do que bolinha de termômetro em piso de cerâmica.
Raimundo passou o dia dizendo que queria ver. Por mais que Vicente e Maria argumentassem que não tinha futuro, por conta da volta ser tarde, Raimundo não abria mão.
Quando foi por volta das cinco horas da tarde, ele entrou para trocar de roupa e Vicente Bitu sentou-se na calçada. Quando Raimundo saiu, foi logo dizendo:
- Pai! Eu já vou descer pra rua. Pai vai também?
- Vou não Raimundo. Eu vi Afonso Doido descendo e eu tenho medo de descer na hora que ele venha subindo ali pela lagoa do Arroz.
- Pois vamos pelo Alto do Tenente.
- Também não dar certo não, porque no Alto do Tenente é onde Zequinha Soares junta lenha pra fazer carvão.
- Pois quer saber de uma coisa? Eu também não vou mais descer não. Eu vou é subir pra casa de Carmelita, pra jogar baralho com os meninos.
Mundim do Vale

065 - OS GALEGOS DE QUILARA - Por Mundim do Vale 

Eram meus vizinhos em Várzea Alegre, os irmãos Pereira. Pedro, conhecido como Pedão de Clara, Antônio, tinha o apelido de Topa-tudo e Cícero, era chamado de Ciço Louro. Moços católicos e muito trabalhadores, só tinham um defeito, quando bebiam ficavam violentos.
Os três bebiam juntos e quando estavam de fogo acabavam: Feira, samba, velório, fogo de broca, briga de galo, queima de caieira, pescaria e até batizado coletivo.
Era no mês de janeiro, Chagas Bezerra promovia a festa de Nossa Senhora Aparecida na cidade e para garantir a segurança na cidade, trouxe do quartel de Juazeiro um reforço de cinco soldados.
No sábado pela manhã horário de feira os irmãos bebiam e jogavam caipira,quando Pedão cismou com um Santeiro. Aí não teve santo que desse jeito, foi cacete pra tudo quanto é lado, o pobre do santeiro depois de levar uma bordoada de cada um, pegou o beco da Liberdade, subiu o alto da prefeitura e até hoje anda sumido.
Com a fuga do santeiro os três ficaram mais violentos ainda, aí foi quebra-quebra geral. Era caixão pra cima, trança de alho no chão, colorau misturado com farinha, caldo de cana com querosene e o povo correndo sem direção certa.
Nessa hora o anão Patola correu pra debaixo do caminhão de Auto Pimentel gritando:
-Eita qui os galego de Quilara hoje tão é cá gota!
Nesse momento em que a feira parecia ter recebido a visita de uma tsunami os soldados do reforço se apresentavam ao delegado civil para tomarem posse. 
O delegado recebeu os cinco e foi logo dando as ordens:
- Muito bem para começar vão ali no mercado e me tragam os meninos de Clara presos, mas vão com cuidado,assim como quem procura pinico no escuro. Porque os meninos de Clara tem costume de botar soldado para correr.
Enquanto isto na feira era Pedão quebrando as mesas, Topa-tudo as cadeiras e Ciço Louro rasgando as toalhas. Quando Pedão acabou de quebrar a garapeira de Zé Dias e Ciço Louro moeu uma cana no lombo de Zé Terto, chegou o reforço dos cinco soldados novatos e um deles foi falando logo com Pedão:
- Teje preso!
- Num Tejo!
- Teje preso caba safado!
- Num Tejo sordado fí duma égua.
Aí fechou-se o tempo.
Os irmãos formaram um triângulo humano, deixando que os soldados ficassem no centro. Quando Pedão dava um pescoção num que ele caia fora do triângulo, Ciço Louro varria ele de volta pra dentro.
Pedão aberturou um, que foi conta de rosário pra tudo quanto é lado, rebolou o infeliz por cima dos potes de Maria Curta lá mesmo ele ficou. Topa-tudo pegou outro deu um murro tão condenado que o chão tremeu, depois pegou pelo fundo da farda jogou de cabeça pra baixo num camburão de lixo. Ciço Louro pegou outro arrastou pelos pés depois deu um balanço e gritou:
- Uma, duas, três, meia e já! Rebolou o coitado dentro do cacimbão do meio da rua, chega fez tibungo.
Tendo ficado apenas dois praças no triângulo, Pedão ficou com um e os dois irmãos dividiram o pé do ouvido do outro.
Pedão em um momento se distraiu enquanto dava um pesqueiro num cambista que passava e o soldado que estava com ele, fugiu pegando a mesma rota do vendedor de santos.
Com essa segunda fuga foi que aumentou a raiva dos três, aí não sobrou mais nada inteiro, nem banca de meisinha foi poupada.
Vicente Grande entrou na barbearia de Antônio Bento gritando:
- Fecha, fecha qui os minino dos Pereira tão acabando tudo!
Nesse momento Luis Bezerra vinha na rua Major Joaquim Alves quando avistou Vicente Cesário, perguntou:
- Vicente. Que corre-corre é aquele ali pro lado do mercado?
- Não é nada não Luís, é só os galegos de Clara, dando as boas vindas aos soldados que Chagas Bezerra trouxe.


064 - CAMINHÃO ACUADO - Por Mundim do Vale

Zé Felipe e um ajudante conduziam um caminhão Ford com oito mil quilos de lã de algodão, da cidade de Várzea Alegre para Campina Grande na Paraíba. Quando chegaram ao sítio Exu, o carro atolou. Zé Felipe desceu olhou a situação e verificou que os pneus estavam quase cobertos de lama. Acendeu um cigarro e comentou com o ajudante, que tão cedo não seria resolvido aquele problema.Quando fazia esse comentário notou vindo na estrada, dois roceiros com as enxadas nos ombros e cabaça a tiracolo. Ele então falou com o ajudante que ia fazer uma brincadeira com os dois.Os dois chegaram ele falou:
- Bom dia meus amigos, foi Deus do céu quem mandou vocês. Eu estou com este carro atolado precisando de uma descolada, posso contar com vocês?
Os dois confirmaram com um balanço de cabeça e ele continuou:
- Pois bem, eu vou para a cabine, engato uma primeira e vocês empurram tá bom?
Os dois confirmaram novamente com a cabeça e colocaram as enxadas na margem da estrada. Zé Felipe chamou o ajudante e mandou que quando os dois estivessem empurrando o carro, ele escondesse as enxadas dentro do mato. Em seguida subiu na cabine acionou o motor, mas não engatou marcha nenhuma. Os roceiros com muita boa vontade empurraram o caminhão por mais de quarenta minutos sem saberem que o motorista estava com o carro em ponto morto.Os dois já cansados e suados, pararam para descansarem um pouco, quando um deles escorado na grade traseira disse:
Cumpade! Esse caminhão só pode é tá acuado, pruquê faz mais de meia hora qui é nóis dois tangendo e o chofé isporando lá dento e o bicho parece qui num saiu do canto. O outro botou a mão na testa como quem faz continência olhou na direção da estrada e disse:
- Meu cumpade tá inganado. Ele já andou e foi muito, qui eu num tou mais avistando as enxada.

063 - O OURO DA FORTUNA - Por Mundim do Vale

No tempo da descoberta do ouro da fortuna. Várzea Alegre perdeu a tranqüilidade de cidade pequena. Na corrida do ouro apareceu gente de toda parte do Brasil. Era jeep, pic-up e rural chegando toda hora na cidade. Meus conterrâneos já estavam com diversos projetos de mudanças para o desenvolvimento da região.
- Mudar o nome da pensão de Leontina para: Hotel Vale do ouro
- Instalar uma emissora de rádio com o nome: Estação do Vale.
- Fundar o jornal: Diário do Vale.
- Construir o teatro: Gaurani, da Fundação Papai Raimundo.
- Mudar o nome de Várzea Alegre para: Várzea Dourada.
- Construir um viaduto na Vazante.
- Criar a orquestra sinfônica do mestre Antônio.
- Montar o banco Fortuna.
Foi tanta especulação que a história do ouro chegava em toda parte do Brasil.
Na época eu estava em Fortaleza e passando na praça do Ferreira, escutei uma discussão entre torcedores do Fortaleza e Ceará
Mais ou menos assim:
- Vocês vão ver! O Ceará vai comprar dois jogadores do Santos,
aí respeite o timaço que vai ficar.
- Com que dinheiro? Será que é com o ouro da mina da fortuna
lá de Várzea Alegre?

Depois que a mina foi explorada, toda a produção do ouro só deu pra colocar um dente na boca de um cigano.


062 - BAR DA MACACA - Por Mundim do Vale

Certa vez chegou um circo em Várzea Alegre, que tinha como principal atração uma macaca gorila. Um dia lá a macaca escapou da jaula e saiu pela cidade acompanhada de algumas crianças. Chegando na Av. Getúlio Vargas, outros meninos que estavam brincando no calçadão também seguiram o animal. Quando já tinha em torno de quarenta garotos a macaca inventou de entrar no bar de Joaquim Orelha. Aí foi um Deus nos acuda. Uma ratoeira desarmou-se pegando o dedo da macaca que deixou ela enfurecida. A macaca ficou com a macaca. Quebrou cadeiras, mesas, garrafas e ainda jogou as bolas da sinuca na cabeça do neguinho de João Lopes . Depois se acalmou um pouco e se comportou com generosidade abrindo coca-cola e distribuindo para a meninada.
Mandaram chamar o proprietário no mercado quando ele chegou foi quase louco, queria porque queria pegar a macaca.
Naquele momento chegava a imprensa para fazer a cobertura da matéria, quando o repórter Pedro Jorge chamou a atenção do proprietário:
- Não adianta Seu Joaquim. Para se pegar um animal desses tem que atrair ela com bananas e em seguida jogar um pneu para laçar.
- E adondé qui eu vou arrumar um pneu?
Um dos garotos que tinha sido contemplado com uma coca-cola e uma broa, resolveu trair a macaca:
- Eu sei quem é qui tem um pneu. É Punduru.
- Apois vá lá e diga a ele qui eu mandei dizer qui ele viesse trazendo o pneu pra nós pegar essa condenada, antes qui ela faça eu voltar pra roça.
Quando Punduru chegou foi trazendo um pneu de lambreta.
Joaquim orelha mal agradecido Disse:
- Arre égua Punduru! Cuma é qui nós ramo laçar essa bicha desse tamãe, cum um pneu do tamãe duma liança?
Punduru com raiva, falou igual a mãe de anão:
- É pequeno mais é meu! E quer saber duma coisa? Eu num vou ajudar a pegar macaca mais não, eu num sou dono de circo nem bar.
Naquela hora como o movimento já tava muito grande, a macaca notou que tinha sido traída por um aliado e não deixou mais nada inteiro, depois que ela quebrou tudo, sentou-se no balcão, cruzou as pernas e acendeu um cigarro Mistral para relaxar.
Foi naquele momento que chegaram os funcionários do circo com um cacho de bananas e uma rede de nylon para imobilizar o animal. Na saída do bar a macaca ainda se virou e deu tchau para a meninada.
Depois daquele acontecimento o estabelecimento ficou sendo chamado de: BAR DA MACACA.


061 - A SORTE EM SEU BOLSO - Por Mundim do Vale

Edmilson Martins, fazia aos domingos um programa de auditório no antigo cine Odeon era uma boa atração.Tinha dois quadros de maior Animação: “ A sorte em seu bolso “ Que o animador pedia as coisas mais absurdas possíveis. E O “ concurso de calouros “ Onde o auditório julgava a melhor voz e melhor Afinação do candidato. Para o quadro a sorte em seu bolso a garotada já estava levando Caixas e sacolas com aquelas coisas extravagantes. Num certo domingo o animador pediu um foquito de lanterna. Um garoto filho de Joãozinho de João do leite que a memória não me ajuda a lembrar o nome agora, ficou de pé e começou a procurar o foquito numa caixa.
No aperreio ele deixou a caixa cair e de dentro dela saiu: Um cacho de arroz maduro, um Gigolé, um dedal, uma alça de caixão funerário, um cabo de baladeira, um retrato de Marta Rocha, um bico de pua, um realejo, um enganador de apito, um dente de alho, uma broa, um cadeado enferrujado, uma pena de urubu rei, uma coxia de charuto havana e mais umas coisas que não deu para memorizar. Com esse material espalhado pelo chão o auditório
Ficou mais animado do que o palco. Mas com todo aquele acervo o garoto não acertou no pedido do animador. Quem venceu o quadro foi Francivaldo Martins com um, caroço de pequi já roído. No mesmo programa o concurso de calouros foi vencido por Tonico Braz um surdo mudo que interpretou o xote Carolina de Luís Gonzaga. Este acontecimento serviu para ilustrar uma matéria na antiga revista O Cruzeiro que se chamava o Impossível Acontece.

060 - CORREDOR POLONÊS - Por Mundim do Vale

Certa vez um grupo de alcoólatras de Várzea Alegre resolveu formar um pelotão de guerra. Era coronel, major, capitão, tenente, sargento, cabos e soldados. Escolheram a rua do juazeiro para treinamentos, o fuzil era representado por pau de lenha e o cantil por meiota de cachaça. Na barraca de Bié eles fizeram acampamento, paiol e alojamento. O horário para treinamentos era sempre das duas da madrugada até o dia amanhecer.
O silêncio da madrugada era rompido pelos gritos de comando:
- Sentido! Em forma! Direita volver! Esquerda volver! Dispersar!
O grito de guerra era repetido várias vezes: 
- O sargento já tomou/ A cachaça do tonel,
- O cabo Hélio furtou/ O quepe do coronel.”
Os moradores da rua do juazeiro fizeram queixa ao delegado,  que era um tenente da polícia militar que depois de reformado foi nomeado delegado civil. 
Chegando ao acampamento o tenente Josias apresentou-se e pediu ao comandante para colocar a tropa em forma, que ele queria fazer um comunicado.
Depois das formalidades militares o delegado falou:
- Bem. Eu tenho recebido várias reclamações sobre o barulho e os palavrões, portanto vocês terão que suspender os treinamentos. Mesmo porque eu não tomei nenhum conhecimento de que a nossa cidade estivesse ameaçada de guerra. Eu lamento dizer a vocês que se continuar esse treinamento, eu vou poupar apenas os oficias superiores em respeito a hierarquia, mas de sargento abaixo eu vou botar tudo no xadrez.
Naquele momento um soldado assustado saiu de forma e foi tentando fugir quando o coronel Gonçalves gritou:
- SD Chagas! Se você abandonar a tropa eu vou ter que lhe levar a corte marcial, como desertor de guerra.
Nessa hora chegou a diretora do grupo escolar, uma Senhora de cinqüenta e dois anos que foi logo dizendo:
-Tem que prender todos eles, não tem o menor fundamento essa anarquia todas as madrugadas. Não há mais quem possa dormir nessa rua.
O coronel deu um passo a frente encarou a educadora e falou com voz autoritária: 
- A Senhora deixe de conversar besteira aí, senão eu lhe boto no corredor polonês.
- Ái vai! E o que é que venha a ser esse tal de corredor polonês?
- É assim. eu coloco todos os meus praças em fila dupla e a Senhora vai ter que passar no meio. Aí cada um deles vai lhe dar uma dedada com todo respeito.
Depois dessa, a hierarquia militar deixou de ser respeitada e o alojamento do pelotão foi transferido para a cadeia pública.

059 - MATARAM UM DE VARA - Por Mundim do Vale 

Não me lembro o dia nem o mês, mas foi no ano de 1967, que meu primo Cascudo saiu da Vazante para a cidade, onde foi fazer umas compras. No retorno ele chegou com a expressão de espanto e falou cortando a voz:
- Tia Izaura. MATARAM UM DE VARA!
Tia Izaura tão espantada quanto ele perguntou:
- Que história é essa Joaquim?
- Pois é. Eu ia passando ali na barbearia de Vicente Cesário e tava Seu Fático, Seu Acelino e Zé Teixeira conversando, aí eu escutei quando eles disseram:
- MATARAM UM DE VARA.
- Pois você cale sua boca, que eles são ricos e você é pobre. Se o delegado mandar lhe chamar pra ser testemunha, vai lhe açoitar até você dizer quem foi que matou o homem. 
Cascudo deixou as compras na mesa e correu para serra do Gravié.
Logo depois Dr. Antônio Sátiro chegou e tia Izaura perguntou:
- Antônio. Que conversa é essa que Joaquim de Vicente Piau chegou contando? Ele disse que MATARAM UM DE VARA.
- Não mataram ninguém de vara não, Izaura. O que aconteceu foi que assassinaram o guerrilheiro Hernesto “ Che “ Guevara. Mas isso foi no estrangeiro lá pras bandas de Cuba.
- Pois é pior ainda. Se levarem Joaquim pra lá, vão dar um fim nele.
Até encontrarem Cascudo. Foi três dias que ele passou com fome e sede na serra do Gravié.

