VÁRZEA ALEGRE TERRA DOS CONTRASTES - Mundim do Vale
Localizada no centro sul do estado do Ceará ficou conhecida no Brasil inteiro depois do musical Contrastes de Várzea Alegre, interpretado por Luiz Gonzaga e composto por Zé Clementino. Cidade que foi tema de um documentário da Rede Globo de Televisão, por ser uma cidade alegre, fazendo assim jus ao seu nome. Cidade que por brincadeira de um grupo de agricultores do sítio Roçado de Dentro, deu partida no samba, para ser hoje, com duas escolas, MIS e ESURD, detentora do melhor carnaval do interior cearense, atraindo turista do estado e do país. Cidade de um povo que transformas as adversidades em causos humorísticos. Cidade que Jesus foi intimado, que o padre era casado, que o sobrado é no oitão, que Telha Quebrada é filho de Zé Goteira e um cego da Boa Vista morreu afogado na Lagoa Seca. Cidade que aparece nos sonhos dos seus filhos que estão ausentes, mas não esquecem jamais. Várzea Alegre dos grandes adjuntos da colheita do arroz, animados pelo grupo de Maneiro Pau e a Banda Cabaçal. Várzea Alegre que quando os filhos que estão distantes se encontram dizem:
- Ou Várzea Alegre boa só é longe! Várzea Alegre que Manoel Cachacinha criou o slogan “Várzea Alegre é natureza! E para finalizar, Várzea alegre é a cidade que só nos deixa tristes quando estamos distantes.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Várzea Alegre - Memória Varzealegrense

VÁRZEA ALEGRE - Por Mundim do Vale.

Para todo o povo lá de nós.

Não foi à toa que nossa cidade ganhou este nome. Ela faz jus com muita categoria. Quando os conterrâneos se encontram não faltam histórias engraçadas envolvendo a cidade e seus moradores. Esforçando a minha memória e ouvindo algumas pessoas eu passei para o papel alguns causos irreverentes do nosso lugar. Só os nomes como as pessoas são tratadas e os contos fantasiosos de alguns já justificam esse catálogo.
Alguns nomes:
- Antônio de Manoel de Pedro do Sapo
- Chico de Antônio Chico do Chico
- Nonato de Pedro de Antônio de Souza do Roçado de Dentro.
- Chico de Zé Joaquim da Unha de Gato
Algumas histórias:
- Foi Manoel Cachacinha que numa das suas embriaguês habitual, criou o slogan
“ Várzea Alegre é natureza. “
- Chagas de Rosendo dizia que tinha arrancado uma botija no oitão da casa de José Raimundo, mas quando tava contando o dinheiro o bando de lampião tomou e ainda ferrou a bunda dele. Mas ninguém nunca viu a marca.
- Valeriano contava que foi seqüestrado por extra-terrestres e passou uma semana à bordo de um disco voador, só foi liberado depois que confessou que na Varjota tinha nascido um menino com duas cabeças.
Gregório Gibão dizia que tinha morrido engasgado com jatobá, mas quando chegou no céu, Deus mandou ele voltar e ainda disse que só era para ele morrer depois que Raimundo de Jessé se casasse.
- Assis de Pacim dizia que uma vez estava soltando uma arraia, veio um vento forte e puxou a arraia com ele até as nuvens. De lá ele teve a melhor visão aérea da cidade.
- Chagas Taveira criou o personagem “ Xô Meruanha “ um gigante extremamente desproporcional, que ficou para a cidade como Iracema ficou para Fortaleza.
- João Sem Braço, quando o assunto é sobre a terra do arroz ele fala:
- Eita Vazalegre boa! Só é longe.
É por essas e por outras, que eu invento de escrever sobre essa nossa VÁRZEA sempre ALEGRE.

Raimundinho Piau

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Varzealegrando - Memória Varzealegrense

QUERENDO  VARZEALEGRAR - VARZEALEGRANDO - Por Mundim do Vale.

Quero ir na minha terra
Onde deixei meu umbigo,
Lá todo mundo é amigo
Ninguém vê falar em guerra.
O vento desce da Serra
Com sua brisa macia,
Quando chega o fim do dia
A lua vem pra bilhar.
EU QUERO VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA   ALEGRIA.

Varzealegrar no natal
Eu já fiz aqui meu plano,
Se não der certo esse ano
Eu vou para o carnaval.
Quero encontrar Nicolal
No meio da brincadeira.
Não vou vê Régis Teixeira
Porque Deus mandou buscar.
EU QUERO  VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA  ALEGRIA.