058 - MARKETING POLÍTICO - Por Mundim do Vale

No tempo que Faustino de Albuquerque disputava uma eleição com o coronel Onofre, apareceu um letreiro em um muro da cidade de Aurora com os seguintes dizeres:
“ VOTE NO CORONEL ONOFRE “
Um adversário do coronel foi lá e escreveu logo abaixo:
“ O CORONEL É COMUNISTA “
Um aliado do coronel escreveu abaixo:
“ COMUNISTA É MÃE “
O adversário voltou e escreveu:
“ DO CORONEL “

057 - A PROMESSA DE CHICO DANGA - Por Mundim do Vale

Certa vez Chico Danga chegou puxando fogo e ajoelhou-se no pé do altar de São Raimundo. Falando baixo começou a fazer um pedido ao santo, nos seguintes termos:
- São Raimundo o seguinte é esse: - Eu nunca pidi nada o sinhor mais agora eu priciso dum adigitoro. É pruque eu quiria uma graça prumode laigar a cachaça. Eu num agüento mais, toda vez qui eu bebo Oliveira Danta se dana pra açoitar eu. Se o sinhor me der essa graça eu prometo qui no dia 21 de  agosto eu pego a sua bandeira e me assubo na torre da igreja mais Amélia minha irmã prumode nós trepar de graça lá inriba.
Mãe tombém mandou dizer qui se o sinhor me der essa graça ela manda cinco galinha pro Pade Otavo butar no seu leilão. Pai mais mãe e Amélia vão ficar muito agradicido cum o sinhor.
- Tem mais uma coisa qui eu vou contar o sinhor, mais é segredo, vai
ficar só pra nós dois, num vá contar os oto santo não viu?
- É assim. A maior vontade qui eu tenho de laigar esse viço, é pruque abasta eu tumar um copo de zinebra, Seu Ontõe Costa bota eu na cadeia. Se fosse só cadeia num tinha nada não. Mas meu santo sabe aquela roça de mi qui tem detrás do motor do véi Diceu? Sabe, num Sabe? Apois! Aquela roça é de Seu Ontõe Costa, qui é o delegado aqui de Rajalegue. Apois toda vida qui ele prende eu, no oto dia bota pra eu trabaiá limpando ela, dizendo ele qui é prumode eu pagar a carceraje. Pru conta disso num me dar nem um girmum de leite prumode eu cumer mais pai, mãe e Amélia. Esse negoço tá dereito meu São Raimundo?


056 - EU SOU O ZORRO, PAI - Por Mundim do Vale

Antônio de Jorge Taveira, de tanto assistir filme de Tarzan e Zorro no cine Odeon, inventou de ser artista de filme. Primeiro amarrou uma imbira de salsa na galha de um juazeiro e falou para seu irmão Nonato que brincava de bila embaixo da árvore:
- Sarreda do mei Chita. Qui eu vou avuá nesse cipó!
Agarrou-se na imbira, deu o grito de Tarzan e voou. A imbira arrebentou e ele caiu logo por cima de Chita.
Como o filme de Tarzan não deu certo, ele resolveu interpretar o Zorro. Arranjou um talo de carnaúba para ser o cavalo, vestiu um vestido preto da mãe, fez uma máscara de uma meia, pegou o espeto da cozinha e saiu fazendo a marca do Zorro em tudo quanto era lugar. Primeiro acabou com as bananeiras de Seu Jorge, depois foi o guarda roupa, em seguida o colchão da cama. Tudo que tinha perto de casa tava destruído com a marca do Zorro.
O filme só terminou quando ele fez o “Z” nas costas do seu irmão Chagas.
Seu Jorge deu de garra de um cinto deixando a fivela na ponta e chamou Antônio:
- Antônio venha cá! Você já destruiu tudo dentro de casa e agora quase mata o seu irmão. Não vai mais dá certo essa brincadeira não!
Antônio empunhou o espeto, encarou o pai e disse:
- Num venha não pai. Qui eu sou o Zorro!
- Apois eu sou o Sargento Garcia! – Dizendo isso o Sargento deu umas quatro lapadas no lombo do Zorro, que foi cavalo para um lado, espada Para outro e a capa do Zorro virou molambo.
A mãe preparou uma água com sal e ficou passando nas marcas que a fivela deixou no lombo do Zorro.
Naquele momento chegou Pedrinho de Hermínia que morava vizinho. Vendo as marcas Pedrinho perguntou:
- Qui diabeisso Ontõe? Tu tava carregando potassa?
- Não ome! Isso foi umas ramas de feijão verde.
- Pera Ontõe! Adonde foi qui tu foi arrumar rama de feijão verde im oitubro?


055 - EITA SUMPALO MEDÕE! - Por Mundim do Vale

Todas às vezes que os nossos conterrâneo vinham de São Paulo para passarem férias em Várzea Alegre, Assis de Pacim não saía de perto deles. Aquelas gírias, as vestimentas e os objetos que eles traziam, deixava Assis mais admirado do que cachorro em porta de açougue. Assis só falava em viajar para São Paulo, para vir passar as férias na cidade.
Conversando com amigos ele dizia:
- Eu tem fé im meu Padim Ciço Romão, qui eu ainda ei de ir pra Sumpalo. E tem mais uma. Quando eu vortar vou trazer meia dúzia de misampri pra Gulora minha prima, um relojo oriento pra pai, um cachimbo novo pra mãe, um sapato cavalo de aço pra Enoque, uma camisa banlon pra Paulo meu primo e um gravador pra eu. O assunto de Assis era só viajar pra São Paulo, mas nada de dar certo.
Luís Justino e Luís Clementino estavam carregando os caminhões de lã de algodão na Usina Diniz, para transportar até Campina Grande na Paraíba, quando lembraram de fazer uma brincadeira com Assis.
Mandaram chamá-lo e Luís Justino falou:
- Assis nós vamos deixar essa lã em São Paulo, se você quiser ir com a gente, pode ir se arrumar que nós não vamos cobrar nada. Assis ficou mais satisfeito do que menino amorcegado em bigu de carroça.
Chegou em casa e falou para a mãe:
- A bença mãe! Ajeite aí meus terém qui eu vou agora mermo pra Sumpalo, diga a pai qui eu deixei a bença e qui assim qui eu puder vou mandar uma naváia nova pra ele.
Saíram por volta das oito horas da manhã, quando foi as sete da noite, estavam chegando em campina. Quando avistaram o clarão da cidade Luís Justino falou:
- Pronto Assis, estamos chegando em São Paulo.
Assis olhou admirado e falou:
- Eita Sumpalo medõe de grande!
Chegaram na cidade e foram direto para os armazéns da rua Manoel Pereira de Araújo, onde os carros ficaram para serem descarregados. Como já era noite resolveram descansar para no dia seguinte mostrar a cidade a Assis.
No outro dia pela manhã eles saíram mostrando tudo. Assis estava muito mais curioso do que mulher que transporta bilhete. Mostraram a Avenida João Pessoa, a Rádio Borburema, o colégio Alfredo Dantas, a Praça da bandeira, a rodoviária, o trem e o cinema. Tudo era como um sonho para Assis.
Depois do almoço os carros já estavam carregados com tecidos para o comércio de várzea Alegre, Quando Luís Justino falou:
- Assis. Eu me lembrei de uma coisa muito importante. Tu trouxe os teus documentos?
- Não. Eu truve só o papé do batistero.
- Pois nós vamos embora logo agora, porque se a ronda da Bacural te pega sem documento, vai te prender e não solta nunca mais.
Luís viu que Assis estava mais triste do que filho de viúva pobre, aí falou:
- Mas não tem problema não. Você vai providenciar seus documentos e na outra viajem você vem pra ficar.
Chegaram em Várzea Alegre no amanhecer do dia e Assis foi direto pra calçada da capela de Santo Antônio, onde estavam alguns vizinhos.
Quando subiu a calçada foi logo dizendo:
- Eita Cuma eu tou cansado. Sumpalo é munto longe.
Zé Preto perguntou:
- E aí Assis. É bom im Sumpalo?
- É bom qui faz inté gosto. A vinida João Pessoa é mais laiga do que a rua do Imboque, o otel Eldorado é munto mais maior do que a pensão de Leontina, O cinema de lá cabe dez Cine Odeon desses daqui dento dele, o trem é mais maior do que o carro de Miguel Mandinga.
E cadê os presente qui tu dixe qui ia trazer?
- Deu certo não. Lá tem munta coisa, mais tudo já tem dono. Pode inté ser qui qando eu for de novo eu traga.


054 - PRECE A SÃO BENEDITO - Por Mundim do Vale

Amaro Bento era um preto de dois metros de altura e tinha a largura de um guarda roupas. Tinha a profissão de foguista de trem da REFESA. Quando a rede entrou em crise ele foi removido para os correios e telégrafo. Eu o conheci trabalhando na agência de Várzea Alegre, onde ganhou a apelido contraditório de Pingo de Leite. Se Amaro fosse filho de V. Alegre, seria mais um contraste. Amaro era um homem trabalhador e direito, de tão simples que era chegava a ser extremamente ingênuo.

Ele contava que uma vez voltava do baixo meretrício no Recife velho e quando passava numa ponte escura, foi abordado por três trombadinhas. Um dos pequenos delinqüentes anunciou o assalto já com um canivete na mão:

- É um assalto negão!

Amaro tranqüilo como era perguntou:

- Vocês tão querendo é tomar meus terem?

- ´É sim! Vai passando logo vagabundo, se não tu morre!

- Apois eu num dou não! Se vocês tivesse pidido cum jeito eu inté qui dava, mais na marra eu num dou não.

O marginal que estava com o canivete na mão avançou para Amaro, mas foi só para penar. Amaro pegou no pulso do infeliz deu um arrocho tão grande que ele se torceu e derrubou a arma. Os outros partiram para atacar, mas foi naquela hora que Pingo de Leite açoitou os dois com o que ele segurava. Ficaram os três gemendo no chão e Amaro saiu pedindo desculpas.

Na casa onde funcionava o correio morava eu, Amaro e o saudoso Zé Clementino.

Certo dia eu cheguei com Zé, quando deparamos com Amaro ajoelhado na frente da imagem de São Benedito fazendo uma prece.

Ele orava assim:

- Meu bom São Binidito. Eu sempre fui devoto do Sinhor e nunca pidí nada, mais agora eu tou pricisando dum adigitoro. Eu quiria pidí pru Sinhor dá um jeito naquela impregada de Dr. Lemo, pruque ela dando inriba deu. E cuma eu sei qui ela tem um chamego cum aquele caba dos Catita, pode ser qui ele venha cum bestêra, aí vai ser priciso eu dá um cocorote nele, qui inté o anjo da guarda vai sintí. Eu quiria pidí tombém pru Sinhor olhar pra Tadeu meu caçula,pruque ele tá danado falando fino e se requebrando e isso num é coisa pra caba macho. Se o Sinhor tiver tempo dê um jeito tombem im Rosália minha fia, pruque ela agora inventou uma arrumação de fugi cum todo galego vendedor de panela qui chega lá im casa. Num deixe tombem de olhar pra Oberto de Zé Ogusto, qui ele tá ficando muito acanaiado. Eu quero pidí ainda qui olhe pra minha preta, pruque ela tá sozinha im Caruaru e o Sinhor sabe muier longe do marido é qui nem cabita perto de pai de chiqueiro.

Se o Sinhor puder atender meus pidido, quando eu se aposentar vou fazer uma capela bem bunita pru Sinhor. Mais se num puder, pode sair precurando nesses poste do correi qui tem na rebêra qui qualquer dia desses o Sinhor vai incrontar esse preto infoicado.


053 - TÃO CAPANDO E APARANDO - Por Mundim do Vale

Rita Valdeliz Correia, de saudosa memória, foi contadora e distribuidora da nossa comarca e era  nosa vizinha na cidade de Várzea Alegre;

Quando mudamos para a cidade de Fortaleza, ela sempre vinha para nossa casa, nos curtos passeios de seis meses que fazia.

Num desses passeios, ela saiu um dia para o centro e encontrou na Praça José de Alencar, um carro de som que fazia a propaganda das Lojas; Ocapana e Abarana, pertencentes a família de Dona Ivonete, esposa do deputado Figueredo Correia.

A chamada da propaganda era assim:

- Atenção. Atenção! Grande promoção! Corram, corram pra Ocapana e Abarana.

Nossa hóspede chegou em casa trêmula e cansada, quando eu perguntei:

O que foi que houve Valdeliz? Você parece nervosa.

- Eu tava lá na Praça Zé de Alencar e tinha um carro com uma radiadora e o locutor dizia assim:

Corram, Corram. Que tão CAPANDO E APARANDO. Aí o povo saiu correndo pro lado da Guilherme Rocha, na maior loucura derrubando os outros.

Deus me defenda de andar mais no centro..


052 - VEREDA DE PREÁ - Por Mundim do Vale

Em 1.972, chegou em Várzea Alegre o terceiro batalhão de engenharia e construção, para construir um trecho da transamazônica.
O departamento pessoal do batalhão mandou anunciar a abertura de algumas vagas para trabalhador civil e pedia para que os candidatos comparecessem munidos de currículo vitae e toda a documentação de praxe.
Mundola chegou para Antônio Ulisses Costa, de saudosa memória e pediu:
- Ontõe Ruliço faça um curricu pra eu, qui é prumode eu se impregar no bataião.
Antônio Ulisses foi até o escritório do seu avô Dirceu Pimpim e datilografou o currículo conforme os dados fornecidos por Mundola. Em seguida entregou o documento dizendo:
- Pronto Mundola! Com esse papel aqui você tá habilitado a tomar até a vaga do capitão engenheiro.
O documento ficou assim:

CURRÍCULO VITAE

MUNDOLA DA SILVA

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

. Estado civil: Amancebado.
. Nacionalidade: Brasileiro.
. Idade: 24 Anos.
. Identidade: Não tem.
. Título eleitoral: 14652703.
. C.P.F. : Não tem.
. Cart. Reservista: Não tem.
. Cart. Motorista: Não tem.
. Registro civil: Cartório Gervásio Xavier – Calabaça.
. Naturalidade: Sítio Carapateira – V. Alegre.

FORMAÇÃO:

. 1.958 – 1.959 - Conclusão do Mobral na capela de Santo Antônio.
. 1.960 – 1.962 - Aprovado no segundo ano no Grupo Escolar José Correia Lima.

EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL 
. Fev/63 a Junho/63 - Pastorador da banca de Waldefrance.
. Agosto/63 a outubro/63 - Guia de Chico Cego.
. Novembro/63 a Janeiro/64 - Ajudante de Abidom na atividade de cambista.

EMPREGOS TEMPORÁRIOS:

. Janeiro/65 a Fevereiro/65 - Gritador de palhaço do circo.
. Março/65 a junho/65 - Tirador de goteiras da igreja.
. Julho/66 a Setembro/66 - Batedor de palmas nos comícios de Acelino. 

ATIVIDADES COMPLEMENTARES:

. Condutor de carro de mão.
. Descascador de varas.
. Assador de castanhas.
. Técnico em soldar pinicos.
. Perito em tirar carrapichos de carneiros.
. Auxiliar de coveiro.
. Aprendiz de fogueteiro.
. Estagiário em moenda de cana.

Com o currículo na mão Mundola saiu mais satisfeito do que Maria Caetano quando pegava no bicho, foi até o bar de Zé Batista para mostrar a Francimar de Doca Dutra.

Francimar deu uma rápida olhada e Mundola perguntou:
- E aí Francimar cum esse papel aí, será qui dá prumode eu se impregar no bataião pra construir a Transa?
Francimar respondeu curto e grosso igual a Coxia de charuto:
- Eu acho muito difícil Mundola. Com esse Currículo aqui você só tá qualificado para construir vereda de preá.


051 - SÓ O MÍ - Por Mundim do Vale

Certa vez o Sr. Antônio Costa inventou um comércio de milho cozido em Várzea Alegre e botou seus filhos Antônio Ulisses e Chico Neném ainda garotos, para vender o produto na cidade.
A empregada Tereza era encarregada de cozinhar e dividir o milho em dois caldeirões grandes. Os clientes de Antônio Ulisses eram os comerciantes. Já os de Chico Neném eram: carpinteiros, Alfaiates, padeiros e estudantes.
O mercado estava excelente mas quando era na hora do retorno, Chico Nenem voltava com o caldeirão todo amassado..
Tereza resolveu chamar Chico a atenção:
- Chico! Pruque qui todo dia tu vorta cum esse caldeirão todo amassado? E Antônio Ulisses vorta cum o dele bem dereitim. Será qui tu tá é jogando bola cum o caldeirão?
- É não Tereza! È porque meu irmão vende SÓ O MÍ. E eu vendo o mi e sabugo.
- E o qui é qui o meu caldeirão tem a ver cum isso?
- É porque nós vende a espiga a dez mil réis. Mais os caba me pergunta se eu quero vender a vinte mil réis pra quando eles acabar de comer, tacar o sabugo neu. Aí eu topo né? Mais eu boto o caldeirão assim na frente, qui é pra livrar pelo meno o peduvido. 


050 - OS FILHOS DE ANTÔNIO - Por Mundim do Vale

Dois dos filhos de Antônio Costa, tinham idades e alturas muito próximas. Era Antônio Ulisses e Francisco das Chagas, que era conhecido por Chico Neném. Sendo que Antônio Ulisses era louro e comportado e Chico neném era moreno e danado.
Certa vez Antônio Costa arranjou com Acelino Leandro uma vaga na carpintaria para Chico Neném aprender a arte e não ficar solto na rua fazendo bagunça junto com nós. No começo até que ele tava dando certo, mas depois começou a bagunçar. Escondeu a muleta de mestre Elói, envernizou a cara de Antônio de Zequinha, jogou raspa de madeira nas gaiolas de Durval e trancou Osvaldo Batista dentro de um guarda-louças. Depois de receber uma série de queixas o jeito foi Acelino dispensar Chico por justa causa.
Dois dias depois Maria Zélia irmã de Chico Nenem foi falar com Acelino:
- Seu Acelino. Eu vim aqui pedir ao Senhor uma oportunidade para Francisco das Chagas. O Senhor sabe é melhor ele ficar por aqui aprendendo alguma coisa, do que ficar solto no meio da rua feito menino sem pai.
Acelino muito atencioso respondeu:
- Tá muito bem! Se for Francisco das Chagas pode trazer.
No dia seguinte Maria Zélia chegou com Chico neném. Quando Acelino viu arregalou os olhos e perguntou:
Espere! Esse Daí é Francisco das Chagas?
Chico Neném respondeu:
- É eu mermo! Derna de quando nasci.
- Maria Zélia, eu lamento muito, mas não posso lhe atender não. Eu pensava que Francisco das Chagas era o louro. 


049 - BICHO DA GOIABA - Por Mundim do Vale.

Eu não consigo aquí precisar o ano, mas foi mais-ou-menos em 1960.
Depois do triste falecimento do meu tío Raimundo Piau, sua filha Socorro, que tinha de treze a quatorze anos, foi estudar na cidade e ficou morando na nossa casa de número 04 na rua Padre José Alves, ou rua da lagoa.
Além da boa convivência aquela menina ajudava a minha mãe no reforço escolar dos meus irmãos mais novos, já manifestando alí a sua vocação para a excelente educadora que é hoje.
A casa vizinha de número 06 que pertencia a Maria de Bárbara, foi cedida pela proprietária para ser ocupada por uma religiosa de nome Emília Gadelha, que nós tratávamos carinhosamente por Vovó Gadelha.
No quintal daquela casa tinha uma goiabeira que os seus frutos eram conhecidos na cidade, como os mais graúdos e saborosos.
O único bicho que aquelas goiabas tinham, era somente eu, porque quando Vovó Gadelha saía para a igreja onde fazia suas preces para o Coração de Jesus, eu fazia uma verdadeira devassa naquela goiabeira.
Um dia Socorro me chamou para comprar umas goiabas com ela. Chegamos lá Socorro falou:
- Vovó Gadelha. Eu queria comprar umas goiabas, quanto é uma?
- É mil réis. Mais miá fia vai pricisar se assubí mode tirá.
Socorro pegou dez mil réis e falou:
- Eu quero comprar dez, mas não faz bem eu subir de vestido, por isto eu trouxe meu primo Raimundinho pra subir. (naquele tempo as garotas ainda não vestiam shorts nem calças compridas ).
Vovó Gadelha disse:
-- Apois tá bom, mais diga a Reimundo pra ter coidado prumode num derrubar as verde.
Eu subí na goiabeira e Socorro ficou recolhendo as frutas em uma sexta. Só que nem Socorro nem Vovó Gadelha estavam notando a minha malandragem. Quando eu jogava uma pra Socorro, botava outra na boca e jogava duas em um tanque de acumular água que tinha no pé do muro dividindo os dois quintais.
Chegando em casa eu fui direto no tanque onde tinha mais de vinte goiabas. Quando Socorro viu a arrumação falou decepcionada:
- Mais Raimundinho. Como é que você foi fazer uma coisa dessa? Você fez um furto e me comprometeu também.
Enquanto eu morria de vergonha, ela desenvolvia um plano para resolver o problema. Depois do plano feito ela falou:
- Pronto Raimundinho. Eu vou pagar o prejuízo de Vovó Gadelha e ao mesmo tempo lhe poupar de um constrangimento.
Pegou mais dez mil réis e foi até lá;
- Vovó Gadelha eu trouxe mais dez mil réis pelas goiabas que levei.
- Pricisa não miá fia. Você já pagou o mermo tanto qui os ôto paga nas guaiaba.
- Mas Vovó, é porque as goiabas que o Raimundinho tirou são maiores, elas são o dobro das outras e assim sendo eu quero pagar em dobro.
A atitude daquela garota foi para mim uma lição de honestidade que eu conservo até hoje.


048 - TÁ O FUCIM DO AVÔ GETÚLIO - Por Mundim do Vale.

No ano de 1.957, Vicente Justino ( Cravina ) Botou um leitão no ombro e saiu oferecendo aos nossos conterrâneos em Várzea Alegre. Como não houve nenhum interesse, ele foi até os Patos, jogou o porquinho sobre o balcão da bodega de Raimundo de Fama e gritou:
- Raimundo me compre esse bacurim!
- Não. Quero não!
- Mais ome. Compre o bichim, qui ele tem istora. Ele é neto de Getúlio, aquele poico qui Seu Matia criou injeitado.
- Quero não. Eu num gosto de poico nem de Matia.
- É, mais foi Seu Matia qui butou João Faceiro pra arribar de Raja Alegue, naquele tempo qui ele tava prisiguindo as moça da Vazante.
- Mais isso é coisa do passado, o qui interessa é o futuro.
- É o futuro. Apois iscute essa. Mariinha de Pedo Preto viu a visão do finado Raimundo Costa e escutou quando ele dixe qui vai ter uma maldição no dia 15 de abril de 1.977. A torre da igreja vai cair e São Raimundo vai ficar na dimpidura, cai, num cai. E dixe tombém qui no mermo dia, vai morrer um mói de Raimundo. É; Raimundim Piau, Raimundim de Zezim de Ogenho, Raimundim de Joaquim Francisco, Raimundo de Duval, Raimundo de Gessé, Raimundim de Adélia e Raimundo Queiroz. Só num vai morrer Raimundo de Souzão, pruque se ele for pru inferno, vai querer mandar lá mais do que Satanaz.
- Ontom-se quer dizer qui se a torre da capela de São Francisco cair, vai Morrer: Chico de Ontõe Chico, Chiquim de Ontõe Bento, Chico de Belizaro, Chico neném, Chico de Munda e Chiquim de Pedo belo?
É. Só vai escapar Chico de Mundêro, Pruque num fala da vida Alêa.
- Tu que saber duma coisa Cravina? O passado já passou, o futuro inda tá longe, o qui voga é o presente.
- E o bacurim?
- Tá o fucim do Avô Getúlio.

A visão acertou na queda da torre, mas enganou-se com os mortos, porque naquela data não morreu nenhum Raimundo e nem Francisco. Só quem morreu naquele dia foi o canário de Antônio de Felinto, mas o nome dele era Cauby Peixoto.


047 - VOCÊ ME DESARMOU - Por Mundim do Vale.

Joaquim Fiusa e Zé Vieira, eram amigos e vizinhos no sítio Chico. Nunca ninguém ouviu falar que nenhum dos dois portasse arma de fogo. Dizer aqui qual dos dois era o mais pacato é impossível. Eu os conheci até a morte e posso dizer que nunca ouvi falar de briga de nenhum dos dois.
Uma noite chegou um forasteiro na casa de Joaquim e pediu arrancho, Joaquim bom hospitaleiro que era, hospedou o desconhecido que logo tirou os arreios do burro e botou na sala. Em seguida botou o animal na roça e voltou. Joaquim mandou Dona Izabel servir uma coalhada para o visitante e armar uma rede limpa na sala. O rapaz acomodou-se e o casal foi dormir num quarto de meia parede que ficava vizinho a sala. Os dois começaram a cochichar quando Izabel falou:
- Ou Joaquim! Tu não acha perigoso esse desconhecido dormir dentro de casa não?
- Dormir não tem perigo não. Perigoso é ficar acordado.
- Mais Joaquim. E se esse homem for um salteador?
Foi aí que a ficha de Joaquim caiu e ele confiando no sincronismo da esposa, falou o mais alto que podia:
- Izabel! Zé Vieira veio deixar o revólver?
- Veio tá aqui no armário!
Depois disso eles ouviram apenas um tossido na sala e depois silêncio total.
Na manhã seguinte o visitante acordou, lavou o rosto, tomou café, despediu-se e foi embora.
Três dias depois Joaquim Fiusa encontrou-se com Zé Vieira e contou toda a história.
Zé Vieira reagiu dizendo assim:
- Pois não era pra você ter feito isso não.
- Porque?
- Porque você me desarmou, se o homem inventa de ir lá pra casa.


046 - GALO PERVERSO - Por Mundim do Vale

Enquanto eu postava aquele causo do irmão do morais, me lembrava que no mesmo dia que me contaram aquela história, outra pessoa lá do Sanharol, me contou outra de apostas e briga de galos.
Dizia o contador que o Sr. Alcides Peixoto era conhecido no Crato, como uma pessoa que gostava muito de briga de galos e também de apostas. Apostava em briga de touros, galos, canários e até de meninos sem pais.
Disse que uma vez Alcides viajou para a cidade de Araripinas e chegou já de noite. Hospedou-se numa pensão para dormir e na manhã seguinte quando acordou foi até uma janela para contemplar a cidade. Da janela ele avistou alguma pessoas arrumando uma rinha para briga de galos. O visitante vestiu-se muito rápido e desceu para praça, lá chegando já avistou um sujeito com um galo branco e outro com um galo vermelho. Os galos só faltavam pular para a briga antes da hora.
Alcides abordou um matuto perguntando:
- Me diga uma coisa parente! Qual é o miozinho dos dois?
- O miozim é o branquim.
Alcides apostou uma boa quantia no galo branco, sem perceber que todos apostavam no vermelho.
Quando deram a ordem para soltar os galos, o vermelho pulou de bico e esporão sobre o branco, que não agüentou nem dois minutos. Morreu sem nem uma pena.
Alcides aborrecido com o prejuízo abordou novamente o pernambucano:
- Você é muito bom de peia viu? Me disse que o miozinho era o branco e fez eu perder meu dinheiro.
- Mais é divera. O miozim era o finado branquim. Agora esse vermeim aí é prevesso, feito o cão do inferno.

Eu não posso confirmar a veracidade do causo porque não foi em Várzea Alegre.

045 - AUDITORIA MATERNAL - Por Mundim do Vale

Eu invento de escrever esses causos mas é de teimoso que sou. Pois sempre tive dificuldades com a gramática. Eu nunca aprendi redação, pontuação, acentuação e nem resumo de textos.
Quando estudava no grupo escolar José Correia Lima ( coisa que não faz muito tempo ) Uma vez eu tentei confundir a professora Dolores Meneses de Carvalho.
Foi assim: a professora ditava os textos para os alunos copiarem valendo como prova.
Quando eu tinha dúvida se a palavra cabia ou não o acento, eu usava de esperteza agindo assim: Na palavra século eu colocava um risco sobre a letra” e “ mas bem apagado quase nada. Na palavra alicate eu fazia a mesma coisa no segundo “ a “. A boa educadora recolhia os textos e já era certo me chamar lá na sua mesa:
- Raimundo! venha aqui! A palavra século tem um acent o no “ e “ e você não acentuou.
Eu respondia:
- Acentuei sim ! Olhe direito, que eu botei.
Ela colocava o texto mais perto e concordava com um balanço de cabeça. continuava corrigindo, de repente gritava:
- Raimundo venha Aqui! A palavra alicate não tem acento e você colocou.
Eu respondia:
- Claro que não tem. A senhora tá enganada eu não coloquei não
Ela dizia:
- Botou sim, olhe aqui!
Eu teimava:
- Não senhora isso aí foi quando eu puxei o travessão do “ t “ o lápis escapuliu e triscou sobre o “ a “ não tá vendo que ele tá um pouco apagado.
A boa professora concordava balançando com a cabeça afirmativamente.
O que eu não sabia era que aquela boa educadora munida da responsabilidade de educar, estava mostrando tudo a minha mãe que também era professora no mesmo grupo.
Chegando em casa minha mãe disse que precisava fazer um reforço comigo sem dizer nada do assunto do grupo.
Ela sentou do meu lado e mandou que eu escrevesse enquanto ela ia ditando. Só que os ditados tinham sido desenvolvidos com algumas das palavras do questionamento no grupo.
Com essa auditoria maternal ficou explícita a minha malandragem.sem explicação eu fiquei mais calado do que o ministro José Dirceu, depois do caso Waldomiro. Depois disto as minhas notas baixaram mais do que a popularidade do ex-prefeito Juraci Magalhães.


044 - MEL DE ENGENHO - Por Mundim do Vale

João de Zé Vieira do Chico quando criança, gostava de ir para os engenhos de rapadura a procura de caldo de cana e rapa de gamela. Uma vez ele fez umas presepadas no engenho de Vicente Fiusa e um dos empregados comunicou o fato ao proprietário, que já chegou dando uns gritos em João. Assustado o garoto subiu um morro e Vicente ficou olhando pra vê se o menino voltava.
De cima do morro João gritou:
- Ei. Eu vou fazer um verso!
E assim fez:

JÁ DIZIA O PAPA-MEL
QUE É ELE QUEM MAIS USA,
QUEM NUNCA COME MEL
QUANDO COME SE LANBUSA.
SÓ SE VÊ ESSAS PUTARIAS
NO ENGENHO DOS FIUZA.


043 - A VOLTA DO INCENDIÁRIO - Por Mundim do Vale.

1.966 semana da terra.

O IBRA - Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, resolveu recadrastar todas as terras do Brasil. O governo federal repassou a verba das despezas e o material para as prefeituras e a coordenação ficou por conta dos municípios. Em Várzea Alegre o secretário Lourival Frutuoso, nomeou as equipes e deu as devidas instruções.

As equipes eram compostas por cinco pessoas, sendo um monitor e quatro auxiliares. A equipe do distrito de Riacho Verde ficou formada assim: Sebastião Bezerra ( Bastião Panelada ) Como monitor, Chico de Raimundo Brito, Francivaldo Martins, meu irmão Ozanam Morais e esse contador de causos.

Fizemos os treinamentos e fomos ao Riacho Verde, onde ficamos dormindo e fazendo refeições na casa da mãe do coronel Julião.

No primeiro dia de trabalho, no grupo escolar da Bela Vista, por volta das 10:00 Horas, recebemos a visita de Antônio do Vijo, que nós não conhecíamos ainda. Ele dirigiu-se a Francivaldo sem dizer nada. Francivaldo muito atencioso perguntou:

- O Senhor quer recadastrar sua terras?

- Não meu fí. Eu só tenho terra no pescoço e nas unha. Eu vim aqui pra ver se arranjo um pedaço de terra prumode fazer uma broca..

Antônio saiu e nós demos sequência ao trabalho. Quando foi por volta das 10:30 Horas nós sentimos um calor e ouvimos os gritos do Pessoal:

- FOGO!

Antônio tinha feito um rozário de mato seco contornando o grupo e ateou fogo. Foi uma correria dentro e fora do grupo, até quando Chico Máximo e Zé Vitorino juntos com alguns moradores, fizeram a contenção do fogo e botaram o incendiário para o Monte Alegre. Nós fiquemos inseguros querendo deixar o trabalho, mas o pessoal garantiu de prestar uma segurança para que nada de mal nos acontecesse.

A noite quando fomos dormir um menino dise que o maluco botava fogo até em lagoa. Isso fez com que a nossa segurança diminuisse.