Não vou vê José Rolim,
Nem Chico de Amadeu,
Mas sei que vou vê Zaqueu
Fazendo versos pra mim.
Vou encontrar com Salim
Tirando fotografia,
Sem saber qual a quantia
E nem a quem entregar.
EU QUERO VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA   ALEGRIA.

Quero encontrar com Noberto
Na casa de Luizinha,
Vou vê se vejo Lucinha
Que sei que mora por perto.
Não vou encontrar Alberto
Porque tá em outra via,
Com Jesus e com Maria
E Deus pra lhe abençoar.
EU QUERO VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA   ALEGRIA.

Vou passar uma semana
Tirando mel no roçado,
Nem que volte ferroado
Por abelha italiana.
Eu tomo um litro de cana
Tirando o gosto com gia,
Que o primo Geraldo cria
Mesmo sem Cely gostar.
EU QUERO VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA   ALEGRIA.

Eu vou dar uma esticada
Na casa de Moacir,
Mas ele tem que sentir
O abalo da chegada.
Na mesa eu não deixo nada
Que sirva para outro dia,
Até as louças da pia
Vai dar trabalho a lavar.
EU QUERO VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA   ALEGRIA.
 
Vou até o Juremal
Para assistir futebol,
Depois vou ao Sanharol
Pela estrada carroçal.
Deixo a via principal
Só pra vê Dona Maria,
Pra saber se ela sabia
Quem fundou nosso lugar.
EU QUERO VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA   ALEGRIA.

Eu vou até o brejinho
E volto pra Santo Rosa
Bato dois dedos de prosa
Com o amigo Klecinho.
Depois eu saio sozinho
Passando a periferia
Andando pela coxia
Pra ninguém me atropelar.
EU QUERO VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA   ALEGRIA.

Vou na praça da matriz
Mas já sei o que se deu,
A Casa de pai Dirceu
Não ficou nem a raiz.
O povo lá é quem diz
Que foi uma covardia,
Um ato de tirania
De um investidor pra lucrar.
EU QUERO VARZEALEGRAR
NA   TERRA   DA   ALEGRIA.

Mundim do Vale.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Versos lá de nós - Memória Varzealegrense

ANTES  DA  COBRA  MORDER.

Se o seu carro tá sem freio
É melhor não viajar
Se não der pra consertar
Viaje por outro meio.
Se for apenas um passeio
O melhor é esquecer,
Que o risco de morrer
Espera só o momento.
TEM QUE REZAR PRA SÃO BENTO
ANTES  DA  COBRA  MORDER.

Se o amigo desconfia
Que anda sendo furtado,
Comunique ao delegado
Da sua delegacia.
Não espere por magia
Nem deixe o ladrão vencer,
Procure sempre fazer
Como Bidim, que era atento.
TEM QUE REZAR PRA SÃO BENTO
ANTES  DA  COBRA  MORDER.

Se você tem agonia
com o seu mijo apertado,
Deixe a vergonha de lado
Faça a proctologia.
Não espere o outro dia
Para o seu toque fazer,
Porque esse proceder
Vai evitar sofrimento.
TEM QUE REZAR PRA SÃO BENTO
ANTES  DA  COBRA  MORDER.

Mundim do Vale.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

VERSO CÁ DE NÓS - Por Mundim do Vale.

VÁRZEA  ALEGRE  CULTURAL.

Eita Várzea Alegre boa!
E não é, tão longe assim,
Fica longe de Berlim,
Mas bem perto da lagoa.
A sua cultura voa
Na área da poesia
E a cidade da alegria
Contraria os seus contrastes.
Com Sávio erguendo as astes
Lá na sua academia.

O poeta Clementino
Compôs xaxado e baião,
Passou para Gonzagão,
Sirano e o trio nordestino.
Foi Zé que compôs o hino
Da sua terra natal,
Surgindo assim um aval
Pra ficar eternizado.
Hoje seu nome é lembrado
Como Zé de Lourival.

Bidim veio pra somar
Na cultura social,
Criou o Fundo Rural
E partiu pra trabalhar.
Fez campanha pra botar
Dentista e advogado,
Deixando assim um legado
De um poeta classista,
Para o povo ruralista
Do seu Vale do machado.

Damião fez alegria
Quando o boneco botava,
Ele mesmo batizava
Era também quem vestia.
A vestimenta fazia
De chita e de algodão,
Cenário de papelão,
Com uma ripa de escora.
Damião já foi embora
Mas deixou recordação.