Na manhã seguinte mais-ou-menos no mesmo horário, nós estávamos na classe com algumas pessoas e de repente eu notei Francivaldo olhar na direção da janela que ficava atrás do meu birô, com uma certa expressão de terror. Quando eu ve virei deparei com o Incendiário que foi logo perguntando:

- Alguém pode me arrumar fosco?

As duas portas e as duas janelas foram poucas para sair tanta gente. Depois que imobilizaram Antônio, foram me encontrar lá no Riacho Fundo.


042 - UNIFORME EXTRAVAGANTE - Por Mundim do Vale.

31 de agosto de 1.966, dia de São Raimundo Nonato, ressaca da festa, que foi fraca por conta do inverno ruim, sem contar com o reflexo negativo deixado pela derrota do Brasil na copa do mundo.
Chega Zé Mariano na barbearia de Vicente Cesário vestindo: Uma camiseta desbotada e sem mangas, própria para tomar injeção, uma bermuda mais enfadada do que calção de sapateiro, um par de chinelas japonesas com clips segurando o cabrexto, e uns óculos Globo 66. Senta no banco entre Vicente Cesário e Antônio Grande e diz:
- Oh Ontõe! Aqui inriba deu tem mais de 800 cruzeiro.
Antônio rebateu:
- Pera. Zé Mariano! Esses óculos Globo 66, Gregório da Celca tava vendendo a 15 cruzeiros. Chico Piau até comprou dois, um pra ele e outro pra botar no jegue no dia da corrida que o Padre Vieira vai fazer. Essa camiseta tão vendendo ali nas barracas a 10 cruzeiros, essa bermuda Azarias vende a 12 cruzeiros, essas japonesas Mané da sapataria tá vendendo o par por 3 cruzeiros.- Tu tá ficando doido?
Nesse exato momento Otacílio Correia entrava na Casa das Máquinas, de palitó, gravata e sapato social, muito bem polido.
Vicente Cesário bateu no ombro de Zé Mariano e falou:
- Meu bichim! Porque tu não pergunta a Otacílio quanto ele quer de torna, na troca dos uniformes.


041 - VEM CHUVA GROSSA - Por Mundim do Vale

Meu conterrâneo Mundim da Varjota, tinha umas respostas parecidas com as de Seu Lunga. Mundim e a sua esposa Cecília, tinham um canteiro de verduras e um pequeno jardim num quintal perto de casa. O marido cuidava da aguação e a esposa da venda das verduras.
Uma vez Cecília foi ao Crato e trouxe quatro mudas de tuia para plantar no jardim. As cinco horas da tarde, estavam os dois plantando as mudas, quando Cecília disse:
- Mundim eu tenho uma recomendação pra fazer. Esse tipo de planta tem que ser aguada só na raiz, não pode molhar os galhos nem as folhas, porque se molhar ela morre.
Mundim olhou para o nascente e falou:
- Apois então vá correndo lá na loja de Raimundo Teixeira e compre quatro guarda-chuvas pra elas, que vem chuva grossa.


040 - EU NUM FAÇO IMPÉM - Por Mundim do Vale

Na semana santa em Várzea Alegre, é costume os afilhados pedirem a bênção aos padrinhos e receberem uma quantia em dinheiro, que chamam de jejum. Era começo de semana santa e o circo Estrala Brasil estava sendo montado atrás da igreja de São Raimundo. Na calçada da igreja, Dedé de Júlio conversava com Chico de João V8, quando Dedé disse:
- Eita! Na sumana qui vem o circo fica pronto. Tem paiaço acanaiado, macaco, Leão, trapezista e inté Lurdinha Suares cantando só de maiô, amostrando as cocha. Vai ser bom dimais da conta.
Chico atalhou:
De que qui adianta, se nóis num tem dinheiro pra entrar?
- É só nóis ir gritar paiaço.
- Gritar paiaço pai num dêxa não.
- Ontonse nóis entra pru dibaxo da lona.
- Dá certo tombém não, qui os impregado do circo açoita nóis.
- Arre égua nóis ramo perder a putaria.
- Ramo não. Eu tou pensando num prano, qui vai dá certo, amenhã quando Lino do Correi vier na rural, eu vou pedir pra ir mais ele inté o Juazeirim, qui é prumode eu pidir a bença a meu padim Zé Lunardo, aí quando ele me der uns trocado de jejum, eu pago a tua entrada tombém.
- E se quando chegar no bebedou a rural de Lino atolar?
- Aí eu tomo imprestado o burro de Zá Amanço e vou nele.
- E se quando chegar na Timbaúba o burro se acuar?
- Aí eu peço a bicicreta de Ferreira Custodo e vou nela.
- E se quando chegar no Jatobá a corrente se quebrar?
- Aí eu vou de apé
- E se der uma cambra nas tuas perna?
- Aí eu vou sarrastando na rebêra inté chegar na casa do meu padim Zé Lunardo.
- E seu teu padim Zé Lunardo num tiver dinheiro?
Isbarra aí Dedé! Tu já atolou a rural de Lino, Já acuou o burro de Zé Amanço, já quebrou a corrente da bicicreta de Ferreira Custodo, já alejou minhas perna com cambra e agora quer dizer qui meu padim é liso. Apois fique sabendo qui eu num vou mais pagar a sua entrada não.
- Apois você pegue a rural, o burro, a bicicreta, seu padim Zé Lunardo, Lurdinha Suares e o circo Estrela Brasil e soque tudim no caneco, qui eu num faço impem.
- Apois ontonse. Vá assistir ispetaco no Circo Bacana, lá de Matorzinho.


039 - EXTRAVIO DE DOCUMENTOS - Por Mundim do Vale

Certa vez, meu amigo Joscilé Taveira veio a Fortaleza, para tentar um emprego e hospedou-se na nossa casa no Montese. No sábado Foi eu, João Morais, Luís Sérgio e Zé Almir Clementino, mostrar o aeroporto velho para ele. Subia avião, descia avião e Taveirinha fazendo graça, contando os causos de Várzea Alegre.
Uma hora lá Taveira calou-se e fez uma expressão de tristeza, eu perguntei:
- O que foi que houve Taveirinha? Tá com saudade de V. Alegre?
- Não foi porque eu perdi meu dinheiro e todos os documentos.
Nós ficamos preocupados e fomos ajudar na busca. Nada no aeroporto, nada no carro, o jeito foi voltar.
Quando nós chegamos na calçada de casa comentando a tragédia,
Taveira olhou para uma grade que tinha na frente de casa e falou gritando:
- Tá ali.
Tinha preso na grade um saquinho de pipoca Guri, Taveira pegou o saco abriu e mostrou dizendo:
- Taqui. Taqui meus documentos e o dinheiro!
Eu dei uma olhada para verificar o conteúdo do saco de pipocas e encontrei: Uma cópia do registro civil, uma cópia do batistério, um retrato da namorada e o endereço de Chico Barros. O dinheiro era uma nota de cinco cruzeiros, que devia valer dez, porque era de duas cabeças.


038 - COBRADOR CHATO - Por Mundim do Vale

O empresário Otacílio Correia, teve um tempo com certa dificuldade financeira e tinha um pequeno débito com um cidadão que lhe cobrava três vezes por dia. Pela manhã e pela tarde ele cobrava na empresa e à noite na sua residência. Numas dessas noites ele estava no banheiro quando o credor chegou e bateu palmas. Dona Rosinha saiu para atender o inconveniente, quando voltou foi dizendo:
- Otacílio. Já é aquele cobrador chato novamente.
Otacílio respondeu:
Não Rosinha. Não é o cobrador que é chato. O chato sou eu que não estou podendo pagar.


037 - O DRAMA DE LEONTINA - Por Mundim do Vale.

No ano de 1956, nasceu na cidade de Lardânia, um garoto filho do casal Benedito e Leontina.15 dias depois o pai foi até a paróquia falar com o padre Cazuza para os procedimentos do batizado. O nome do garoto devia ser Érico, chegando na casa paroquial, Benedito esticou o braço para o padre dizendo:
- A bença seu pade!
- Deus lhe abençoe. O que o filho deseja?
- Eu vim aquí prumode maicar o batizado de Ourico meu.
- E quem vai ser o padrinho?
- É o presidente Quende.
- Quem?
- O presidente Quende.
- Você que dizer o presidente dos estados unidos John Kennedy?
- Justamnete é ele mermo.
- Mas meu filho. procure outra pessoa, que aquele homem é muito ocupado e mora muito longe daquí da Lardãnia.
- Mais ele vem, qui quando nasceu Gulora minha. eu chamei João Francisco e ele vei lá da Rajalegue. Adispois quando nasceu Orelo eu chamei Dr. José Flávio e ele vei lá de Matozim.
- Mas aí é outra história. Eu acho muito difícil o presdidente vir.
- Apois faça uma missiva pra ele marcando pro fim do mês qui eu garanto qui ele vem.
O padre cazuza não tendo mais argumentos para fazer com que o seu paroquiano desistisse, resolveu escrever, fez a carta, colocou num envelope com o trimbe da paróquia e enviou para a Casa Branca via consulado.
Se eu disser que a carta chegou lá, vocês nã vão acreditar. Pois ela chegou nas mãos do oficial de gabinete do presidente e foi respondida.
A resposta:
Reverendíssimo Padre Cazuza.
Recebemos o simpático convite do Sr. Benedito. mas em virtude dos inúmeros compromissos do do Sr. Presidente, não será possível agendar o batizado do Érico, para a data marcada. Estamos mandando junto a esssa, uma procuração e um cheque do Banco do Brasil, para o presente e as despezas do batizado.
Gabinete do presidente dos U.S.A.
O batizado foi realizado com o procurador e o érico ficou conhecido na Lardânia, como o afilhado do presidente dos Estados Unidos da América.
Sete anos depois, precisamente no dia 22 de novembro de 1963, O presidente Kennedy foi assassinado na cidade de Dallas capital do Texas.
O padre Cazuza assistindo o noticiário no seu rádio A.B.C. a voz de ouro, ouviu a matéria e quando terminou, mandou o sacristão chamar Benedito com urgência na sua casa.
Benedito chegou foi logo estirando a mão e dizendo:
- A bença Pade cazuza! O Sinhô mandou me chamar?
- Mandei. Eu tenho uma notícia muito triste para lhe dar.
- Apois diga logo ome! Qui num tem nutiça no mundo mais rim do que minha vida não.
- É o seguinte! Houve um atentado lá nos Estados Unidos e o presidente Kennedy foi assassinado.
- ÔXETE OME! Apois eu tem qui avisar a Leontina.
- Tá certo. Mas vá avisar com muito cuidado, assim como quem procura pinico no escuro.
- Benedito saiu correndo, quando chegou em casa não popou a esposa, falou logo de impacto:
- Leontina! Leontina!
- O qui foi ome de Deus?
- Mataro o Quende!
- Mataro quem?
- O Quende. Padim de Ourico.
Leontina chorando falou entre um soluço e outro:
Valha meu padim Ciço Rumão. cuma será qui tá cumade Jaqueline numa hora dessa?

Fonte; Professor Ossiam


036 - PEI BUFO - Por Mundim do Vale

Várzea Alegre. Alegre sim. Porque tem seus contrastes e seus causos, alegres.
O nosso conterrâneo, conhecido por Chico de Mundeira, era um cidadão sério e de pouca conversa. Econômico no riso, e nas palavras. Nunca ouvi falar que ele tivesse dado uma risada. Suas frases não passavam de: Bom dia, boa tarde, boa noite, até logo, até amanhã, ta certo e se Deus quiser. Comerciante do ramo de panificação, mas o seu comportamento era diferenciado de qualquer vendedor ganancioso..
A cidade tinha a sua feira semanal no sábado, quando os moradores dos sítios vinham vender ou comprar. Os moradores tinham aquele dia como um dia de festas. Bebiam, jogavam, trocavam animais e recebiam seus parentes. Foi num dia daqueles que aconteceu o lamentável fato, onde o nosso escritor Francisco Gonçalves ficou órfão de pai. Eu peço perdão ao Chiquinho e aos demais conterrâneos, por expor aqui essa página triste do livro da nossa história. Mas vamos deletar essa parte, para dar seqüência ao nosso causo..
Num dia daquela feira, juntou-se Raimundim de Zezim de Eugênio e um galego do Novo Jordão e foram beber cachaças de bodega em bodega. Os dois tinham o mesmo nível de violência e a mesma preferência pela aguardente. Lá uma hora os dois começaram uma discursão e partiram trocando tapas até o beco de Zé Ginu. Lá chegando Raimundim deu um murro tão condenado na cara do galego, que ele caiu na calçada de Mestre Antônio e saiu rolando como um cano, passando na calçada de Boris e de Mariquinha, indo parar na calçada da padaria de Chico de Mundeira.
Da boca do Galego descia um filete de sangue, que escorria até a calçada de Zé Bile, como se fosse a continuação daquela viagem que o Galego interrompeu.
Juntou tantos curiosos, que eu não sei de onde veio tanta gente. A bateria de perguntas era constante.
Um comentava:
- Mais num tinha pricisão de Raimundim ter feito isso cum o galego não.
Outro falava:
- Mais foi pruquê o Galego tava bebo, se ele tivesse bom num tinha acunticido isso não.
Outro falava:
- É mais Raimundim é brabo. Ele num abre nem prus galego de Quilara.
Belizário foi chegando, afastou o pessoal e se dirigiu a Chico Mundeira, que estava sentado no batente da porta da padaria, como se nada tivesse acontecido:
- Chico! Cuma foi qui acunteceu esse negoço?
- Foi PEI BUFO!

Comentário do autor.

Se no lugar de Chico de Mundeira fosse Chiquim de Pedro Belo, a resposta ao ivés de ser PEI – BUFO, teria sido assim:
- Omi. Derna de dimahã qui os dois tava bebendo nas budega. Aí Raimundim deu um cocorote nim Galego qui ele caiu de cu trancado e adispois saiu rolando nas calçadas, a moda um tronco de carnaúba.


035 - ALÔ, ALÔ. LUÍS CARLOS! - Por Mundim do Vale

No dia primeiro de abril do ano de 1975, eu cheguei na Mudanças Confiança, onde havia um clima de brincadeiras por conta das pegadinhas do dia da mentira.
Chegando na sala do valente Luís Carlos, eu avistei no armário um telefone da antiga telefônica municipal , que na época já era mais antigo do que calças de suspensórios. Luís Carlos notando a minha admiração falou:
- Raimundinho! Você quer esse telefone para você?
- Eu até que queria. Mas fique sabendo, que eu tou ligado que hoje é o dia da mentira.
- Mas eu posso lhe dar esse, que papai tem outro do mesmo jeito.
O valente chamou Fátima Primo e mandou que ela colocasse numa caixa e eu levei o aparelho.
Alguns anos depois o meu amigo tornou-se colecionador de objetos antigos e me pediu a devolução do aparelho. No dia primeiro de abril deste ano, eu liguei para o amigo e falei:
- Valente! O seu telefone eu vou devolver, mas saiba que, quem dar e torna a tomar, vira corcunda pro mar.
- Eu sei disso. E sei também que hoje é o primeiro de abril e partindo de você só pode ser uma pegadinha.
- É não Valente! O telefone fica melhor nas suas mãos e a nossa amizade tem mais valor do que toda a Petrobás.

Dedico esse causo a todos os meus amigos de CONFIANÇA.


034 - O Enterro do Quechado - Por Mundim do Vale.

A fonte desse causo foi Antônio Ulisses Costa, que já subiu para o andar superior. Pancho era um moreno que morava com Antônio Primo no sítio Baixio. Um moço muito trabalhador, só perdia uma hora de trabalho se fosse para acompanhar um enterro. Não perdia um, acompanhou até o enterro da gata de Fanfanca. Certo dia Pancho sacudia um arroz, quando avistou dois homens com uma rede num pau, vindo das bandas do sítio Quechado. Pancho entrou imediatamente, trocou de roupa sem nem tomar banho e acompanhou o funeral. Chegou para um dos condutores e pediu o lugar para ajudar. O homem aliviado do peso tirou uma garrafa de cachaça do bornal e foi tomando uma bicada de vez em quando. Pancho sentindo o peso, a quentura e o pelo do arroz misturado com o suó , pensava: - Ou defunto pesado da gota! – Ou enterro mal acompanhado. E o silêncio dos três era total. Com três quilômetros de viajem o homem que bebia passou a cachaça para o outro e pegou o lugar dele. Chegaram em Várzea Alegre e não pararam no cemitério. Pancho estranhou mas pensou que fosse para casa de algum parente para ser velado. Desceram na antiga rua do Juazeiro e quando chegaram na casa do mestre João Alves, o condutor da frente arreou o pau e Pancho fez a mesma coisa com muito cuidado. Para romper o silêncio, Pancho falou: Ome eu acumpanhei esse interro derna o Baxí e inté agora num sei quem foi qui morreu. Ainda qui má pregunte, quem é o finado? Um dos condutores respondeu: Né finado não Pancho! Isso é a máquina de custurar de seu Leandro que deu o prego e nóis truvemo pra rua prumode meste João Alve ajeitar.


033 - VÔTE QUE CATINGA MEDONHA - Por Mundim do Vale

Lendo um causo em Pedra de Clarenã, me lembrei desse causo verídico.

No ano de 1967, quando Antônio Rolim promovia shows artísticos em Várzea Alegre, numa ocasião ele contratou o Coronel Ludugero com Otrope e outros artistas para dois dias de shows. Ludugero apresentou-se no sábado em V. Alegre e ficou acertado outra apresentação para o domingo na cidade de Cedro. No domingo Antônio preparou o material e chamou a equipe de ajudantes que era: Eu, Zé Clementino, Balah, Pedro Clementino, Professor Levi Nogueira, Paulo de Diasis, Zé Leandro e Luisvaldo Martins ( Doutor ).
Chegamos no Cedro, guardamos algumas coisas no hotel e nos dirigimos ao Grupo Gabriel Diniz, para montagem de som e vendas de ingressos. Quando chegamos na porta do grupo, tinha uma turma de seis jovens com garrafas nas mãos. Um deles olhou para Balah e disse:
- Cabra de V. Alegre aqui no Cedro a gente trata é na peia. Balah sem nem olhar pra cara do sujeito respondeu:
- Quando eles chegam lá em Farias Brito nós recebe do mesmo jeito.
Passado o sufoco começou o show, lá uma hora o microfone do Coroné deu um mal contato e Doutor foi consertar, quando ele abaixou-se para conectar um plug descuidou-se e soltou um canarinho. Ludugero abanou-se com o chapéu e falou:
- Vote que catinga medonha!
Terminado o show nós fomos jantar e prestar contas, porque logo depois os artistas viajariam para Fortaleza e nós para Várzea Alegre. Foi nesse momento que Antônio Rolim pediu para o Coroné gravar uma despedida para nós.
Ele gravou nesses termos:
- Pessoá! Chegou a hora da despedida. É uma despedida toda cheia de inconfraternização robusculá, pruque numa caravana onde anda Pedo e Palo, já tá feita toda a ladainha. Tem tombém o prefessor Levi que vai levando todo mundo, tem tombém Raimundim, Zé Quelemintino, Ontõe Rolinha, Zé Bobô, Balah e Doutor. Doutor é piquininim mais é mei disprivinido dos intistino. Na hora qui foi ligá o lecrofone, abriu a gaiola e soltou um canarim, mais num teve homem qui agüentasse. Doutor, você é Doutor mais eu vou lhe dá um consei, quando for cumer airubu num se asqueça de tirar o papo. Pruque é justamente no papo do airubu, onde se incontra as venezianas qui você butou através do fosfito.


032 - QUEM PEGAR VAI TER. Por Mundim do Vale.

Meus amigos Alberto Siebra e Luzinete vivem um relacionamento muito amistoso. É o que pode se chamar de total harmonia, mas como todo casal, vez por outra eles teimam. Não que seja preciso recorrer ao supremo tribunal para resolver.
Para mim parece mais com um jogo de pegadinhas de um para o outro. Todas as teimas terminam em amplas risadas.
Certa vez Alberto voltava da farra e já era madrugada, quando aproximou-se da porta viu a esposa já na calçada, que logo foi perguntando:
- Isso é hora para um pai de família chegar em casa?
- E isso é hora para uma mãe de família tá no meio da rua?
Uma semana depois Alberto chegou no mesmo horário e nas mesmas condições, antes que Luzinete falasse ele disse em tom
autoritário:
- Luzinete vá fazer um café pra mim!
- Não tem como fazer.
- Porque não?
- Porque não tem pó e nem açúcar.
- Pois faça assim mesmo. Nem que fique fraco e amargoso.
Em outra ocasião estavam os dois atendendo a clientela do bar, quando Alberto falou:
- Mulher se tirar o juízo de dez criaturas iguais a tu e colocar numa galinha ela ainda vai pô no mato.
Luzinete reagiu dizendo:
E é? Pois se tirar o juízo de dez homens iguais a tu e colocar num porco ele ainda vai comer porcaria
Depois dessa Alberto falou igual a Guido de Zé Inácio:
- Pois fique sabendo que se tirar o juízo de dez jumentos de lote e colocar em mim, nós vamos encher nossa casa de crianças.
- Deus me defenda! Só se tu tiver tudim.
- Pois vamos ser democráticos. A gente dorme juntos e QUEM PEGAR VAI TER.


031 - CONTO DE CARNAVAL - Por Mundim do Vale.

A nossa Charanga foi uma batucada, criada para animar os carnavais de rua e os jogos de futebol de salão em Várzea Alegre.O grupo era composto por:Luís Filho, Marconi Proto, Célio e Tércio Costa, Mario Leal, Noberto Rolim, Joemilton Martins, Gonzaga Teixeira, Nilton Freire, João Piau e outros, inclusive esse contador de causos.

Nos ensaios nós procurávamos locais reservados, para que nos dias de desfiles, o público tivesse novidades.

Uma vez nós estávamos na busca do local para o ensaio, quando Nilton falou:
- Nós podemos ensaiar na casa de Dona Maria Edite, eu arranjo a chave.
Eu perguntei: - E ela não acha ruim não?
- Não que a casa tá alugada a papai.
Nós entramos e fechamos a porta da frente com muito cuidado para que não entrasse curiosos. Com a gente estava o saudoso Fernando de Raimundo Leandro, que nós chamávamos carinhosamente de Castelo Branco. O garoto contava apenas com quatro anos mas não perdia um ensaio da Charanga.

Armamos a nossa tenda na sala onde hoje funciona os estúdios da rádio Cultura. Começamos a tocar quando de repente eu notei um claro no corredor. Olhei para a porta e vi entrando Dona Maria Edite vestida de preto, que era luto de sentimento por uma pessoa próxima. Vendo aquela visita entrando eu gritei:
- Lá vem Dona Maria Edite!
Dizendo isso eu corri pela parte traseira da casa, escalei o muro que dava acesso a minha casa e notei que Noberto Rolim vinha logo atrás com um surdo de mão quase do tamanho dele. João Piau e Tércio Costa entraram num chiqueiro e ficaram escondidos atrás de uma pilha de pneus velhos. Gonzaga Teixeira que não sabia nadar, pulou o muro depois pulou uma cerca de arame e saiu nadando na lagoa de São Raimundo. Depois foi bater na casa do Sr. Matias onde ficou escondido. Mário Leal pulou para a casa de Valdeliz e enrolou-se no pano de Jesus Cristo, que era um cenário que Jesus usava nas fotos de primeira comunhão. Só que depois Mário disse, que teria sido melhor enfrentar Maria Edite. Joemilton e Luís Filho, saíram pulando muros até chegar no Recreio Social.

Só quem ficou para encarar a proprietária, foi Marconi, Célio e Nilton.

Enquanto Marconi e Célio pediam desculpas, Nilton gritava:
- Mas a casa não tá alugada a papai?
- Tá mas eu aluguei foi para morar, não foi pra bater macumba não. E ainda mais que estou de luto.
Nesse momento eu fui chegando pela porta da frente, com jeito de curioso. A proprietária apontou o dedo na minha direção e falou:
- Taí outro irresponsável sem futuro!

Na minha reação eu falei:
- Êpa! Eu não tenho nada a vê com isso não. Eu tou chegando agora.
- Tá chegando agora porque atrasou-se. Mas você faz parte da mesma gangue.

Com aquela zoada o nosso amiguinho Fernando chorava que desciam lágrimas. Eu peguei o garoto nos braços, me aproximei de Maria Edite e falei:
- Tá vendo o que a senhora fez? A criança chora que corta a voz.
- E eu com isso? Eu não sou babá não. Tá com pena leve ele pra sua avó dar de mamar a ele!

030 - ASSÉDIO MILITAR - Por Mundim do Vale.

É muito proveitoso para o nosso aprendizado, ouvir um diágolo entre dois intelectuais.
Muito proveitoso também para a conservação dos nossos causos, é ouvir um bate papo de duas pessoas simples e ingênuas.
Certa vez eu presenciei uma coversa de Maria Caetano e Teresa Gobira, nos seguintes termos.
Teresa Gobira dizia:
- Tu acha muié? O sargento Martim agora deu prumode dar as coisa a eu. Premêro foi um mizamprí, adispois foi óleo de coco e agora pru derradêro, trouve um rozário bento do Juazeiro e deu a eu.
- Neguinha. Apois tenha coidado. Qui esse povo da puliça é danado pra imbuchar as moça e adispois vão simbora e num dêxa nem uma chupeta pru fí.
- basta! Apois ele tá querendo é qui eu vá cum ele pru Pernambuquim, prumode dançá o carnaval e beber aluá.
- Apois vai bicha bexta! Vai pensando qui é aluá. Tu vai ficar é falada, qui lá no pernambuquim só dá quenga e sordado. Vai ser lá mermo qui tu vai sair premiada. Salembre! Quem avisa amiga é.
Três meses depois, Maria Caetano estava na esquina da casa de Darío Pimpim, quando avistou Gobira subindo a ladeira do beco. Gobira que era escurinha, tava branca da cor de Rita Dondom.
Maria espantada perguntou:
- O qui é qui tu tem muié? Tu tá dá cor duma fulô de japão.
- Pois é Maria. Eu tou sintino umas coisas. É inguiano, é vumitano sem ter cumido nada e cum vontade de cumer coisa qui num tem im Rajalegue. E pra compretá, já fais treis meis qui aquele negoço num vem.
- Eu num dixe a você? Isso daí é coisa de bucho. Agora vá atrais daquele criolo prumode vê se ele te dá umeno um cuêro.
Passado sete meses daquela conversa das duas, era fácil encontrar Teresa Gobira com Martins Júnior nos braços, pedindo dinheiro a um e a outro, para comprar leite.
Enquanto Gobira andava com aquela criança da cor de uma azeitona, a notícia que se tinha em Várzea Alegre, era que o sargento Martins estaria destacado na cidade de Camocim Ceará.

029 - PERNAMBUCANO MALA - Por Mundim do Vale.

Meu primo Antônio Siebra e a sua esposa Alaíde, eram proprietários do Várzea Alegre Hotel na cidade de Crato - Ceará.

Um certo dia, Alaíde saiu para comprar mantimentos na feira e deixou Antônio no hotel, logo que Alaíde saiu, chegou um sujeito com uma pasta na mão, dizendo que era pernambucano e que estava com uma carrada de feijão para ser vendida no Crato. ( Essa mercadoria dava certo para ser vendida a Flor do Chico, para ser misturada com massa de milho ).

 O mala tomou um banho, tomou umas cervejas, almoçou e em seguida falou para o proprietário:

- Sr. Antônio. Eu vou fazer uns cordões para amarrar os sacos e vou precisar da sua ajuda. Pode ser?
- Claro. O que é que eu posso fazer?
- O Senhor senta nessa cadeira de balanço estira o dedo e eu amarro o fio e vou torcendo até o corredor. Antônio estirou o maior de todos e baixou o seu vizinho e o fura bolo e o pernambucano passou a estirar torcendo os fios. Quando chegou no final do corredor notou que Antônio já estava cochilando, aí não deu outra, amarrou  a ponta do cordão no poste da luz, botou o novelo na pasta e pegou o beco.

Quando Alaíde chegou da feira já estranhou aquele cordão estirado no longo do corredor, foi entrando em silêncio, quando viu a arrumação do marido na cadeira, gritou:

- Antônio! Tu tá me dando cotoco?
O marido acordou atordoado e falou:
- Cadê? Cadê o pernambucano?
- Que pernambucano Antônio?
- O pernambucano que estava hospedado aqui.
- Eu não vi ninguém lá fora não.
- Pois ele foi embora sem pagar.
- E tu tá esperando o que? Vá atrás dele. Xispe!

Antônio passou a tarde procurando o homem nos armazéns mas ninguém dava notícias. Voltou para o hotel mais desiludido do que prefeito derrotado. Alaíde vendo a tristeza do marido perguntou:

- Cadê achou o homem?
- Achei não. Ninguém deu notícia do infeliz.
- Pois eu achei foi pouco. Quem foi que mandou tu confiar em desconhecido?
- E como é que eu vou confiar em conhecido, se eles não se hospedam mais aqui, por causa das tuas brutalidades.
Depois da teima do casal, nome do hotel foi mudado para Várzea Olinda Hotel. 


028 - INRIBA DA BUCHA - Por Mundim do Vale

Meu avô dizia que quem mexe com doido, é doido e meio. Sábias palavras.
O exemplo disso aconteceu lá em Várzea Alegre.
Uma vez Darca mandou Chico Tida deixar uma manteiga da terra na casa de Vicente Ferreira, quando voltava, Chico encontrou Sá Maria com uma trouxa de pedras e foi inventar de mexer com ela. Mais pra que ele foi fazer aquilo? Sá Maria pegou uma das pedras, eu acho que a de Clarianã e rebolou. Chico abaixou-se e a pedra foi bater logo em Gessione, filho de Almir David. Aí o tempo fechou. Levaram Gessione para a farmácia de Nelinho e Almir ficou nervoso dizendo que fazia e acontecia.
Enquanto isto, Chico sabendo o pai rigoroso que tinha, aproveitou a situação para fugir e foi tratando logo de arranjar um lugar para ficar escondido. Não com medo de Almir, mas do seu pai. Quando passava em frente a igreja de São Raimundo, viu a porta aberta e entrou, quis subir para a torre mas não conseguiu. Quando já ia sair, olhou para o altar de são Raimundo e viu a cortina de baixo aberta, foi quando teve a idéia de entrar debaixo do altar e fechar a cortina.
João V8 ficou desfilando na rua: Major Joaquim Alves com um cinto na mão, dizendo que ia matar o filho de peia. Darca que já tinha procurado Chico por toda a cidade, começou a rezar e chorar desesperada:
- Ou meu São José! O bichim só tem dez anos, Cuma é qui vai viver nesse mundão de meu Deus?
O pintor Bentevi que morava vizinho Falou:
- Faça uma premessa cum São Raimundo, qui ele ai de aparecer.
- Mais se ele aparecer é pior, pruque João mata ele de peia.
João V8 vinha chegando e vendo desespero de Darca enrolou o cinto e falou:
- Pode ir caçar Francisco qui eu num vou mais açoitar ele não. Num foi ele qui atirou a peda.
Darca entrou na igreja e foi direto para o altar de São Raimundo. Chico abriu um pouco a cortina para pegar um vento, mas quando viu a mãe se aproximando, fechou imediatamente e escondeu-se lá dentro.
Darca ajoelhou-se sem ver o filho e começou:
- Meu São Raimundo. Faz muito tempo qui eu sou devota do Sinhor e nunca lhe pidí nada, mais agora chegou a hora. Eu queria pidí a meu santim uma ajuda pra Francisco aparecer. Ele é ainda uma criança e anda iscundido cum medo do sem futuro do pai, açoitar ele. Mais João já me premeteu qui num vai mais bater nele. E se João num cumprir o qui dixe, eu tomo o cinturão e inforco ele. Se Meu santim me atender quando for na sua procissão eu vou acumpanhar discalça e cum uma peda na cabeça. Traga meu bichim meu São Raimundo, qui eu garanto num deixar João açoitar ele.
Nesse momento Chico abril a cortina e saiu mais suado do que pano de abafar cuscuz e gritou:
- Mãeêêê! Tu garante qui num vai deixar pai açoitar eu?
Darca quase morre do coração. Abraçou o filho e voltou a falar com são Raimundo:
Obrigado meu São Raimundo. Eu sabia qui o Sinhor era milagreiro. Eu só num sabia era qui o Sinhor fazia o milagre ASSIM INRIBA DA BUCHA.