Souza Sobrinho deixou
Pra nós a grande saudade
Partiu pra eternidade
E a lembrança ficou.
Porém Deus acreditou
Que a missão tava cumprida
E assim a triste partida
Foi então determinada.
E os anjos deram a entrada
Do poeta em outra vida.

José Felipe afamado
Era um tanto irreverente,
Foi contar pra outra gente
As histórias do Machado.
Seu carro andava lotado
De anedota e piadas,
Quando pegava as estradas
Já começava a contar:
- O juiz do meu lugar
É a mulher mais falada.

Mundim do Vale.

sábado, 15 de novembro de 2014

CAUSOS LÁ DE NÓS - Por Mundim do Vale.

ZÉ DE LULA EM FORTALEZA

 Para; Pirocha, Cai da Rede e Demontiê Batista.

- Bitu mais Demontiê
Levaro eu pra Furtaleza
Quera mode eu conhecê
O qui tinha de beleza.
Vi muita coisa bunita
Mais tombém vi isquisita
Qui num vejo puraqui.
Mostraro computadô
Navi e alevadô
E o tá de iguatemí.

- Foi no tá de chope cente
Adonde eu vi exagêro
Lá se via muita gente
Parecia um fuimiguêro.
Era gente indo e vortando
Eu me alembrei de quando
Era tempo de inleição.
Queu via o povo avexado
Correndo pra todo lado
A precura da seção.

- Levaro eu pum lugá
Quera só água e areia
Dava até pra vadiá
De toca e galinha cheia.
“Eita” Qui açude bom
Maió qui o de Zé Dondom
E num tem parede não.
Mais cum toda aquela água
Eu num vi galinha dágua
Marreca nem méiguião.

- Lá na torre quixadá
Achei aquilo uma arte
Quando a gente chega lá
Roda qui nem galamarte.
Num sei quem tá impurrando
Mais a gente vai rodando
Sem nem sabê cuma é.
Me alembrei da terra minha
Qui dia de festa tinha
Zé Júlio cum carrossé.

- Ninguém lá me cunhecia
Nem me chamava de Zé
Passei mais de cinco dia
E num arrangei muié.
Se uma oiava pra mim
Já ia dizendo assim:
- Me perdoe num tem trocado.
- Eu oiava cum tristeza
Pruquê vi im furtaleza
Um povo maleducado.

- Uma hora eu intertido
Me afastei de Bitu
Notei qui tava pirdido
Lá no bairro Papicu.
Chegou lá uma muié
Me disse: - Calma José
- Qui o seu amigo eu acho.
- Me levou lá pum lugá
Começô a me agarrá
Adispois virou um macho.

Lá na rua Conde Deu
Eu vi Pirocha e Mundim,
Mais fizero pouco deu
E nem olharo pra mim.
Quando eles vié pra cá,
Querendo vazalegrá
Vão recebê o meu troco.
Eu vô pru bá de Chapada
Seles chegá na entrada
Eu vô dá é um cotoco.
Mundim do Vale.

- Pois é purisso qui digo
Vazalegue é meu lugá
Quem quiser sê meu amigo
Nunca mais leve eu pra lá
A Furtaleza é bacana
Mais tem lá gente sacana
Qui num tem no meu torrão.
Eu fiz lá a dispidida
E inquanto eu tivé vida
Num piso aculá mais não

Mundim do Vale

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

VERSOS LÁ DE NÓS - Por Mundim do Vale.

O VELHO CINE ODEON

Para; Edmilson e Joemilton Martins.

Eu me lembrei com saudade
Do velho Cine Odeon
Que animava a cidade
E passava filme bom
Edimilson anunciava
Joemilton projetava
O filme e um seriado
Socorro vendia ingresso
Militão dava o acesso
Pra quem era viciado

Quando a fita se quebrava
Era a maior confusão
A galera assobiava
E dizia palavrão
Waldefrance com a lanterna
Controlava a baderna
Pra seção continuar
Mas no meio do aperreio
Botava um filme no meio
Antes do outro acabar

Tinha filme de cigana
De Alcapone e de Ringo
Nós esperava a semana
O programa do domingo
Aquele lugar enchia
O cinema não cabia
Os meninos da cidade
Tinha lá muita atração
Charada e adivinhação
Sorte em seu bolso a vontade.
  