027 - A COISA MAIS SEM PRECISÃO - Por Mundim do Vale

Enquanto a nossa amiga Fátima Bezerra, não adota o logim, eu parto na frente contando os causos da Praça Santo Antônio, que são muitos.
Uma vez num domingo de carnaval, Ferrim de Bastiana tava cantando e tocando pandeiro no Ingèm Véi em Várzea Alegre, fazia mais sucesso do que Babau do Pandeiro. De repente chegou um elemento bravo e cismou de acabar o samba. Chico de Zé Pereira que acompanhava Ferrim no violão, botou logo a viola no saco e correu. Mas Ferrim continuou cantando e tocando pandeiro. O elemento mais forte do que o ministro da economia do governo Lula, deu um murro tão violento, que Ferrim caiu quebrando uma mesa e duas cadeiras. Com a queda do pandeirista o pandeiro desceu tocando só, até a bodega de Vicente Totô.
Ferrim constrangido com o acontecimento, desceu do Ingém Véi e foi contar o drama a Zé de Jorvino, debaixo da marquise da loja de Luís Proto.
Paulo de Santana tinha botado uma pedra de calçamento debaixo de um chapéu de palha, na calçada para fazer uma brincadeira com Araújo, quando viesse para o Cine Odeon. Mas antes de Araújo passou Arrozo que era mais grosso do que mineiro com dor de dentes. Arrozo cobrou a falta com um chute tão forte, que a pedra saiu tirando faísca de fogo na calçada. Quando Arrozo viu Paulo, entre Zé de Jorvino e Ferrim, mais desconfiado do que vendedor de armas, não precisou ninguém dizer quem tinha botado a pedra, ele já partiu com a mão fechada. Levou o murro na direção da cara de Paulo, que se abaixou no momento certo. Diz aí onde o murro foi acertar? Deixe que eu digo! Foi bem no meio da cara de Ferrim.
Com este segundo murro Ferrim desistiu do carnaval e se dirigiu para sua casa, que ficava atrás da capela de Santo Antônio. Quando passava de lado da calçada com a cara muito inchada, João Doca perguntou:
- O que foi isso Ferrim? Tu tava tirando mel de iataliana?
- Tu acha qui eu ia tirar mel num domingo de carnaval?
- E o que foi isso então?
- Nego véi. Isso foi dois murro qui dero im neu. Mais foi a coisa mais sem pricisão do mundo.

026 - A TRAGÉDIA DE JESUS - Mundim do Vale.

Sexta-feira da paixão do ano de 1951, chegou na casa de Joaquim da Varzinha um moço chamado Jesus. Disse que estava cansado, com muita fome e pediu arrancho.

A família o acolheu. E quando foi servida a grande ceia o visitante comeu de tudo que foi servido. Depois da ceia armaram uma rede para o moço na sala da casa e se recolheram no resto das dependências.

Por volta das duas horas da madrugada, Jesus sentiu uma dor de barriga tão condenada que não teve disposição para abrir a porta e fazer o serviço no mato. No aperreio ainda deu para pegar a cuia de tirar leite que estava no armador e fez dela um pinico. A vergonha foi tanta que o moço escapuliu sem nem se despedir.

Quando a noticia se espalhou da Varzinha para o Chico, o poeta Zé Pequeno que era cunhado de Joaquim improvisou essa décima:

Meu bom Senhor do Bonfim
Que foi cravado na cruz
Não é como esse Jesus
Lá da casa do Joaquim
Esse Jesus é ruim
O que sabe é fazer tuia
Foi num sábado de aleluia
Que fez essa presepada
Arribou de madrugada
Depois que cagou na cuia.

025 - Passando a Escritura - Mundim do vale

Meu conterrâneo Lula Bernardino, resolveu ir para São Bernardo do Campo, onde já estava sua irmã Alaíde. Ele possuía uma casa no centro da cidade de Várzea-Alegre, mas, por segurança, não queria vender, que era para no caso de se não gostasse, ter para onde voltar. Ofereceu a casa ao seu parente Abidom, para que ele ficasse morando sem pagar aluguel.
Lula Bernardino viajou e Abidom ocupou a casa como moradia e comercio, fazia tamancos e botava meia sola em calçados. Depois de seis anos, Lula Bernardino já acostumado em São Bernardo, resolveu vir a Várzea-Alegre para passear e vender a casa. Aproveitou a festa do padroeiro São Raimundo Nonato, e, veio com o filho caçula de 7 anos.
Chegando na cidade visitou amigos e parentes. Tomou umas cachaças, depois foi tirar a barba com Vicente Cesário. Enquanto tirava a barba mandou um portador chamar Abidom para vir falar com ele. Quando Abidom chegou ele deu a mão, cumprimentou e falou: Abidom, é o seguinte: como eu não tenho mais planos para voltar para Várzea-Alegre, resolvi vender a casa, mas, eu tenho outra casinha no Alto da Prefeitura, e se você quiser pode ficar lá nas mesmas condições. Abidom piscou os olhos, mordeu a língua e respondeu: não senhor! Eu já fiz meu ponto lá e não vou sair de jeito nenhum. E tem mais, quem gosta do Alto da Prefeitura é quenga e morcego. Mas Abidom, a casa é minha, eu já tenho um comprador, fiz essa viagem só para isso. Não posso voltar sem fazer o negocio. Apois venda a do Alto da Prefeitura, porque aquela já é minha. Abidom a casa não é sua, eu tenho os documentos e não vai ser você que vai impedir de ser feito a venda. Vender? Cuma? Você tá ficando doido? Pode ir "precurar seus dereitos"! Com essa proposta de Abidom, Lula Bernardino ficou mais irritado ainda, aí o tempo fechou-se. Lula Bernardino deu um murro tão condenado que o inquilino caiu tres vezes sem se equilibrar em pé. O garoto que brincava na calçada, vendo a fúria do pai, correu chorando e gritando: papai, papai, papai!
Vicente Cesário pegou o garoto nos braços e disse: Calma meu filho! Não é nada não. É apenas o seu pai passando a escritura da casa para Abidom.

024 - Peniscidio - Mundim do Vale.

Houve um tempo em que um crime passional abalou o Brasil em virtude do local da lesão e pela delicadeza que a imprensa usava para transmitir a noticia.

Nesse mesmo período Joaquinzão passeava em Várzea-Alegre quando escutou a noticia cabeluda pela Radio Cultura: Mulher corta o membro do marido.

Voltando a Fortaleza, Joaquinzão se encontrava na casa de Valzenir Correia quando o Jornal Nacional começou e o repórter deu destaque: Mulher corta o pênis do marido. Terminada a matéria Joaquinzão falou indignado: "Arre égua, mas essa muié tá uma mulesta dos cachorros. Lá na Rajalegre eu escutei o locutor da radia cutura dizendo que ela tinha cortado o membro do marido, agora no Jorná Nacioná tão dizendo que ela cortou tombem o pénis. “Se num botar logo essa individa na cadeia é arriscado ela querer cortar inté o carái dele".

023 - ÉTICA COMERCIAL - Mundim do Vale.

Na semana passada eu ví uma postagem no face Book, onde o autor defendia com muita garra, a manutenção do uso das embalagens de sacos plásticos. Eu não tenho nenhuma opinião formada sobre o assunto, falei aquí apenas para lembrar, que uma história pucha outra.

No ano de 1956, eu presenciei na bodega do Sr. José Augusto, o seguinte acontecimento: naquela época não exestia sacolas plásticas, o feijão, o arroz e o açúcar vinham em sacas de 60 kilos, as bodegas vendiam em porções de kilos, enroladas em papel de embrulho, ou numa vasilha que o fregês trazia.

Um certo dia estavam, Pedro Preto e Zé Peru coversando com o Sr. José Augusto, quando chegou um garoto filho de Zeca Alexrandinho conduzindo um caldeirão de alumínio para comprar açúcar. O menino dirigiu-se ao proprietário falando:

- Seu Zé Ogusto. Mãe mandou comprar um kilo de açúcar. O bom comerciante quando pegou o caldeirão, notou que tinha sujeira e devolveu imediatamente ao garoto dizendo:
- Meu filho. Volte e diga a sua mãe que lave a vasilha, porque do contrário eu não vendo não.
O menino entre surpreso e assustado, pegou o caldeirão e foi embora.
Depois que o garoto saiu, Pedro Preto falou:
- Zé Piru! Eu acho que Zé Ogusto tá caducando. Ora vigí, cum um cumesso rim cuma tá esse, ele deixa de vender só pruque a vazia tá suja. Apois se fosse eu, butava inté dento dum pinico.
Zé Augusto com a calma de que era possuidor respondeu:
- Pedro Preto. O bom comerciante é aquele que zela pela higiene e saúde dos seus fregueses.
Depois daquela lição de ética comercial, o garoto chegou com o caldeirão limpo, levou o açúcar e ainda ganhou do bodegueiro, umas bages de amendoim.

Hoje em dia os comerciantes só faltam laçar as pessoas na calçada e arrastar pra dentro dos seu comércios.
Naquele tempo Nossa pequena Várzea Alegre tinha quatro comerciantes que tratavam com zelo os seus clientes. Eram Eles:
José Augusto, José Bitu, João Teixeira e Raimundo Silvino.

022 - INTERNATO FEMININO - Mundim do Vale.

No dia 06 de julho passado,eu passava na Av. Godofredo Maciel na Parangaba, com Valdízio Correia e as primas Magnólia Fiúza e Didí Morais. Chegando em frente da antiga Boite da Leila, eu apontei na direção de lá e falei:
- Tá vendo ali. Valdízio? Se lembra?
- Ora se não. Me lembro demais, nós andamos muito alí.
Magnólia muita curiosa perguntou:
- E o que era que funcionava alí?
- Era um internato de moças, nós andavamos aí atrás de namorar com as conterrâneas, passamos muitas noite acordados naquele terraço. A diretora Leila era muito repressora, mas a gente dava um traço nela e ficava escondido atrás daquelas plantas.
- Valha! Pois eu nunca ouví falar que nos internatos de moças, andasse homens não.
Foi naquele momento que a Didí Morais resolveu falar também:
- Mais mulher. Tu tá acredidando na história desse dois? Pois eu tou achando que isso é conversa fiada.

Tinha razão a prima Didí. Aquela casa nunca foi internato feminino e nem tinha garotas de Várzea Alegre.

021 - COBRA, ENGOLINDO COBRA - Mundim do Vale.

Meu primo Chico Piau, uma vez foi até a feira do Mercado Velho, onde comprou um moinho a João de Freitas. Chegando em casa foi inaugurar o moinho, moendo uma massa para fazer um cuscuz. Na pressa de moer botou muita força e quebrou o braço do moinho.
Zangou-se e foi correndo para reclamar do vendedor.
Aborrecido foi logo falando:
- Ei João eu quero trocar o moinho, porque o braço dele quebrou-se.
João de Freitas também aborrecido falou:
- Apois mande Meste Micena incanar cum taboca!
- Não Senhor! Eu quero é outro, porque eu paguei à vista e não posso ficar no prejuízo.
- Chico tu deixa de ser besta, qui quando eu fui contar o apurado, eu reparei dereito e a nota qui tu tinha me dado era de duas cabeça.
- Pois então o seu moinho tinha que ter dois braços também.

020 - CANO TORTO. - Por Mundim do Vale.

João de Freitas, tinha um espaço na feira semanal de Várzea Alegre, onde vendia variedades que trazia de Juazeiro do Norte. Certa vez ele comprou trinta espingardas soca-soca e pagou para José Odmar Correia, transportar no seu mixto que fazia a linha de Jauzeiro a Várzea Alegre.
Naquele dia o mixto vinha com muitos passageiros e mercadorias. Os passageiros botaram caixas e sacos sobre as espingardas e ainda sentaram por cima.
Quando chegaram em Várzea Alegre os canos estavam todos tortos. No dia seguite Joaquim abordou Zé Odmar e recalmou:
- Zedimar. Eu tive o maior prejuízo, as espingardas tão com os canos tortos e eu não posso vender.
- Zé Odmar com aquela presença de espírito que possuia respondeu:
- Mas você pode vender. É só dizer que as espingardas é própria para atirar nas curvas.
- Mas ome! Os cano torto daquele jeito, o povo vai é suicidar.

019 - PERU CALADO - Por Mundim do Vale.

No ano de 1995, nós reunimos num final de semana alguns comterrãneos no sítio de João Morais,. No domingo nós formamos uma guerra  na sinuca. A guerra são quatro jogadores,. Dois contra dois. As duplas foram formadas assim; Eu e Zé Haroldo, contra Célio César e Mundim Luís. Foram três atividades sem futuro. Joagando apostando, bebendo e fumando. André Meneses Apiruava  sem dizer uma só palavra. A minha parceria com Zé Haroldo deu certa nós ganhávamos todas.
Uma hora lá Célio César  disse que estava errado e pediu para que fosse trocado as duplas, pediu para que Zé Haroldo jogasse com ele e mandou que mundim ficasse comigo. Foi pior, com Mundim  nós fechavamos mais ligeiro. Teve uma hora que eu estava  me preparando para jogar na bola da vez, para em seguida jogar na bola sete que estava na boca, quando Fátima foi chegando e falou:
- Ou Nanum. porque tu não bota a preta, que já tá na porta?
Célio César não gostou e Disse:
- Ei Fátima. Não fale no jogo não, que é apostado.Vá buscar um tira-gosto pra nós que é melhor.
Outra hora lá eu fui tomar uma aguardente,  a bicha bateu na trave e voltou. Foi naquele momento que André rompeu o silêncio, quando disse:
- Eita! Que embriagaram Nãnã e agora vão tomar o dinheiro dele.
Mas depois daquela hora foi que eu me danei pra jogar. O jogo terminou assim; Eu ganhei, Mundim e Zé Haroldo empataram e Célio César perdeu.
Daquele dia até hoje, Mundim e Paulo Piau facaram me tratando por Nãnã.

018 - CACHORRO É QUEM ENGANCHA - Por Mundim do Vale.

Alexandre  Cabeleira, era  coveiro  e  nas horas vagas fazia também a função de cambista e decifrador de sonhos.
Chegava um viciado em jogo do bicho e perguntava:
- Alexandre! Essa noite eu sonhei que era  Caubi Peixoto, que bicho é bom eu jogar?
- Só pode ser veado. Pode jogar que é tiro e queda.
Outro perguntava:
- Ontem eu sonhei rodando  no  carrossel de  Zé Júlio, é bom eu jogar em qual bicho Alexandre?
- Jogue no peru. Porque quem roda é peru.
E assim Alexandre era o cambista que mais vendia jogos.
Maria  Caetano, empregada  da  casa  de Antônio Primo, era uma boa cozinheira  e  também a  melhor catadeira  de piolho de Várzea Alegre. Quando estava desocupada também  era  chegada a uma aguardente e viciada em jogo do bicho. Chegava as vezes a jogar nos vinte e cinco de uma só vez.
Uma vez Maria Caetano chegou para Alexandre e falou:
- Alexandre  essa  noite  eu  sonhei  qui  tinha visto uma  muié casada cum  o marido dôta  muié dento da roça do véi  Diceu. É bom eu jogar im  qualo bicho?
- Jogue no touro. Porque se a  mulher era casada  e tava com outro, o marido  dela  tava  no  chifre, se  ele  tava  no  chifre, não tem pra onde correr é touro na cabeça.
No dia seguinte Maria  Caetano encontrou-se  com  Alexandre  e já foi falando aborrecida com ele:
- Mais Alexandre!  Você  me  enganou. Mandou  eu  jogar no touro, eu joguei  meu  dinheiro  todim  e  ainda  pidi  quatro  mil  réis  a  Seu  Toim Primo, prumode  jogar  no  condenado  do  touro, quando  acabar  deu  foi  o  cão  dos inferno do cachorro.
- Mais você não disse que tinha  sonhado com uma  mulher junta com um homem que não era o dela?
- Justamente.
- Então só pode ser touro.
- Mais deu foi cachorro.
- Esbarre aí! Os dois estavam agarrados?
- Ora se tava! Num passava nem musquito  insabuado. Era  assim qui nem um cadiado dento dôto.
- Mas  você  não  me  contou  essa  parte  do  sonho. Se  você tivesse contado, eu  tinha  mandado  você jogar no cachorro. Porque  cachorro é quem  Engancha.   

017 - SÓ SE FOR AGORA - Mundim do Vale

Certa vez o tabelião João Francisco, jogava baralho com alguns amigos, quando chegou Leví de Sá Maria, que tinha um grau de juízo no mesmo nível da sua irmã Francisca.
Leví pegou um tamborete e sentou atrás de João para apiruar o jogo. De repente começou a falar besteiras:
- Eita! Qui num tem quem tome essa partida de Seu João.
- Essa é nossa.
- Seu joão já tá armado.
João tentando se livrar do inconveniente falou:
- Leví vá olhar se eu tou lá na esquina.
Leví respondeu;
- SÓ SE FOR AGORA!
Levantou-se foi até a esquina da casa de Jocel Batista, passou um tempo por lá e quando voltou foi dizendo:
- Seu João, eu fui oiá, mais o Sinhô num tava lá não. Eu inté preguntei a Zé de Ginu, mais ele disse qui num tinha visto o Sinhô não.
Sentou-se novamente no tamborete e começou com o mesmo lenga-lenga.
João Francisco falando mais sério disse:
- Leví, vá olhar o que é que a sua mãe tá fazendo.
O peru puxou o tamborete e falou:
- SÓ SE FOR AGORA!
Quando voltou foi dizendo;
- Seu João. Sabe o que qui mãe tava fazendo?
- Sei não.
- Apois ela tava catando pioi im Francisca minha irmã.
Sentou novamente no tamborete e deu seqüência ao discurso de loucuras.
João já um tanto aborrecido disse:
- Leví. Vá dar o rabo, vá!
- SÓ SE FOR... – Deu uma pequena pausa e continuou – ADISPOIS QUI EU VIRAR FRESCO, Seu João!

016 - PROMETEU MAS NUNCA DEU! - Mundim do Vale

Dona Maria Mota, casada com o Sr. Alberto, mãe de José, Levi e Francisca

( Chichica ) Vivia em Várzea Alegre rua acima rua abaixo, com um saco de pedras dizendo ser de cristais. Certa vez ela estava expondo as suas pedras preciosas na calçada do Cine Odeon, quando o Sr. Luís Proto perguntou se ela queria falar no microfone. Sá Maria como era chamada aceitou e começou
Um discurso nesses termos:
- Atenção! Muita atenção! Povo de Várzea Alegre. Eu queria nesse momento reconhecer a acolhida que foi dada a mim e a minha família, pelo povo bom dessa cidade.
- Em primeiro lugar eu quero aqui agradecer a Seu Luís Proto, que me deu essa oportunidade de falar na radiadora do Cine Odeon.
- Quero agradecer também ao coronel Dirceu que empregou meu filho José no armazém.
- A Seu Antônio Costa eu muito agradeço, por ele ter dado um jegue de presente ao meu filho Leví, para carregar água da lavanderia.
- Dona Adelina eu agradeço por ela ter curado minha filha Francisca das lombrigas.
- Agradeço a Dona Dosa, porque ela ensinou o catecismo a José meu filho.
Até aqui Sá Maria ia muito bem, mas depois daqui ela desandou:
- Quero agradecer também a Dom João VI,que deu o título de Conde Do Gravié ao meu marido Alberto.
- Também agradeço muito a Dom Pedro I, que me deu o título de Condessa.
- A Dom Pedro II, meus sinceros agradecimentos pelo título de princesa da 
Charneca que deu para Francisca minha filha.
- Agradeço também a meu Padim Ciço, que sempre protegeu a minha família real.
- E para finalizar eu gostaria de agradecer também a Dona Mirtes, por todas as coisas que me prometeu, mas esqueceu de dá.

015 - SÓ NA RAJALEGUE MERMO - Mundim do Vale

Numa eleição para prefeito em Várzea Alegre onde Lourival Frutuoso disputava com Hamilton Correia, Zé de Totô a mando de Lourival foi a cidade de Farias Brito e trouxe cinco eleitores para tentar votar em Lourival.

Os fraudadores já estavam na fila com a senha na mão,quando um fiscal de Hamilton notou e foi denunciar ao presidente da sessão que imediatamente mandou chamar o juiz, que já chegou acompanhado do promotor e três soldados.
Em seguida foi feita a apreensão dos fraudadores com os títulos da comarca vizinha. Houve um princípio de tumulto dos fiscais de partido o Juiz então interditou a sessão.
Naquele momento um dos eleitores falou em alto e bom som na presença das autoridades:
- Só na rajalegue mermo uma besteira dessa. Apois hoje nós já votemo im Dom Quintino, Cariutaba e Farias Brito e num teve essa friscura, não.

014 - SÓ O COURO E O PAU - Mundim do Vale

Jorge Taveira Soube que um irmão estava doente e resolveu mandar seu filho Chagas, até o sítio onde o irmão morava, para que trouxesse notícias. Chamou o filho e recomendou:

- Chagas. Você vai até a casa do seu tío e me traga notícias.
Chagas demorou três dias por lá e quando chegou foi bombardeado por perguntas:
- Chagas, seu tío tá melhor?
-Tá não pai.
- Foi ele quem lhe recebeu?
- Foi não pai. Pruque ele tá cum as duas perna incanada cum taboca.
- E ele lhe conheceu?
- Cunheceu não, qui ele tá cego.
- Você pediu a bênção a ele?
- Pidí não, pruque ele tá cás duas mão na tipóia.
- Pois é. Eu acho que o jeito é eu mandar levar ele pra Emídio da Charneca.
- Num adianta não pai! Meu tí num açoita nem inté o fim do mês. Ele já tá intregando o couro as vara. Ói pai meu tí tá igual a tamanco.
- Igual a tamanco como?
- SÓ O COURO E O PAU!

013 - NÓS ERA CARNE E UNHA - Mundim do Vale

No tempo do desastre aéreo que vitimou Leila Diniz, a comoção foi geral. A morte prematura da atriz virou manchete de rádio, revista e televisão no mundo inteiro. Em Várzea Alegre as pessoas também sentiram, pelo trágico que foi o acidente.

Francisca Farias Mota ( Chica do Rato ) demonstrando um sentimento maior. Usava vestido, luvas e véu preto e andava rua acima rua abaixo com uma página da revista Manchete onde tinha a foto da falecida.
Um certo dia ela chegou chorando na bodega de Alberto Siebra e pediu para que ele lhe fizesse um grande favor. Alberto perguntou qual era o favor:
- Oberto! Já que tu é tão amigo do Pade Mota e inté parece com ele, eu quiria qui tu pidisse a ele, prumode ele celebrar uma missa pra finada Leila, no dia trinta de abril.
Alberto notando que Francisca estava mais tam-tam da cabeça do que sentida falou:
- Dá certo não Chica! O Padre Mota está com a agenda cheia, esse mês de abril tem muita missa. Porque você não encomenda um terço pra ela na capela de São Vicente?
- Magina tu indoidiceu? A finada merece é uma missa, ela num era muié só prum terço não. 
- E tu conhecia a Leila Chica?
- Basta! E tu não sabia não? Apois nós era carne e unha. Tu sabia que ela era prima de Raimundo Diniz?
- Não.
- Apois era. Mais ou ome sem sintimento, a prima morreu quando acabar ele tá é passiando nas praias im Fortaleza, Diferente deu qui tou todo tempo me alembrando de quando ela vinha pra casa de Seu Zizué Diniz, qui eu mais ela ia tumar bãe dibacho das bica de jacaré na calçada da igreja e quando era de noite nós ia jogar xibiu lá na calçada da casa de João Bilé.


012 - SE VIER CHUVA EU AVISO! - Mundim do Vale

No ano de 1967 alguns estudantes que estavam de férias em Várzea Alegre, resolveram fazer um programa no bar de Herculano Sabino, que ficava no sítio Sanharol.Pegaram uma pic-up jeep e foram levando com eles Zé de Lula goteira, um moreno engraçado que por algumas bicadas de cana animava o ambiente. Na volta quando passavam na curva de João do Sapo a camionete capotou e só quem se machucou foi exatamente Zé, que fraturou um braço. De todos eles Zé era o único que não tinha condições de se tratar. Os colegas se omitiram e por conta disso Zé sofreu muito. Basta dizer que ele ficou com medo até de carro de mão. 
Em 1997 exatamente trinta anos depois Zé estava na calçada da casa de Raimundo Bitu no dito sítio Sanharol, quando Gustavo Correia apareceu num opala indo para a cidade. Como Gustavo vinha só e viu que Zé ia para a cidade ofereceu carona. 
Zé rejeitou a carona dizendo que só ia mais tarde, mas Gustavo notou que ele estava com medo e começou a argumentar dizendo que o sol estava quente e que o medo dele de carro era besteira porque não é todo dia que vira carro.
Depois do argumento Zé resolveu aceitar a carona. Entrou no carro desprezando o banco dianteiro e ficou de cócoras no banco traseiro, exatamente atrás do banco do motorista com as duas mãos sobre o encosto do da cadeira de Gustavo..
Quando passavam pela curva de João do Sapo, Gustavo colocou o braço esquerdo sobre a porta deixando a mão fora do carro para descansar.
Nesse momento Zé de Lula gritou:
- Ei mói de chife! Pode guiar cás duas mão, qui se vier chuva eu aviso.

011 - PAU DE SEBO - Mundim do Vale

Numa sexta feira da paixão,o prefeito de Várzea Alegre promoveu algumas brincadeiras na avenida velha. Era: “ Quebra pote “ Corrida de saco “
e Pau de sebo “ que nem era de pau e nem de sebo. Era um cano de ferro com seis metros de altura passado graxa e uma bandeira do município afixada no topo. Quem conseguisse subir tinha que trazer a bandeira para trocar com o Senhor prefeito por cinqüenta cruzeiros.
Em um palco improvisado estava o Senhor prefeito, a primeira dama, algumas autoridades e o locutor com um sistema de som igual a som de grevista, que era para entrevistar os vencedores.
Depois de algumas brincadeira foi a vez do pau de sebo. O público e a torcida ficava na margem da praça e no centro o pau de sebo. O atleta era conduzido pela torcida até o pau de sebo para que houvesse mais incentivo.
O primeiro candidato foi Renato de Zé Sobrinho, subiu apenas dois metros e escorregou, levou uma vaia e saiu sujo de graxa, em seguida foi a vez de Caseca Pagé, aconteceu a mesma coisa.
Enquanto isso Chico Guedes, que era sobrinho da engomadeira Armerinda guedes, estava no canto da praça com uma roupa branca e bem engomada, achou que devia participar e falou para a tia:
Tia. Eu tombém vou vadiar no pau de sebo.
- Não Chico! Aquele pau tá sujo de graxa e eu tive muito trabalho para engomar a sua roupinha.
Naquela hora Chico Bento tinha tentado e não conseguiu nem tirar os pés do chão.
Chico Guedes pegou um descuido de Armerinda e correu pra lá. Tentou a primeira vez subiu um metro e escorregou, na segunda subiu um metro e meio e escorregou novamente, na terceira quando estava com dois metros, parou como quem ia desistir, mas de repente surpreendeu todo mundo. Numa velocidade incrível subiu até o topo e ficou passando as mãos sujas na bandeira.
A torcida embaixo gritava histérica para ele trazer a bandeira:
De lá ele perguntou:
- É prumode eu levar essa rudia?
- É, é é é é é......
Chico desceu com a bandeira e o locutor chamou ele lá no palco para receber o prêmio e fazer os agradecimentos.
Quando Chico chegou todo sujo o locutor falou:
- Muito bem Chico! Você foi o campeão. Mas explique aqui para o Senhor prefeito e a Senhora primeira dama, como foi que você conseguiu chegar lá encima. Porque pelo jeito é muito difícil, não é mesmo?
- É divera! Eu inté já quiria siadescer, mais Zé de Seu Totô deu uma dedada no meu carritel, aí o jeito qui teve foi eu siassubir. 


010 - SAPRUMA BAITOLA VÉI! - Mundim do Vale

Em Várzea Alegre já aconteceu de tudo. Certa vez Cícero Inácio, já com a idade bastante avançada, cismou de aprender a andar de bicicleta. Adquiriu uma de segunda mão de Chagas Chibata e levava para casa empurrando pela antiga rua do Juazeiro, quando
Belezário perguntou:
Pruque num vai amuntado Ciço?
- É pruque eu tou levando premêro prumode amansar ela mais Quinco meu. Adispois é qui eu vou passar isquipando cum ela por aqui.
Chegando em casa todo mundo foi contra a idéia,mas ninguém conseguiu fazer Cícero mudar de opinião. Ele levou o filho Quinco quase na marra, para a avenida Figueiredo Correia, onde a largura e uma rampa, eram boa para o aprendizado. Só que no segundo quarteirão, tinha uma sobra de pedras de pavimentação, amontoadas para ser removidas pela prefeitura para outra rua.
Quinco começou a ensinar o básico. Pegava na cela e dizia: - Aqui é o acento, nas luvas dizia: - Aqui é as bainha dos guidom, nos pedais falava: - Aqui é os estribo. Agora pai se monta e eu fico sigurando no acento até pai aprender,
Cícero muito afoito dizia: - É mais mió eu me apiar logo e você vai açoitando ela, qui é prumode eu já ir galopando.
Quinco insistia: - Não pai ! premêro pricisa trenar cum ela parada.
- Mais eu já amansei burro brabo, pruque num Amanço uma bicicreta cheia de arame o burracha?
Quinco perdeu a paciência e falou:
- Apois tá certo pai tá querendo então vá.
Cícero montou, Quinco segurou na cela, deu um empurrão de ladeira abaixo e gritou:
- Sapruma baitola véi teimoso! Olha pra frente babiquara! Coidado cum as peda véi caduco!
Cícero saiu costurando, assim como gráfico de exame cardíaco, depois pegou o rumo das pedras. Quico arrependido gritou:
- Coidado pai! Isbarre essa bicha! – E adonde é o isbarro? – è aí dibacho das luva do guidom.
Foi tarde demais. Cícero caiu por cima das pedras, quebrou a bicicleta, o rosário e os seis dentes que ainda lhe restavam.
Soarim que passava no local com um pau de galinhas disse:
- Ái vai! Ciço Inaço depois de véi deu pra ispaiá as peda da prefeitura?
Quinco saiu correndo para socorrer o pai ainda falando grosseiro:
- Eu num dixe qui isso num tinha fundamento. Ora, um véi qui num presta mais pra nada, agora querer bancar faceirice inriba duma bicicreta.
Cícero levantou-se capengando e falou com raiva:
- Num presta mais é um ova! Quem você pensa qui é? Tudo qui você sabe aprendeu cum eu. Eu insinei você a falar, pidir, caminhar,
Correr, mijar e beber e quando acabar você num quer insinar eu a andar de bicicreta.


009 - VASO RUIM NÃO QUEBRA - Mundim do Vale

O casal Zé do Mudo e Mundinha de Canuta, passaram um tempo ocupando a casa de número 08 da rua Padre José Alves, sendo por tanto nossos visinhos. Aquela casa pertencia as meninas da Formiga ( Eu digo meninas, mas a caçula delas era Laura, que vinha da formiga pra rua amparada por um bastão. ) Sendo elas minhas primas eu me acho com a liberdade de levar esse causo a público.
Pois bem :
Um dia Zé do Mudo subiu no telhado para tirar umas goteiras, caiu e fraturou as duas pernas. Depois que Seu Nelim encanou com tabocas ele ficou imobilizado alguns dias na cama.
A situação do casal ficou um tanto difícil porque Mundinha na época não trabalhava. E como agravante eles tinham muitos filhos ainda pequenos.
Quem segurou a situação foi os vizinhos fazendo caridades, porque na época não exestia nenhum plano de governo para assistir os pobres.
Um certo dia Josélia Vieira, minha prima e irmã adotiva, chegou na minha casa trazendo do Roçado de Dentro uma dúzia de ovos e me chamou para ir com ela fazer uma visita a Mundinha. Eu na minha curiosidade de criança fui com ela sem que tivesse fazendo nenhum favor.
Chegamos lá encontramos Zé do Mudo numa cama movimentando apenas os braços e os olhos.
Josélia vendo aquela situação perguntou a Mundinha:
- Mundinha como foi que aconteceu isso?- Muié. Esse macho inventou de tirar goteira, quando acabar distabacou -se lá de riba e quebrou as duas perna.
- Virgem Maria. Eu não sei como ele não morreu.
Muié! Tu já viu vaso rim se quebrar?
- Neguinha e como é que vocês tão fazendo?
- Basta, Tamo fazendo do jeito qui Deus quer, Os vizim tão fazendo caridade e dando as coisa. Seu Zé Bitu manda o arroz, Vicente grande manda um quilo de tripa, Raimundo Leandro manda um litro de leite, Dona Irací manda o feijão e é assim qui nós tamo fazendo.
- Mas neguinha e aquelas outras coisa como é que vocês estão fazendo?
- Pois é Muié. É cuma eu já te disse, Qui tou fazendo tudo só, Isso aí tombém eu tou fazendo só. Mas eu acho inté mió, pruque só assim esse bicho nogento deixa eu acabar.