Nós ia para o programa
Mas de nada esquecia
No bolso ia nó de cana
E casca de melancia
Levava botão e selo
Também grampo de cabelo
Até pião de xadrez
Edmilson lá do palco
Pedia um tubo de talco
Subia dois de uma vez

Para o filme lá chegar
Não tinha uma linha reta
Waldefrance ia buscar
Em cima da bicicleta
Pedalando na ribeira
Com aquela tremedeira
No Cedro não demorava
Porque na volta queria
Dar um abraço em Bibia
Com quem ele namorava

Quando na rua apontava
A meninada corria
Todo mundo perguntava
Que filme ele trazia
Ele dizia cansado:
- Hoje veio o seriado
Dos perigos de Niôka
Veio um caubói verdadeiro
Que tem nele um pistoleiro
Que só atira na boca

No cinema tinha um som
Para o filme anunciar
Foi um tempo muito bom
Gosto sempre de lembrar
Não precisava de apelo
Para ouvir Cely Campelo
Cantando “Banho de lua “
Tinha música apaixonada
De rapaz pra namorada
Que escutava na rua

Tinha sempre freguês certo
Que não perdia uma parte
Zé Moco e o Sr. Alberto
Mais Araújo e Ricarte
Em frente tinha o café
De Dona Helena e José
Que não esqueço da cena
Quando um freguês lá chegava
Zé Perreira já gritava:
- Traz café a um Helena

Assisti “Dólar furado”
E “A ponte do rio kwai “
O caubói ferrando o gado
Que da lembrança não sai
Tinha fitas engraçadas
Como as velhas chanchadas
Que tinha tudo de bom
Só mesmo quem conheceu
Curtiu assim como eu
O VELHO CINE ODEON

Mundim do Vale.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

VERSOS LÁ DE NÓS - Por Mundim do Vale.



A CASINHA  DA  VAZANTE.

Dedicado a Antônio Morais e Magnólia Fiuza

Vazante, muda teu plano!
Tu tá ficando orgulhosa,
Não lembra dona Mimosa,
Nem Zé Bezerra e Caetano.
Porém eu não desengano
Minha lembrança é constante
Lembro o cachorro Gigante
Que latia no portão,
Quando chegava um irmão
NA CASINHA DA VAZANTE.

Não tinha ainda energia
A luz era lampião,
Era de lenha o fogão
Mas pra nós ele servia.
Lá da sala a gente via
Meia dúzia de avoante
Penduradas num barbante
Para fazer a mistura.
Para nós tinha fartura
NA CASINHA DA VAZANTE.

Um galo na cumeeira
Cantava de madrugada,
Bem no centro da calçada
Um banco de aroeira.
No corredor Cantareira
Com água fria bastante
E na sala uma estante
Onde a minha mãe guardava
Os livros que ensinava
NA CASINHA DA VAZANTE.

A casinha era de frente
Ao campo do Juremal,
De lado tinha um curral
Com uma vaca somente,
Mas tinha leite pra gente
E para algum visitante
Que demorasse um instante
Para poder descansar
E com a gente conversar
NA CASINHA DA VAZANTE.

Casinha que teve glória
Nas debulhas de feijão,
Nos festejos de São João
Deixou pra nós uma história.
Gravei na minha memória
O seu lugar cativante,
Mas que hoje está diante
Desse progresso imposto.
E assim perdi o gosto
DA CASINHA DA VAZANTE.

Termino aqui esta rima
Com vontade de chorar,
Quando pego a me lembrar
Da casa da minha estima.
Era muito bom o clima
A casa era aconchegante,
E aquele tempo importante
Não tem como repetir,
Para eu voltar a curtir
A CASINHA DA VAZANTE.

Mundim do Vale.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

VERSOS LÁ DE NÓS - Por Mundim do Vale.

Glosando no mote de Bráulio Lessa Uchoa.

Eu nunca fui no Sudeste
Só conheço o Ceará,
Nunca passeei por lá
Porque gosto do Nordeste.
Agradeço ao pai celeste
Por ter me dado o presente
De viver muito contente
Nas quebradas do Sertão.
EU ACEITO O TEU “ MERMÃO “
E TU RESPEITA MEU  OXENTE!

Eu sou da feliz cidade
A terra de São Raimundo
Tenho um orgulho profundo
Dessa naturalidade.
Minha maior vaidade
É visitar minha gente
E conversar com parente
Na janela do oitão.
EU ACEITO O TEU “ MERMÃO “
E TU RESPEITA MEU  OXENTE!

Um infeliz declarou
Que nordestino é tapado,
Mas só que o pobre coitado
Não mediu o que falou.
A reportagem mostrou
A matéria inconsequente
De um sujeito indecente
Que lhe falta educação.
EU  ACEITO O TEU “ MERMÃO “
E TU RESPEITA MEU OXENTE!