008 - TU FUMA ZÉ? Mundim do Vale

Zé de Priscila era um moreno que vivia perambulando em Várzea Alegre. Mas trabalhar que era bom ele nunca quis, nunca deu um murro numa broa. Mentia sem ser dia primeiro de abril e gostava mesmo era do alheio. Tirando de tocar repique de vez em quando, nunca fez nada de proveito. Por lanterna e isqueiro era igual a menino por buzina.
Certo dia um fiscal de algodão botou um isqueiro “ sete lapadas “ no balcão da loja de Zé Teixeira e Zé surrupiou.
Foi feita a queixa amparada por testemunhas oculares e o delegado abriu o inquérito policial.
Remetido o inquérito para o promotor de justiça, Zé foi pronunciado
no crime de furto.
A repercussão na cidade não foi igual o caso da merenda escolar em Fortaleza, mas não deixou de atingir a curiosidade popular enquanto o processo tramitava.
O denunciado pobre na forma da lei, não podendo constituir um advogado habilitado, teve a sua defesa patrocinada pelo Sr. João Vieira que foi nomeado há-doc pelo juiz.
O promotor fez a acusação alegando que, quem furta um tostão pode furtar um milhão, no que ficava caracterizado o crime de furto.
João Vieira defendia a tese de que sendo um objeto de pequeno valor não se justificaria a condenação.
Depois de três audiências o juiz proferiu a sentença na qual Zé foi condenado a seis meses de detenção.
Com a sentença homologada e o despacho de cumpra-se, João Vieira sentindo a sua carreira jurídica abalada, se dirigiu ao condenado e perguntou;
- Ou Zé tu fuma?
- Não Senhor. Eu só gosto de mascar.
- E pra que diabo tu queria isqueiro Zé? 


007 - VÔTE QUE CARREIRA MEDONHA - Mundim do Vale

Na calçada da casa de Fático Fiúsa no sítio Buenos Aires, certa noite um grupo de amigos prosava contando aventuras, quando João Tibúrcio saiu com essa:
- Mais menino, um dia desses eu vinha descendo ali no corredor das Melosas, montado naquela burrinha cardã que eu apanhei de Dadí, quando menos eu esperei apareceu um veado na minha frente. Eu esporei a burrinha e taquei o chicote nesse veado. Tome espora, tome chicote, eu só sei que fui deixar o veado lá no Coité.
Pé Véi que escutava a conversa interrompeu com um riso Dizendo:
- Vote que carreira medonha! 
João Tibúrcio não gostou e perguntou:
- O que foi Pé Véi? Você acha que é mentira minha?
- Não Senhor. Eu só tou é aqui imaginando o tamanho da carreira desse bicho, porque veado é bicho medonho pra correr, quidirá tando debaixo de pêia.


006 - TAREFA DE CASA - Mundim do Vale

Joaquim Fiúsa, vereador de Várzea Alegre ensinava a tarefa de casa ao seu filho Expedito, quando o filho perguntou se ele podiaexplicar as definições 
de algumas palavras.
O pai concordou e assim se deu
O que é 
- Tabaco é a mesma coisa de fumo. Quem carrega tabaco leva fumo.
- E estelionato?
- Estelionato é quem engana. Assim como quem deita galinha com ovo de pata. - Brega o que é?
- Brega é uma coisa deselegante. Assim como botar cela e arreios em je
- E ridículo?
- Ridículo é fiota. Assim como o porco de Zuza Freire dormindo na cama.
- O que venha a ser óbito?
- Óbito é morte. Assim como uma rês entrega o couro as varas
- E violência?
- Violência é malvadeza. Assim como capar gato fechando o portão.
- Pois me diga o que é falência?
- Falência é quebradeira. Como aconteceu com Manoel da sapataria quando quebrou que apartou.
- E recheio?
- Recheio .é tudo aquilo que não tem nos pastéis de Maria Lopes. . 
- Pai! E contínuo o que é?
- Contínuo é uma coisa continuada. Assim como os discursos de Zé Félix.
- E gigolô?
- Gigolô. É o sujeito que casa com viúva rica e só leva o pau como batedor de arroz.
- E permuta pai sabe o que é?
- Permuta é uma troca. Assim como trocar uma vaca parida por uma máquina de costurar.
- E constrangimento?
- Constrangimento. É o que aconteceu com Valeriano quando o cabo Feitosa tomou o revólver de brinquedo que ela andava atirando na rua. 
- E angústia?
- Angústia é agonia A gente sente quando vai pedalando em pé numa bicicleta e a corrente quebra.
- Cortesia o que é
- Cortesia é doar. È como fez a macaca do circo quando invadiu 
O bar de Joaquim Orelha e distribuiu coca-cola pra meninada. 
- E revolução?
- Revolução é uma revolta popular. Como aconteceu quando Zé de Ginu mandou fechar o beco.
- O que é trégua?
- Trégua é descanso. Assim como quando uma mulher morde a língua e a vida alheia passa três dias descans
- E vacilo o que é? 
Vacilo é descuido. É o que faz uma barata quando entra num chiqueiro da galinhas.
- E arrependimento?
- Arrependimento é assim: Você tem um par de alpercatas e perde a do pé esquerdo. Procura, procura e nada. Fica com raiva joga a do pé direito no mato. Depois de uns dias você encontra a do pé esquerdo e fica arrependido.
- E tortura o que é?
- Tortura é judiação. Foi o que Severino Vieira fez com o cachorro Joli quando amarrou no poste da praça da igreja mesmo na hora que Chico Carrim foi soltar as bombas da salva.
- Pai! Pra terminar me diga o que é sincronismo.
- Sincronismo é assim: Você tá pensando em me pedir dinheiro e eu tou pensando em dizer que não tenho.


005 - Chica do Rato - Mundim do Vale

Francisca Farias Mota ( Chica do Rato ) No dia que estava mais ajuizada corria pelada em Várzea Alegre.

Certa vez eu estava lendo a revista Cuzeiro no oitão da igreja, quando Chica chegou e sentou-se ao meu lado. Em seguida colocou uma trouxa no chão e começou a tirar coisas de dentro. Só parou quando encontrou um almanaque Capivarol, onde tinha uma página com a foto de Santo Antônio. Eu simulei que estava envolvido com a leitura para observar o comportamento dela. Chica aproximou bem a foto do rosto e começou a falar numa mistura de oração com revolta;
- Meu Santim Santo Ontõe! Já faz muito tempo qui eu sou devota do sinhor. Mais eu tou disconfiada qui o sinhor num vai arranjar um casamento pra eu não. Ói! aquele Reginaldo da costeleta de sapato premeteu qui ia casar cum eu, mais aquelan assanhada fia de Seu Chico Francisco deu inriba dele e eu fiquei no caritó. Eu dei muita irmola pru Sinhor naquela capela da praça, mais quem se casou premêro foi Zabé Andrade e eu fiquei só. Inté Ana Alves já se casou será se ela é mió do qui eu? Oberto siebra tombém premeteu se casar cum eu mais peidou no rabicho, adispois qui cunheceu aquela moça das Brava. É todo mundo arranjando casamento e eu nada. Se o Sinhor num dá de conta do sirviço, diga logo qui eu vou precurar um santo mais trabaiador, pruque quem num pode cum o pote num pega na rudia.
- Se lembra daquela vez qui eu fui cum Dona Armicinda pra sua festa im Barbáia? Se lembra né? Apois naquele dia eu agarrei no seu pau e ainda tirei uma casquinha prumode ficar fazendo chá. Mais de nada adiantou, ninguém quer casar cum eu. Agora eu vou é rasgar seu retrato, pruque de Santo preguiçoso eu já tou é cheia. Eu vou é me amancebar cum Brandão e ficar sendo devota de São Binidito, pruque aquele é um criolim qui gosta de trabaiar.


004 - VIEIRA TÁ SÓ O INDEREÇO - Mundim do Vale

Olegário Vieira possuía uma propriedade no sítio Umari, onde morava com a mulher, os filhos, um genro e um irmão de nome Vieira, que além de rapaz velho, era ainda perturbado da cabeça e só falava em casar. Vizinho a propriedade tinha um terreno que pertencia a Pedro Paraibano, um preto que era mais valente do que abelha de boca torta e muito chegado a questões. Vez por outra tava brigando com Olegário. Depois de muitas teimas, Olegário resolveu ir embora para o Juazeiro do Norte deixando seu genro cuidando da propriedade e do seu irmão Vieira que no dia que estava mais ajuizado comia cabaça.
Logo que chegou no Juazeiro Olegário mandou uma carta para o genro nos seguintes termos:
- Juazeiro, 02 de fevereiro de 1970. 
Meu prezado genro. Abraços.
Aqui tamos todos com saúde, graças a meu Padim Ciço, já arrumei uma casa prumode morar aqui na rua Santa Luzia. Mande dizer cuma é qui tão as coisas aí e tenha muito coidado im Vieira pruque ele é qui nem um minino. Bote tudo quanto for galinha no chiqueiro qui é pra nós cumer quando eu for passar o São João aí. Não deixe  de aguar aquela rocinha de arroz qui tem perto daquela barrage  qui eu fiz tapando o riacho. E quando o arroz tiver maduro, venda minha vaca formosa qui é prumode pagar os trabaiador pra apanhar e bater. Tou mandando dento da carta um retrato de Padim Ciço qui é pra você butar na porta da frente. Abrace meus neto e diga a cumpade Zé Frimino qui tou mandando
lembrança pra ele. 
Num isqueça de me respostar.
Quando o genro recebeu a carta, mandou essa resposta.
Rajalegue 03 de março de 1.970.
Meu istimado sogro. 
Saudades.
Aqui acunteceu uma coisa muito rim Seu irmão Vieira inventou de ir na renovação da casa de Carneiro e se deu mal. Ele se inxiriu pru lado das moça e quando vinha vortando, um caba pegou ele e meteu a peia. Eu vi dizer qui foi Pedo Paraibano, mais eu num sei, eu só sei é qui Vieira tá só o indereço.
As galinha carregaro tudo, eu vi só as pena delas detrás da casa de Pedo Paraibano, num sei se foi ele.
O arroz eu num tou aguando pruque vei um condenado de noite e arrombou a barrage. Seu arroz morreu todo, Agora aquele de Pedo
Paraibado, qui fica abaxo do seu, tá todo seguro, é capaz de ter sido aquele condenado qui arrombou pru mode a água descer.
Sua vaca formosa tombém sumiu num sei cuma, só sei qui alguém carregou ela, mais eu vi o couro dela ispichado na parede do oitão da casa de Pedo paraibano, num sei se foi ele.
Quando Olegário recebeu a resposta foi correndo para uma agência dos correios e mandou um telegrama para o genro dizendo assim:
- CHEGO AÍ DIA 13 vg.
INTERRO PEDRO PARAIBANO DIA 14 pt.


003 - REI MÔSO - Mundim do Vale

No século passado dois crimes de mortes que aconteceram muito próximos um do outro, chamou à atenção da população de Várzea Alegre. O primeiro em Belo Horizonte quando assassinaram
o rei momo num sábado de carnaval, o segundo pouco tempo depois foi o rei Faisal na Arábia.
Na terra do arroz o assunto era só os crimes, até crianças comentavam.
Pouco tempo depois o assunto dos crimes ninguém falava
Mais. Porém aconteceu um assassinato em Várzea Alegre quando foi vítima um marchante conhecido pelo apelido de Reimôso. Apelido esse que ele tinha ganho pelo fato de vender carne de porcos.
Foi aquele movimento de cidade do interior. Criminoso foragido, polícia investigando , população comentando e a família da vítima revoltada.
No dia seguinte eu estava no sítio Vazante na casa da minha tia Isaura que morava na companhia do seu irmão, o poeta e dentista Dr. Antônio Sátiro.
Eu comentava o assunto do assassinato de Reimôso com os meus primos Paulo e Militão, quando o Dr. Antônio pôs a cabeça fora da rede e falou:
- Pelo que estou vendo. Vão acabar com os monarcas.
Primeiro mataram o rei momo, depois foi a vez do rei Faisal e agora mataram o Reimôso.


002 - MOSTROU O PAU E NÃO MATOU A COBRA - Mundim do Vale

Certa vez Maria de Lourdes Sobreira ia para o Sanharol, quando chegou na cabeça da ladeira de Pedro Beca, avistou uma rodia de cobra cascavel pronta para o ataque. Muito assustada, Maria desceu a ladeira mas ligeiro do que notícia de separação de casal. Quando chegou no pé da ladeira, encontrou Zé Terto com um landuá na mão. Muito cansada Maria pediu:
- Zé Terto meu fí, me faça um favor!
- Qualo?
- Vá lá no aceiro daquela cerca e mate uma cobra que tem lá.
- É pra já!
Terto pegou uma vara da cerca e foi até o local mas não teve coragem de encarar a cobra. A cascavel jogou o bote, ele soltou o pau e correu muito mais rápido do que Maria tinha corrido.
Maria não gostou da covardia do seu salvador e começou logo a fazer ofensas:
- Deixa de ser mole, nêgo frouxo. Tu queria era sentar na cobra? Parece que não é ome?
- Êpa! Num venha me isculambar não. Eu sou preto mais sou ome. Quer saber se eu num sou ome? Arrepare aqui.
Dizendo aquilo, ele arreou o calção e balançou a chibata. Foi nessa hora que ela viu a coisa preta. Depois daquela cena Maria saiu indignada e foi fazer queixa a Antônio Costa, que era o delegado civil de Várzea Alegre.
O delegado mandou que um soldado fosse buscar o suspeito para ser interrogado. Quando Zé Terto chegou o delegado fez a inquirição:
- Zé Terto eu tenho uma denúncia muito grave contra a sua pessoa. Foi verdade que você mostrou o “ dito cujo “ a Maria de Lourdes?
- Foi divera Seu Toim! Mais foi pruque ela me isculambou, me chamou de nego frouxo e dixe qui eu num era ome, aí eu amostrei, qui era prumode provar qui sou ome.
- Pois eu vou lhe dá cinco dias de xadrez!
Depois da prisão. Borboleta que era amigo do preso, saiu correndo e foi até a ANCAR para contar a Nicácia, que era irmã adotiva de Zé Terto. Nicácia saiu a procura de Antônio Costa e quando o encontrou perguntou:
- Seu Toim! O que foi que Zé Terto fez para o Senhor botar ele na cadeia?
- ELE MOSTROU O PAU E NÃO MATOU A COBRA.


001 - FOI ASSIM. PÔÔÔÕ! - Mundim do Vale

Pedrinho de Herminia, um excelente motorista é também um eterno gazador. É impressionante a facilidade que ele tem para contar piadas, imitando as vozes dos personagens.

Numa ocasião, em que o Pedrinho trabalhava como motorista do caminhão do deposito do Sinva l Bilica, o carro deu o prego de pneu no município visinho de Farias Brito.

Pedrinho logo procurou o pneu reserva, mas notou que não tinha, o jeito foi tentar se comunicar com o patrão em Varzea-Alegre. Ligou para o telefone do deposito, ele não estava, ligou para o telefone da residência, ele também não se encontrava, tentou o celular, deu fora de área.

O motorista já começava a se aborrecer quando tentou novamente o celular, que desta vez, atendeu e se deu o seguinte dialogo:
Alô?
Sinval...
Oi..
Aqui é Pedrinho.
Diga Pedrinho!
Eu estou no prego!
E o que foi que aconteceu?
Papocou um pneu.
E como foi isso?
Foi assim: Pôôôô!

9 comentários:

  1. Respostas
    1. É Roberto, realmente é muito bom ler esses causos e rir muito com eles.
      Volte sempre.

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  2. Éita Mundim,quando eu quero ri e chorar mas é chorar mesmo!!Venho aquie vejo todos os causos lá de nós.Muito bom. Mundim um abração.

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    1. Valeu Luiz Lisboa!

      Continue acessando o blog e terá sempre surpresas.

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  3. Pois é primo. Prepare o choro e o riso que ainda tem uns 150, todos lá de nós.

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  4. Parabéns pelo blog!Fiquei muito feliz enquanto lia esses casos principalmente quando percebi que alguns dos personagens eram meus parentes como,por exemplo,sr.Rosendo meu bisavô(in memoriam) lá da praça Santo Antônio e seu filho Chagas meu tio(in memoriam).

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  5. Fiquei muito feliz quando li alguns desses casos e percebi que alguns desses personagens eram parentes meus como,por exemplo,sr. Rosendo lá da praça Santo Antônio e seu filho Chagas.Muito bom mesmo,parabéns!

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  6. Eu me acabo com esses causos do Mundim

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  7. Fico feliz de participar de tudo que diz respeito à minha terra natal. Nasci no sítio Aba da Serra e lá fomos morar em Cedro, mas amo de paixão o solo que me viu nascer. Abraços.

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