É um grande preconceito
Falar mal de nordestino,
Nos chamar de Severino
Não vai mudar nosso jeito.
Ninguém no mundo é perfeito
Pra criticar um vivente,
A educação carente
Não escolhe região.
EU  ACEITO O TEU “ MERMÃO “
E TU RESPEITA MEU OXENTE!

Aqui termina o recado
De um nordestino guerreiro:
- O Nordeste é brasileiro
Merece ser respeitado.
Não pode um alienado
Com um microfone na frente
Debochar gente decente
Por causa da eleição.
EU ACEITO  O TEU “ MERMÃO “
E TU RESPEITA MEU OXENTE!

Mundim do Vale.


domingo, 12 de outubro de 2014

Lembrando J. Ferreira - Memória Varzealegrense

Dos homens, era o meu irmão mais velho, o que vale dizer o meu velho amigo. Nascido aos 21 de novembro de 1912, em Várzea Alegre (Ceará), quase metade de sua existência foi vivida em Londres (29 anos), onde, de par com outras atividades, exerceu as funções de comentarista da British Broadcasting Corporation (B.B.C), desde os incertos e inquietos dias da segunda grande guerra mundial. 

Foi sua primeira professora a simpática Dona Adelaide – que ele sempre lembrou com carinho, - e, por muitos anos, residiu em Juazeiro do Norte. Aos onze anos incompletos, entrou para o Instituto São Luiz, em Fortaleza, cuja direção era exercida pelo nosso cunhado, grande amigo e mecenas, o Dr. Francisco de Menezes Pimentel Junior.

Foi no São Luiz, no “Grêmio Literário Padre Tabosa”, que se revelaram seus acentuados pendores para a imprensa e oratória. Orador certo de todas as sessões, sua colaboração não faltava a cada numero de “O Estímulo”, o jornalzinho do Grêmio. Fizemos, lado a lado, primário e seriado, terminando este ultimo, em 1930, no Liceu do Ceará. A revolução de 30 deu-lhe, acidentalmente, o primeiro episódio “meio-cômico” de orador político. À turba que passava pela, da janela do 1º andar do velho Café Poty (um pardieiro de estudantes pobre!), dirigiu uma saudação inflamada, simplesmente enrolado em um lençol! Magro e assim vestido, era a figura de Gandhi! A Fernandes Távora, um dos chefes da revolução, muito impressionou o ardor do “tribuno”, chegando a lhe oferecer posição de relevo na revolução triunfante. Ele, porém, confessava, depois: - “que foi divertido, foi!” e nada queria com quem “estava de cima”.

 Tinha, então, 18 anos em ebulição, inteligência e memória maravilhosas, devorando de um só fôlego quantos livros lhe caíssem às mãos. Vargas Vila era a sua bíblia e, de cambulhada, entravam quanto outros surgissem, de Virgilio a Schopenhauer. Publicou com um colega tão “atirado” quanto ele, dois números de um jornal feito a mãos (“O PASQUIM”), suspenso, logo no terceiro número, com a simpática interferência da policia... Sem um jornal próprio, passou a colaborar em dois matutinos de tendências antagônicas (“O NORDESTE” e “O CEARÁ”), mantendo com ele mesmo e nomes diferentes, terrível polemica. Era, dizia, o melhor meio de se fazer jornalista: - contestar as próprias palavras.

 Cearense de legitima estirpe e filho de português, não poderia deixar de emigrar e, em 1932, foi para o Rio, em busca de horizontes mais vastos. Já matara, no nascedouro, a pretensão ser farmacêutico, levando, todavia, uma transferência de seus de seus começados estudos de direitos, que... De tortos, nunca foram concluídos. Seus caminhos ideais eram os da hoje chamada comunicação e o jornal já lhe deixara visgo na alma, a que não podia fugir. Com a ajuda de um amigo – o Dr. Campos – entrou para “A BATALHA”. Foi, porém, no “O GLOBO”, onde o introduziu um modesto alfaiate (Pedro Souza), a quem sempre soube ser grato, que se sentiu em casa. Contratado para tirar as férias de um funcionário, por uma quinzena, lá ficou – quase, o restante dos seus dias – terminando por se aposentar, em janeiro de 1971.

 Em 1942, como redator de “O GLOBO”, em cujas colunas mantinha seus comentários sobre o desenrolar da guerra, recebeu da Embaixada Britânica um convite formulado pelo Press Club, de Londres, para uma visita aos países aliados vendo-lhes o esforço. Após uma entrevista relâmpago, na BBC, recebeu proposta para um contrato comentarista, o que sem pensar segunda vez, aceitou. Voltou ao Brasil para acertar seus negócios, prometendo regressar a Londres, na primeira oportunidade. E esta, muito cedo, lhe surgiu, embarcando em um navio inglês altamente cobiçado pelos torpedos nazistas. Foi uma viagem de 45 dias temerosos. Era, porém, já um motivo bem forte para uma boa reportagem.

 Assim, naqueles dias de incerteza, começou o Brasil inteiro a tomar conhecimento real da marcha dos acontecimentos que se desenrolavam. Ao lado de Bento Fabião, na hora exata, mesmo sob a ação de incursões ou bombardeios, as clássicas badaladas do BIG BEN anunciavam o “Comentário de Joaquim Ferreira”. Era um estilo bem seu de narrar os fatos, com sobriedade e austeridade incontestes, despertando em nossos corações a confiança na vitoria das armas aliadas, sem negar, no entanto, que ela custaria “sangue, suor e lágrima”, na honesta expressão de Churchill. Por esta época (Rio – 1943) enfeixou em livro (“Eles esperaram Hitler”) uma série de crônicas em que retratou a fibra heróica da raça inglesa, no aceso da “Batalha de Londres” e em outros episódios de invulgar bravura.

 Terminada a refrega, outros tipos de palestras surgiram. Foram “Livros e autores” – uma análise do que, na Inglaterra, se fazia na literatura e nas artes; “Comentários da Grã-Bretanha” – uma apreciação cuidadosa e carinhosamente feita da vida inglesa, desde os feitos políticos às manifestações do humor britânico; e, por ultimo, “VOCÊ SABIA?” – um programa de pergunta intrincadas e curiosas, em que, ao lado do portentoso William Tate, formando uma dupla de enciclopédias, vencia qualquer equipe adversa, ganhando-lhe nos pontos.
  Em Londres, sempre como correspondente de “O GLOBO”, teve a seu cargo a publicação de um boletim do Brazilian Trade Bureau (“Brazil-Land and People”), sem exagero, um dos mais eficientes meios de difusão do nosso país já feita, oficialmente. Por ultimo, dirigia a publicação de uma revista de turismo, órgão de uma entidade especializada inglesa e a que dedicava o seu melhor carinho.

 Perdeu várias grandes oportunidades para não perder a cidadania brasileira, de que muito se orgulhava. Por igual, nem o clima, nem outro fator qualquer lhe roubou o sotaque nordestino, de autêntico cearense. Ouvindo-o, qualquer um diria que ele nunca saíra de Várzea Alegre. De par com a lealdade que punha em seus atos, era esta a mais clara expressão de sua alta personalidade.

Em abril de 1948, uniu-se, em Londres, com a Srta. Leda Pitanga Callado, irmã do romancista e escritor Antonio C. Callado. Motivos de saúde obrigaram Leda e, desde que engravidou, a vir para o Brasil, tendo seu filho – Guilherme Antonio – nascido na maternidade de Maranguape, em 18 de janeiro de 1949. É, hoje, economista e reside no Rio, em companhia de sua dedicada genitora. Em tudo, o retrato fiel do pai!

 Esteve em férias, no Brasil, de dezembro de 1970 até abril de 1971. Ao voltar à Inglaterra, pouco tempo depois teve que ser internado – e gravemente – em um hospital londrino. Malgrado a dedicação e competência dos seus médicos, num crescendo incontido, sua enfermidade evoluía e se tornava mais grave. Manifestou o desejo de voltar ao amado Brasil, ao convívio de seus familiares, dos seus velhos amigos, fui buscá-lo em Londres, numa viagem onde grande era a responsabilidade e maiores os riscos a enfrentar. Trouxe-o, felizmente, sem o menor incidente. Cercado da família e do seu mais vivo carinho e alimentando sonhos para um futuro que jamais viria, ainda resistiu por 34 dias, vindo a falecer, dia 4 de outubro de 1971, em nossa casa, em Olinda. Era a data consagrada a S. Francisco de Assis, aquele que compôs a “oração do amor”, que vence sete séculos e, assim, termina: - “morrendo, é que nascemos para a vida eterna”.

José Ferreira
*Do seu Livro “Várzea Alegre, Minha Terra e Minha Gente” Pag. 67 a 70 Ed. Henriqueta Galeno 1985
Fonte: Israel Batista